O Brincar na Perspectiva Junguiana na Educação Infantil
Inclusão, diversidade psíquica e imaginação ativa como princípios pedagógicos
A Educação Infantil é um território privilegiado para o desenvolvimento psíquico, emocional e simbólico da criança. Quando orientada por uma perspectiva inclusiva e sustentável, ela reconhece que educar não se limita à transmissão de conteúdos, mas envolve o cuidado com o mundo interno, com os tempos subjetivos e com as múltiplas formas de ser e aprender.
A Psicologia Analítica, desenvolvida por Carl Gustav Jung, oferece importantes contribuições para compreender o brincar como linguagem legítima da psique infantil e como fundamento de práticas pedagógicas que respeitam a diversidade.
Tipos Psicológicos e Educação Infantil: reconhecer a diversidade psíquica
Jung compreendeu que os indivíduos se orientam no mundo a partir de diferentes tipos psicológicos, organizados pelas atitudes de introversão e extroversão e pelas funções psíquicas de sensação, intuição, pensamento e sentimento.
No contexto da Educação Infantil, essa compreensão amplia o olhar pedagógico ao reconhecer que:
Algumas crianças aprendem prioritariamente pela experiência sensorial e corporal;
Outras pela imaginação, pela criação simbólica e pelas narrativas;
Há aquelas que organizam o mundo pela lógica e outras que se orientam pelo vínculo afetivo.
Essa diversidade não representa déficit ou dificuldade, mas formas legítimas de funcionamento psíquico. Uma prática pedagógica inclusiva, à luz de Jung, não busca homogeneizar comportamentos, mas acolher as diferenças, ajustando tempos, propostas e linguagens às necessidades de cada criança.
Imagens Psíquicas: o brincar como linguagem simbólica
Para Jung, a psique se expressa por meio de imagens simbólicas, que emergem nos sonhos, desenhos, narrativas e brincadeiras. Na infância, o brincar constitui o principal meio de expressão dessas imagens.
Jogos simbólicos, histórias inventadas, desenhos recorrentes e personagens criados pelas crianças revelam conteúdos emocionais, processos de elaboração psíquica e movimentos de desenvolvimento do eu. Para muitas crianças, inclusive aquelas com deficiência ou com formas não convencionais de comunicação, o brincar simbólico é uma via essencial de expressão e inclusão.
Ao valorizar essas manifestações, o educador atua como um mediador sensível, que observa, escuta e oferece condições para que a criança elabore suas experiências internas de forma segura e criativa.
Imaginação Ativa e Brincar Livre: escuta e acompanhamento
A imaginação ativa, conceito central da Psicologia Analítica, refere-se ao diálogo consciente com as imagens internas. Na infância, esse processo ocorre de maneira espontânea por meio do brincar livre, quando a criança tem espaço para criar, transformar e simbolizar.
Práticas pedagógicas alinhadas a esse princípio incluem:
A continuidade de narrativas criadas pelas crianças;
O interesse genuíno pelos personagens e histórias que emergem no brincar;
A oferta de materiais abertos e não estruturados;
A valorização do processo, e não do produto final.
Nessa perspectiva, o adulto não dirige o brincar, mas acompanha, sustentando um espaço de segurança emocional que favorece a autorregulação, a criatividade e o fortalecimento da identidade.
Brincadeira Sustentável e Inclusão: integrar, não acelerar
Uma educação inspirada em Jung e comprometida com a inclusão compreende que o desenvolvimento infantil não pode ser apressado nem padronizado. A brincadeira sustentável respeita os ritmos internos, promove o uso consciente de materiais e reconhece o brincar como uma necessidade psíquica fundamental.
Sustentar o brincar é sustentar:
A diversidade de modos de ser;
A singularidade de cada trajetória infantil;
O direito à imaginação, ao silêncio, à expressão e ao tempo.
Assim, o brincar se afirma como um ato ecológico, cuidado simultâneo com o planeta e com a psique e como um princípio ético da Educação Infantil inclusiva.
Brincar é, portanto, um modo de educar, incluir e cuidar do humano em sua totalidade.

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