Uma proposta interdisciplinar para compreender os países emergentes, a cooperação internacional e as transformações da economia mundial.
O BRICS é um agrupamento de cooperação política, diplomática e econômica que reúne países com diferentes dimensões territoriais, populações, recursos naturais, estruturas produtivas e interesses estratégicos. Sua atuação está relacionada à busca por maior participação dos países do Sul Global nas decisões internacionais, à cooperação para o desenvolvimento e à discussão sobre a governança econômica e política mundial.
O agrupamento surgiu com o nome BRIC, formado pelas iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China. A África do Sul ingressou em 2011, dando origem à sigla BRICS. A partir de 2024 e 2025, o grupo passou por uma nova expansão. A relação oficial de membros divulgada pelo governo brasileiro inclui Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia. É importante distinguir os membros plenos dos países parceiros, que possuem outra modalidade de participação. https://brics.br/pt-br/sobre-o-brics/perguntas-frequentes-sobre-o-brics
O BRICS não deve ser confundido com a União Europeia. Enquanto a União Europeia possui tratados, instituições permanentes e normas comuns em diversas áreas, o BRICS funciona como um mecanismo de articulação e cooperação entre governos, sem tratado constitutivo, orçamento próprio ou secretariado permanente. Seus integrantes mantêm sistemas políticos, interesses nacionais e estratégias econômicas diferentes.
1. Por que o BRICS foi criado?
A formação do BRIC está relacionada às transformações da economia mundial e ao crescimento da importância econômica de países que, durante muito tempo, tiveram participação limitada nas principais estruturas de decisão internacional.
Brasil, Rússia, Índia e China apresentavam características distintas, mas possuíam relevância territorial, populacional, econômica ou estratégica. A cooperação entre eles passou a ser utilizada como instrumento para ampliar o diálogo sobre comércio, investimentos, desenvolvimento, instituições financeiras e relações internacionais.
A primeira cúpula de chefes de Estado e de governo do BRIC ocorreu em 2009, na Rússia. Com a entrada da África do Sul, em 2011, o agrupamento passou a utilizar a denominação BRICS.
A expansão posterior ampliou a diversidade do grupo e sua presença em diferentes regiões do mundo. Ao mesmo tempo, aumentou o desafio de conciliar prioridades nacionais, interesses econômicos, posições diplomáticas e diferentes condições de desenvolvimento.
2. O que significa Sul Global?
A expressão Sul Global é utilizada para discutir experiências históricas, desigualdades econômicas e posições políticas de países que buscam ampliar sua participação na governança internacional.
O conceito não corresponde literalmente ao hemisfério sul. A China, por exemplo, está majoritariamente no hemisfério norte e integra o BRICS. A expressão também não significa que todos os países classificados como Sul Global sejam economicamente semelhantes ou compartilhem as mesmas posições políticas.
A categoria permite analisar questões como a distribuição do poder econômico, o acesso ao financiamento, a participação em instituições internacionais, a transferência de tecnologia e as diferenças nas condições de desenvolvimento.
No caso do BRICS, a cooperação entre países com experiências distintas pode ampliar oportunidades de negociação. Entretanto, interesses divergentes e assimetrias de poder continuam existindo. Por isso, a atuação do grupo deve ser analisada por meio de decisões, acordos, resultados e conflitos concretos, e não apenas por declarações de intenção.
3. Geopolítica: território, poder e relações internacionais
A Geopolítica investiga como território, recursos naturais, posição geográfica, população, infraestrutura e capacidade política influenciam as relações entre países.
Os integrantes do BRICS apresentam características geográficas e estratégicas bastante diferentes. O Brasil possui grande diversidade ambiental, produção agropecuária e recursos minerais. A Rússia possui vasto território e importantes recursos energéticos. A Índia apresenta população numerosa, diversidade cultural e crescente relevância tecnológica e industrial. A China possui grande capacidade industrial e participação central em cadeias produtivas internacionais. A África do Sul ocupa posição estratégica no continente africano e apresenta importância mineral e logística.
Os demais integrantes acrescentam outras características territoriais, econômicas e estratégicas, incluindo a produção de energia, a localização de rotas comerciais, o acesso a mercados e a participação em regiões importantes para o comércio internacional.
Essas diferenças ajudam a explicar por que a cooperação pode ser vantajosa, mas também por que os países nem sempre concordam. Cada governo procura defender interesses nacionais, administrar riscos e estabelecer relações com diferentes parceiros.
4. Geoeconomia: comércio, produção e financiamento
A Geoeconomia analisa como instrumentos econômicos são utilizados nas relações internacionais. Comércio, investimentos, crédito, infraestrutura, tecnologia, energia e acesso a mercados podem influenciar a capacidade de negociação dos países.
O BRICS permite discutir possibilidades de cooperação comercial, investimentos em infraestrutura, financiamento de projetos e desenvolvimento científico e tecnológico. O Novo Banco de Desenvolvimento, criado pelos países fundadores do grupo, é uma das instituições relacionadas a esse processo e financia projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável.
Entretanto, a existência de oportunidades não garante resultados automáticos. Os benefícios dependem dos termos dos acordos, dos custos de financiamento, da qualidade dos projetos, das condições de execução e da distribuição dos resultados.
Para o Brasil, é importante avaliar se a cooperação contribui para diversificar a economia, agregar valor à produção, ampliar a capacidade tecnológica e gerar empregos qualificados. Exportar matérias-primas pode produzir receitas, mas o desenvolvimento também depende de infraestrutura, pesquisa, indústria, formação profissional e capacidade de produzir bens e serviços de maior valor agregado.
5. O BRICS e a ordem econômica internacional
O agrupamento defende reformas em instituições internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, para ampliar a representatividade de economias emergentes e países em desenvolvimento.
Essa discussão envolve a distribuição de poder de decisão, as regras de financiamento, as condições de acesso ao crédito e a capacidade de influenciar políticas econômicas internacionais.
O BRICS também promove debates sobre comércio, desenvolvimento sustentável, saúde, educação, ciência, tecnologia e cooperação financeira. O alcance dessas iniciativas varia conforme os acordos estabelecidos e a capacidade dos governos de implementar as decisões.
É importante evitar duas interpretações simplistas: considerar o BRICS uma aliança homogênea que sempre atua em conjunto ou presumir que o grupo representa, automaticamente, todos os interesses dos países em desenvolvimento. A análise crítica deve considerar os resultados, os limites e as divergências existentes entre seus integrantes.
6. O Brasil no BRICS: oportunidades e desafios
A participação brasileira pode ampliar canais diplomáticos, oportunidades de comércio, cooperação científica e acesso a iniciativas de financiamento. Também permite discutir temas como segurança alimentar, transição energética, mudanças climáticas, desenvolvimento industrial e redução das desigualdades.
Entretanto, as decisões precisam ser avaliadas conforme seus efeitos concretos sobre a economia e a sociedade brasileiras. É necessário considerar a competitividade das empresas nacionais, os custos logísticos, as condições de financiamento, a proteção ambiental, os direitos dos trabalhadores e a capacidade de produzir tecnologia.
A análise geoeconômica deve considerar custo de capital, tributação, infraestrutura, produtividade, logística, segurança jurídica, qualificação profissional e acesso ao crédito. Esses fatores influenciam a capacidade de transformar relações internacionais em desenvolvimento interno.
O Brasil também precisa administrar suas relações com países que não integram o BRICS, pois comércio, investimentos e cooperação internacional não se limitam a um único agrupamento.
7. Proposta interdisciplinar: mapa do poder mundial
Público: Ensino Fundamental — com adaptações para os Anos Finais — e Ensino Médio.
Objetivo: compreender a distribuição territorial dos integrantes do BRICS e relacionar localização geográfica, recursos naturais, população, produção e relações internacionais.
Os estudantes constroem um mapa-múndi identificando os países membros e os países parceiros em categorias visuais diferentes. Em seguida, pesquisam características territoriais, atividades econômicas, recursos naturais, infraestrutura e relações comerciais de cada país.
Com base nas informações reunidas, elaboram uma legenda e identificam oportunidades e desafios de cooperação. Cada grupo apresenta uma pergunta de investigação, como: quais fatores tornam uma região estratégica para o comércio? Como a infraestrutura influencia o custo dos produtos? De que maneira a disponibilidade de recursos naturais interfere nas relações internacionais?
Seis eixos de aprendizagem:
- Arte e criação: construção de mapas, painéis, maquetes e recursos visuais.
- Cultura e conhecimento: pesquisa sobre história, línguas, sociedades e diversidade cultural.
- Natureza e território: análise de recursos naturais, paisagens, localização e infraestrutura.
- Convivência e participação: debate, cooperação, argumentação e tomada de decisões.
- Inclusão e acessibilidade: mapas legíveis, recursos táteis quando apropriados e diferentes formas de apresentação.
- Documentação e avaliação: registro das fontes, comparação de dados e revisão das conclusões.
A avaliação deve considerar a precisão das informações, a leitura cartográfica, a qualidade das fontes e a capacidade de relacionar aspectos geográficos, econômicos e políticos.
8. Proposta para uma feira escolar
A turma pode organizar o espaço “BRICS: países, territórios e conexões globais”. O mapa-múndi constitui o elemento central, acompanhado por fichas informativas, gráficos, amostras de materiais, jogos de perguntas e respostas e exemplos de cadeias produtivas.
Uma lembrança educativa pode ser um pequeno jogo de cartas produzido pelos alunos. Cada carta apresenta um país, uma característica territorial ou econômica e uma pergunta que exige relacionar informações. O jogo deve diferenciar fatos verificados de interpretações e indicar as fontes consultadas.
A exposição também pode incluir uma comparação entre o BRICS e a União Europeia, destacando diferenças de estrutura institucional, objetivos e formas de cooperação.
Conclusão
O BRICS oferece uma oportunidade para estudar as transformações da ordem internacional e compreender como território, economia, recursos naturais, tecnologia e diplomacia influenciam as relações entre países.
Seu estudo exige reconhecer tanto as possibilidades de cooperação quanto as diferenças e os limites existentes entre os integrantes. A participação no agrupamento não elimina desigualdades, não garante desenvolvimento automático e não substitui a necessidade de políticas públicas, planejamento econômico e avaliação de resultados.
Na Brincadeira Sustentável, a pesquisa pode ser transformada em mapas, jogos, modelos e experiências que aproximam conceitos complexos da aprendizagem concreta. O estudante aprende não apenas a localizar países, mas a formular perguntas, interpretar informações, comparar interesses e compreender as conexões entre o território onde vive e o mundo.
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