Resumo
Este artigo apresenta uma reflexão sobre a Educação Infantil e a Inclusão a partir do pensamento de Martin Heidegger, articulando os conceitos de ser-no-mundo, cuidado (Sorge) e temporalidade com o projeto pedagógico Brincadeira Sustentável. Defende-se que a infância é um modo legítimo de existir e significar o mundo, e que educar crianças pequenas exige uma pedagogia da presença, da escuta e do respeito às singularidades. No contexto do Brincadeira Sustentável, o brincar é compreendido como experiência ontológica, relacional e ética, sustentando práticas inclusivas que cuidam da vida, do tempo da infância e das múltiplas formas de ser e aprender.
1- Introdução: o Brincadeira Sustentável como projeto ético-pedagógico
O projeto Brincadeira Sustentável nasce do compromisso com uma Educação Infantil que reconhece a criança como sujeito de direitos, de linguagem, de corpo e de mundo. Trata-se de uma proposta que se afasta de práticas aceleradas, normativas e produtivistas, para afirmar uma pedagogia do cuidado, do brincar e da sustentabilidade da vida.
Nesse horizonte, o pensamento de Martin Heidegger oferece uma base filosófica potente, ao compreender o ser humano como ser-no-mundo, constituído na relação com os outros, com o tempo e com o ambiente. Pensar a infância a partir dessa perspectiva significa deslocar o foco do desenvolvimento padronizado para a experiência vivida da criança, em sua singularidade.
2- A criança como ser-no-mundo: fundamentos ontológicos do brincar
Para Heidegger, existir é sempre existir em relação. O ser-no-mundo não é uma condição abstrata, mas uma experiência concreta, cotidiana, corporal e sensível. A criança pequena vive essa condição de forma intensa: ela explora, experimenta, brinca e se relaciona com o mundo de maneira integral.
No Brincadeira Sustentável, o brincar é compreendido como:
forma primeira de conhecimento;
linguagem existencial da infância;
espaço de construção de sentido e pertencimento.
Assim, brincar não é um recurso didático acessório, mas a própria forma como a criança habita o mundo. Essa compreensão é fundamental para práticas inclusivas, pois reconhece que cada criança brinca, sente e aprende à sua maneira.
3- O cuidado (Sorge) e a pedagogia da presença
O conceito de cuidado (Sorge) ocupa lugar central na filosofia heideggeriana. O cuidado não se limita à proteção ou assistência, mas constitui a estrutura fundamental da existência humana: cuidar é estar implicado com o outro e com o mundo.
No projeto Brincadeira Sustentável, o cuidado se traduz em práticas pedagógicas que:
respeitam o ritmo das crianças;
valorizam suas formas próprias de comunicação;
acolhem diferenças sem hierarquizá-las;
promovem vínculos afetivos e seguros.
Na Educação Infantil inclusiva, o cuidado rompe com a lógica da correção e da normalização. Crianças com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou outras singularidades não são vistas como “faltantes”, mas como modos legítimos de ser-no-mundo.
4- Inclusão como abertura à diferença
À luz de Heidegger, estar com o outro implica reconhecer sua alteridade, sem reduzi-lo a diagnósticos ou expectativas normativas. A inclusão, nesse sentido, não se resume a adaptações técnicas, mas constitui uma postura ética e existencial.
No Brincadeira Sustentável, a inclusão se manifesta:
na organização de ambientes acessíveis e sensoriais;
na valorização do brincar livre e compartilhado;
na escuta atenta das crianças e de suas famílias;
na construção de experiências coletivas que respeitam singularidades.
Educar de forma inclusiva é, portanto, sustentar espaços onde todas as crianças possam existir com dignidade, pertencimento e sentido.
5- O tempo da infância e a sustentabilidade da vida
Heidegger critica a temporalidade moderna marcada pela aceleração, pelo controle e pela produtividade. A infância, porém, habita outro tempo: o tempo da repetição, da experimentação, do agora.
O projeto Brincadeira Sustentável assume a defesa do tempo da infância como um compromisso ético. Brincar devagar, repetir gestos, explorar a natureza, ouvir histórias e silenciar são práticas que sustentam uma relação mais saudável com o mundo e com os outros.
Nesse sentido, sustentabilidade não se restringe ao meio ambiente, mas envolve:
cuidado com o tempo;
cuidado com as relações;
cuidado com os corpos;
cuidado com a experiência de existir.
6- Considerações finais
Ao articular o pensamento de Heidegger com o projeto pedagógico Brincadeira Sustentável, este artigo defende uma Educação Infantil que cuida do ser antes de ensinar conteúdos. Uma educação que não apressa, não enquadra e não silencia, mas acompanha, escuta e sustenta a infância.
Educar, nesse horizonte, é um ato de presença. É criar condições para que cada criança possa ser-no-mundo de forma plena, singular e compartilhada. Essa é a base de uma Educação Infantil verdadeiramente inclusiva e humanizadora.
Referências bibliográficas
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Fausto Castilho. Campinas: Editora da Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012.
HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão et al. Petrópolis: Vozes, 2001.
HEIDEGGER, Martin. Que é isto — a filosofia? Tradução de Ernildo Stein. São Paulo: Duas Cidades, 1971.
DALBOSCO, Cláudio A. Educação e cuidado: aproximações entre Heidegger e a pedagogia contemporânea. Educação & Sociedade, v. 31, n. 113, 2010.
SKLIAR, Carlos. A educação e a pergunta pelos outros. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.



