INSPIRADO EM HEIDEGGER, BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL (POR RENATA BRAVO), NÃO SE APRESENTA COMO UM CONTEÚDO A SER DECORADO, MAS COMO UMA EXPERIÊNCIA A SER DIGERIDA, VIVIDA E INCORPORADA.

RECICLAR É IMPORTANTE, MAS QUESTIONAR É ESSENCIAL

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Estas obras não representam o fundo do mar.

Elas o fazem acontecer.

Entre recortes, pinceladas, colagens e cores que se sobrepõem, o mundo surge como experiência viva, construída no gesto, no tempo e na relação. Cada peixe, tartaruga ou caranguejo nasce do encontro entre a mão que cria e o material que responde: papel, tinta, textura e imaginação.

Aqui, a criação não obedece a modelos prévios. O traço não busca perfeição, mas presença. O olhar não copia a realidade: dialoga com ela. O que se vê é o resultado de um processo em que corpo, sensibilidade e atenção caminham juntos.

O fazer artístico, neste contexto, é mais do que expressão: é modo de habitar. Ao colar, pintar e compor, a criança se reconhece como parte do mundo e, ao mesmo tempo, como alguém capaz de transformá-lo. Cada escolha revela uma forma singular de estar, de perceber e de significar.

As irregularidades, as assimetrias e os excessos não são desvios são marcas de autenticidade. Elas testemunham um tempo próprio, um ritmo que não se apressa, um espaço em que errar não ameaça, mas amplia.

Esta exposição convida o visitante a suspender o olhar apressado e a se aproximar com disponibilidade. Não para explicar as obras, mas para encontrar-se com elas. Para lembrar que aprender, criar e existir são movimentos inseparáveis quando o mundo é vivido como experiência, e não como objeto.

Aqui, o brincar não é etapa preparatória.

É acontecimento.

É relação.

É mundo em jogo.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A origem do recorte e da colagem como atividades infantis está ligada a três grandes eixos históricos:

Arte, educação e desenvolvimento infantil. Embora hoje sejam práticas comuns na Educação Infantil, elas nasceram de movimentos culturais e pedagógicos profundos.

1- Raízes antigas: o gesto de recortar e recompor

O ato de recortar e reorganizar imagens é muito mais antigo do que a escola:

China (século II) - Com a invenção do papel, surgem as primeiras silhuetas recortadas (jianzhi), usadas em rituais, festas e narrativas visuais.

Idade Média europeia - Recortes em papel e pergaminho eram usados para ornamentação de manuscritos, ex-votos e imagens devocionais.

Séculos XVII-XVIII - Silhuetas recortadas e colagens decorativas aparecem em álbuns familiares e livros artesanais.

Ainda não eram práticas infantis, mas já traziam a ideia de compor sentido a partir de fragmentos.

2- A colagem na arte moderna: a virada conceitual

O reconhecimento da colagem como linguagem criativa ocorre no início do século XX:

Cubismo (1907-1914) - Picasso e Braque introduzem a colagem artística (papier collé), rompendo com a arte puramente representativa.

Dadaísmo e Surrealismo - A colagem passa a expressar o imaginário, o acaso, o inconsciente e a crítica social.

- Essa revolução artística influenciou diretamente a educação: se o artista cria com fragmentos, a criança também pode criar sem precisar dominar o desenho acadêmico.

3- Entrada na pedagogia: quando vira atividade infantil

Século XIX - Educação sensorial

Friedrich Fröbel, criador do Jardim de Infância, propôs atividades manuais chamadas dons e ocupações.

Recortar, dobrar e colar eram vistos como exercícios de:

coordenação motora fina

percepção espacial

ordem e sequência

Início do século XX - Escola Nova

Educadores passaram a valorizar a expressão espontânea da criança:

Maria Montessori

Introduziu atividades de recorte progressivo para autonomia, concentração e precisão.

Ovide Decroly

Defendeu o uso de imagens recortadas ligadas ao interesse da criança.

John Dewey

Enfatizou o “aprender fazendo”: a colagem como experiência significativa.

O recorte e a colagem deixam de ser mero treino motor e passam a ser linguagem expressiva.

4- Consolidação no século XX: infância, psicologia e arte

Com os estudos do desenvolvimento infantil:

Jean Piaget

A colagem favorece a construção do pensamento simbólico.

Lev Vygotsky

A atividade promove mediação cultural e linguagem visual.

Viktor Lowenfeld (arte-educação)

Defendeu a colagem como forma legítima de expressão artística infantil.

A partir daí, recorte e colagem entram definitivamente nos currículos da Educação Infantil.

5- Por que recorte e colagem são tão importantes para crianças?

Eles unem, numa única atividade:

- desenvolvimento cognitivo

- coordenação motora fina

- percepção visual e espacial

 criatividade sem medo do “erro”

- narrativa visual e simbólica

- autonomia e autoestima

Além disso, permitem que todas as crianças criem, independentemente do nível de desenho.

6- Visão contemporânea

Hoje, o recorte e a colagem são compreendidos como:

linguagem artística

prática interdisciplinar (arte, linguagem, matemática, ciências)

ferramenta inclusiva

meio de expressão emocional

estratégia sustentável (uso de materiais reutilizados)

- Síntese final

O recorte e a colagem como atividades infantis nascem do encontro entre arte moderna, pedagogia ativa e estudos sobre o desenvolvimento da criança, transformando o gesto simples de recortar em uma poderosa forma de pensar, sentir e aprender.

Autora: Renata Bravo 

A seguir apresento o artigo científico com foco em Arte-Educação e Psicomotricidade, mantendo o relato de experiência com análise crítica, adequado para periódicos de Educação, Arte-Educação, Psicomotricidade ou Educação Inclusiva.

Recorte e colagem na arte-educação como práticas psicomotoras inclusivas: um relato de experiência

Resumo

Este artigo analisa as atividades de recorte e colagem sob a perspectiva da Arte-Educação e da Psicomotricidade, a partir de um relato de experiência com abordagem qualitativa e reflexiva. A experiência decorre de um contexto de limitações psicomotoras e perceptivas associadas a um diagnóstico médico de suspeita de esclerose múltipla, que resultou em prejuízos na coordenação motora e na percepção visual. A prática sistemática de recorte e colagem evidenciou-se como uma linguagem artística acessível e um recurso psicomotor potente, favorecendo a reorganização do gesto, da percepção e do pensamento. Os resultados indicam que tais práticas ultrapassam o caráter meramente lúdico, configurando-se como estratégias pedagógicas inclusivas que integram corpo, cognição e expressão simbólica ao longo da vida.

Palavras-chave: Arte-Educação; Psicomotricidade; Recorte e colagem; Educação Inclusiva; Relato de experiência.

1- Introdução

A Arte-Educação, enquanto campo epistemológico, compreende a arte como linguagem, experiência sensível e forma de conhecimento. Associada à Psicomotricidade, amplia-se a compreensão do processo educativo ao reconhecer o corpo como mediador das aprendizagens cognitivas, afetivas e simbólicas. Nesse contexto, práticas artísticas que envolvem o gesto, o manuseio de materiais e a organização espacial tornam-se relevantes para o desenvolvimento integral do sujeito.

O recorte e a colagem, frequentemente associados à Educação Infantil, são práticas historicamente subvalorizadas nos níveis mais avançados da educação. Entretanto, quando analisadas à luz da Arte-Educação e da Psicomotricidade, revelam-se como experiências complexas que mobilizam coordenação motora fina, percepção visual, planejamento da ação e expressão criativa. Este artigo tem como objetivo analisar criticamente o recorte e a colagem como práticas pedagógicas psicomotoras e inclusivas, a partir de um relato de experiência pessoal articulado ao referencial teórico da área.

2- Referencial teórico

2.1 Arte-Educação: a arte como linguagem do pensamento

Segundo autores como Lowenfeld e Brittain (1977), a experiência artística favorece a expressão do pensamento, das emoções e da criatividade, sem a exigência de padrões estéticos pré-definidos. Na Arte-Educação contemporânea, a ênfase desloca-se do produto final para o processo, valorizando o gesto, a experimentação e a construção de sentido.

A colagem, em especial, permite a criação a partir de fragmentos, promovendo reorganizações simbólicas que refletem o modo como o sujeito percebe e reconstrói o mundo.

2.2 Psicomotricidade e integração corpo-mente

A Psicomotricidade compreende o movimento como base da estruturação psíquica e cognitiva (WALLON, 1975). Atividades manuais, como o uso da tesoura e da cola, envolvem coordenação bilateral, controle tônico, lateralidade, percepção espacial e integração visomotora, sendo fundamentais para a organização do gesto e do pensamento.

Sob essa perspectiva, o fazer artístico não é apenas expressivo, mas estruturante do desenvolvimento humano.

2.3 Práticas inclusivas em Arte-Educação

A Arte-Educação apresenta-se como um campo privilegiado para práticas inclusivas, pois admite múltiplas formas de participação e expressão. O recorte e a colagem permitem adaptações, respeitam os ritmos individuais e valorizam as potencialidades do sujeito, alinhando-se a princípios inclusivos e ao Desenho Universal para a Aprendizagem.

3- Metodologia

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, do tipo relato de experiência, com análise crítica fundamentada nos referenciais da Arte-Educação e da Psicomotricidade. A experiência decorre de um processo pessoal vivenciado diante de limitações psicomotoras e perceptivas, incluindo prejuízos na coordenação motora fina e episódios de diplopia, associados a um diagnóstico médico de suspeita de esclerose múltipla.

As atividades desenvolvidas consistiram na realização progressiva de práticas de recorte e colagem, com diferentes níveis de precisão, materiais e desafios visuais, sendo analisados os impactos dessas práticas sobre aspectos motores, perceptivos, cognitivos e expressivos.

4- Resultados e discussão

Os resultados evidenciaram melhorias na coordenação motora fina, na integração visomotora e na organização espacial, além do aumento da capacidade de concentração e planejamento da ação. Do ponto de vista da Arte-Educação, observou-se que a colagem possibilitou a expressão simbólica sem a exigência do domínio do desenho, reduzindo frustrações e ampliando a autonomia criativa.

A análise psicomotora indica que o uso contínuo da tesoura e da cola favoreceu a reorganização do gesto e do controle motor, corroborando a ideia de que o movimento é estruturante do pensamento. A experiência problematiza a visão utilitarista ou infantilizada dessas práticas, demonstrando seu potencial educativo em contextos de inclusão e aprendizagem ao longo da vida.

5- Considerações finais

Conclui-se que o recorte e a colagem, enquanto práticas da Arte-Educação, constituem recursos psicomotores inclusivos capazes de integrar corpo, percepção, cognição e expressão simbólica. O relato de experiência analisado evidencia que tais práticas favorecem não apenas o desenvolvimento motor, mas também a construção do sujeito enquanto ser criativo, autônomo e pensante.

Defende-se, portanto, a ampliação do uso do recorte e da colagem em diferentes contextos educacionais, reconhecendo-os como práticas artísticas legítimas e pedagogicamente potentes no campo da Arte-Educação e da Psicomotricidade.

Referências (sugestão)

LOWENFELD, V.; BRITTAIN, W. Desenvolvimento da capacidade criadora. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar. São Paulo: Moderna, 2003.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

WALLON, H. A evolução psicológica da criança. Lisboa: Edições 70, 1975.