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Dilemas da Sustentabilidade frente ao consumismo

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Roda Musical

Música dos Bichos e dos Biomas
Autora: Renata Bravo 

Água (rios, lagos e mares)
No rio tem o sapo
O som dele é coá, coá 
No lago tem o pato
O som dele é quá, quá 
No mar tem o golfinho
O som dele é iiih-iiih 
No mar tem a baleia
O som dela é uuuuh (grave e longo) 

Campo / Fazenda
Na fazenda tem o boi
O som dele é muuu 
No galinheiro tem a galinha
O som dela é có, có, có 
No pasto tem o cavalo
O som dele é pocotó 

Floresta
Na floresta tem o macaco
O som dele é uh uh ah ah 
Na floresta tem o lobo
O som dele é auuuuu 
Na floresta tem a coruja
O som dela é uhu, uhu 

Selva
Na selva tem o leão
O som dele é roaaar 
Na selva tem o elefante
O som dele é fuuuuu 
Na selva tem o tigre
O som dele é grrrr 

Cerrado
No cerrado tem o lobo-guará
O som dele é auuu 
No cerrado tem o tamanduá
O som dele é shhh (som suave) 

Deserto
No deserto tem o camelo
O som dele é hrrr 
No deserto tem a cobra
O som dela é ssssss 

Região Gelada
No gelo tem o urso-polar
O som dele é grrr 
No gelo tem o pinguim
O som dele é héé, héé 

Céu e Árvores
Na árvore tem a maritaca
O som dela é crá, crá 
No céu voa o passarinho
O som dele é piu, piu 

Refrão (entre cada bioma)
Palmas, chocalhos ou passos no chão
Cada bicho tem seu som,
Cada lugar tem seu chão!
Na água, terra ou no ar,
Vamos todos imitar! 

Dinâmica extra (opcional)
Educador mostra o cartão do bioma
Crianças mudam o som, o ritmo e o movimento
Sons graves = devagar / sons agudos = rápido

Pinacoteca de São Paulo: Arte, História e Formação do Olhar

A Pinacoteca do Estado de São Paulo é um dos mais importantes espaços culturais do Brasil e um verdadeiro laboratório vivo para a educação artística. Seu prédio histórico, localizado no centro da cidade, é um excelente ponto de partida para compreender a relação entre arte, arquitetura e formação cultural.

Construído no final do século XIX, o edifício abrigou originalmente o Liceu de Artes e Ofícios, instituição voltada à formação técnica e artística. Posteriormente, funcionou como Escola de Belas Artes, onde pinturas e esculturas eram utilizadas como modelos de estudo para os alunos, reforçando práticas acadêmicas fundamentais para o desenvolvimento do desenho, da pintura e da observação estética.

Nesse contexto, os retratos ganham papel central no ensino da arte. Eles serviam não apenas para o domínio da técnica, mas também para o estudo da expressão, da luz, do gesto e da composição. Ao observar essas obras hoje, surge uma reflexão pedagógica importante: como os estilos de retrato evoluíram ao longo do tempo e de que forma dialogam com a arte contemporânea?

Entre os artistas presentes no acervo, destaca-se Almeida Júnior, nascido em Itu, considerado um dos principais nomes do naturalismo brasileiro. Suas obras retratam o cotidiano do interior paulista, valorizando a cultura caipira e os gestos simples da vida diária. Um exemplo marcante são as cenas domésticas, como as que incluem o fogão a lenha, elemento simbólico da vida rural e da identidade brasileira.

O reconhecimento de seu talento levou Dom Pedro II a conceder-lhe uma bolsa de estudos na Europa, experiência que influenciou diretamente sua técnica e amadurecimento artístico. Esse intercâmbio cultural é um tema relevante para o ensino de arte, pois evidencia como a formação artística se constrói a partir do diálogo entre referências locais e internacionais.

A obra “Saudade” é um dos quadros mais emblemáticos de Almeida Júnior. Com um gesto contido e expressivo, a pintura convida à leitura emocional da imagem, permitindo discussões sobre sentimento, narrativa visual e interpretação artística, aspectos fundamentais no desenvolvimento do olhar crítico dos estudantes.

Assim, a Pinacoteca se consolida como um espaço educativo essencial, onde é possível articular história da arte, identidade cultural e práticas pedagógicas.

Visitar a Pinacoteca é aprender com a arte.

Um convite permanente para educadores, estudantes e famílias ampliarem sua percepção estética e cultural.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sapo Cururu: dono do rio e artista da noite


Dizem por aí que o sapo cururu é o dono do rio.
Não porque manda, mas porque conhece cada curva da água quando o sol se despede.

À noite, o negócio é encher a barriga.
Insetos voam distraídos, e o sapo, atento, cumpre sua missão ecológica com precisão.

Sua pele é úmida e fina, feita para respirar.
por isso, nada de tomar sol forte!
O sapo prefere a sombra, o brejo e a beira da água.

Com olhos grandes, enxerga no escuro como poucos.
Somos notívagos, dizem eles, com orgulho.

As narinas não servem só para respirar:
é por elas que o sapo sente o cheiro da chuva chegando
e reconhece quem se aproxima do seu território.

E quando a lua sobe, começa o espetáculo.
O sapo vira artista, dá shows cantando na beira da água,
enchendo a noite de sons que contam histórias antigas do rio.

Agora, vamos desfazer um mito:
Quem inventou que sapo tem chulé porque não lava o pé?
Nós nos lavamos sim!
Vivemos na água, sempre limpos, sempre atentos.

Do girino ao grande saltador,
o sapo cresce, se transforma e aprende a saltar, porque viver também é mudança.

O sapo não é só personagem de cantiga:
é guardião da água, indicador da saúde da natureza
e cantor oficial das noites do Brasil.


O Show do Sapo Cururu

Quando a noite cai e o rio fica espelhado pela lua,

o sapo cururu sobe na pedra mais alta.

- Boa noite! - canta ele.

- Sou o dono do rio… pelo menos à noite.

Os insetos param no ar.

As estrelas piscam curiosas.

Com seus olhos grandes, ele enxerga tudo.

Com a pele úmida, sente a água conversar com o corpo.

Com as narinas, percebe o cheiro da chuva que ainda vem longe.

Ele canta.

Canta para avisar que está ali.

Canta para chamar outros sapos.

Canta porque a noite pede música.

De repente, alguém cochicha:

- Dizem que sapo tem chulé…

O cururu ri e mergulha no rio.

Sai limpo, reluzente, e responde:

- Quem vive na água aprende a se cuidar!

E então ele salta.

Salta alto, salta longe,

como quem celebra a própria história:

do girino pequeno ao grande artista da noite.

O rio agradece.

A lua aplaude.

E o sapo cururu continua cantando,

guardião das águas e das histórias que só a noite escuta.


Sustentabilidade do Legado: uma leitura histórica e interdisciplinar das relações humanas

A História não é apenas um registro do passado. Ela é uma ponte entre tempos, culturas e saberes. Ao analisarmos trajetórias históricas, como a atuação dos jesuítas no século XVI, somos convidados a refletir sobre legado, sustentabilidade e relações humanas a partir de uma perspectiva interdisciplinar.

História: ações humanas e permanências

Os movimentos de expansão religiosa e cultural da Europa moderna ocorreram em um contexto de conflitos, reformas religiosas e disputas de poder. Nesse cenário, os jesuítas atuaram como educadores, missionários e mediadores culturais em diferentes partes do mundo.

Essas ações deixaram marcas duradouras: escolas, registros escritos, práticas pedagógicas e formas de organização social. A História nos ajuda a compreender como decisões humanas atravessam séculos, influenciando sociedades atuais, esse é um dos sentidos mais profundos do conceito de legado.

Geografia: território, deslocamento e adaptação

As peregrinações pela Europa, as viagens oceânicas e a entrada em florestas e territórios desconhecidos revelam uma relação direta entre seres humanos e espaço geográfico. A adaptação ao clima, ao relevo e aos recursos naturais era condição para a sobrevivência.

Nesse ponto, a interdisciplinaridade com a Geografia permite refletir sobre uso do território, mobilidade humana e impactos ambientais, conectando o passado às discussões contemporâneas sobre sustentabilidade e ocupação consciente dos espaços.

Ciências e Educação Ambiental: sustentabilidade além do meio ambiente

Embora o conceito moderno de sustentabilidade não existisse à época, as práticas de sobrevivência, cultivo, construção e deslocamento mostram uma relação constante com a natureza. A dependência direta dos recursos naturais evidencia que não há sociedade sem equilíbrio ambiental.

Trazer essa reflexão para as Ciências amplia o entendimento de sustentabilidade como algo que envolve:

preservação dos recursos,

continuidade da vida,

responsabilidade intergeracional.

Filosofia e Ética: relações humanas e valores

As relações entre missionários, povos originários e diferentes culturas levantam questões éticas fundamentais: respeito, diálogo, imposição cultural e convivência com a diferença. A Filosofia contribui ao questionar como nos relacionamos com o outro e quais valores sustentam nossas escolhas.

Pensar o legado histórico também é refletir sobre erros, conflitos e aprendizados, desenvolvendo uma postura crítica e consciente.

Educação: o legado como herança viva

A educação aparece como eixo integrador de todas essas áreas. O conhecimento transmitido de geração em geração é uma forma de sustentabilidade cultural. Quando ensinamos História de maneira interdisciplinar, formamos estudantes capazes de compreender o mundo de forma complexa, conectada e responsável.

Conclusão

Sustentabilidade do legado é entender que nossas ações constroem caminhos duradouros. A História mostra que relações humanas, território, natureza e conhecimento estão interligados. Ao trabalhar esses temas de forma interdisciplinar, a educação cumpre seu papel maior: formar cidadãos conscientes do passado, atentos ao presente e responsáveis pelo futuro 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Matriz Energética Limpa e Infraestrutura Digital: Indicadores Técnicos para Data Centers Sustentáveis

A expansão da economia digital impõe desafios técnicos crescentes relacionados ao consumo energético, eficiência operacional e impacto ambiental. Data centers, semicondutores e novas arquiteturas de armazenamento tornaram-se elementos críticos para o desenvolvimento tecnológico, exigindo uma abordagem integrada entre matriz energética limpa, inovação e soberania digital.

Data centers e eficiência energética

Os data centers operam em regime contínuo, demandando alta confiabilidade elétrica, redundância e sistemas de resfriamento robustos. Para avaliar sua eficiência energética, o principal indicador utilizado é o PUE (Power Usage Effectiveness), que relaciona a energia total consumida pela instalação com a energia efetivamente utilizada pelos equipamentos de TI.

Infraestruturas modernas buscam PUE entre 1,1 e 1,3, enquanto instalações tradicionais ainda operam acima de 1,6. Quanto mais próximo de 1,0, maior a eficiência global do data center e menor o desperdício energético.

Associado ao PUE, o DCiE (Data Center Infrastructure Efficiency) expressa essa eficiência em percentual, permitindo comparações diretas entre projetos.

Matriz energética limpa e emissões de carbono

A sustentabilidade de um data center está diretamente relacionada à origem da energia utilizada. O CUE (Carbon Usage Effectiveness) mede as emissões de CO₂ associadas ao consumo energético. Data centers alimentados majoritariamente por fontes renováveis tendem a apresentar CUE próximo de zero, alinhando-se a metas ESG e compromissos de neutralidade de carbono.

A transição para uma matriz energética limpa não apenas reduz emissões, mas também aumenta a previsibilidade de custos operacionais no longo prazo.

Uso de água e resfriamento

O resfriamento representa até 40% do consumo energético total de um data center. Para mensurar o impacto hídrico, utiliza-se o WUE (Water Usage Effectiveness), indicador fundamental em regiões com restrição de recursos hídricos.

Projetos sustentáveis buscam WUE inferior a 0,4 L/kWh, adotando soluções como resfriamento líquido, imersivo ou sistemas de circuito fechado. Tecnologias com alto COP (Coeficiente de Performance) contribuem significativamente para a redução do consumo energético associado à climatização.

Densidade computacional e otimização do espaço

A evolução da computação levou ao aumento da densidade energética por rack, indicador essencial para o planejamento físico e térmico. Data centers tradicionais operam entre 3 e 5 kW por rack, enquanto ambientes de alta densidade, voltados para IA e HPC, ultrapassam 40 kW por rack.

Maior densidade permite mais capacidade de processamento e armazenamento em menor espaço físico, desde que acompanhada de soluções avançadas de resfriamento e gestão energética.

Semicondutores de silício e eficiência por watt

O silício permanece como base da indústria de semicondutores, sendo determinante para a eficiência energética dos sistemas. Avanços em litografia, empacotamento 3D e microarquitetura ampliam a relação desempenho por watt, reduzindo o consumo energético por operação computacional.

O domínio dessa cadeia produtiva impacta diretamente indicadores como capacidade de processamento por kWh e custo operacional por workload, fortalecendo a autonomia tecnológica nacional.

Armazenamento avançado e moléculas de carbono

Tecnologias emergentes baseadas em moléculas de carbono, incluindo grafeno e armazenamento em DNA sintético (sequências ATCG), introduzem um novo indicador estratégico: capacidade de armazenamento por unidade de energia.

Essas soluções oferecem:

Altíssima densidade de dados

Consumo energético mínimo em estado passivo

Redução significativa do espaço físico necessário

Do ponto de vista técnico, representam um salto na eficiência energética e na sustentabilidade da infraestrutura digital.

Reaproveitamento energético

O ERE (Energy Reuse Effectiveness) avalia a capacidade de reaproveitamento da energia residual, especialmente o calor gerado pelos servidores. Projetos que reutilizam esse calor para aquecimento urbano ou processos industriais apresentam melhor desempenho energético global e menor impacto ambiental.

Viabilidade econômica: CAPEX, OPEX e TCO

A análise econômica de data centers sustentáveis deve considerar o TCO (Total Cost of Ownership), que integra CAPEX (investimento inicial) e OPEX (custos operacionais).

Infraestruturas mais eficientes tendem a demandar maior CAPEX inicial, porém apresentam OPEX reduzido ao longo do ciclo de vida, principalmente devido à economia de energia, água e manutenção.

Disponibilidade e confiabilidade

Indicadores de SLA e disponibilidade são críticos para setores estratégicos. Data centers classificados como:

Tier III operam com 99,982% de disponibilidade

Tier IV atingem 99,995%

Esses níveis são essenciais para serviços financeiros, governamentais e de infraestrutura crítica.

Estratégia nacional e retenção de recursos

Deixar de ser apenas hospedeiro de data centers internacionais requer uma estratégia baseada em indicadores técnicos, incentivos fiscais e políticas públicas. Manter dados, infraestrutura e conhecimento no território nacional fortalece a soberania digital, reduz riscos geopolíticos e estimula o desenvolvimento tecnológico interno.

Conclusão técnica

A integração entre matriz energética limpa, semicondutores avançados e novos modelos de armazenamento, sustentada por indicadores técnicos claros, permite a construção de data centers mais eficientes, sustentáveis e competitivos. Esses parâmetros são fundamentais para decisões de investimento, políticas públicas e posicionamento estratégico na economia digital de baixo carbono.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Brincar ao ar livre

Vivências ancestrais que nutrem o corpo, os sentidos e a alma

Brincar é uma necessidade humana. Desde os tempos mais antigos, o brincar acontece em contato com a natureza, com o corpo em movimento e com a vida em comunidade. Nas ancestralidades indígenas, brincar não se separa do viver, é aprendizado, cultura e pertencimento.

Brincar ao ar livre: energia em movimento

O espaço aberto convida o corpo a se expressar livremente. Correr, pular, rolar, escalar e explorar ativam a energia vital, fortalecem o corpo e promovem equilíbrio emocional. A natureza oferece desafios reais e acolhedores, respeitando o ritmo de cada criança.

Os sentidos despertos

No brincar ao ar livre, os sentidos são protagonistas:

A visão observa cores, formas e movimentos

A audição escuta sons da natureza e das cantigas

O tato sente a terra, a água, as folhas e os troncos

O olfato reconhece cheiros do mato, da chuva e das flores

O paladar se conecta à comida viva, como a fruta colhida do pé

Cada vivência se transforma em aprendizado profundo.

Saberes da ancestralidade indígena

As brincadeiras ancestrais ensinam através da experiência direta com a natureza e da convivência coletiva. São práticas simples que carregam valores essenciais.

Brincar no rio

O rio ensina sobre cuidado, limites e respeito. Brincar na água fortalece o corpo, acalma e conecta a criança aos ciclos naturais.

Subir na árvore

Subir em árvore desenvolve equilíbrio, força, coragem e confiança. A árvore, sagrada nas culturas indígenas, torna-se espaço de aprendizado e conexão.

Comer fruta do pé

Colher e comer a fruta diretamente da árvore é aprender sobre tempo, espera, cuidado e gratidão. O alimento ganha sentido e história.

Cantigas de roda

Na roda, todos pertencem. As cantigas unem corpo, voz e comunidade, fortalecendo vínculos, memória cultural e identidade.

Outras brincadeiras ancestrais:

Correr livre pela terra

Fazer brinquedos com elementos naturais

Brincar de imitar animais

Contar histórias ao redor da roda

Jogos de força, equilíbrio e cooperação

Brincadeiras que desenvolvem autonomia, criatividade, consciência corporal, empatia e espírito coletivo.

Brincar como herança cultural

Resgatar o brincar ao ar livre inspirado na ancestralidade indígena é honrar saberes antigos e oferecer às crianças experiências reais, sensoriais e cheias de significado. Não é voltar ao passado, é cuidar do futuro.

Brincar ao ar livre é raiz, é memória viva, é energia que circula.

Defender o brincar é defender uma infância plena, conectada e humana.



Música, Ritmo e Origem: o Bolero de Maurice Ravel como Ponte entre Mundos

Resumo

Este artigo propõe uma leitura intercultural da obra Bolero (1928), de Maurice Ravel, articulando música erudita ocidental e cosmologias indígenas a partir dos conceitos de ritmo, repetição e criação. Parte-se da compreensão da música como experiência corporal, relacional e culturalmente situada, aproximando a estrutura rítmica do Bolero de práticas musicais ancestrais, nas quais o som organiza o tempo, a memória coletiva e a relação com o mundo. O texto defende a música como ponte entre mundos distintos, contribuindo para reflexões no campo da educação musical intercultural e para o reconhecimento de epistemologias não hegemônicas.

Palavras-chave: Educação musical intercultural; Ritmo; Cosmologia indígena; Maurice Ravel; Música e ancestralidade.

1- Introdução

A música constitui uma das mais antigas formas de organização simbólica da experiência humana. Antes da escrita, da sistematização científica e da linguagem formal, o som já estruturava o tempo, o corpo e as relações coletivas. Em diferentes culturas, a música não se apresenta apenas como expressão estética, mas como linguagem fundamental de criação de sentido.

O Bolero, de Maurice Ravel, frequentemente analisado sob a ótica da música erudita europeia, oferece possibilidades de leitura que ultrapassam os limites de sua tradição de origem. Sua estrutura baseada na repetição rítmica e no crescendo contínuo permite um diálogo fecundo com cosmologias indígenas, nas quais o ritmo e o som são compreendidos como princípios organizadores do mundo.

Este artigo propõe uma leitura comparativa e intercultural do Bolero, compreendendo a música como ponte entre mundos culturais distintos, sem hierarquização estética, mas com reconhecimento de princípios sonoros compartilhados.

2- Ritmo e Repetição no Bolero de Maurice Ravel

O Bolero não se constrói pela surpresa ou pela variação temática, mas pela insistência. Um único tema, sustentado por um ostinato rítmico constante, percorre toda a obra. A transformação ocorre pelo acréscimo gradual de timbres e pelo aumento progressivo da intensidade sonora.

Essa repetição não empobrece a escuta; ao contrário, a aprofunda. Cada reapresentação do tema inaugura uma nova experiência, pois o ouvinte já foi atravessado pelo tempo musical anterior. O ritmo inicial, marcado, constante, quase hipnótico pode ser compreendido como um pulso originário, um batimento que antecede a complexidade melódica.

Nesse sentido, o Bolero evidencia que o ritmo não é mero acompanhamento, mas fundamento estrutural da música, organizando a percepção do tempo e a experiência corporal da escuta.

3- Cosmologias Indígenas: Som, Criação e Ancestralidade

Nas cosmologias indígenas, o mundo não nasce do silêncio absoluto, mas do som, da vibração e do gesto repetido. A repetição não é entendida como estagnação, mas como renovação contínua. O canto que retorna reafirma a memória coletiva e atualiza a presença dos ancestrais.

O som, nesse contexto, é força criadora. Ele convoca, organiza e mantém a relação entre humanos, natureza e espiritualidade. Fenômenos sonoros, como o trovão, não são apenas eventos físicos, mas manifestações simbólicas de transformação e comunicação do mundo natural.

A música indígena, profundamente ligada à oralidade e à coletividade, organiza o tempo de forma circular, reforçando uma compreensão não linear da experiência temporal.

4- Leitura Comparativa: Música como Experiência Compartilhada

Ao aproximar o Bolero das práticas musicais indígenas, observa-se uma convergência fundamental: a centralidade do ritmo como organizador do tempo e do corpo. Em ambos os casos, a música cria estados de atenção coletiva e escuta corporal.

O crescendo contínuo do Bolero pode ser interpretado como metáfora do processo de criação do mundo: da simplicidade à complexidade, do silêncio à plenitude sonora. Não há ruptura brusca, mas acúmulo. O tempo musical deixa de ser linear e passa a ser vivido como experiência sensível.

A culminância sonora da obra, o “boom” final, não representa um encerramento, mas uma transformação. Assim como o trovão nas cosmologias indígenas, esse impacto sonoro marca uma passagem, revelando a potência acumulada da repetição.

Essa leitura comparativa não propõe equivalência cultural, mas diálogo intercultural, reconhecendo a música como linguagem transversal às culturas humanas.

5- Educação Musical Intercultural: a Música como Ponte

Na educação musical intercultural, a música deixa de ser apenas objeto de análise técnica e passa a ser experiência relacional. O diálogo entre o Bolero e as músicas indígenas permite deslocamentos epistemológicos importantes, ampliando o repertório sonoro e cultural dos estudantes.

O estudante é convidado a escutar com o corpo, com a memória e com a sensibilidade cultural. A música torna-se espaço de tradução entre mundos distintos que compartilham o ritmo como fundamento comum.

Nesse contexto, a música atua como ponte entre culturas, tempos e formas de conhecimento, promovendo respeito à diversidade e reconhecimento de epistemologias historicamente marginalizadas.

6- Considerações Finais

Compreender o Bolero de Maurice Ravel em diálogo com cosmologias indígenas amplia as possibilidades de leitura da obra e reafirma a música como linguagem fundamental da humanidade. Ritmo, repetição e escuta coletiva atravessam culturas e revelam modos diversos de organizar o tempo e a experiência.

A música, como ponte entre mundos, não elimina diferenças, mas permite a travessia entre elas. Ouvir torna-se um ato ético, tocar um gesto de encontro, e educar musicalmente um compromisso com a pluralidade cultural e epistemológica.

Referências Sugeridas

BLACKING, John. How musical is man? Seattle: University of Washington Press, 1973.

GREEN, Lucy. How popular musicians learn. Aldershot: Ashgate, 2002.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal. Revista Crítica de Ciências Sociais, n. 78, 2007.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002.

DENORA, Tia. Music in everyday life. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.