*BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL DESDE 2013*

Pesquisa, conceito e autoria: Renata Bravo / Contato: renatarjbravo@gmail.com

Inspirada em Heidegger, a Brincadeira Sustentável não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser vivida, elaborada e incorporada.
A tese que fundamenta este blog parte de uma ideia simples e duradoura: a infância, o brincar, a cultura, a natureza e as relações humanas constituem dimensões essenciais da formação do indivíduo e da construção da vida em sociedade. Embora os contextos históricos, as tecnologias e os modos de viver se transformem, essa base permanece atual. Por isso, não se trata de uma tese vinculada a uma época específica, mas de uma perspectiva que atravessa gerações e continua encontrando sentido sempre que uma criança brinca, aprende, cria, convive e estabelece sua relação com o mundo.

A INFÂNCIA EM TRÂNSITO: MEMÓRIA, CULTURA E FUTURO

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

JOGOS DE TABULEIRO E TDAH




ATENÇÃO, FUNÇÕES EXECUTIVAS E APRENDIZAGEM: COMO OS JOGOS DE TABULEIRO PODEM CONTRIBUIR PARA O DESENVOLVIMENTO INFANTIL

Brincar também é aprender a pensar, planejar, tomar decisões, respeitar regras e encontrar soluções para os desafios da vida.

Introdução: quando o jogo se transforma em aprendizagem

Uma criança observa o tabuleiro, acompanha a jogada de um colega, recorda uma regra, calcula as possibilidades de sua próxima ação e precisa esperar sua vez. Em poucos minutos, ela pode vivenciar situações que envolvem atenção, memória, planejamento, tomada de decisões, controle dos impulsos e interação social.

O que parece apenas uma brincadeira pode se transformar em uma experiência educativa rica em possibilidades.

Os jogos de tabuleiro oferecem situações concretas nas quais a criança pode experimentar estratégias, identificar consequências, rever decisões, lidar com imprevistos e aprender com os resultados de suas escolhas. Quando utilizados com intencionalidade pedagógica, podem contribuir para a construção de experiências relacionadas às funções executivas, habilidades importantes para a aprendizagem e para a organização das atividades cotidianas.

Essa perspectiva merece atenção especial na educação infantil, no ensino fundamental e nos contextos de educação inclusiva, inclusive quando o objetivo é acolher estudantes com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

No Brincadeira Sustentável, compreendemos que brincar não precisa ser uma atividade separada do conhecimento. O próprio jogo pode se tornar um ambiente de investigação, descoberta, convivência e desenvolvimento de habilidades que serão úteis ao longo da vida.

1. O que são funções executivas?

As funções executivas constituem um conjunto de processos cognitivos envolvidos na organização do pensamento e do comportamento orientado a objetivos.

Elas participam de atividades simples e complexas: organizar uma mochila, acompanhar uma explicação, resolver um problema matemático, planejar um trabalho escolar, controlar uma reação impulsiva, mudar de estratégia quando algo não funciona e concluir uma tarefa.

Entre os componentes mais estudados das funções executivas estão:

Controle inibitório: capacidade de controlar respostas impulsivas, interromper uma ação inadequada ou resistir a distrações.

Memória de trabalho: capacidade de manter e utilizar informações temporariamente enquanto realizamos uma atividade. Por exemplo, lembrar as regras de um jogo enquanto decidimos a próxima jogada.

Flexibilidade cognitiva: capacidade de mudar de perspectiva, adaptar estratégias, considerar alternativas e lidar com situações novas.

Esses componentes se relacionam com outras habilidades importantes, como planejamento, organização, monitoramento das próprias ações, tomada de decisões e resolução de problemas.

Embora possam ser apresentados separadamente para facilitar a compreensão, esses processos atuam de maneira integrada. Uma mesma atividade pode mobilizar várias funções executivas ao mesmo tempo.

É importante lembrar que essas habilidades se desenvolvem gradualmente, ao longo da infância e da adolescência, e são influenciadas por diferentes fatores, como as experiências de aprendizagem, o ambiente, as relações sociais e as características individuais.

2. Atenção: observar, selecionar informações e acompanhar objetivos

A atenção permite selecionar informações relevantes, acompanhar uma atividade e direcionar os recursos mentais para aquilo que precisa ser realizado.

Durante uma partida, a criança pode precisar observar a posição das peças, identificar símbolos, acompanhar a movimentação dos adversários, recordar instruções e perceber mudanças no tabuleiro.

Essas exigências variam de acordo com o jogo. Alguns demandam maior atenção visual; outros exigem acompanhar sequências, ouvir instruções, identificar padrões ou manter uma estratégia durante vários turnos.

O educador pode utilizar essas situações para propor desafios graduais, respeitando o tempo de participação e as necessidades de cada estudante.

Uma criança que ainda encontra dificuldade para acompanhar uma partida longa pode começar com jogos rápidos, regras simples e objetivos bem definidos. Aos poucos, conforme sua experiência e seu interesse, a atividade pode ganhar novas etapas e desafios.

O propósito não é exigir atenção constante a qualquer custo, mas criar condições para que a criança participe, compreenda a tarefa e experimente maneiras de se organizar.

3. TDAH e aprendizagem: compreender antes de cobrar

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade é uma condição do neurodesenvolvimento associada a padrões persistentes de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade, que podem interferir no funcionamento cotidiano.

As manifestações são variadas. Algumas pessoas apresentam maior dificuldade para manter a atenção em determinadas atividades; outras enfrentam desafios relacionados à impulsividade, à organização, à espera ou ao controle do comportamento. Também existem apresentações combinadas.

No ambiente escolar, essas características não devem ser interpretadas automaticamente como falta de interesse, desobediência ou ausência de capacidade para aprender.

Uma proposta pedagógica bem planejada considera que os estudantes podem precisar de diferentes formas de apresentar as instruções, organizar o tempo, demonstrar o que compreenderam e participar das atividades.

Os jogos de tabuleiro podem contribuir para esse trabalho porque tornam objetivos e regras mais concretos, oferecem feedback durante a atividade e permitem experimentar decisões em um contexto estruturado.

Entretanto, é fundamental estabelecer uma distinção: os jogos são recursos pedagógicos complementares, não tratamentos específicos para o TDAH. Não há garantia de que um jogo isolado melhore os sintomas ou produza mudanças generalizadas nas funções executivas. Os resultados dependem da atividade, da mediação, da frequência, do contexto e das características individuais.

Quando necessário, o uso pedagógico dos jogos deve coexistir com as adaptações escolares e com o acompanhamento dos profissionais responsáveis pelo cuidado do estudante.

4. O que a criança pode aprender durante uma partida?

O potencial educativo de um jogo não está apenas em seu nome ou em sua popularidade. Ele depende das habilidades exigidas pelas regras, dos objetivos definidos e da maneira como a experiência é conduzida.

Veja algumas possibilidades:

Atenção e percepção visual

Jogos como Dobble e Lince exigem localizar elementos, identificar diferenças ou reconhecer padrões. Podem ser utilizados em atividades de observação, discriminação visual e busca de informações.

Memória de trabalho

Jogos que exigem lembrar regras, posições, pistas ou informações apresentadas anteriormente podem criar oportunidades para exercitar a manutenção e o uso temporário de informações.

Controle inibitório

Jogos que exigem esperar a vez, interromper uma resposta automática ou respeitar uma condição antes de agir permitem trabalhar situações relacionadas ao controle dos impulsos.

Planejamento e antecipação

Xadrez e damas exigem considerar diferentes possibilidades, antecipar consequências e organizar movimentos. A complexidade deve ser compatível com a experiência do participante.

Flexibilidade cognitiva

Jogos nos quais as condições mudam, novas informações aparecem ou uma estratégia deixa de funcionar podem favorecer oportunidades para considerar alternativas e adaptar decisões.

Organização de informações e raciocínio

Detetive pode ser utilizado para explorar pistas, formular hipóteses, comparar informações e eliminar possibilidades. Jogos de percurso também permitem trabalhar sequências, contagem e acompanhamento de objetivos.

Tomada de decisões

Em jogos de estratégia e administração de recursos, como Banco Imobiliário, os participantes podem discutir escolhas, riscos, prioridades e consequências. O professor pode relacionar essas situações a problemas matemáticos e a decisões do cotidiano.

Cooperação e resolução de problemas

Jogos cooperativos, como Pandemic, especialmente quando apropriados à idade e à experiência dos participantes, podem propor desafios nos quais os jogadores precisam compartilhar informações, distribuir responsabilidades e construir estratégias coletivas.

Nenhum jogo trabalha exclusivamente uma habilidade. Uma partida de damas, por exemplo, pode envolver planejamento, atenção, memória de trabalho, flexibilidade e regulação emocional. O mais importante é identificar quais processos a atividade mobiliza e como o educador pode transformá-los em oportunidades de aprendizagem.

5. Aprender a esperar, perder, recomeçar e tentar novamente

A aprendizagem não acontece somente quando uma criança acerta uma resposta ou vence uma partida.

Durante um jogo, ela também pode experimentar a frustração de perder, perceber que uma decisão não produziu o resultado esperado, reconhecer um erro e descobrir que existem outras maneiras de agir.

Essas situações oferecem oportunidades para conversar sobre emoções, consequências e estratégias.

O adulto pode perguntar:

  • O que aconteceu nesta jogada?
  • Que informação você observou antes de decidir?
  • Existe outra maneira de resolver esse desafio?
  • O que você faria diferente em uma próxima partida?
  • Como podemos continuar jogando quando alguém fica frustrado?

Essas perguntas ajudam a transformar o resultado do jogo em objeto de reflexão.

É importante, porém, não presumir que toda criança aprenderá a controlar suas emoções simplesmente porque participa de uma competição. Algumas podem precisar de apoio explícito, pausas, mediação e experiências graduais para lidar com situações difíceis.

Jogos cooperativos também são excelentes alternativas. Neles, a turma pode aprender que o sucesso depende da participação de todos e que compartilhar informações, ouvir os colegas e revisar uma estratégia são comportamentos tão importantes quanto encontrar uma solução.

6. O papel do professor e do mediador

O jogo, por si só, não garante a aprendizagem pretendida. A intencionalidade pedagógica e a qualidade da mediação fazem diferença.

Antes de iniciar uma atividade, o professor pode definir uma habilidade ou um conjunto de objetivos que deseja explorar. Durante a partida, pode observar as estratégias utilizadas, identificar obstáculos e oferecer ajuda quando necessário.

Depois da atividade, uma breve conversa permite que os participantes expliquem suas escolhas, comparem soluções e relacionem a experiência com outros contextos.

Por exemplo, esperar a vez em um jogo pode ser o ponto de partida para conversar sobre turnos de fala, organização de uma atividade coletiva e respeito ao tempo de outras pessoas.

Entretanto, transferir uma habilidade aprendida no jogo para situações diferentes não acontece automaticamente. Por isso, o educador deve criar oportunidades para estabelecer essas relações explicitamente.

O objetivo não é transformar toda brincadeira em uma avaliação, mas aproveitar o potencial educativo da atividade sem retirar dela o prazer, a curiosidade e a liberdade de experimentar.

7. Como adaptar os jogos para favorecer a participação

A adaptação não representa um privilégio nem significa diminuir o potencial de aprendizagem. É uma forma de organizar as condições da atividade para que diferentes estudantes possam participar.

Algumas possibilidades incluem:

  • Apresentar poucas regras de cada vez.
  • Demonstrar uma jogada antes de iniciar a partida.
  • Utilizar cartões com imagens ou lembretes visuais.
  • Reduzir a duração inicial do jogo.
  • Dividir partidas longas em etapas.
  • Organizar o tabuleiro em uma área com menos distrações concorrentes.
  • Oferecer pausas quando forem necessárias.
  • Permitir tempo suficiente para compreender as instruções e decidir.
  • Reduzir temporariamente o número de peças ou de opções.
  • Organizar objetivos intermediários.
  • Alternar jogos competitivos e cooperativos.
  • Reconhecer estratégias e progressos sem comparar estudantes.

Essas medidas podem beneficiar muitos participantes, não apenas aqueles com TDAH.

É importante observar a resposta de cada criança. Uma adaptação que ajuda um estudante pode não ser necessária para outro. O planejamento deve ser flexível e respeitar as características, os interesses e as necessidades de participação.

8. A construção de jogos artesanais como experiência interdisciplinar

A proposta do Brincadeira Sustentável permite ir além da utilização de jogos prontos: as próprias crianças podem participar de sua criação.

Papelão limpo, folhas reutilizadas, tampinhas, pedaços de madeira adequados e outros materiais seguros podem servir de base para tabuleiros, peças, cartas e marcadores.

A construção do jogo amplia as possibilidades de aprendizagem, pois exige imaginar uma proposta, estabelecer regras, organizar etapas, testar soluções, identificar falhas e fazer ajustes.

Nesse processo, diferentes áreas do conhecimento podem se integrar.

Matemática: contagem, sequências, operações, medidas, formas geométricas, probabilidades e pontuação.

Língua Portuguesa: elaboração de regras, leitura de instruções, produção de perguntas, interpretação de textos e comunicação oral.

Ciências: ciclos naturais, biodiversidade, alimentação, água, energia e relações entre os seres vivos.

Geografia: mapas, territórios, paisagens, regiões brasileiras, recursos naturais e atividades econômicas.

História: memória, patrimônio cultural, modos de vida, acontecimentos históricos e diferentes formas de organização social.

Arte: desenho, composição visual, criação de personagens, cores, formas e identidade gráfica.

Educação ambiental: reaproveitamento responsável de materiais, redução de desperdícios, consumo consciente e reflexão sobre o ciclo de vida dos objetos.

A construção também pode envolver planejamento, divisão de tarefas, negociação, revisão e resolução de problemas. Assim, o processo de criação se torna parte importante da experiência educativa.

Os materiais devem ser selecionados conforme a idade e as condições de segurança. Peças pequenas exigem atenção especial com crianças que possam levá-las à boca, e materiais cortantes, tóxicos ou inadequados devem ser evitados.

9. Proposta de atividade prática: o jogo das decisões

Tema: atenção, funções executivas e resolução de problemas.

Público: crianças do ensino fundamental, com adaptações para outras faixas etárias.

Duração sugerida: de 30 a 45 minutos, ajustável conforme a turma.

Materiais: papelão, folhas reutilizadas, lápis de cor, marcadores e cartas confeccionadas pelos participantes.

Objetivos de aprendizagem

  • Identificar diferentes estratégias para resolver um problema.
  • Praticar a organização de informações e o acompanhamento de regras.
  • Criar oportunidades para planejar ações e considerar consequências.
  • Exercitar a comunicação, a cooperação e a revisão de decisões.
  • Desenvolver a capacidade de explicar o próprio raciocínio.
  • Integrar conhecimentos curriculares à criação de jogos.

Como preparar

Desenhe um percurso simples em um pedaço de papelão. Distribua casas numeradas e inclua algumas casas especiais. Em cada casa especial, o participante deverá retirar uma carta com um desafio.

Os desafios podem envolver perguntas matemáticas, observação de imagens, sequências, enigmas adequados à idade ou situações que exijam tomar uma decisão.

Exemplos de cartas:

Carta 1 - Observe: identifique três elementos diferentes que aparecem em uma imagem.

Carta 2 - Planeje: você tem três tarefas para concluir. Como organizaria a ordem e por quê?

Carta 3 - Resolva: encontre duas maneiras de solucionar um problema matemático.

Carta 4 - Reconsidere: uma estratégia não funcionou. Que outra possibilidade você pode tentar?

Carta 5 - Coopere: converse com outro participante e construam juntos uma solução.

Carta 6 - Explique: apresente seu raciocínio para o grupo.

Desenvolvimento

  1. Apresente o objetivo e explique as regras de maneira clara.
  2. Faça uma demonstração de uma rodada.
  3. Inicie a partida com um percurso curto.
  4. Observe como os participantes compreendem as instruções, acompanham as informações e resolvem os desafios.
  5. Incentive a explicação das estratégias sem exigir respostas imediatas.
  6. Ao final, converse com a turma sobre as diferentes soluções encontradas.

A atividade pode ser realizada individualmente, em duplas ou em pequenos grupos. Para ampliar a inclusão, as cartas podem apresentar imagens, instruções curtas ou diferentes formas de resposta.

Avaliação pedagógica

A avaliação deve considerar o processo, e não apenas o resultado final.

O professor pode observar se o estudante compreendeu as regras, conseguiu utilizar as informações disponíveis, explicou suas escolhas, considerou outras possibilidades e participou da resolução dos desafios.

Essas observações ajudam a planejar as próximas atividades, mas não constituem testes clínicos nem permitem diagnosticar dificuldades ou transtornos.

10. Como acompanhar o desenvolvimento sem transformar o jogo em cobrança

O acompanhamento pedagógico pode utilizar registros simples e objetivos.

Em vez de classificar a criança como desatenta, impulsiva ou desorganizada, é mais útil registrar o que aconteceu em determinada situação.

Por exemplo:

  • Precisou de apoio visual para recordar as regras.
  • Conseguiu explicar a estratégia utilizada.
  • Solicitou ajuda ao encontrar uma dificuldade.
  • Retomou a atividade depois de uma pausa.
  • Considerou uma alternativa após perceber que a primeira tentativa não funcionou.
  • Participou da elaboração de uma estratégia coletiva.

Essas observações permitem reconhecer avanços, identificar barreiras e ajustar as propostas.

Também é importante evitar comparações entre crianças. O desenvolvimento não ocorre de maneira idêntica para todos, e uma mesma pessoa pode apresentar desempenhos diferentes conforme o interesse, a complexidade da tarefa, o ambiente e as condições de participação.

11. Da brincadeira às habilidades para a vida

Aprender a planejar, organizar informações, considerar alternativas e avaliar consequências pode ser útil em muitas situações cotidianas.

Essas habilidades participam da realização de trabalhos escolares, da organização de materiais, da convivência em grupo, da resolução de conflitos e da execução de tarefas que exigem várias etapas.

Também são relevantes em diferentes campos profissionais. Planejamento, raciocínio, criatividade, comunicação, adaptação e resolução de problemas fazem parte de atividades relacionadas à ciência, à tecnologia, às artes, ao artesanato, à gestão, à educação e a muitos outros setores.

Isso não significa que uma criança que joga xadrez necessariamente terá melhor desempenho profissional ou que determinado jogo determine sua carreira futura. O valor educativo está nas oportunidades de experimentar estratégias, conhecer interesses e desenvolver repertórios que poderão ser utilizados em diferentes contextos.

Quando as crianças participam da criação de seus próprios jogos, podem ainda descobrir afinidades com desenho, construção, programação, escrita, matemática, design e outras áreas.

A brincadeira, nesse sentido, pode aproximar aprendizagem, criatividade e exploração de possibilidades, sem antecipar ou impor escolhas profissionais.

12. O compromisso do Brincadeira Sustentável com uma educação mais participativa

Uma educação que valoriza o desenvolvimento infantil precisa reconhecer que as crianças aprendem de diferentes maneiras e que a participação pode ser favorecida por experiências concretas, desafios adequados e relações respeitosas.

Os jogos de tabuleiro oferecem oportunidades para experimentar, errar, rever estratégias, negociar regras e construir conhecimentos com outras pessoas.

Quando associados à produção artesanal, ao reaproveitamento responsável de materiais e à integração entre áreas curriculares, tornam-se também recursos para discutir sustentabilidade, criatividade e responsabilidade coletiva.

Essa proposta não exige jogos caros nem equipamentos sofisticados. Muitas experiências podem começar com papel, lápis, papelão e ideias elaboradas pelas próprias crianças.

O essencial é que a atividade tenha propósito, seja adequada aos participantes e preserve o direito de brincar.

Conclusão: brincar para pensar, aprender e participar

A atenção, a memória de trabalho, o controle inibitório, a flexibilidade cognitiva e o planejamento são componentes importantes para a aprendizagem e para a organização do cotidiano. Seu desenvolvimento ocorre progressivamente e depende de múltiplas experiências e condições.

Os jogos de tabuleiro podem oferecer situações concretas para mobilizar essas habilidades, experimentar decisões, aprender regras, lidar com desafios e compartilhar estratégias.

No caso de estudantes com TDAH, podem constituir recursos pedagógicos complementares quando planejados de maneira flexível, inclusiva e respeitosa, sem substituir os cuidados e os apoios necessários.

Mais do que buscar uma promessa de melhora automática, devemos reconhecer o potencial educativo de uma brincadeira bem planejada: criar oportunidades para que cada criança participe, pense, investigue, construa soluções e descubra novas maneiras de aprender.

Brincar é mais do que passar o tempo. É uma oportunidade de experimentar o mundo, construir conhecimentos e desenvolver possibilidades para a vida.

Brincadeira Sustentável - brincar, aprender, criar e transformar.


A INFÂNCIA NA BEIRA DA PRAIA: CAIAQUE, PESCA DE SIRI E A APRENDIZAGEM DOS LIMITES DA NATUREZA

A infância encontra na natureza um espaço privilegiado de descoberta, experimentação e construção de conhecimentos. Na beira da praia, atividades aparentemente simples, como brincar de caiaque e pescar siri, podem proporcionar experiências educativas que envolvem observação, paciência, percepção espacial, coordenação motora, raciocínio e consciência ambiental.

Enquanto algumas crianças utilizavam o caiaque para brincar e explorar o ambiente marinho, outras se dedicavam à pesca de siri na beira da praia. Eram experiências diferentes, mas igualmente ricas em possibilidades de aprendizagem. Em uma delas, a criança precisava compreender o movimento da embarcação, a distância percorrida e o esforço necessário para se deslocar na água. Na outra, precisava observar, esperar e reconhecer os sinais da presença dos animais.

A pesca de siri exigia paciência. Não bastava lançar a isca e aguardar: era necessário observar o ambiente, perceber os movimentos e compreender que a captura não acontecia imediatamente. O tempo de espera fazia parte da atividade e ensinava que determinados resultados dependem de atenção, persistência e respeito ao ritmo da natureza.

Um momento especialmente significativo ocorreu quando a criança percebeu que o siri capturado era uma fêmea e identificou a presença de ovos. Por iniciativa própria, compreendeu que deveria devolvê-la à água. Essa decisão revela uma aprendizagem que ultrapassa a identificação de uma característica biológica. A criança observou, interpretou uma situação e transformou esse conhecimento em atitude. A experiência aproximou a observação da fauna de uma prática concreta de cuidado ambiental.

O uso do caiaque também proporcionou aprendizagens importantes. A criança precisou perceber que a distância percorrida no mar não corresponde necessariamente à mesma distância percorrida em terra. O deslocamento na água exige esforço físico diferente, equilíbrio, coordenação, atenção às condições ambientais e compreensão dos próprios limites. O tempo necessário para avançar, retornar ou alcançar determinado ponto depende de fatores como vento, ondas, correnteza e resistência física.

Essa percepção contribui para que a criança compreenda que o ambiente aquático possui características próprias e não deve ser tratado como uma simples extensão do espaço terrestre. O mar exige respeito, observação e responsabilidade. A exploração por caiaque, naturalmente, deve ocorrer com supervisão adulta, equipamentos adequados e atenção às condições de segurança, sem ultrapassar os limites definidos para a atividade.

As duas experiências permitem estabelecer relações entre diferentes campos do conhecimento. A observação dos siris aproxima a criança da biologia, da ecologia e dos ciclos de vida dos animais. A identificação dos ovos favorece a compreensão da reprodução e da continuidade das espécies. A pesca envolve noções de tempo, espera, movimento e causalidade. O caiaque permite explorar conceitos de distância, direção, velocidade, equilíbrio, força e deslocamento. A leitura do espaço costeiro também mobiliza conhecimentos de geografia e percepção ambiental.

Entretanto, a dimensão mais profunda dessas experiências não está apenas nos conteúdos que podem ser associados às atividades. Está na relação que a criança estabelece com o ambiente e na compreensão progressiva de que suas ações produzem consequências.

Há uma compreensão fundamental que atravessa toda essa experiência: a criança aprende a cuidar da natureza quando percebe que não é dona dela, mas parte dela.

Essa percepção se manifesta quando a criança aguarda pacientemente a captura de um siri, reconhece uma fêmea com ovos e decide devolvê-la à água ou compreende, durante a navegação de caiaque, que o mar possui forças, ritmos e limites que precisam ser respeitados.

São atitudes que revelam uma aprendizagem que não se limita à aquisição de habilidades. Trata-se da construção de uma consciência de pertencimento. A criança deixa de se relacionar com a natureza apenas como alguém que utiliza seus recursos e começa a reconhecer que suas próprias ações fazem parte de um sistema de relações do qual também depende.

Nessa perspectiva, sustentabilidade não começa somente quando ensinamos a preservar o ambiente. Começa quando desenvolvemos a compreensão de que pertencemos a ele e de que nossas escolhas interferem na continuidade da vida.

Não se trata apenas de ensinar a criança a respeitar a natureza, mas de proporcionar experiências nas quais ela descubra que também é natureza e que cuidar dela é, igualmente, aprender a cuidar das condições que tornam sua própria existência possível.

A Brincadeira Sustentável compreende o brincar como uma experiência de investigação, elaboração e construção de conhecimento. A praia, nesse contexto, não é apenas um cenário de recreação, mas um território educativo no qual a criança aprende por meio do corpo, dos sentidos, da observação e da interação com outras formas de vida.

Quando a experiência é acompanhada por uma mediação adulta atenta, capaz de ampliar as descobertas sem retirar da criança sua iniciativa, o cotidiano se transforma em oportunidade de aprendizagem interdisciplinar. A educação ambiental deixa de ser apenas um discurso sobre preservação e passa a integrar as atitudes, as escolhas e as relações estabelecidas durante o brincar.







terça-feira, 3 de novembro de 2026

DESCONTOS NO BENEFÍCIO DO INSS: UM TESTEMUNHO SOBRE INDIGNAÇÃO, EDUCAÇÃO FINANCEIRA E DEFESA DE DIREITOS


O empréstimo pode ter sido a porta de entrada para um desconto que passaria despercebido. Quando a cobrança começa junto com uma operação bancária, o beneficiário pode confundir sua origem e sequer perceber que está pagando por algo que não reconhece. Para quem não recebe contracheque físico, descobrir esse desconto pode ser ainda mais difícil.

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Antes de vir a público o escândalo dos descontos indevidos nos benefícios de aposentados e pensionistas do INSS, minha mãe percebeu que estava recebendo um valor diferente do esperado e me pediu para conferir o pagamento pela internet. Ao consultar seu contracheque, identifiquei um desconto associativo cuja origem ela não reconhecia. Minha mãe me disse que aquilo nunca havia acontecido antes de solicitar um empréstimo bancário. O desconto indevido começara justamente naquele período. Posteriormente, constatei que os descontos haviam ocorrido durante aproximadamente nove meses, o que tornou ainda mais importante esclarecer a origem das cobranças e solicitar a restituição dos valores.

A coincidência me causou indignação e levantou uma suspeita imediata: por que uma cobrança desconhecida começaria exatamente quando uma pessoa contratava um empréstimo? Pensei que a proximidade entre as duas operações poderia levar o beneficiário a acreditar que havia autorizado o desconto junto com o empréstimo, confundindo cobranças de naturezas distintas. Naquele momento, pensei: “Não acredito que arrumaram um jeito de tirar dinheiro dos aposentados.”

Eu ainda não tinha todas as respostas nem elementos suficientes para determinar como aquela cobrança havia sido autorizada. Tinha, porém, uma questão concreta diante de mim: minha mãe não reconhecia o desconto, afirmava que nunca havia passado por aquela situação antes e precisava entender por que seu benefício havia sido reduzido.

Assim que identifiquei o desconto, comecei a pesquisar na internet para verificar se outras pessoas relatavam situações semelhantes. Enviei um e-mail à entidade relacionada à cobrança, contestando o desconto e solicitando a devolução imediata do valor. Minha iniciativa foi motivada pela convicção de que aquela cobrança precisava ser esclarecida e pela necessidade de proteger o benefício de minha mãe.

Por precaução e indignação, procurei também um advogado próximo a mim. Ele sugeriu que a questão fosse levada diretamente à Justiça. Naquele momento, porém, decidi seguir primeiro os procedimentos administrativos disponíveis e solicitar a restituição dos valores. Queria registrar formalmente a contestação e buscar uma solução pelos canais apropriados antes de considerar outras medidas.

Ao continuar pesquisando no site do INSS, encontrei uma opção para registrar a reclamação sobre o desconto e solicitar a devolução dos valores. Essa descoberta me permitiu dar continuidade às providências administrativas para contestar a cobrança. Ao final do processo, o dinheiro foi devolvido. Essa restituição resolveu a questão financeira específica, embora não apagasse a preocupação e a indignação provocadas pelo episódio.

Somente depois de começar a encaminhar a questão conversei com minha mãe. Expliquei que havia identificado uma situação preocupante, que já estava tomando providências e que ela não precisava se preocupar naquele momento. Minha intenção era conduzir o assunto com responsabilidade, sem lhe causar uma angústia desnecessária.

Quando o escândalo veio a público, fiquei pasma com a quantidade de aposentados que passavam por situações semelhantes. Mais doloroso ainda era perceber que muitos sequer sabiam que havia cobranças em seus benefícios cuja origem não reconheciam. O que eu havia identificado no contracheque de minha mãe e tentado resolver individualmente fazia parte de um problema de proporções muito maiores.

Foi impossível não me indignar diante da possibilidade de que pessoas que trabalharam durante toda a vida estivessem perdendo parte de uma renda essencial sem compreender o motivo. A suspeita de que a proximidade entre a contratação de empréstimos e o início de determinadas cobranças pudesse gerar confusão tornou-se ainda mais inquietante diante da dimensão do caso. A existência de descontos não reconhecidos exigia esclarecimentos, apuração e, quando cabível, restituição dos valores.

A perversidade que enxerguei naquela situação estava na vulnerabilidade de quem poderia não perceber o desconto, não saber como contestá-lo ou sequer imaginar que precisava verificar o próprio contracheque. Minha indignação se dirigiu à possibilidade de que pessoas ou organizações tivessem se aproveitado dessa vulnerabilidade. A atribuição de responsabilidades, contudo, deve se apoiar nas provas e nas conclusões das apurações competentes. É justamente por se tratar de uma situação grave que a identificação dos responsáveis e a comprovação das condutas precisam ser conduzidas com rigor.

Para quem depende da aposentadoria, uma redução inesperada pode comprometer despesas essenciais, como alimentação, medicamentos e contas domésticas. Além do possível prejuízo financeiro, existe o desgaste de identificar a origem da cobrança, buscar orientação, registrar a reclamação e acompanhar o pedido de restituição. Não se trata apenas de valores descontados, mas também da tranquilidade, da autonomia e da segurança de pessoas que precisam confiar na regularidade de seus benefícios.

Este relato apresenta minha experiência pessoal e as providências que adotei diante de descontos que não reconhecíamos. A devolução dos valores foi o desfecho financeiro da minha contestação, mas não constitui, isoladamente, prova definitiva de fraude ou de responsabilidade criminal. A avaliação da regularidade das cobranças e a eventual responsabilização dos envolvidos dependem dos documentos e das apurações pertinentes. Relatar os fatos, preservar os registros e questionar cobranças desconhecidas são medidas importantes para buscar esclarecimentos e proteger direitos.

A aposentadoria é um direito construído ao longo de uma vida de trabalho e contribuição. Sua proteção exige transparência nos descontos, facilidade de acesso aos canais de reclamação e apuração adequada de possíveis irregularidades. Nenhum beneficiário deveria ter dificuldade para compreender por que seu pagamento foi reduzido ou para contestar uma cobrança que não reconhece.

Conferir regularmente o contracheque é também uma prática de educação financeira. Significa compreender os valores recebidos, identificar descontos, verificar sua origem e questionar cobranças que não foram reconhecidas ou cuja autorização não pode ser confirmada. Essa atenção contribui para a proteção da renda, para a tomada consciente de decisões e para o exercício dos direitos do beneficiário. A educação financeira, nesse contexto, não se limita ao planejamento de despesas: envolve informação, capacidade de análise e prevenção de prejuízos. Quando a renda é essencial para a subsistência, conhecer e acompanhar a movimentação do próprio benefício é uma forma de preservar a autonomia, a segurança financeira e a dignidade.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

ESTRUTURA ENERGÉTICA E DESENVOLVIMENTO: CRIAR NOVAS ESTRADAS PARA A GERAÇÃO DE RENDA


O desenvolvimento de uma sociedade exige mais do que políticas de assistência e transferência de recursos. Exige planejamento, infraestrutura, investimento e criação de oportunidades capazes de promover autonomia econômica e inclusão social.

A estrutura energética é parte fundamental desse processo. Energia confiável e acessível sustenta a produção, viabiliza pequenos negócios, fortalece a indústria, amplia o acesso à tecnologia e permite o desenvolvimento de novas atividades econômicas.

Criar novas estradas significa também abrir caminhos para o trabalho, o empreendedorismo, a qualificação profissional e a geração de renda. Significa investir em infraestrutura, inovação e condições para que pessoas e comunidades possam transformar suas habilidades em oportunidades reais.

A assistência social permanece essencial como instrumento de proteção e garantia de direitos, especialmente para quem enfrenta situações de vulnerabilidade. Entretanto, ela precisa dialogar com políticas estruturantes que ampliem as possibilidades de independência financeira.

O desafio não é apenas distribuir recursos, mas criar condições para produzir riqueza, desenvolver competências e fortalecer a economia local.

Desenvolvimento sustentável é construir caminhos para que as pessoas tenham oportunidades de participar da economia, gerar renda e conquistar autonomia. Não basta amparar: é preciso criar possibilidades.

Elmer, um elefante diferente de todos os outros, sonhava em ser igual à sua manada. Enquanto os demais eram cinzas, ele nasceu xadrez, colorido, alegre e único. e justamente por isso se sentia excluído.

Material: embalagem de amaciante, papel seda, cola







Elmer, o Elefante Xadrez, uma história sobre identidade, pertencimento e a beleza de ser quem somos.

Escrito por David McKee, o clássico infantil apresenta Elmer, um elefante diferente de todos os outros da manada. Enquanto os demais eram cinzas, Elmer nasceu xadrez, colorido, alegre e cheio de estampas e justamente por isso se sentia excluído.

Na tentativa de pertencer, Elmer decide esconder quem realmente é. Pinta-se de cinza para ficar igual aos outros elefantes. Mas, ao longo da história, descobre algo profundamente importante: sua diferença não era um problema. Era sua beleza.

A obra conversa profundamente com temas essenciais da infância e da educação humanizada:
• identidade;
• autoestima;
• pertencimento;
• diversidade;
• aceitação;
• empatia;
• respeito às diferenças.

Quantas vezes crianças e até adultos tentam apagar suas cores para serem aceitos?

Mais do que uma história infantil, Elmer nos lembra que o mundo não precisa de crianças moldadas para serem iguais. Precisa de crianças que possam florescer sendo autenticamente quem são.

A obra de David McKee nos ensina que educar também é mostrar:
que não precisamos nos encaixar para sermos amados;
que cada criança possui singularidades valiosas;
que pertencimento não exige apagar a própria essência;
e que ser único pode ser justamente aquilo que ilumina o mundo.

Na Pedagogia do Legado, histórias como a de Elmer ajudam a fortalecer vínculos, empatia, respeito e formação humana, mostrando às crianças que existir de forma autêntica é uma das maiores formas de coragem.

Porque ser diferente não diminui ninguém.
Às vezes, é exatamente o que faz alguém iluminar o mundo. 

Livro: Elmer, o Elefante Xadrez
Autor: David McKee


Renata Bravo

Educadora, escritora e pesquisadora em Formação Humana, Arte e Legado Cultural.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

EPISTEMOLOGIA DO BRINCAR E SUSTENTABILIDADE


Martin Heidegger, Frank Laubach, inclusão e tecnologia assistiva: transformar as condições de aprendizagem para ampliar as possibilidades humanas

A questão central da Brincadeira Sustentável não é apenas como transformar materiais, construir brinquedos ou desenvolver atividades educativas, mas investigar o que acontece quando a transformação da matéria se torna uma oportunidade de ampliar as possibilidades humanas de conhecer, criar, comunicar e participar. Essa questão permite estabelecer um diálogo interdisciplinar entre a filosofia de Martin Heidegger, a experiência alfabetizadora de Frank Laubach, a educação inclusiva e a tecnologia assistiva. Não se trata de atribuir aos dois pensadores uma teoria comum que historicamente não formularam, mas de construir uma interpretação autoral a partir de contribuições distintas, articuladas em torno de um problema educacional: como criar condições para que diferentes pessoas possam desenvolver suas capacidades e participar da produção do conhecimento?

Na filosofia de Heidegger, a existência humana não pode ser compreendida separadamente das relações que estabelecemos com o mundo. Essa perspectiva oferece um ponto de partida para investigar a aprendizagem como experiência situada, na qual as coisas adquirem significado nas relações que mantemos com elas. Um pedaço de papelão, por exemplo, pode ser embalagem, suporte de desenho, estrutura geométrica, elemento de uma narrativa ou componente de um brinquedo. A transformação não decorre apenas das propriedades físicas do material, mas também da maneira como alguém o percebe, interpreta e incorpora a um projeto. Na prática educativa, essa mudança de perspectiva permite compreender o fazer artístico como campo de investigação, no qual observar, imaginar, experimentar e modificar constituem operações do pensamento.

A contribuição de Frank Laubach desloca a discussão para o acesso ao conhecimento. Reconhecido por seu trabalho de alfabetização de adultos e pela difusão de práticas de aprendizagem compartilhada, Laubach permite investigar a alfabetização como ampliação das possibilidades de comunicação e participação social. A aproximação com Heidegger torna-se produtiva quando relacionamos a experiência humana no mundo à necessidade concreta de compreender e expressar esse mundo por meio da linguagem. Essa aproximação, contudo, é uma construção interpretativa da Brincadeira Sustentável, não uma influência direta comprovada entre os autores.

A linguagem não se limita à leitura de palavras impressas. Ela participa da organização do pensamento, da construção de narrativas, da comunicação de necessidades e da elaboração de conhecimentos. Na infância, experiências com imagens, objetos, sons, gestos, histórias e brincadeiras podem criar condições para o desenvolvimento da linguagem e do pensamento simbólico. Isso não significa confundir a educação infantil com a alfabetização formal, nem antecipar exigências escolares: significa reconhecer que as crianças constroem relações com a linguagem por diferentes experiências, respeitando seus tempos, suas características e seus direitos de aprendizagem. Na juventude e na vida adulta, essas experiências podem adquirir outras configurações, relacionadas à alfabetização, à formação cultural, à investigação, à qualificação técnica e à construção de projetos pessoais e profissionais.

É nesse ponto que a inclusão deixa de ser apenas uma questão de acesso físico à escola e passa a exigir uma análise das condições concretas de aprendizagem. Se uma atividade oferece somente uma maneira de executar uma tarefa, compreender uma instrução ou demonstrar conhecimento, determinadas pessoas podem encontrar barreiras que não decorrem necessariamente da ausência de capacidade, mas da inadequação das condições oferecidas. Uma criança que não consegue manipular uma ferramenta convencional pode participar de um projeto por meio de um instrumento adaptado, da seleção dos materiais, da organização das etapas ou da comunicação de suas decisões. A participação precisa ser planejada a partir das possibilidades e necessidades da pessoa, e não condicionada à reprodução de um padrão único de desempenho.

A tecnologia assistiva adquire, nesse contexto, uma função estratégica. Recursos de comunicação alternativa, engrossadores de lápis, suportes de posicionamento, bases antiderrapantes, ferramentas adaptadas e tecnologias digitais acessíveis podem ampliar as possibilidades de ação e expressão, desde que sejam adequados às necessidades de cada usuário e à atividade proposta. Seu valor educacional não está apenas na existência do recurso, mas na diferença que ele pode produzir nas condições de participação. A tecnologia assistiva não deve ser entendida como substituta da pessoa, nem como solução automática para todas as barreiras. Ela integra um processo que também exige planejamento pedagógico, acessibilidade dos ambientes, escuta, acompanhamento e avaliação.

A reflexão heideggeriana sobre a técnica oferece uma possibilidade adicional de questionamento. Sem transformar o filósofo em teórico da tecnologia assistiva, podemos utilizar suas interrogações sobre a técnica para examinar criticamente a maneira como organizamos os ambientes e as relações com os recursos. Uma ferramenta pode ampliar possibilidades, mas seu uso não garante, por si só, uma experiência inclusiva. É necessário perguntar se a organização da atividade permite escolhas, se a comunicação é acessível e se diferentes formas de participação são reconhecidas. A questão não é apenas disponibilizar tecnologia para que a pessoa se adapte a uma estrutura previamente estabelecida, mas investigar também como as estruturas, os materiais e as metodologias podem ser modificados para acolher diferentes maneiras de aprender e agir.

A arte oferece um campo concreto para essa investigação porque permite trabalhar com múltiplas linguagens, materiais e formas de expressão. Na construção de um brinquedo, por exemplo, podem estar envolvidos planejamento, coordenação motora, percepção espacial, geometria, resolução de problemas, linguagem e cooperação. Nem todos precisam realizar as mesmas ações para participar de uma produção coletiva. Uma pessoa pode recortar, outra pode organizar as formas, uma terceira pode selecionar os materiais, narrar a história do objeto ou utilizar um recurso de comunicação para orientar decisões. O objetivo pedagógico não é eliminar as diferenças, mas criar condições para que elas não se convertam em impedimentos desnecessários à participação.

Essa abordagem também permite aproximar arte, sustentabilidade e formação profissional sem reduzir a experiência artística a uma finalidade utilitária. O contato com materiais reutilizáveis selecionados e higienizados pode desenvolver conhecimentos sobre propriedades físicas, resistência, proporção, composição, estrutura e acabamento. A experimentação pode evoluir para procedimentos mais complexos, documentação do processo, planejamento de produção e aprendizagem de técnicas artesanais. Na infância, predomina a exploração lúdica e expressiva; na juventude, podem ser ampliadas a autoria, a pesquisa e a elaboração de projetos; na vida adulta, determinadas experiências podem contribuir para a formação técnica, o aperfeiçoamento de habilidades e a construção de percursos profissionais. Essa progressão não é automática nem obrigatória: depende das escolhas individuais, das oportunidades educativas e das condições de acesso.

A proposta da Brincadeira Sustentável consiste em investigar como a articulação entre experiência artística, aprendizagem participativa, acessibilidade e transformação de materiais pode produzir oportunidades educativas mais amplas. Para que essa proposta ultrapasse o campo conceitual, suas práticas precisam ser planejadas e documentadas. O educador pode observar quais escolhas o participante realiza, quais estratégias utiliza, como comunica suas intenções, que barreiras encontra e quais adaptações favorecem sua participação. Esses registros permitem analisar o processo, rever metodologias e identificar mudanças observáveis, sem reduzir a aprendizagem a uma medida única ou desconsiderar a singularidade de cada pessoa.

A originalidade dessa articulação não depende de afirmar que Heidegger, Laubach, a inclusão e a tecnologia assistiva constituem uma teoria já existente. Ela está na formulação de um problema comum a partir de campos diferentes: a relação entre as possibilidades humanas, o acesso ao conhecimento e as condições materiais, culturais e pedagógicas que favorecem a participação. Heidegger contribui para interrogar a existência e nossa relação com o mundo; Laubach oferece referências históricas para pensar a democratização da alfabetização e a aprendizagem compartilhada; a educação inclusiva questiona as barreiras à participação; e a tecnologia assistiva oferece recursos e estratégias que podem ampliar a autonomia e a comunicação. A arte e o brincar constituem, na proposta da Brincadeira Sustentável, um território de experimentação no qual essas questões podem ser investigadas.

Dessa articulação emerge uma tese: a sustentabilidade educativa também depende da capacidade de construir ambientes, metodologias e recursos que preservem e ampliem as possibilidades humanas de aprender, criar, comunicar e participar. O reaproveitamento de materiais torna-se uma dimensão dessa proposta, mas não sua finalidade exclusiva. O que se busca transformar não é somente a matéria descartada, e sim a relação entre conhecimento, experiência, acessibilidade e participação social.

Desde 2013, a Brincadeira Sustentável desenvolve uma identidade ligada à transformação de materiais, à educação ambiental e à criação de brinquedos e atividades educativas. A ampliação dessa trajetória por meio da epistemologia do brincar significa reconhecer que o fazer pode ser também uma forma de investigar, compreender e produzir conhecimento. Quando uma atividade admite diferentes maneiras de participar, quando um recurso torna possível comunicar uma ideia antes inacessível ou quando a arte oferece a alguém um caminho para desenvolver uma habilidade, a transformação ultrapassa o objeto e alcança as condições da experiência humana.

Você pega uma coisa e transforma em outra. Não é apenas reciclagem. É arte. E, quando essa arte amplia as possibilidades de aprender, criar, comunicar e participar, ela também se torna uma prática de educação, acessibilidade e sustentabilidade humana.

BARREIRAS ATITUDINAIS E CAPACITISMO: RESPEITO ÀS DIFERENÇAS NA PRÁTICA


A inclusão não depende apenas de rampas, materiais adaptados, tecnologias assistivas ou profissionais de apoio. Também exige a identificação e a transformação das barreiras atitudinais, presentes em comportamentos, decisões, expectativas e práticas que dificultam ou impedem a participação das pessoas com deficiência. Uma escola pode possuir estrutura física acessível e, ainda assim, excluir quando presume que determinado estudante não é capaz de aprender, participar de uma brincadeira, realizar uma tarefa ou desenvolver autonomia.

O capacitismo é a discriminação ou o preconceito contra pessoas com deficiência, fundamentado na ideia de que determinados corpos, formas de comunicação, ritmos de aprendizagem ou modos de participação seriam inferiores ou menos legítimos. Pode aparecer de maneira explícita, por meio de ofensas e recusas, ou de forma sutil, em atitudes que parecem protetoras, mas limitam oportunidades. Falar exclusivamente com o acompanhante, ignorar a opinião da criança, infantilizar estudantes mais velhos, decidir por eles sem necessidade ou tratar uma adaptação como favor são exemplos de práticas que precisam ser revistas.

O diagnóstico não define a totalidade de uma criança. Uma criança autista não pode ser compreendida apenas pelas características associadas ao autismo; uma criança surda não deve ser considerada incapaz de participar por não ouvir; uma criança que utiliza cadeira de rodas não deve ser automaticamente afastada de jogos que envolvam movimento. Cada estudante possui interesses, habilidades, necessidades, formas de comunicação e ritmos próprios. A avaliação pedagógica deve partir da observação individual e das condições oferecidas, e não de suposições baseadas em diagnósticos.

Na Educação Infantil, essas barreiras podem surgir quando uma criança é sistematicamente excluída de atividades coletivas, recebe tarefas menos desafiadoras sem justificativa pedagógica, não tem acesso às instruções em uma forma que compreenda ou permanece apenas como espectadora enquanto os demais brincam. Também aparecem quando a escola atribui toda dificuldade à deficiência, sem verificar se o espaço, os materiais, as regras, a comunicação e a mediação estão adequados.

A mudança começa com atitudes concretas. Em uma atividade artística, por exemplo, é possível oferecer materiais com diferentes tamanhos, texturas e formas de preensão, organizar o espaço para facilitar o acesso e permitir diferentes maneiras de expressar uma ideia. Em uma brincadeira coletiva, as regras podem ser ajustadas para que todos tenham uma função significativa. Uma criança pode participar apontando, utilizando Libras, comunicando-se por imagens, manipulando objetos, escolhendo alternativas ou contando com uma tecnologia assistiva. O objetivo não é exigir que todas realizem a mesma ação da mesma maneira, mas criar condições para que todas possam participar, aprender e demonstrar suas capacidades.

É igualmente importante distinguir apoio de superproteção. Oferecer ajuda não significa fazer tudo pela criança. Quando um adulto antecipa todas as necessidades, impede tentativas ou toma decisões sem permitir escolhas, pode reduzir as oportunidades de desenvolver autonomia. O apoio deve ser proporcional à necessidade, respeitar a segurança e favorecer a participação progressiva. Sempre que possível, é necessário perguntar à própria criança como prefere participar, respeitando sua idade, sua forma de comunicação e suas possibilidades de expressão.

As perguntas infantis sobre diferenças físicas, sensoriais ou de comunicação também podem ser oportunidades educativas. Em vez de constranger a criança que demonstra curiosidade, o adulto pode explicar as diferenças com linguagem adequada à idade, corrigir expressões ofensivas e ensinar formas respeitosas de interação. É possível dizer, por exemplo, que algumas pessoas se comunicam por Libras, outras utilizam imagens ou dispositivos, e que cada pessoa pode precisar de recursos diferentes para participar. O importante é não transformar a deficiência em motivo de ridicularização, medo ou exclusão.

Também é necessário evitar dois extremos: tratar a pessoa com deficiência como objeto de pena ou apresentá-la como heroína simplesmente por realizar atividades cotidianas. Essas abordagens, embora possam parecer positivas, deslocam a atenção dos direitos, das escolhas e da participação real da pessoa. O respeito não depende de considerar alguém extraordinário, mas de reconhecer sua dignidade, sua individualidade e seu direito de integrar a vida escolar, cultural, esportiva e comunitária.

A responsabilidade pela inclusão não pode ser transferida integralmente às famílias. Pais e responsáveis contribuem com informações importantes sobre as necessidades, preferências e formas de comunicação da criança, mas cabe às instituições educacionais identificar barreiras, planejar estratégias pedagógicas acessíveis e buscar os recursos necessários, em articulação com os serviços competentes. Quando uma adaptação não funciona, a resposta deve ser a avaliação de alternativas, e não a exclusão automática do estudante.

Na Brincadeira Sustentável, essa reflexão também orienta a criação de brinquedos, jogos e atividades com materiais reutilizados. A transformação de um objeto em recurso educativo deve considerar não apenas a criatividade e a sustentabilidade, mas também a segurança, a acessibilidade e as diferentes formas de participação. Materiais podem ser selecionados, organizados e adaptados para facilitar a exploração, a comunicação, a escolha e a interação. A reutilização, porém, precisa respeitar critérios de higiene, resistência, ausência de partes perigosas e adequação à faixa etária. Um recurso só cumpre plenamente sua função educativa quando pode ser utilizado de maneira segura e significativa pelo público a que se destina.

A legislação brasileira reconhece a igualdade de direitos e a necessidade de eliminar barreiras. A Constituição Federal de 1988 estabelece a igualdade perante a lei e prevê direitos relacionados à educação. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, incorporada ao ordenamento brasileiro pelo Decreto nº 6.949/2009, reforça os princípios de dignidade, autonomia, não discriminação, participação e acessibilidade. A Lei Brasileira de Inclusão - Lei nº 13.146/2015 - define formas de discriminação em razão da deficiência e estabelece medidas para assegurar o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais em condições de igualdade.

Referências legais e institucionais:

  • Constituição da República Federativa do Brasil de 1988: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
  • Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência - Decreto nº 6.949/2009: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm
  • Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência - Lei nº 13.146/2015: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm

Combater o capacitismo exige observar não apenas o que dizemos, mas também as oportunidades que oferecemos, as decisões que tomamos e as barreiras que mantemos. A inclusão se concretiza quando a criança deixa de ser apenas matriculada ou tolerada e passa a ser reconhecida como participante do processo educativo, com direito à comunicação, à aprendizagem, à convivência, à brincadeira e ao desenvolvimento de sua autonomia. Respeitar as diferenças é transformar atitudes e práticas para que a participação seja efetiva, e não apenas declarada.

FAMÍLIA, ESCOLA E PODER PÚBLICO: UMA RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA


1. A inclusão não pode depender de uma família isolada

A inclusão educacional exige planejamento, recursos, acessibilidade e compromisso institucional. Embora a família desempenhe um papel importante no desenvolvimento da criança, a garantia dos direitos educacionais não pode depender exclusivamente de sua capacidade de buscar informações, conhecer a legislação, contratar profissionais ou insistir repetidamente para que as necessidades do estudante sejam reconhecidas.

Muitas famílias precisam conciliar trabalho, cuidados cotidianos, consultas, terapias, reuniões escolares e solicitações administrativas. Quando encontram barreiras sucessivas para conseguir matrícula, atendimento, recursos de acessibilidade ou apoio pedagógico, acabam assumindo tarefas que deveriam ser compartilhadas pelos serviços responsáveis. Essa situação pode ampliar desigualdades, pois nem todas as famílias dispõem do mesmo tempo, dos mesmos recursos financeiros ou do mesmo acesso à informação.

Uma política de inclusão efetiva reconhece a família como parceira, mas não transfere a ela a responsabilidade institucional pela escolarização. O direito da criança deve ser respeitado independentemente da capacidade de seus responsáveis para reivindicá-lo.

2. O papel da família: participação e colaboração

A família conhece aspectos importantes da história, das preferências, da comunicação e das necessidades cotidianas da criança. Essas informações podem ajudar a escola a compreender comportamentos, identificar estratégias que favorecem a participação e organizar experiências pedagógicas mais adequadas.

A participação familiar pode ocorrer por meio de reuniões, compartilhamento de informações relevantes, acompanhamento do percurso escolar e diálogo sobre as dificuldades encontradas. Entretanto, colaborar não significa substituir o professor, elaborar sozinha o planejamento pedagógico ou providenciar todos os recursos necessários à inclusão.

Também é importante reconhecer que as famílias possuem diferentes condições de participação. Horários de trabalho, dificuldades de transporte, responsabilidades com outros filhos e limitações financeiras podem dificultar a presença frequente na escola. A instituição precisa buscar formas acessíveis de comunicação e evitar interpretar automaticamente a ausência em reuniões como falta de interesse pela educação da criança.

3. A responsabilidade pedagógica da escola

A escola é responsável por organizar o ensino, planejar as atividades, acompanhar a aprendizagem e promover condições de participação para os estudantes. Quando uma criança encontra barreiras, cabe à instituição analisar as situações observadas, identificar necessidades educacionais e adotar medidas pertinentes de acessibilidade e apoio.

Isso inclui examinar se as instruções são compreensíveis, se os materiais podem ser utilizados, se as avaliações permitem demonstrar conhecimentos e se os espaços possibilitam circulação e participação. Também envolve considerar as necessidades de comunicação, o atendimento educacional especializado e os profissionais de apoio previstos na legislação, conforme a situação concreta.

A presença da criança na sala de aula não é suficiente para caracterizar uma inclusão efetiva. Se ela permanece sem compreender as atividades, sem conseguir se comunicar ou sem acesso aos recursos necessários, a instituição precisa rever sua organização. A inclusão deve ser observada na prática cotidiana, nas oportunidades de aprender, na convivência e no desenvolvimento da autonomia.

4. Professor, gestão escolar e profissionais de apoio

A inclusão envolve diferentes funções, que precisam atuar de maneira complementar. O professor é responsável pelo ensino e pelo planejamento pedagógico. A gestão escolar organiza as condições institucionais, acompanha as necessidades identificadas e articula os recursos disponíveis. O atendimento educacional especializado atua conforme suas atribuições, e o profissional de apoio escolar desempenha as funções previstas para essa atividade, de acordo com as necessidades do estudante e a legislação aplicável.

Essas funções não devem ser confundidas ou utilizadas para transferir responsabilidades. O profissional de apoio não substitui o professor, assim como o atendimento educacional especializado não elimina a necessidade de acessibilidade nas atividades comuns da escola.

Quando há falta de profissionais, a gestão precisa registrar as necessidades, organizar medidas possíveis e buscar os encaminhamentos administrativos pertinentes. A ausência de pessoal não deve ser tratada como uma justificativa permanente para deixar o estudante sem os apoios de que necessita ou impedir sua participação nas atividades escolares.

5. O papel do poder público

O poder público possui responsabilidades na organização e na oferta dos serviços educacionais, conforme as competências de cada esfera administrativa. Isso envolve planejamento de pessoal, formação profissional, infraestrutura acessível, disponibilização de recursos e acompanhamento das políticas de educação inclusiva.

Quando a rede pública não dispõe de profissionais suficientes, a gestão precisa avaliar alternativas legais para atender às necessidades identificadas. Isso pode envolver concursos públicos, processos seletivos, formação continuada, reorganização das equipes e contratação de serviços especializados quando juridicamente cabível. A escolha do instrumento administrativo deve respeitar as normas aplicáveis e garantir a qualidade do atendimento.

A insuficiência de recursos não deve ser naturalizada como se fosse responsabilidade da criança ou da família. É necessário identificar as necessidades, estabelecer prioridades, planejar investimentos e acompanhar a efetividade das medidas adotadas. A inclusão depende de decisões administrativas concretas, e não apenas de declarações de compromisso.

6. Quando a família precisa reivindicar direitos

Conhecer os direitos educacionais pode ajudar os responsáveis a compreender quais providências solicitar quando a escola não oferece as condições necessárias. O primeiro passo costuma ser registrar a situação de forma objetiva, descrevendo as barreiras observadas e solicitando uma reunião com a gestão escolar para discutir medidas e prazos.

Quando o problema não é resolvido, a família pode procurar a secretaria de educação responsável pela instituição e utilizar os canais oficiais de atendimento ou ouvidoria. É útil guardar protocolos, mensagens, relatórios pedagógicos e respostas recebidas, respeitando a privacidade da criança e de outras pessoas envolvidas.

Dependendo da situação, também pode ser possível buscar orientação junto à Defensoria Pública, ao Ministério Público ou a órgãos de defesa dos direitos da pessoa com deficiência. O caminho adequado depende da natureza do problema e das normas aplicáveis. Nem toda dificuldade exige imediatamente uma medida judicial, mas toda barreira persistente merece uma resposta institucional fundamentada.

O objetivo do registro não deve ser transformar a relação entre família e escola em um conflito permanente. Deve ser permitir que o problema seja compreendido, que as responsabilidades sejam identificadas e que as medidas necessárias possam ser acompanhadas.

7. Acesso à informação e linguagem compreensível

As famílias precisam receber informações claras sobre o funcionamento da escola, os recursos disponíveis, os procedimentos para solicitar apoio e os critérios utilizados nas decisões pedagógicas. Documentos excessivamente técnicos, orientações contraditórias ou respostas genéricas dificultam o acompanhamento dos direitos e podem aumentar a insegurança dos responsáveis.

A instituição deve explicar quais medidas foram adotadas, quais necessidades ainda precisam ser atendidas e quais providências estão previstas. Quando houver limitações administrativas, elas devem ser apresentadas com transparência, sem transferir à família a obrigação de encontrar, contratar ou financiar a solução.

A comunicação acessível também é importante para famílias com deficiência, responsáveis surdos, pessoas com baixa alfabetização ou pessoas que necessitam de recursos específicos para compreender documentos e orientações. A participação da família depende de condições reais de acesso à informação.

8. Respeitar a criança e proteger sua privacidade

A colaboração entre família, escola e poder público deve ter como referência o bem-estar, os direitos e o desenvolvimento da criança. Informações sobre diagnóstico, tratamentos, dificuldades de aprendizagem e vida familiar precisam ser compartilhadas apenas quando forem pertinentes e com os cuidados necessários de privacidade.

A criança não deve ser exposta publicamente para justificar a falta de recursos ou utilizada como exemplo de incapacidade. Também não deve ser responsabilizada por dificuldades institucionais que estão fora de seu controle. O diálogo precisa preservar sua dignidade e reconhecer suas habilidades, interesses, necessidades e possibilidades de desenvolvimento.

É importante incluir a própria criança nas escolhas que consegue compreender, respeitando sua idade e suas formas de comunicação. Ouvir suas preferências e observar suas respostas contribui para construir práticas que não sejam definidas exclusivamente pela conveniência dos adultos.

9. Responsabilidade compartilhada não significa responsabilidade diluída

A expressão “responsabilidade compartilhada” não deve ser utilizada para afirmar que todos são responsáveis por tudo e, por isso, ninguém responde concretamente pelas falhas. Cada parte possui atribuições específicas: a família contribui com informações e acompanha a vida escolar; a escola organiza o ensino e as condições de participação; os órgãos gestores administram a rede e providenciam os recursos de sua competência; os serviços especializados atuam dentro de suas funções.

A cooperação funciona quando essas responsabilidades estão claras, os canais de comunicação são acessíveis e as providências podem ser acompanhadas. Se uma barreira persiste, é necessário identificar quem possui competência para resolvê-la e qual encaminhamento deve ser realizado.

A inclusão não pode depender da boa vontade de um profissional específico ou da insistência permanente de uma família. Precisa integrar a organização institucional, o planejamento pedagógico e as políticas públicas.

10. Fundamentos legais do direito à inclusão

A Constituição Federal de 1988 estabelece a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, com colaboração da sociedade, e prevê garantias relacionadas ao atendimento educacional especializado. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) contém disposições sobre a educação especial. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) estabelece direitos relativos ao sistema educacional inclusivo, à acessibilidade e à eliminação de barreiras. A Lei nº 12.764/2012 dispõe sobre a proteção dos direitos das pessoas com Transtorno do Espectro Autista.

Essas normas devem ser aplicadas considerando as necessidades concretas dos estudantes e as atribuições legais de cada instituição. O direito à educação não se limita ao ingresso na escola: envolve acesso ao currículo, participação, aprendizagem e condições adequadas para o desenvolvimento.

Referências legais

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - Lei nº 9.394/1996: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm

Lei Brasileira de Inclusão - Lei nº 13.146/2015: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm

Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista - Lei nº 12.764/2012: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm

Considerações finais

A inclusão educacional exige colaboração, mas também clareza de responsabilidades. A família não deve enfrentar sozinha a falta de acessibilidade, a ausência de profissionais ou as dificuldades administrativas que impedem a participação da criança. A escola precisa planejar o ensino e organizar os apoios necessários; o poder público deve estruturar os serviços e cumprir suas atribuições legais.

Quando cada parte atua de forma responsável, a criança encontra melhores condições para aprender, desenvolver autonomia, brincar e conviver. O direito à educação inclusiva não deve depender do tempo, do dinheiro ou da capacidade de argumentação de seus responsáveis. Deve ser reconhecido e concretizado por meio de práticas, recursos e decisões institucionais que assegurem a participação de todos os estudantes.

TECNOLOGIA ASSISTIVA E COMUNICAÇÃO ALTERNATIVA NA EDUCAÇÃO INFANTIL


1. Tecnologia assistiva: recursos para ampliar a participação

A tecnologia assistiva reúne produtos, recursos, estratégias, metodologias e serviços que contribuem para ampliar a funcionalidade, a autonomia, a comunicação e a participação de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Na Educação Infantil, esses recursos podem favorecer o acesso às brincadeiras, às atividades pedagógicas, à convivência e às experiências cotidianas. Sua utilização deve partir das necessidades da criança e das barreiras identificadas no ambiente, não apenas de seu diagnóstico.

Nem toda tecnologia assistiva depende de equipamentos eletrônicos ou de alto custo. Pranchas de comunicação, cartões ilustrados, objetos de referência, materiais com adaptações para facilitar a preensão, suportes de posicionamento e recursos digitais acessíveis podem cumprir funções importantes. A escolha precisa considerar a finalidade do recurso, a segurança, a facilidade de utilização e a possibilidade de a criança participar com maior autonomia.

O objetivo não é substituir a interação humana por equipamentos, mas ampliar as oportunidades de comunicação, aprendizagem e participação. A tecnologia assistiva deve integrar o planejamento pedagógico e ser avaliada continuamente para verificar se realmente atende às necessidades do estudante.

2. Comunicação alternativa e aumentativa

A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) abrange recursos e estratégias utilizados para complementar ou oferecer outras possibilidades de comunicação quando a fala não é suficiente ou não está disponível para expressar as necessidades, ideias, escolhas e conhecimentos de uma pessoa. Pode incluir gestos, expressões, objetos, fotografias, símbolos, pranchas de comunicação, aplicativos e dispositivos específicos.

Uma criança que ainda não utiliza a fala para se comunicar pode apontar uma imagem para escolher uma brincadeira, utilizar símbolos para solicitar ajuda ou combinar diferentes recursos para expressar uma mensagem. Outra pode falar em determinadas situações e recorrer à comunicação alternativa quando está cansada, ansiosa ou diante de uma atividade que exige maior esforço comunicativo.

A comunicação alternativa não deve ser entendida como desistência do desenvolvimento da fala. Quando apropriada, pode ampliar as possibilidades de expressão enquanto a criança desenvolve suas formas de comunicação. A seleção dos recursos deve considerar suas necessidades individuais, preferencialmente com orientação de profissionais habilitados e participação da família e da equipe educacional.

3. A criança precisa ter meios para expressar escolhas

A comunicação não se resume a responder perguntas ou repetir palavras. Ela também permite recusar, negociar, demonstrar interesse, pedir ajuda, informar desconforto e participar das decisões que afetam a própria rotina. Na Educação Infantil, essas possibilidades são fundamentais para a construção da autonomia.

Durante uma atividade artística, por exemplo, a criança pode escolher entre tintas, papéis ou materiais diferentes por meio da fala, de gestos, de imagens ou de um dispositivo de comunicação. Durante uma brincadeira coletiva, pode indicar que deseja participar, solicitar uma peça ou informar que precisa de uma pausa.

O educador deve reconhecer essas formas de expressão e oferecer tempo suficiente para que a criança responda. Não é adequado presumir falta de compreensão apenas porque ela não responde oralmente. Também é importante observar se os recursos de comunicação estão disponíveis nos momentos em que são necessários, e não guardados ou utilizados apenas em atividades específicas.

4. Pranchas, cartões e recursos visuais

Pranchas e cartões de comunicação podem organizar símbolos relacionados às atividades cotidianas, como brincar, beber água, ir ao banheiro, escolher materiais, pedir ajuda, demonstrar desconforto ou solicitar uma pausa. A organização deve considerar o vocabulário necessário à criança e as situações em que ela precisa se comunicar.

Os recursos podem ser impressos, plastificados ou disponibilizados em outros formatos acessíveis. Entretanto, não basta colocar imagens à disposição: os adultos precisam aprender a utilizá-las, modelar a comunicação e reconhecer as respostas da criança. Se o estudante aponta um símbolo para expressar uma escolha, sua mensagem deve ser considerada e respondida de maneira significativa.

Os símbolos precisam ser compreensíveis para o usuário, e a prancha deve permitir ampliar o repertório comunicativo. Um conjunto muito limitado, com apenas pedidos básicos, pode restringir a possibilidade de expressar ideias, opiniões, sentimentos e experiências. A comunicação deve acompanhar o desenvolvimento da criança e suas necessidades em diferentes ambientes.

5. Recursos digitais e dispositivos de comunicação

Aplicativos e dispositivos eletrônicos podem oferecer sistemas de comunicação com símbolos, palavras, frases e recursos de voz sintetizada. Para algumas crianças, esses instrumentos ampliam a capacidade de iniciar conversas, fazer perguntas e participar de atividades escolares. Para outras, recursos não digitais podem ser mais adequados ou funcionar melhor em conjunto com a tecnologia.

A escolha não deve ser guiada apenas pela novidade ou pelo preço do equipamento. É necessário verificar se a interface é acessível, se a criança consegue selecionar os elementos, se o vocabulário corresponde às suas necessidades e se o recurso pode ser utilizado nos ambientes em que ela vive e aprende. Também é importante considerar manutenção, disponibilidade de energia, proteção do dispositivo e alternativas para quando o equipamento não estiver acessível.

A tecnologia não deve ficar restrita a momentos supervisionados em que a criança precisa responder às perguntas dos adultos. Seu uso precisa favorecer a comunicação espontânea e a participação em situações reais. Quando a criança utiliza um sistema de comunicação, as pessoas ao seu redor também precisam aprender a respeitá-lo e incorporá-lo às interações cotidianas.

6. Tecnologia assistiva e estudantes surdos

Para estudantes surdos, os recursos de acessibilidade podem incluir materiais visuais, legendas, ferramentas digitais, sistemas de alerta visual e tecnologias que apoiem a comunicação. Quando o estudante utiliza Libras, é necessário garantir condições de acesso a essa língua e considerar os recursos linguísticos adequados às atividades.

A escolha do recurso depende da pessoa e da situação. Uma imagem ou legenda pode complementar uma informação, mas não substitui automaticamente a Libras para quem necessita dessa língua. Da mesma forma, aparelhos auditivos e implantes cocleares, quando utilizados, não eliminam necessariamente todas as barreiras de comunicação e não substituem a necessidade de acessibilidade.

O planejamento deve respeitar a forma de comunicação do estudante e garantir que informações importantes sejam compreendidas. Isso inclui instruções pedagógicas, combinados, atividades coletivas, procedimentos de segurança e oportunidades de interação com os colegas.

7. Materiais acessíveis e criação pedagógica

A tecnologia assistiva também pode envolver adaptações simples que facilitem a interação com materiais e atividades. Bases antiderrapantes, suportes para posicionar objetos, peças maiores, alças adaptadas e materiais com contraste visual podem favorecer a participação de algumas crianças. A adequação precisa ser avaliada individualmente, considerando a função do recurso e os riscos envolvidos.

Na Brincadeira Sustentável, materiais reutilizáveis podem inspirar a construção de recursos pedagógicos de baixo custo, como painéis de rotina, quadros de escolha e organizadores visuais. Caixas de papelão e outros materiais seguros podem ajudar a organizar espaços e tornar a sequência de atividades mais compreensível. Entretanto, esses recursos artesanais não devem ser apresentados como substitutos universais de equipamentos especializados ou de avaliações profissionais quando necessários.

É indispensável verificar a estabilidade, a resistência, a higiene e a segurança dos materiais. Peças pequenas, bordas cortantes, componentes soltos e materiais inadequados à idade devem ser evitados. Recursos que envolvam posicionamento corporal, mobilidade ou funções clínicas específicas exigem atenção adicional e, quando pertinente, orientação profissional.

A criatividade permite desenvolver soluções, mas a acessibilidade exige que elas sejam funcionais, seguras e adequadas à criança que irá utilizá-las.

8. O papel dos adultos e da equipe escolar

A disponibilidade de um recurso não garante, sozinha, que a criança consiga utilizá-lo. Professores, profissionais de apoio e demais integrantes da equipe precisam compreender sua finalidade e incorporá-lo às atividades. Quando uma criança utiliza comunicação alternativa, por exemplo, os adultos devem oferecer oportunidades para que ela se expresse, respeitar suas respostas e evitar falar continuamente em seu lugar.

A família pode compartilhar informações sobre os recursos utilizados em casa e sobre as formas de comunicação que funcionam melhor. Profissionais especializados podem contribuir com orientações dentro de suas atribuições. A escola deve organizar o uso pedagógico dos recursos, acompanhar os resultados e identificar barreiras que ainda precisam ser superadas.

A responsabilidade não deve recair exclusivamente sobre um único profissional. A comunicação e a acessibilidade precisam estar presentes nas diferentes situações escolares, inclusive no recreio, nas refeições, nas atividades externas e nas interações espontâneas.

9. Autonomia, privacidade e respeito

A tecnologia assistiva deve ampliar a autonomia, e não transformar a criança em objeto de observação constante. É importante respeitar suas escolhas, seu ritmo de resposta, sua privacidade e sua possibilidade de recusar uma atividade. Os recursos de comunicação devem permitir que ela participe de decisões, e não servir apenas para que os adultos controlem seu comportamento.

Também é necessário preservar os dados pessoais quando forem utilizados aplicativos, dispositivos conectados ou registros digitais. A escola e a família devem considerar quais informações são coletadas, quem pode acessá-las e se o compartilhamento é realmente necessário.

O êxito de um recurso não deve ser medido apenas pela rapidez com que a criança responde ou pela conveniência que oferece aos adultos. O principal critério é se ele amplia a comunicação, o acesso ao conhecimento, a participação e a autonomia.

10. Direitos e acesso aos recursos de tecnologia assistiva

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) reconhece a importância da acessibilidade, da tecnologia assistiva e dos recursos necessários à participação social. A legislação também estabelece garantias relacionadas à educação inclusiva. A Lei nº 12.764/2012 dispõe sobre a proteção dos direitos das pessoas com Transtorno do Espectro Autista.

A implementação dos recursos depende das necessidades individuais, das responsabilidades dos serviços envolvidos e das normas aplicáveis. A escola deve identificar barreiras educacionais e adotar as medidas de acessibilidade pertinentes. Quando determinado recurso exige avaliação ou fornecimento por outro serviço, a articulação deve ocorrer sem que a criança seja excluída das atividades que já podem ser tornadas acessíveis.

Referências legais e pedagógicas

Lei Brasileira de Inclusão - Lei nº 13.146/2015: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm

Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista - Lei nº 12.764/2012: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm

Lei de Libras - Lei nº 10.436/2002: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10436.htm

Base Nacional Comum Curricular (BNCC): https://basenacionalcomum.mec.gov.br/

Considerações finais

A tecnologia assistiva e a comunicação alternativa ampliam as possibilidades de participação quando são escolhidas a partir das necessidades da criança e incorporadas às experiências cotidianas. Não se trata apenas de disponibilizar equipamentos, cartões ou imagens, mas de assegurar que o estudante tenha meios para compreender, expressar ideias, fazer escolhas, estabelecer relações e construir conhecimentos.

Na Educação Infantil, recursos simples, tecnologias digitais e adaptações pedagógicas podem contribuir para tornar as atividades mais acessíveis. Na Brincadeira Sustentável, a transformação de materiais pode integrar esse trabalho quando houver planejamento, segurança e finalidade educativa. O princípio central permanece: a criança precisa ter oportunidades reais de comunicação, aprendizagem e autonomia, com os apoios adequados às suas necessidades.

BRINCADEIRAS INCLUSIVAS: ADAPTAR MATERIAIS, REGRAS E ESPAÇOS


1. Brincar é um direito e uma experiência de aprendizagem

A brincadeira é uma experiência fundamental da infância. Por meio dela, a criança explora o ambiente, experimenta possibilidades, desenvolve habilidades motoras, constrói conhecimentos, estabelece relações e aprende a lidar com desafios. Na Educação Infantil, brincar não é apenas um intervalo entre atividades consideradas importantes: constitui uma dimensão essencial do desenvolvimento e da aprendizagem.

Entretanto, nem todas as crianças encontram as mesmas condições para participar das brincadeiras oferecidas. Barreiras físicas, sensoriais, comunicacionais, cognitivas e atitudinais podem impedir ou limitar o envolvimento de crianças com deficiência, autismo ou outras necessidades específicas. Por isso, planejar brincadeiras inclusivas exige observar quem consegue participar, quais obstáculos aparecem e o que pode ser modificado para ampliar o acesso e a autonomia.

A inclusão não consiste em colocar todas as crianças no mesmo espaço e esperar que participem espontaneamente. Consiste em organizar experiências nas quais cada uma tenha oportunidades reais de explorar, escolher, interagir e aprender.

2. Adaptar não significa eliminar o desafio

Uma adaptação pedagógica modifica as condições de acesso à atividade sem necessariamente retirar seu objetivo de aprendizagem. Uma criança que encontra dificuldade para segurar determinado objeto pode utilizar uma peça maior ou com melhor empunhadura. Outra pode precisar de instruções visuais para compreender a sequência de um jogo. Em ambos os casos, o desafio pode ser mantido, desde que a adaptação permita a participação.

É importante evitar dois extremos: exigir que a criança execute a atividade exatamente como os colegas, mesmo diante de barreiras significativas, ou retirar dela qualquer possibilidade de desafio por presumir que não conseguirá realizar a tarefa. A proposta inclusiva considera as habilidades já desenvolvidas e oferece oportunidades para avançar com os apoios necessários.

O educador deve observar o resultado da adaptação. Se a criança continua sem conseguir participar, talvez seja necessário modificar novamente o material, a regra, o espaço ou a forma de orientação. A inclusão é um processo de planejamento, experimentação e revisão.

3. Materiais acessíveis: forma, tamanho, textura e função

Os materiais influenciam diretamente as possibilidades de participação. Objetos muito pequenos podem ser difíceis de segurar; peças de baixo contraste podem dificultar a identificação visual; determinados sons e texturas podem causar desconforto a algumas crianças. Outros estudantes podem necessitar de materiais mais leves, resistentes ou fáceis de manipular.

O planejamento deve considerar a finalidade da atividade e as características dos participantes. Peças maiores, bases antiderrapantes, recipientes estáveis, figuras com bom contraste e objetos com funções claramente identificáveis podem facilitar determinadas tarefas. A escolha não deve ser feita exclusivamente a partir do diagnóstico, mas da observação das necessidades concretas de cada criança.

Na Brincadeira Sustentável, materiais reutilizáveis podem ser transformados em recursos pedagógicos. Caixas de papelão, rolos de papel, tecidos e embalagens podem servir para construir jogos de classificação, cenários, pistas, painéis e estruturas de encaixe. É indispensável selecionar materiais limpos, íntegros e adequados à idade, excluindo peças cortantes, objetos pequenos com risco de ingestão, materiais contaminados ou componentes que possam causar alergias. A reutilização responsável deve caminhar junto com a segurança.

4. Regras flexíveis para ampliar a participação

As regras organizam a brincadeira, mas podem precisar de adaptações para que todas as crianças compreendam o que devem fazer e tenham condições de participar. Em um jogo de arremesso, por exemplo, a distância pode ser ajustada, o alvo pode ser ampliado ou o participante pode escolher entre diferentes objetos. Em uma brincadeira de percurso, podem ser oferecidas alternativas de deslocamento ou formas distintas de cumprir determinadas etapas.

Essas mudanças não devem ser confundidas com ausência de regras. É possível preservar o objetivo da atividade e, ao mesmo tempo, oferecer caminhos diferentes para alcançá-lo. O educador precisa identificar quais elementos são essenciais para a aprendizagem pretendida e quais podem ser flexibilizados sem comprometer a proposta.

Também é importante que as adaptações não sejam apresentadas como privilégios concedidos a uma criança. Quando possível, diferentes opções podem ser oferecidas a todo o grupo, permitindo que cada participante escolha o recurso mais adequado. Essa organização favorece a autonomia e reduz a exposição desnecessária das diferenças individuais.

5. Espaços organizados para a autonomia

A organização do espaço pode facilitar ou impedir a participação. Corredores estreitos, objetos espalhados, mesas inadequadas, obstáculos no chão e materiais guardados fora do alcance podem dificultar a circulação e a autonomia. Ambientes muito ruidosos ou visualmente carregados também podem ser desconfortáveis para algumas crianças.

Antes de iniciar uma brincadeira, o educador pode verificar se há espaço suficiente para movimentação, se os materiais estão acessíveis e se as crianças conseguem identificar os diferentes pontos da atividade. Uma organização previsível, com áreas delimitadas e materiais identificados, pode facilitar a compreensão da rotina e a participação.

Isso não significa manter todos os espaços rígidos ou sem estímulos. Significa considerar as necessidades do grupo e evitar barreiras desnecessárias. O ambiente deve permitir exploração, movimento, segurança e convivência, com adaptações quando necessárias.

6. Comunicação acessível durante a brincadeira

Para participar, a criança precisa compreender as orientações, as regras, os combinados e as mudanças que ocorrem durante a atividade. Quando as instruções são transmitidas exclusivamente pela fala, estudantes surdos ou crianças que utilizam outras formas de comunicação podem perder informações importantes.

Demonstrações práticas, cartões ilustrados, sequências visuais, gestos, objetos de referência e comunicação alternativa podem ajudar a tornar as propostas mais compreensíveis. Quando o estudante utiliza Libras ou necessita de outro recurso específico, a escola deve assegurar os meios de comunicação pertinentes.

O educador também precisa permitir que a criança expresse escolhas, peça ajuda, recuse uma experiência desconfortável e indique quando deseja interromper ou modificar uma atividade. Comunicação inclusiva não é apenas transmitir instruções: é garantir que o participante também possa se expressar e ser compreendido.

7. Brincadeiras cooperativas e convivência

As brincadeiras cooperativas podem ampliar as oportunidades de participação porque o resultado depende da contribuição de diferentes participantes, e não apenas de quem corre mais rápido, escreve primeiro ou executa uma tarefa com maior velocidade. Construir uma estrutura coletiva, completar um percurso em equipe, organizar uma história ou solucionar um desafio conjunto são exemplos de propostas que podem oferecer diferentes funções às crianças.

Para que a cooperação seja efetiva, o educador deve evitar que uma criança seja sempre colocada em uma função secundária ou que os colegas façam todas as tarefas por ela. A participação precisa ter significado: cada criança deve ter oportunidades de tomar decisões, experimentar, contribuir e desenvolver habilidades.

Também é importante ensinar o grupo a respeitar diferentes formas de comunicação, movimento e interação. A convivência inclusiva não depende apenas de adaptações físicas. Exige atitudes que reconheçam as diferenças sem ridicularizar, infantilizar ou excluir quem participa de outra maneira.

8. Exemplos práticos de adaptação

Uma brincadeira de classificação pode utilizar objetos grandes, figuras ou cartões com contraste adequado, permitindo que a criança organize os materiais por cor, forma, tamanho ou função. A forma de responder pode variar conforme o objetivo: apontar, selecionar, entregar, agrupar ou nomear.

Em um jogo de memória, o número de pares, o tamanho das cartas, o contraste visual e o tempo disponível podem ser ajustados. Para uma criança que necessita de apoio na compreensão das regras, o professor pode demonstrar uma rodada antes de iniciar. A adaptação deve preservar a habilidade que se pretende observar.

Em uma construção coletiva, caixas e rolos de papel podem ser utilizados para criar uma cidade, uma ponte ou um cenário. As crianças podem escolher materiais, planejar estruturas, testar soluções e colaborar em etapas diferentes. O professor pode disponibilizar alternativas de manipulação e comunicação, garantindo que cada participante tenha uma contribuição real.

Em uma brincadeira de percurso, o trajeto pode apresentar diferentes opções de deslocamento, pontos de parada e sinais visuais. A finalidade não deve ser comparar a velocidade das crianças, mas proporcionar experiências adequadas de exploração, orientação espacial, tomada de decisão ou cooperação, conforme o objetivo definido.

9. Observar para planejar melhor

A avaliação das brincadeiras inclusivas acontece durante a própria experiência. O educador pode observar se a criança compreendeu as instruções, conseguiu utilizar os materiais, fez escolhas, interagiu com os colegas, pediu ajuda e demonstrou interesse em continuar. Também deve identificar momentos em que surgiram barreiras e verificar se as adaptações foram suficientes.

Esses registros ajudam a planejar as próximas propostas. Se um material não permite uma manipulação funcional, pode ser substituído. Se as regras são difíceis de compreender, podem ser demonstradas visualmente. Se o ambiente provoca desconforto, sua organização pode ser revista. O importante é que as observações orientem mudanças concretas, em vez de se transformarem em rótulos sobre a capacidade da criança.

A família e os profissionais que acompanham o estudante podem contribuir com informações relevantes, respeitando a privacidade e as atribuições de cada área. A responsabilidade pelo planejamento pedagógico, porém, permanece com a instituição educacional e seus profissionais.

10. O direito de participar e aprender

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) estabelece garantias relacionadas à acessibilidade, à educação inclusiva, ao esporte e ao lazer. A Base Nacional Comum Curricular reconhece as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes das práticas pedagógicas na Educação Infantil. Esses princípios reforçam a importância de organizar experiências nas quais as crianças possam participar, explorar, conviver e aprender.

A aplicação desses direitos exige planejamento. Disponibilizar um brinquedo não garante que ele seja acessível, assim como permitir a presença da criança não assegura sua participação. É necessário analisar os materiais, as regras, os espaços e as atitudes que podem funcionar como barreiras.

Referências legais e pedagógicas

Lei Brasileira de Inclusão - Lei nº 13.146/2015: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm

Base Nacional Comum Curricular (BNCC): https://basenacionalcomum.mec.gov.br/

Desenho Universal para a Aprendizagem - CAST: https://udlguidelines.cast.org/

Considerações finais

Brincadeiras inclusivas são planejadas a partir do reconhecimento de que as crianças apresentam diferentes formas de perceber, comunicar, movimentar-se e aprender. Adaptar materiais, flexibilizar regras, organizar espaços acessíveis e oferecer meios de comunicação adequados amplia as possibilidades de participação sem eliminar os desafios necessários ao desenvolvimento.

Na Brincadeira Sustentável, a transformação de materiais pode ampliar as experiências educativas e criativas, desde que a segurança e a acessibilidade sejam consideradas desde o planejamento. O objetivo não é criar uma brincadeira separada para cada criança, mas construir experiências compartilhadas nas quais todas tenham oportunidades reais de participar, aprender e desenvolver autonomia.

Percepção multissensorial e criatividade

Introdução Desde a infância, percebo o mundo de maneira predominantemente multissensorial. Letras, números, formas, cores, objetos e configu...