Literatura, arte, movimento, materiais, acessibilidade e relações humanas
O Soldadinho de Chumbo, de Hans Christian Andersen, apresenta um personagem marcado por sua condição particular, por sua permanência diante das adversidades e por uma trajetória atravessada por deslocamentos, encontros, riscos e transformações. A narrativa permite aproximar literatura, arte, movimento, equilíbrio, materiais, expressão corporal, relações humanas, acessibilidade e sustentabilidade em uma experiência interdisciplinar.
Na perspectiva da Brincadeira Sustentável, a obra não é utilizada apenas como tema para uma atividade, mas como ponto de partida para investigação. O personagem conduz perguntas sobre corpo, movimento, estabilidade, trajetória e participação; os materiais tornam-se objetos de pesquisa; a construção tridimensional transforma ideias em formas; e a narrativa amplia a discussão sobre diferença, coragem, cooperação e convivência.
OBJETIVO GERAL
Desenvolver uma experiência interdisciplinar a partir de O Soldadinho de Chumbo, articulando literatura, arte, ciência, movimento, equilíbrio, materiais, expressão corporal, acessibilidade, sustentabilidade e relações humanas.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Compreender a estrutura narrativa e identificar personagens, acontecimentos e conflitos.
Observar como características, ações e circunstâncias participam da construção de um personagem.
Investigar equilíbrio, movimento, estabilidade e trajetória.
Observar propriedades físicas de diferentes materiais.
Desenvolver expressão corporal, artística e tridimensional.
Experimentar processos de construção, teste e modificação.
Desenvolver criatividade e estratégias de resolução de problemas.
Refletir sobre diferenças, respeito, convivência e participação.
Compreender acessibilidade como possibilidade de remoção de barreiras e ampliação da participação.
Desenvolver cooperação e comunicação.
Utilizar materiais reutilizados de forma segura e criativa.
Registrar hipóteses, processos, descobertas e resultados.
1. QUEM É O SOLDADINHO?
Após a leitura da narrativa, as crianças identificam características do personagem, ambientes, acontecimentos e principais desafios encontrados ao longo da história.
A investigação pode ser organizada a partir de quatro perguntas:
Quem é? Onde está? O que deseja? Que obstáculos encontra? Como reage?
A proposta desloca a atenção da simples descrição do personagem para a compreensão de como suas características e ações interferem na narrativa.
Produto: ficha de investigação do personagem.
Avaliação: compreensão da narrativa e capacidade de relacionar características, acontecimentos, ações e conflitos.
2. UM SOLDADO PRECISA FICAR PARADO?
A atividade parte da representação tradicional de um soldado e contrasta essa imagem com o movimento presente na narrativa.
As crianças experimentam diferentes posições corporais: parado, equilibrado, inclinado, sentado, apoiado e em deslocamento. Depois observam quais posições exigem maior controle corporal e quais estratégias favorecem a estabilidade.
A investigação permite perceber que permanecer imóvel também envolve organização corporal, equilíbrio e controle do movimento.
Produto: registro ilustrado das posições experimentadas.
Avaliação: percepção corporal, equilíbrio, observação e capacidade de descrever diferenças entre as posições.
3. LABORATÓRIO DO EQUILÍBRIO
Utilizando objetos seguros, as crianças investigam como diferentes formas de apoio interferem na estabilidade.
Podem ser utilizados blocos, pequenas caixas, rolos de papelão e outros materiais previamente selecionados.
A pergunta investigativa será:
O que faz um objeto permanecer de pé?
As crianças formulam hipóteses, realizam experiências e comparam os resultados.
Produto: experiências de equilíbrio e registro das hipóteses.
Avaliação: capacidade de observar, formular hipóteses, testar possibilidades e comparar resultados.
4. CONSTRUINDO UM SOLDADINHO
Cada criança ou grupo constrói um personagem tridimensional utilizando materiais reutilizados.
Podem ser utilizados tubos de papel, papelão, tampas, tecidos, papéis e outros materiais previamente selecionados e higienizados.
O objetivo não é reproduzir uma ilustração específica, mas interpretar o personagem por meio da construção tridimensional.
A construção exige planejamento: quais materiais serão utilizados? Como serão unidos? Como o personagem permanecerá em pé? Quais elementos representarão suas características?
Produto: personagem tridimensional.
Avaliação: planejamento, segurança, criatividade, uso dos materiais, estabilidade e capacidade de explicar as escolhas realizadas.
5. O QUE É UM MATERIAL?
Os materiais utilizados na construção tornam-se objeto de investigação.
As crianças observam:
peso;
textura;
flexibilidade;
rigidez;
resistência;
forma;
possibilidade de transformação.
Em seguida, relacionam as propriedades observadas à função atribuída a cada material.
Produto: tabela “Material e função”.
Avaliação: capacidade de observar propriedades, estabelecer relações e justificar escolhas.
6. MOVIMENTO E TRAJETÓRIA
A trajetória do personagem é transformada em um grande circuito.
As crianças criam caminhos com obstáculos, passagens, pontes, curvas e mudanças de direção. O personagem precisa percorrer o percurso estabelecido.
A atividade permite trabalhar orientação espacial, planejamento, movimento, sequência e resolução de problemas.
Produto: circuito narrativo.
Avaliação: planejamento, orientação espacial, cooperação e capacidade de solucionar problemas.
7. A ÁGUA COMO TERRITÓRIO
Os deslocamentos do personagem pela narrativa permitem investigar ambientes aquáticos.
O grupo pesquisa:
rios;
mares;
água doce e salgada;
animais aquáticos;
plantas;
poluição;
conservação;
importância da água para os seres vivos.
A água deixa de ser apenas elemento narrativo e passa a ser compreendida como território, ambiente e sistema de relações.
Produto: painel “A Vida na Água”.
Avaliação: compreensão da importância da água e das relações entre ambiente e seres vivos.
8. BARCO DE MATERIAIS REUTILIZADOS
As crianças constroem pequenas embarcações utilizando materiais reutilizados.
Antes do teste, cada grupo formula uma hipótese:
Esse barco flutuará? Por quê?
Depois, realiza o experimento em recipiente apropriado, com acompanhamento e procedimentos de segurança.
Os resultados são comparados às hipóteses iniciais.
Produto: embarcação experimental e registro do processo.
Avaliação: capacidade de formular hipóteses, experimentar, observar, registrar e comparar resultados.
9. ARTE EM MINIATURA
A narrativa permite investigar cenografia, figurino, composição espacial e teatro de objetos.
As crianças constroem pequenos ambientes utilizando caixas, papelão, tubos, papéis, tecidos e outros materiais.
Cada cenário deve representar uma situação ou espaço relacionado à narrativa.
Produto: cenário em miniatura.
Avaliação: composição visual, criatividade, organização espacial e relação entre cenário e narrativa.
10. O SOLDADINHO E A DIFERENÇA
A condição particular do personagem possibilita discutir diferenças corporais, modos diversos de participação e formas de enfrentar obstáculos.
A discussão deve evitar a associação automática entre diferença e incapacidade ou transformar o personagem em objeto de pena.
A questão central será:
Uma característica diferente muda o valor de uma pessoa?
A turma pode investigar como pessoas utilizam diferentes estratégias, ferramentas, recursos e formas de participação para realizar determinadas atividades.
Produto: painel “Cada pessoa tem seu jeito de participar”.
Avaliação: respeito às diferenças, capacidade de argumentação e compreensão de participação e convivência.
11. ACESSIBILIDADE NO BRINCAR
A turma observa os espaços utilizados durante as próprias atividades.
Existem obstáculos?
Todos conseguem participar?
O que poderia ser modificado?
A partir dessas perguntas, as crianças identificam barreiras e propõem adaptações.
Podem construir uma maquete de um espaço acessível, considerando circulação, passagem, altura, alcance, organização e diferentes formas de utilização.
Produto: projeto ou maquete de espaço acessível.
Avaliação: identificação de barreiras e capacidade de propor soluções que ampliem a participação.
12. TRANSFORMAÇÃO DE MATERIAIS
A atividade retoma um dos princípios da Brincadeira Sustentável: a transformação do material como processo criativo e educativo.
Materiais previamente selecionados, higienizados e considerados adequados ao uso pedagógico podem adquirir novas funções.
Uma embalagem pode tornar-se cenário; um tubo pode transformar-se em personagem; uma caixa pode tornar-se barco ou casa; um retalho pode transformar-se em figurino.
O material deixa de ser compreendido apenas por sua função original e passa a ser investigado por suas possibilidades de transformação.
Produto: conjunto cenográfico e objetos construídos.
Avaliação: criatividade, segurança, funcionalidade, aproveitamento e capacidade de justificar as transformações realizadas.
13. RELAÇÕES HUMANAS — CORAGEM E COOPERAÇÃO
A narrativa permite discutir situações de dificuldade e diferentes formas de enfrentamento.
As crianças identificam momentos em que os personagens encontram obstáculos e discutem:
O que significa coragem?
É possível ser corajoso e pedir ajuda?
Quando trabalhar em grupo facilita uma tarefa?
Como podemos ajudar sem fazer tudo pelo outro?
A proposta amplia a compreensão de coragem, afastando-a da ideia de ausência de medo ou de autossuficiência.
Produto: painel coletivo “Coragem também é pedir ajuda”.
Avaliação: participação, escuta, argumentação, cooperação e compreensão das relações de ajuda.
14. GRANDE JOGO — A JORNADA DO SOLDADINHO
A narrativa transforma-se em um percurso investigativo de desafios.
Estação 1 — A História: organizar acontecimentos da narrativa.
Estação 2 — O Equilíbrio: realizar um desafio de estabilidade.
Estação 3 — O Material: identificar propriedades de diferentes objetos.
Estação 4 — A Água: solucionar um desafio relacionado aos ambientes aquáticos.
Estação 5 — O Barco: construir e testar uma pequena embarcação.
Estação 6 — O Caminho: percorrer um circuito.
Estação 7 — Acessibilidade: identificar e solucionar uma barreira.
Estação 8 — A Arte: construir um elemento cenográfico.
Cada equipe recebe um Passaporte do Soldadinho, no qual registra hipóteses, descobertas, dificuldades e soluções.
O Grande Jogo transforma a leitura em experiência investigativa e coletiva.
Avaliação: participação, cooperação, investigação, resolução de problemas, criatividade e qualidade dos registros.
15. DOCUMENTAÇÃO PEDAGÓGICA
O processo deve ser documentado desde a primeira hipótese até a apresentação final.
Podem ser utilizados:
desenhos;
fotografias;
fichas;
tabelas;
mapas;
registros científicos;
construções;
relatos;
observações;
autoavaliações;
registros do Grande Jogo.
A documentação não registra apenas o resultado final. Ela permite acompanhar modificações de pensamento, hipóteses, erros, descobertas, decisões e transformações ocorridas durante o processo.
AVALIAÇÃO GERAL
A avaliação será processual e formativa, considerando diferentes dimensões da experiência.
Literatura: compreensão da narrativa, personagens, acontecimentos e conflitos.
Ciência: observação, formulação de hipóteses, experimentação e análise.
Arte: criação, composição, construção e expressão.
Movimento: equilíbrio, trajetória, orientação espacial e percepção corporal.
Sustentabilidade: seleção, transformação, reutilização e ressignificação dos materiais.
Relações humanas: cooperação, respeito às diferenças, comunicação e participação.
Acessibilidade: identificação de barreiras e criação de soluções para ampliar a participação.
RESULTADOS ESPERADOS
Espera-se que as crianças desenvolvam compreensão literária, capacidade investigativa, percepção de movimento e equilíbrio, criatividade, domínio inicial de procedimentos experimentais, consciência sobre as propriedades e possibilidades dos materiais, respeito às diferenças, compreensão da acessibilidade e capacidade de trabalhar coletivamente.
CULMINÂNCIA — O MUNDO DO SOLDADINHO
A culminância poderá apresentar uma instalação composta pelos personagens, barcos, cenários, circuitos, experimentos e registros produzidos pelas crianças.
A exposição deverá apresentar também o percurso de aprendizagem, evidenciando hipóteses iniciais, experiências, erros, modificações e resultados.
Cada grupo poderá apresentar seu processo a partir de perguntas como:
O que construímos?
O que descobrimos?
O que não funcionou?
O que modificamos?
O que aprendemos sobre materiais, movimento e convivência?
O que podemos deixar para o próximo grupo?
A última pergunta introduz a dimensão do legado, compreendido como transmissão de conhecimentos, experiências e possibilidades para aqueles que continuarão o percurso.
METODOLOGIA
Ler → observar → perguntar → formular hipóteses → experimentar → construir → testar → modificar → cooperar → registrar → avaliar → compartilhar → legar.
Na perspectiva da Brincadeira Sustentável, O Soldadinho de Chumbo, de Hans Christian Andersen, transforma-se em uma experiência interdisciplinar na qual literatura, ciência, arte, movimento, acessibilidade e sustentabilidade se encontram.
O personagem conduz a investigação sobre equilíbrio e trajetória; os objetos tornam-se matéria de pesquisa e criação; os materiais reutilizados tornam-se linguagem; o espaço transforma-se em campo de experimentação; e a diferença é compreendida a partir da participação, da adaptação e da convivência.
A narrativa, portanto, não termina na leitura. Ela continua naquilo que a criança observa, constrói, experimenta, modifica, compartilha e transmite.
Observar. Construir. Experimentar. Adaptar. Cooperar. Transformar. Legar.

