Malba Tahan: quando Matemática, Gramática e Literatura se encontram
Novas didáticas, novas pedagogias, novas metodologias. Foi também esse desejo de transformar a maneira de ensinar que motivou a grande produção literária de Malba Tahan, pseudônimo do professor e escritor brasileiro Júlio César de Mello e Souza. Sua obra, sem dúvida, merece um espaço ainda maior nos cursos de Licenciatura em Matemática, na formação continuada de professores e, principalmente, nas práticas pedagógicas da Educação Básica.
Quando pensamos em Malba Tahan, pensamos imediatamente em Matemática. Mas sua obra nos convida a ir além. Talvez uma de suas maiores riquezas esteja justamente na possibilidade de aproximar três áreas que muitas vezes aparecem separadas na escola: Matemática, Gramática e Literatura.
Antes de resolver um problema matemático, o aluno precisa ler. Antes de calcular, precisa compreender. Antes de apresentar uma resposta, precisa organizar seu pensamento e utilizar a linguagem para explicar o caminho percorrido. Nesse sentido, um problema matemático começa muito antes da operação: começa na interpretação.
Palavras como “metade”, “dobro”, “triplo”, “diferença”, “soma”, “terça parte”, “restante”, “total” e “proporção” fazem parte da linguagem e carregam conceitos matemáticos. Por isso, ensinar Matemática também significa ensinar a ler, interpretar, estabelecer relações, argumentar e escrever.
É justamente nesse ponto que a obra de Malba Tahan se torna tão atual.
Em O Homem que Calculava, encontramos Beremiz Samir, personagem que percorre diferentes lugares solucionando problemas por meio da observação, da lógica, da criatividade e do raciocínio. Beremiz não é simplesmente alguém que sabe fazer contas. Ele pensa matematicamente. E essa diferença é fundamental.
A Matemática, em suas histórias, aparece inserida em situações concretas: na divisão de bens, nas proporções, nas medidas, nos negócios, nos jogos, nas relações humanas e nos desafios do cotidiano. O leitor acompanha uma narrativa e, quase sem perceber, começa a fazer Matemática.
Um dos episódios mais conhecidos é o problema dos 35 camelos. Um homem deixa como herança 35 camelos para seus três filhos, determinando que o primeiro receberia a metade, o segundo a terça parte e o terceiro a nona parte. O problema parece simples, mas surge uma dificuldade: como dividir 35 camelos dessa maneira?
Beremiz propõe acrescentar temporariamente um camelo. Assim, passam a ser considerados 36 camelos. A partir daí, a divisão se torna possível: metade de 36 corresponde a 18; a terça parte corresponde a 12; e a nona parte corresponde a 4. Somando, temos 18 + 12 + 4 = 34 camelos.
Mas a beleza do problema está justamente na investigação que ele provoca.
Por que foi necessário acrescentar um camelo? O que aconteceria se não fosse acrescentado? Por que as frações propostas não completam exatamente um inteiro?
Ao somarmos as três partes, temos:
1/2 + 1/3 + 1/9 = 17/18.
Portanto, falta 1/18 para completar a unidade.
Uma situação aparentemente simples transforma-se, então, em uma oportunidade para trabalhar frações, equivalência, divisão, proporção, interpretação e raciocínio lógico. Mais do que isso: permite mostrar ao estudante que a Matemática não está apenas na resposta final, mas principalmente no caminho utilizado para chegar até ela.
E é justamente nesse caminho que a Gramática e a Literatura entram.
Imagine levar esse problema para uma sala de aula e pedir aos estudantes que primeiro leiam a história, identifiquem os personagens, localizem as informações importantes e expliquem, com suas próprias palavras, o que está sendo solicitado. Depois, podem destacar as palavras que indicam quantidade, divisão e proporção. Podem observar como o texto foi construído, quais expressões são essenciais para compreender a situação e como uma simples palavra pode alterar completamente o significado de um problema.
Em seguida, podem representar a situação por meio de desenhos, esquemas ou tabelas, criar hipóteses, realizar os cálculos e, finalmente, escrever uma explicação sobre como chegaram à solução.
Temos aí uma experiência em que Literatura, Gramática e Matemática caminham juntas.
A Literatura cria a narrativa e desperta a curiosidade. A Gramática ajuda o estudante a compreender e organizar a linguagem. A Matemática transforma as informações em relações, estratégias, cálculos e argumentos.
Essa perspectiva pode contribuir significativamente para minimizar uma das grandes dificuldades encontradas na aprendizagem matemática: a interpretação de problemas.
Quantas vezes encontramos estudantes que sabem realizar uma operação, mas não sabem identificar qual operação utilizar? Sabem dividir, mas não compreendem a situação de divisão? Conhecem fórmulas, mas têm dificuldade para transformar um texto em uma representação matemática?
Talvez uma das respostas esteja justamente em aproximar mais a Matemática da leitura.
Matemática também é linguagem.
O estudante precisa compreender o que lê, selecionar informações, estabelecer relações, formular hipóteses, testar estratégias e explicar seu pensamento. Não basta chegar ao resultado. É preciso saber dizer por que aquele resultado faz sentido.
Por isso, uma atividade inspirada em Malba Tahan pode ir muito além da resolução de um exercício. Depois de solucionar o problema dos camelos, por exemplo, os alunos podem ser convidados a escrever uma pequena narrativa matemática, criar outro problema envolvendo uma divisão de bens ou modificar os números da situação original e investigar o que aconteceria.
Podem ainda criar uma ilustração para a história, representar os personagens, elaborar uma tabela com as quantidades ou transformar o problema em uma pequena dramatização.
Nesse momento, a aula deixa de ser apenas uma aula de Matemática.
É Literatura, porque existe narrativa.
É Gramática, porque existe leitura, interpretação e produção textual.
É Matemática, porque existe raciocínio, cálculo e resolução de problemas.
E é também criatividade, comunicação e investigação.
Talvez seja essa uma das grandes contribuições de Malba Tahan para a Educação Matemática. Ele nos mostra que resolver um problema não significa simplesmente escolher uma fórmula e substituí-la por números. Resolver um problema é compreender uma situação, fazer perguntas, estabelecer relações, testar possibilidades e construir uma solução.
O professor pode começar a aula contando uma história, apresentando um personagem ou propondo um desafio. Em vez de escrever imediatamente uma fórmula no quadro, pode perguntar: “O que vocês fariam no lugar de Beremiz?”
A partir daí, diferentes caminhos podem surgir. Alguns estudantes desenharão, outros farão cálculos, outros buscarão uma solução mentalmente. Um grupo poderá chegar a uma estratégia diferente de outro. E o professor poderá perguntar: “Como vocês sabem que essa solução está correta?”
Essa pergunta é poderosa porque desloca o estudante da posição de quem apenas responde para a posição de quem precisa argumentar matematicamente.
A obra de Malba Tahan também oferece uma importante contribuição para a formação de professores. Sua leitura pode provocar reflexões sobre como ensinar frações, proporções, medidas, lógica e resolução de problemas de maneira mais significativa. Pode ajudar o futuro professor a perceber que ensinar Matemática não é apenas dominar conteúdos, mas também encontrar caminhos para que esses conteúdos façam sentido para quem aprende.
Por isso, penso que a obra de Malba Tahan deveria ser mais explorada nos cursos de Licenciatura em Matemática e nas formações continuadas. Não apenas como literatura complementar, mas como possibilidade de reflexão sobre a própria prática docente.
Sua obra nos convida a pensar em uma práxis docente na qual professor e estudante estão permanentemente aprendendo. Uma prática em que a leitura pode anteceder o cálculo, a pergunta pode anteceder a fórmula e a curiosidade pode anteceder a explicação.
Estudar Malba Tahan também nos coloca diante do universo da pesquisa. Ao investigar sua trajetória, suas obras e suas propostas para o ensino, começamos a compreender que pesquisar exige curiosidade, organização, leitura, comparação de fontes, reflexão e construção de perguntas. A pesquisa, assim como a Matemática, nasce muitas vezes de uma inquietação.
E talvez seja exatamente essa inquietação que precisamos recuperar na escola.
Não apresentar a Matemática como um conjunto de fórmulas decoradas, mas como uma forma de compreender o mundo.
Não apresentar o problema apenas como uma obrigação escolar, mas como um desafio.
Não ensinar somente a resposta, mas valorizar o percurso.
Não perguntar apenas “qual é o resultado?”, mas também:
“Como você pensou?”
“Por que escolheu esse caminho?”
“Você consegue explicar?”
“Existe outra maneira de resolver?”
Nesse sentido, O Homem que Calculava continua sendo uma obra extraordinariamente fértil para a Educação.
Beremiz nos mostra que os números estão presentes nas escolhas, nas divisões, nas medidas, nas proporções, nos jogos e nas situações do cotidiano. Mas também nos mostra que, por trás de cada cálculo, existe uma história e, por trás de cada história, existe uma linguagem que precisa ser compreendida.
É por isso que considero tão potente pensar em Matemática + Gramática + Literatura.
A Literatura dá contexto e desperta a imaginação. A Gramática organiza a compreensão e a expressão. A Matemática desenvolve o raciocínio, a lógica e a capacidade de solucionar problemas.
As três áreas podem se encontrar em uma mesma experiência de aprendizagem.
E esse encontro pode ajudar a desconstruir aquela velha ideia de que Matemática é apenas uma disciplina difícil, cheia de fórmulas e regras para decorar.
A Matemática também pode ser fina, elegante, curiosa, divertida e delirante, como nos convida a perceber o universo de Malba Tahan.
Por isso, deixo aqui meu convite, especialmente aos professores, estudantes de licenciatura, educadores e apaixonados pelo conhecimento:
Leiam O Homem que Calculava.
Leiam como literatura.
Leiam como professores.
Leiam como pesquisadores.
Leiam como aprendizes.
E levem Beremiz para a sala de aula.
Talvez ele consiga fazer algo que muitas fórmulas não conseguem: despertar no estudante a vontade de descobrir a resposta.
Porque um problema matemático pode começar com uma história, passar pela linguagem e terminar em uma descoberta.
Literatura dá contexto.
Gramática dá linguagem.
Matemática dá raciocínio.
E, quando essas três áreas se encontram, o aluno não aprende apenas a calcular.
Ele aprende a ler, compreender, pensar, argumentar, escrever e descobrir.
Essa talvez seja uma das grandes lições deixadas por Malba Tahan: a Matemática não precisa ser apenas calculada. Ela pode ser lida, narrada, investigada, escrita, discutida e vivida.
E é justamente aí que aprender Matemática pode se transformar em uma experiência de encantamento.









