Da pintura bidimensional à maquete-quadro: construindo profundidade
Um dos maiores desafios deste projeto foi transformar uma pintura plana em uma maquete-quadro tridimensional. Isso exigiu uma análise cuidadosa não apenas das formas, mas também da profundidade presente na obra original.
Cada elemento foi estudado para definir sua posição em relação aos demais. As montanhas ficaram em um plano, as casas em outro, o cipreste ganhou destaque à frente da paisagem, enquanto as estrelas e os movimentos do céu foram distribuídos em camadas capazes de criar a sensação de distância e movimento. Assim, foi possível compreender que a profundidade não depende apenas da perspectiva, mas também da sobreposição de elementos, do relevo e da organização espacial.
Outro aspecto investigado foi a escolha dos materiais. Toda a estrutura da maquete foi construída em papelão, um suporte que apresenta características muito diferentes das telas, papéis artísticos ou madeiras normalmente utilizados na pintura. Sua superfície possui textura, ondulações, porosidade e uma coloração própria que interferem diretamente no comportamento das tintas.
Durante a construção, tornou-se evidente que o papelão modifica o resultado de qualquer tinta aplicada sobre ele. Sua textura cria pequenas variações na superfície pintada, alterando a reflexão da luz e a percepção das cores. Além disso, por ser um material altamente absorvente, parte da tinta penetra nas fibras, fazendo com que algumas tonalidades fiquem mais opacas, menos vibrantes ou até mais escuras do que aparentam quando observadas na embalagem ou aplicadas em outros suportes. Assim, uma mesma cor pode apresentar resultados diferentes dependendo do material utilizado como base.
Antes da pintura definitiva, foram realizados testes para observar o comportamento das cores sobre o papelão. Em alguns casos, foi preciso misturar tintas, aplicar mais de uma demão ou criar uma base de cor para alcançar a tonalidade desejada. Também foi necessário produzir uma camada de base para reduzir a absorção do material e obter maior fidelidade cromática. Esses experimentos demonstraram que a pintura não depende apenas da escolha da cor, mas também do conhecimento das características físicas do suporte utilizado. Esse processo demonstrou que, na arte, a escolha dos materiais faz parte da criação e que experimentar é uma etapa tão importante quanto pintar.
Essa etapa revelou o caráter interdisciplinar do projeto. Enquanto a Arte orientava a releitura da obra, conceitos de Ciências ajudavam a compreender a absorção das tintas, a porosidade e a textura do papelão; conhecimentos de Física explicavam a incidência da luz sobre as superfícies e a percepção das cores; a Matemática esteve presente na medição, no planejamento das camadas, das proporções e da profundidade; a Geometria auxiliou na construção das formas tridimensionais; e a Engenharia e o Design contribuíram para pensar a estrutura, a estabilidade e a montagem da maquete-quadro. Ao mesmo tempo, a Língua Portuguesa esteve presente na pesquisa, nos registros do processo e na comunicação dos resultados.
Ao final, a maquete-quadro tornou-se muito mais do que uma releitura artística. Ela passou a representar um percurso de investigação, no qual observar, analisar, testar, comparar e aperfeiçoar foram ações presentes em todas as etapas da construção.
Mais do que produzir uma releitura artística, os estudantes vivenciaram um processo investigativo em que diferentes áreas do conhecimento dialogaram continuamente. Cada decisão exigiu observar, formular hipóteses, experimentar materiais, comparar resultados, solucionar problemas e aperfeiçoar estratégias, evidenciando que a aprendizagem acontece de forma integrada e significativa quando o conhecimento deixa de estar fragmentado em disciplinas isoladas.
Essa experiência evidencia que a arte também constitui um campo de investigação científica, tecnológica e criativa. Compreender como diferentes materiais modificam o comportamento das tintas, como a textura influencia a percepção visual e como cada escolha interfere no resultado final permite que o estudante deixe de apenas reproduzir uma imagem e passe a construir conhecimento por meio da experimentação, da reflexão e da criação. Ao compreender que o papelão, sua textura, sua absorção e sua estrutura modificam completamente o comportamento das tintas e influenciam o resultado final da obra, o estudante percebe que cada material possui propriedades próprias e que criar também é pesquisar. Dessa forma, ele deixa de apenas reproduzir uma imagem e passa a construir conhecimento por meio da experimentação, da reflexão, da integração entre diferentes áreas do saber e da criação.
















