Infância, Linguagem e Subjetividade: contribuições de Lacan em diálogo com Foucault para a Educação Infantil inclusiva
Resumo
Este artigo propõe uma reflexão sobre a Educação Infantil inclusiva a partir das contribuições da psicanálise lacaniana, frequentemente colocadas em diálogo com o pensamento de Michel Foucault. Parte-se da compreensão da criança como sujeito de linguagem e de desejo, constituído nas relações simbólicas e nos discursos que a antecedem. A articulação entre Lacan e Foucault permite problematizar práticas pedagógicas marcadas pela normalização, pela medicalização e pela padronização do desenvolvimento infantil. Defende-se uma pedagogia sensível, baseada na escuta, no brincar e no reconhecimento da singularidade, em consonância com os princípios do Brincadeira Sustentável.
1- Introdução
A Educação Infantil ocupa um lugar fundamental na constituição da subjetividade, uma vez que é nesse período que a criança inicia sua inserção em instituições educativas e passa a ocupar posições simbólicas específicas nos discursos sociais. Pensar a inclusão nesse contexto exige ir além de adaptações metodológicas, demandando uma reflexão ética sobre o lugar atribuído à criança na escola.
A psicanálise de Jacques Lacan, especialmente quando colocada em diálogo com Michel Foucault, oferece importantes contribuições para compreender como os sujeitos são constituídos pela linguagem e pelos discursos institucionais. Este artigo tem como objetivo refletir sobre essas contribuições, articulando-as à Educação Infantil inclusiva e à construção de práticas pedagógicas sensíveis, humanizadas e comprometidas com a singularidade infantil.
2- Lacan e a constituição do sujeito: a centralidade da linguagem
Para Lacan, o sujeito humano se constitui no campo da linguagem. Antes mesmo de falar, a criança já é inserida no universo simbólico por meio dos significantes que a nomeiam, a descrevem e a interpretam (LACAN, 1998). O sujeito do inconsciente emerge a partir dessa relação com o Outro, entendido como o campo da linguagem e das normas simbólicas.
Na Educação Infantil, essa perspectiva implica reconhecer que:
O choro, o gesto e o brincar são formas de linguagem;
O comportamento infantil possui valor de enunciação;
A criança não é objeto de intervenção, mas sujeito em constituição.
Essa compreensão é especialmente relevante em contextos de inclusão, nos quais crianças que não se expressam segundo padrões esperados tendem a ser silenciadas ou classificadas.
3- O brincar como inscrição simbólica na infância
No campo lacaniano, o brincar pode ser compreendido como espaço privilegiado de simbolização. É por meio do jogo, da repetição e do faz de conta que a criança elabora a presença e a ausência, organiza afetos e constrói sentidos para suas experiências.
O brincar possibilita:
A inscrição da criança no registro simbólico;
A elaboração da angústia;
A construção de narrativas próprias;
A emergência do sujeito do desejo.
Na Educação Infantil inclusiva, o brincar assume papel central, pois muitas crianças se expressam prioritariamente por vias não verbais. Sustentar o brincar é sustentar o direito à linguagem em suas múltiplas formas.
4- Lacan e Foucault: discurso, poder e subjetivação
Embora Lacan e Foucault pertençam a campos teóricos distintos, suas reflexões frequentemente se encontram ao problematizar os processos de constituição do sujeito. Enquanto Lacan investiga o sujeito do inconsciente, Foucault analisa como os discursos e as instituições produzem modos de subjetivação (FOUCAULT, 1988).
No contexto escolar, esses discursos manifestam-se:
Na medicalização da infância;
Na rotulação diagnóstica;
Na padronização dos comportamentos;
Na produção de normas de desenvolvimento.
Sob a ótica lacaniana, esses discursos podem capturar a criança em significantes fixos, reduzindo sua singularidade. Sob a perspectiva foucaultiana, tratam-se de práticas de normalização que regulam corpos e condutas desde a primeira infância.
5- Educação Infantil e Inclusão: a ética da escuta
A inclusão, à luz da psicanálise lacaniana, exige uma ética da escuta. Escutar a criança não significa interpretar excessivamente ou corrigir de imediato, mas sustentar um espaço simbólico no qual ela possa se reconhecer como sujeito.
Na prática pedagógica da Educação Infantil, essa ética se traduz em:
Não reduzir a criança ao diagnóstico;
Reconhecer múltiplas formas de expressão;
Respeitar tempos singulares de desenvolvimento;
Compreender o educador como parte da relação pedagógica.
Essa postura dialoga com Foucault ao recusar práticas escolares centradas no controle e ao afirmar a educação como espaço de cuidado e produção de subjetividades mais livres.
6- O brincar como prática ética e humanizadora
Sustentar o brincar na Educação Infantil é sustentar o sujeito em sua singularidade. Em um contexto marcado pela aceleração dos processos educativos e pela antecipação de exigências escolares, o brincar torna-se um gesto ético e político.
No Brincadeira Sustentável, o brincar é compreendido como linguagem fundamental da infância e como prática de resistência à padronização, favorecendo vínculos, escuta e inclusão.
7- Considerações finais
O diálogo entre Lacan e Foucault contribui para repensar a Educação Infantil inclusiva como um campo de escuta, ética e cuidado. Reconhecer a criança como sujeito de linguagem implica recusar práticas que silenciam, classificam ou normalizam excessivamente as diferenças.
Alinhado aos princípios do Brincadeira Sustentável, este artigo defende uma pedagogia que sustenta o brincar, valoriza a singularidade e compreende a inclusão como compromisso ético com a dignidade humana desde a infância.
Referências
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
