Resumo
Este artigo propõe uma leitura intercultural da obra Bolero (1928), de Maurice Ravel, articulando música erudita ocidental e cosmologias indígenas a partir dos conceitos de ritmo, repetição e criação. Parte-se da compreensão da música como experiência corporal, relacional e culturalmente situada, aproximando a estrutura rítmica do Bolero de práticas musicais ancestrais, nas quais o som organiza o tempo, a memória coletiva e a relação com o mundo. O texto defende a música como ponte entre mundos distintos, contribuindo para reflexões no campo da educação musical intercultural e para o reconhecimento de epistemologias não hegemônicas.
Palavras-chave: Educação musical intercultural; Ritmo; Cosmologia indígena; Maurice Ravel; Música e ancestralidade.
1- Introdução
A música constitui uma das mais antigas formas de organização simbólica da experiência humana. Antes da escrita, da sistematização científica e da linguagem formal, o som já estruturava o tempo, o corpo e as relações coletivas. Em diferentes culturas, a música não se apresenta apenas como expressão estética, mas como linguagem fundamental de criação de sentido.
O Bolero, de Maurice Ravel, frequentemente analisado sob a ótica da música erudita europeia, oferece possibilidades de leitura que ultrapassam os limites de sua tradição de origem. Sua estrutura baseada na repetição rítmica e no crescendo contínuo permite um diálogo fecundo com cosmologias indígenas, nas quais o ritmo e o som são compreendidos como princípios organizadores do mundo.
Este artigo propõe uma leitura comparativa e intercultural do Bolero, compreendendo a música como ponte entre mundos culturais distintos, sem hierarquização estética, mas com reconhecimento de princípios sonoros compartilhados.
2- Ritmo e Repetição no Bolero de Maurice Ravel
O Bolero não se constrói pela surpresa ou pela variação temática, mas pela insistência. Um único tema, sustentado por um ostinato rítmico constante, percorre toda a obra. A transformação ocorre pelo acréscimo gradual de timbres e pelo aumento progressivo da intensidade sonora.
Essa repetição não empobrece a escuta; ao contrário, a aprofunda. Cada reapresentação do tema inaugura uma nova experiência, pois o ouvinte já foi atravessado pelo tempo musical anterior. O ritmo inicial, marcado, constante, quase hipnótico pode ser compreendido como um pulso originário, um batimento que antecede a complexidade melódica.
Nesse sentido, o Bolero evidencia que o ritmo não é mero acompanhamento, mas fundamento estrutural da música, organizando a percepção do tempo e a experiência corporal da escuta.
3- Cosmologias Indígenas: Som, Criação e Ancestralidade
Nas cosmologias indígenas, o mundo não nasce do silêncio absoluto, mas do som, da vibração e do gesto repetido. A repetição não é entendida como estagnação, mas como renovação contínua. O canto que retorna reafirma a memória coletiva e atualiza a presença dos ancestrais.
O som, nesse contexto, é força criadora. Ele convoca, organiza e mantém a relação entre humanos, natureza e espiritualidade. Fenômenos sonoros, como o trovão, não são apenas eventos físicos, mas manifestações simbólicas de transformação e comunicação do mundo natural.
A música indígena, profundamente ligada à oralidade e à coletividade, organiza o tempo de forma circular, reforçando uma compreensão não linear da experiência temporal.
4- Leitura Comparativa: Música como Experiência Compartilhada
Ao aproximar o Bolero das práticas musicais indígenas, observa-se uma convergência fundamental: a centralidade do ritmo como organizador do tempo e do corpo. Em ambos os casos, a música cria estados de atenção coletiva e escuta corporal.
O crescendo contínuo do Bolero pode ser interpretado como metáfora do processo de criação do mundo: da simplicidade à complexidade, do silêncio à plenitude sonora. Não há ruptura brusca, mas acúmulo. O tempo musical deixa de ser linear e passa a ser vivido como experiência sensível.
A culminância sonora da obra, o “boom” final, não representa um encerramento, mas uma transformação. Assim como o trovão nas cosmologias indígenas, esse impacto sonoro marca uma passagem, revelando a potência acumulada da repetição.
Essa leitura comparativa não propõe equivalência cultural, mas diálogo intercultural, reconhecendo a música como linguagem transversal às culturas humanas.
5- Educação Musical Intercultural: a Música como Ponte
Na educação musical intercultural, a música deixa de ser apenas objeto de análise técnica e passa a ser experiência relacional. O diálogo entre o Bolero e as músicas indígenas permite deslocamentos epistemológicos importantes, ampliando o repertório sonoro e cultural dos estudantes.
O estudante é convidado a escutar com o corpo, com a memória e com a sensibilidade cultural. A música torna-se espaço de tradução entre mundos distintos que compartilham o ritmo como fundamento comum.
Nesse contexto, a música atua como ponte entre culturas, tempos e formas de conhecimento, promovendo respeito à diversidade e reconhecimento de epistemologias historicamente marginalizadas.
6- Considerações Finais
Compreender o Bolero de Maurice Ravel em diálogo com cosmologias indígenas amplia as possibilidades de leitura da obra e reafirma a música como linguagem fundamental da humanidade. Ritmo, repetição e escuta coletiva atravessam culturas e revelam modos diversos de organizar o tempo e a experiência.
A música, como ponte entre mundos, não elimina diferenças, mas permite a travessia entre elas. Ouvir torna-se um ato ético, tocar um gesto de encontro, e educar musicalmente um compromisso com a pluralidade cultural e epistemológica.
Referências Sugeridas
BLACKING, John. How musical is man? Seattle: University of Washington Press, 1973.
GREEN, Lucy. How popular musicians learn. Aldershot: Ashgate, 2002.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal. Revista Crítica de Ciências Sociais, n. 78, 2007.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002.
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