Infância, Psique e Brincar: diálogos entre Freud e Jung para uma Educação Infantil inclusiva
Resumo
Este artigo propõe uma reflexão sobre a Educação Infantil inclusiva a partir do diálogo entre a psicanálise freudiana e a psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Compreendendo o brincar como linguagem privilegiada da psique infantil, discute-se sua função na elaboração emocional, na expressão simbólica e na constituição da subjetividade. A partir dessas contribuições teóricas, o texto articula práticas pedagógicas sensíveis e inclusivas, destacando a importância da escuta, do respeito à singularidade e do cuidado com os processos psíquicos na primeira infância. O artigo dialoga com a proposta do Brincadeira Sustentável, defendendo o brincar como prática humanizadora e ética no contexto educacional.
1- Introdução
A Educação Infantil constitui um período fundamental para o desenvolvimento psíquico, emocional e social da criança. É nesse tempo inaugural que se organizam experiências afetivas, vínculos primários e formas iniciais de relação com o mundo. Nesse contexto, pensar práticas pedagógicas inclusivas exige atenção não apenas aos aspectos cognitivos, mas também à dimensão psíquica da infância.
O diálogo entre Sigmund Freud e Carl Gustav Jung oferece importantes contribuições para a compreensão do brincar como linguagem psíquica e como elemento central na constituição da subjetividade. Embora partam de pressupostos teóricos distintos, ambos reconhecem a infância como etapa decisiva do desenvolvimento humano e o brincar como forma privilegiada de expressão.
Este artigo tem como objetivo refletir sobre as contribuições de Freud e Jung para a Educação Infantil inclusiva, articulando tais fundamentos ao cuidado, à escuta sensível e à valorização das singularidades infantis.
2- A infância na perspectiva freudiana: brincar e elaboração psíquica
Na obra freudiana, a infância ocupa lugar central na constituição da personalidade. Freud compreende o brincar como um espaço simbólico no qual a criança elabora experiências emocionalmente significativas. Em Além do Princípio do Prazer, o autor analisa o jogo como uma forma de repetição ativa que permite à criança transformar vivências passivas em experiências simbolicamente controláveis (FREUD, 1920).
O brincar, nessa perspectiva, possibilita:
A elaboração de conflitos internos;
A expressão de desejos e angústias inconscientes;
A organização emocional frente a perdas, frustrações e separações.
No contexto da Educação Infantil, essa compreensão convida o educador a reconhecer o brincar como uma linguagem legítima do inconsciente, especialmente relevante para crianças que ainda não conseguem expressar verbalmente seus sentimentos.
3- Jung e a dimensão simbólica do desenvolvimento infantil
Carl Gustav Jung amplia a compreensão do desenvolvimento psíquico ao destacar a importância dos símbolos, dos arquétipos e do inconsciente coletivo. Para Jung, a criança manifesta conteúdos profundos da psique por meio de imagens, narrativas simbólicas, desenhos e jogos de faz de conta (JUNG, 2011).
O brincar, sob a ótica junguiana, constitui:
Um campo de expressão simbólica espontânea;
Um processo natural de integração psíquica;
Um caminho inicial do processo de individuação.
Na infância, o símbolo não deve ser interpretado de forma reducionista, mas acolhido como expressão viva do mundo interno da criança. Essa abordagem reforça a importância de ambientes educativos que favoreçam a imaginação, a criatividade e o brincar livre.
4- Freud e Jung em diálogo: implicações para a Educação Infantil inclusiva
Apesar das diferenças teóricas, Freud e Jung convergem ao reconhecer o brincar como elemento essencial do desenvolvimento psíquico. O diálogo entre essas abordagens permite uma compreensão ampliada da infância, integrando elaboração emocional e expressão simbólica.
Na Educação Infantil inclusiva, essa perspectiva implica:
Reconhecer o comportamento como forma de comunicação;
Valorizar expressões não verbais;
Evitar práticas pedagógicas excessivamente normativas;
Compreender que cada criança possui um percurso psíquico singular.
Essa abordagem é especialmente relevante para crianças com deficiência, transtornos do desenvolvimento ou sofrimento psíquico, cuja comunicação muitas vezes ocorre prioritariamente por meio do corpo, do gesto e do brincar.
5- Inclusão, cuidado e práticas pedagógicas sensíveis
A inclusão, sob a ótica psicanalítica, ultrapassa a adaptação de atividades e envolve o reconhecimento da singularidade psíquica de cada criança. Freud alerta para os efeitos da repressão excessiva, enquanto Jung enfatiza a importância de respeitar o ritmo individual do desenvolvimento.
No cotidiano da Educação Infantil, práticas pedagógicas sensíveis incluem:
Ambientes afetivos e previsíveis;
Propostas de brincadeiras abertas e não diretivas;
Valorização do desenho, da música e do faz de conta;
Tempo e espaço para a elaboração emocional.
O Brincadeira Sustentável se alinha a essa perspectiva ao compreender a inclusão como cuidado contínuo com a vida psíquica, os vínculos e as relações.
6- O brincar como prática humanizadora e sustentável
Sustentar o brincar na Educação Infantil é sustentar a saúde psíquica da infância. Em um contexto social marcado pela aceleração, pela antecipação de conteúdos e pela padronização do desenvolvimento, o brincar livre assume um papel ético e humanizador.
Freud evidencia o brincar como forma de elaboração psíquica; Jung o compreende como via de integração simbólica. Juntos, oferecem fundamentos para uma pedagogia que respeita os processos internos da criança e reconhece o brincar como direito e necessidade.
7- Considerações finais
O diálogo entre Freud e Jung contribui para uma compreensão ampliada da Educação Infantil inclusiva, ao destacar o brincar como linguagem psíquica fundamental. Reconhecer a criança como sujeito de desejo, de simbolização e de singularidade implica adotar práticas pedagógicas baseadas na escuta, no cuidado e no respeito aos tempos da infância.
Alinhado aos princípios do Brincadeira Sustentável, este artigo defende uma pedagogia que acolhe a complexidade da vida psíquica infantil e compreende a inclusão como compromisso ético com a dignidade humana.
Referências
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
JUNG, Carl Gustav. O desenvolvimento da personalidade. Petrópolis: Vozes, 2011.
JUNG, Carl Gustav. A criança. In: JUNG, C. G. A dinâmica do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2012.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014.
