Desde muito cedo, percebi que minha forma de experimentar o mundo era diferente da maioria das pessoas. Durante anos, acreditei que todos percebiam letras, números, formas, cores e objetos da mesma maneira que eu. Somente mais tarde compreendi que essas experiências faziam parte da sinestesia, uma característica neurológica na qual diferentes sentidos e formas de percepção se conectam automaticamente.
No meu caso, a sinestesia não se manifesta apenas como uma associação entre cores e sensações. Letras, números, traços, formas geométricas, objetos e até mesmo determinadas organizações espaciais podem despertar cheiros, emoções, impressões físicas e sensações muito específicas. Algumas cores evocam imediatamente o cheiro de barro molhado após a chuva. Certas formas provocam conforto, enquanto outras podem gerar incômodo ou até uma sensação de nojo. Essas experiências surgem de forma involuntária, consistente e espontânea, fazendo parte da minha maneira de perceber a realidade.
Ao longo da vida, essa característica influenciou profundamente minha criatividade, minha forma de aprender, ensinar, analisar situações e me relacionar com as pessoas. Contudo, após vivenciar um surto de esclerose múltipla, passei a observar essas experiências sob uma nova perspectiva, compreendendo ainda mais a complexidade do cérebro humano e das múltiplas formas de funcionamento da mente.
A Experiência Multissensorial da Realidade
Para muitas pessoas, uma letra é apenas um símbolo, um número é apenas um conceito matemático e uma forma geométrica é apenas uma figura. Para mim, esses elementos possuem identidades próprias que vão além de sua aparência visual.
As letras carregam sensações particulares. Os números possuem características que os tornam únicos em minha percepção. As formas geométricas despertam respostas emocionais e sensoriais específicas. Um círculo, um triângulo ou uma espiral não são apenas representações abstratas; eles podem provocar impressões, cheiros ou sensações que surgem instantaneamente ao serem observados.
As cores também fazem parte dessa experiência ampliada. Algumas evocam o aroma da terra molhada pela chuva, enquanto outras despertam percepções difíceis de traduzir em palavras. Em certos casos, determinadas combinações de formas, cores ou padrões geram desconforto ou repulsa, demonstrando que a sinestesia não envolve apenas experiências agradáveis, mas uma ampla variedade de respostas perceptivas.
Essa forma de perceber o mundo transforma a realidade em uma experiência profundamente multissensorial, na qual diferentes sentidos se entrelaçam constantemente.
Criatividade e a Capacidade de Ressignificar Materiais
Uma das características mais marcantes da minha trajetória é a capacidade de enxergar possibilidades onde outras pessoas enxergam apenas objetos comuns ou materiais descartados.
Quando observo uma garrafa PET, um pedaço de papelão, tampinhas, galhos ou sucatas, raramente os vejo apenas por sua função original. Minha percepção tende a ultrapassar o objeto concreto. As formas, proporções, texturas e sensações associadas a esses materiais despertam novas imagens e possibilidades.
Uma garrafa pode transformar-se em uma flor, um brinquedo, um instrumento musical ou um recurso pedagógico. Um pedaço de papelão pode tornar-se um castelo, uma máquina imaginária, um cenário teatral ou uma obra de arte. Muitas vezes, essa transformação surge quase instantaneamente, antes mesmo de uma análise racional sobre o que poderia ser feito com aquele material.
Essa forma de pensamento influenciou profundamente meu trabalho com educação, sustentabilidade, literatura infantil, arte, escotismo e construção de materiais pedagógicos. Não vejo apenas aquilo que um objeto é; frequentemente percebo aquilo que ele pode vir a ser.
O Impacto do Surto de Esclerose Múltipla e o Fortalecimento de Habilidades
A experiência de viver um surto de esclerose múltipla representou um dos momentos mais desafiadores da minha trajetória. Além das dificuldades físicas e emocionais, enfrentei o desafio de recuperar habilidades motoras que, até então, faziam parte natural do meu cotidiano.
Durante esse processo, percebi algo que marcaria profundamente minha forma de compreender a mim mesma. Muitas das habilidades que sempre estiveram presentes em minha vida como a observação detalhada, a percepção de padrões, a criatividade, a capacidade de estabelecer conexões entre diferentes informações e a busca por soluções alternativas tornaram-se ferramentas fundamentais em meu processo de recuperação.
Ao utilizá-las de forma consciente para reaprender movimentos, adaptar estratégias e superar limitações temporárias, essas capacidades não apenas me auxiliaram na reabilitação, mas tornaram-se ainda mais desenvolvidas. Foi como se recursos que já faziam parte da minha identidade tivessem sido intensamente exercitados, fortalecendo-se ao longo do caminho.
O processo de recuperação exigiu persistência, adaptação e uma profunda atenção aos sinais do corpo. Cada conquista representava não apenas um avanço físico, mas também uma oportunidade de compreender melhor a extraordinária capacidade humana de aprender, reaprender e reconstruir caminhos.
Hoje, encontro-me recuperada daquele surto, tendo retomado minhas habilidades motoras e minhas atividades habituais. Essa experiência deixou marcas positivas em minha maneira de perceber a vida, ampliando minha sensibilidade diante dos desafios humanos e fortalecendo capacidades que já faziam parte da minha forma singular de perceber o mundo.
Mais do que uma experiência de superação, esse período tornou-se uma oportunidade de autoconhecimento. Ele me permitiu reconhecer que criatividade, percepção, resiliência e capacidade de adaptação não são apenas características pessoais, mas recursos valiosos para enfrentar desafios complexos e construir novos caminhos quando a vida exige transformação.
Sinestesia, Análise e Compreensão das Diferenças
Embora a sinestesia não seja considerada uma neurodivergência, percebo que ela influencia significativamente minha maneira de analisar situações e compreender diferentes formas de funcionamento humano.
Minha tendência natural de estabelecer conexões entre elementos aparentemente desconectados frequentemente me ajuda a identificar padrões, possibilidades e perspectivas que nem sempre são evidentes. Essa característica não substitui o pensamento lógico ou o conhecimento científico, mas complementa minha forma de refletir sobre problemas, relações humanas e processos de aprendizagem.
Após o surto de esclerose múltipla, essa capacidade tornou-se ainda mais relevante. Passei a perceber com maior clareza que cada pessoa possui desafios internos, estratégias de adaptação e formas particulares de interpretar o mundo.
Talvez por vivenciar uma forma de percepção incomum e por ter enfrentado uma condição neurológica que alterou aspectos da minha vida, desenvolvi uma sensibilidade especial para compreender as dificuldades enfrentadas por pessoas neurodivergentes.
Não porque eu viva exatamente as mesmas experiências, mas porque aprendi que aquilo que parece simples para uma pessoa pode ser extremamente complexo para outra. Aprendi que comportamentos visíveis muitas vezes escondem esforços invisíveis. Aprendi que existem inúmeras maneiras de pensar, aprender, sentir e interagir com o ambiente.
Educação Inclusiva e Neurodiversidade
Essa compreensão influencia diretamente minha prática educativa.
Ao criar projetos, materiais pedagógicos, oficinas, atividades artísticas e experiências de aprendizagem, procuro considerar que cada indivíduo percebe o mundo de maneira singular. Não parto do princípio de que todos aprendem da mesma forma, porque minha própria experiência me mostrou que diferentes cérebros constroem diferentes realidades.
Talvez seja por isso que me identifico tanto com a educação inclusiva. Meu objetivo nunca foi apenas ensinar conteúdos, mas criar oportunidades para que cada pessoa encontre caminhos próprios para aprender, expressar-se e desenvolver suas potencialidades.
A convivência com minha sinestesia e a experiência do surto de esclerose múltipla fortaleceram minha convicção de que a diversidade humana não deve ser vista como um problema a ser corrigido, mas como uma riqueza a ser compreendida e valorizada.
Considerações Finais
Minha sinestesia não é apenas uma característica perceptiva. Ela influencia minha criatividade, minha forma de interpretar situações, minha relação com os materiais, minha prática educativa e minha compreensão das diferenças humanas.
As letras, os números, as formas geométricas, as cores e os objetos não são apenas aquilo que aparentam ser. Eles carregam sensações, significados, cheiros, emoções e possibilidades. Talvez seja justamente essa maneira de perceber o mundo que me levou a transformar sucatas em brinquedos, materiais simples em recursos pedagógicos e experiências cotidianas em projetos educativos.
O surto de esclerose múltipla acrescentou uma nova dimensão a essa trajetória. Ele me ensinou sobre vulnerabilidade, adaptação, resiliência e, sobretudo, sobre a importância de reconhecer que cada pessoa enfrenta desafios que nem sempre podem ser vistos.
Hoje compreendo que minha sinestesia e minha experiência de recuperação contribuíram para ampliar minha capacidade de observar, criar, acolher e compreender. Elas me ensinaram que existem muitas formas de perceber a realidade e que cada uma delas possui valor.
Mais do que uma característica perceptiva ou uma experiência de vida, essa trajetória tornou-se parte da minha identidade, da minha prática profissional e da minha maneira de enxergar o mundo: um mundo repleto de conexões, significados e possibilidades que vão muito além do que é visível à primeira vista.


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