CULTURA DA INFÂNCIA VIVA: PATRIMÔNIO DO BRINCAR, DA ARTE E DA NATUREZA

INSPIRADO EM HEIDEGGER, BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL (POR RENATA BRAVO) NÃO SE APRESENTA COMO UM CONTEÚDO A SER DECORADO, MAS COMO UMA EXPERIÊNCIA A SER DIGERIDA, VIVIDA E INCORPORADA.

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domingo, 7 de junho de 2026

Inclusão vai além da presença: é sobre pertencimento

Muito se fala sobre inclusão, mas ainda existe uma grande diferença entre receber uma criança em um grupo e garantir que ela realmente participe das experiências oferecidas.

Em muitos espaços educativos, esportivos, culturais e escoteiros, há o desejo genuíno de incluir. No entanto, a falta de informação, formação e estratégias adequadas pode fazer com que crianças com necessidades específicas permaneçam à margem das atividades, mesmo estando fisicamente presentes.

Incluir não significa fazer tudo perfeito. Significa observar, acolher, adaptar, aprender e construir caminhos possíveis. Significa compreender que cada criança possui uma forma própria de se comunicar, interagir, explorar o ambiente e participar do grupo.

Recentemente vivi uma situação que me fez refletir profundamente sobre esse tema e sobre como pequenas mudanças de olhar podem transformar a experiência de uma criança.

Vivenciei um dia em que uma criança com TEA e deficiência auditiva estava participando das atividades do grupo escoteiro. Ele já frequentava o grupo havia cerca de dois meses. Percebi que os chefes, apesar da boa vontade, ainda não se sentiam preparados para receber uma criança com TEA e deficiência auditiva, e ele acabava permanecendo grande parte do tempo sem direcionamento ou apoio específico, contando principalmente com a presença da mãe, que também demonstrava estar buscando compreender a melhor forma de ajudá-lo nesse processo.

Ao observá-lo, percebi que, antes de qualquer intervenção, ele precisava de algo muito simples e, ao mesmo tempo, fundamental: referências, previsibilidade e segurança para se sentir confortável.

Talvez eu tenha percebido alguns desses sinais porque também sou neurodivergente. Tenho processamento sensorial atípico e hipersensibilidade, e isso faz parte da forma como percebo o mundo, sem limitar minhas capacidades.

Ser neurodivergente me ajuda a entender melhor o que outros neurodivergentes sentem. Como também convivo com a hipersensibilidade, consigo ter muita empatia por quem enfrenta desafios parecidos, mesmo sabendo que cada experiência é única.

Isso não significa que eu saiba exatamente o que ele sente, mas talvez tenha me ajudado a olhar para seus comportamentos com mais curiosidade do que julgamento, buscando compreender o que ele estava tentando comunicar por meio de suas ações.

Naturalmente ele precisa de referências, previsibilidade e segurança para se sentir confortável. Ou seja, precisa entender o ambiente, as pessoas e a rotina antes de conseguir participar com mais tranquilidade.

Uma observação que fiz é que ele costuma correr durante as atividades, sem um direcionamento específico. À primeira vista, isso pode parecer desinteresse, mas também pode ser a forma dele observar o que está acontecendo ao seu redor. Pode estar acompanhando as outras crianças, tentando entender a dinâmica do grupo e demonstrando interesse em participar, mesmo que ainda não consiga expressar isso de maneira mais organizada. Também pode ser uma forma de conhecer e explorar o ambiente.

Sempre converso rapidamente com a mãe dele, e ela comentou que ele participa de uma atividade realizada em um local fechado (não lembro exatamente qual) e que, nesse espaço, ela percebe que ele interage melhor e participa mais. Isso me fez pensar que alguns ambientes podem favorecer mais sua atenção e seu envolvimento, dependendo da quantidade de estímulos presentes.

Outra observação que me chamou atenção foi que, quando o aparelho auditivo sai do lugar, ele mesmo o ajusta. Fiquei surpresa, e a mãe confirmou que ele faz isso com frequência. Isso mostra que ele percebe quando algo muda na forma como está ouvindo e busca corrigir a situação sozinho, o que demonstra autonomia e consciência sobre suas próprias necessidades.

Acredito que parte da dificuldade dele em se adaptar aos ambientes esteja relacionada à questão auditiva. Sons, ruídos e diferentes estímulos podem influenciar a forma como ele percebe o ambiente e, consequentemente, o tempo que precisa para se sentir seguro, compreender o que está acontecendo e participar das atividades.

Essa vivência me fez refletir que inclusão não acontece apenas porque abrimos as portas. Ela acontece quando buscamos compreender as necessidades de cada criança, adaptamos estratégias, oferecemos apoio e construímos um ambiente onde ela possa participar de forma significativa.

Nem sempre teremos todas as respostas ou formação especializada. Mas podemos começar pela observação atenta, pela escuta das famílias, pelo acolhimento e pela disposição de aprender. Muitas vezes, o primeiro passo para a inclusão é simplesmente enxergar aquilo que a criança está tentando nos comunicar por meio de suas atitudes.

A verdadeira inclusão começa quando deixamos de perguntar se a criança está pronta para o grupo e passamos a perguntar se o grupo está preparado para acolher a criança.

Renata Bravo

Educadora, escritora e pesquisadora em Formação Humana, Arte e Legado Cultural.




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