PESQUISAS, TECNOLOGIA ASSISTIVA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESDE 2013 - EMAIL: RENATARJBRAVO@GMAIL.COM

PROJETO BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL

Dilemas da Sustentabilidade frente ao consumismo

Mostrando postagens com marcador CuidadoBrincadeira Sustentável. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CuidadoBrincadeira Sustentável. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Ser-criança-no-mundo: o cuidado como fundamento da Educação Infantil inclusiva no projeto Brincadeira Sustentável

Resumo

Este artigo apresenta uma reflexão sobre a Educação Infantil e a Inclusão a partir do pensamento de Martin Heidegger, articulando os conceitos de ser-no-mundo, cuidado (Sorge) e temporalidade com o projeto pedagógico Brincadeira Sustentável. Defende-se que a infância é um modo legítimo de existir e significar o mundo, e que educar crianças pequenas exige uma pedagogia da presença, da escuta e do respeito às singularidades. No contexto do Brincadeira Sustentável, o brincar é compreendido como experiência ontológica, relacional e ética, sustentando práticas inclusivas que cuidam da vida, do tempo da infância e das múltiplas formas de ser e aprender.

1- Introdução: o Brincadeira Sustentável como projeto ético-pedagógico

O projeto Brincadeira Sustentável nasce do compromisso com uma Educação Infantil que reconhece a criança como sujeito de direitos, de linguagem, de corpo e de mundo. Trata-se de uma proposta que se afasta de práticas aceleradas, normativas e produtivistas, para afirmar uma pedagogia do cuidado, do brincar e da sustentabilidade da vida.

Nesse horizonte, o pensamento de Martin Heidegger oferece uma base filosófica potente, ao compreender o ser humano como ser-no-mundo, constituído na relação com os outros, com o tempo e com o ambiente. Pensar a infância a partir dessa perspectiva significa deslocar o foco do desenvolvimento padronizado para a experiência vivida da criança, em sua singularidade.

2- A criança como ser-no-mundo: fundamentos ontológicos do brincar

Para Heidegger, existir é sempre existir em relação. O ser-no-mundo não é uma condição abstrata, mas uma experiência concreta, cotidiana, corporal e sensível. A criança pequena vive essa condição de forma intensa: ela explora, experimenta, brinca e se relaciona com o mundo de maneira integral.

No Brincadeira Sustentável, o brincar é compreendido como:

forma primeira de conhecimento;

linguagem existencial da infância;

espaço de construção de sentido e pertencimento.

Assim, brincar não é um recurso didático acessório, mas a própria forma como a criança habita o mundo. Essa compreensão é fundamental para práticas inclusivas, pois reconhece que cada criança brinca, sente e aprende à sua maneira.

3- O cuidado (Sorge) e a pedagogia da presença

O conceito de cuidado (Sorge) ocupa lugar central na filosofia heideggeriana. O cuidado não se limita à proteção ou assistência, mas constitui a estrutura fundamental da existência humana: cuidar é estar implicado com o outro e com o mundo.

No projeto Brincadeira Sustentável, o cuidado se traduz em práticas pedagógicas que:

respeitam o ritmo das crianças;

valorizam suas formas próprias de comunicação;

acolhem diferenças sem hierarquizá-las;

promovem vínculos afetivos e seguros.

Na Educação Infantil inclusiva, o cuidado rompe com a lógica da correção e da normalização. Crianças com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou outras singularidades não são vistas como “faltantes”, mas como modos legítimos de ser-no-mundo.

4- Inclusão como abertura à diferença

À luz de Heidegger, estar com o outro implica reconhecer sua alteridade, sem reduzi-lo a diagnósticos ou expectativas normativas. A inclusão, nesse sentido, não se resume a adaptações técnicas, mas constitui uma postura ética e existencial.

No Brincadeira Sustentável, a inclusão se manifesta:

na organização de ambientes acessíveis e sensoriais;

na valorização do brincar livre e compartilhado;

na escuta atenta das crianças e de suas famílias;

na construção de experiências coletivas que respeitam singularidades.

Educar de forma inclusiva é, portanto, sustentar espaços onde todas as crianças possam existir com dignidade, pertencimento e sentido.

5- O tempo da infância e a sustentabilidade da vida

Heidegger critica a temporalidade moderna marcada pela aceleração, pelo controle e pela produtividade. A infância, porém, habita outro tempo: o tempo da repetição, da experimentação, do agora.

O projeto Brincadeira Sustentável assume a defesa do tempo da infância como um compromisso ético. Brincar devagar, repetir gestos, explorar a natureza, ouvir histórias e silenciar são práticas que sustentam uma relação mais saudável com o mundo e com os outros.

Nesse sentido, sustentabilidade não se restringe ao meio ambiente, mas envolve:

cuidado com o tempo;

cuidado com as relações;

cuidado com os corpos;

cuidado com a experiência de existir.

6- Considerações finais

Ao articular o pensamento de Heidegger com o projeto pedagógico Brincadeira Sustentável, este artigo defende uma Educação Infantil que cuida do ser antes de ensinar conteúdos. Uma educação que não apressa, não enquadra e não silencia, mas acompanha, escuta e sustenta a infância.

Educar, nesse horizonte, é um ato de presença. É criar condições para que cada criança possa ser-no-mundo de forma plena, singular e compartilhada. Essa é a base de uma Educação Infantil verdadeiramente inclusiva e humanizadora.

Referências bibliográficas

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Fausto Castilho. Campinas: Editora da Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012.

HEIDEGGER, Martin. Ensaios e conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão et al. Petrópolis: Vozes, 2001.

HEIDEGGER, Martin. Que é isto — a filosofia? Tradução de Ernildo Stein. São Paulo: Duas Cidades, 1971.

DALBOSCO, Cláudio A. Educação e cuidado: aproximações entre Heidegger e a pedagogia contemporânea. Educação & Sociedade, v. 31, n. 113, 2010.

SKLIAR, Carlos. A educação e a pergunta pelos outros. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.