PESQUISAS, TECNOLOGIA ASSISTIVA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESDE 2013 - EMAIL: RENATARJBRAVO@GMAIL.COM
INSPIRADO EM HEIDEGGER, BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL (POR RENATA BRAVO), NÃO SE APRESENTA COMO UM CONTEÚDO A SER DECORADO, MAS COMO UMA EXPERIÊNCIA A SER DIGERIDA, VIVIDA E INCORPORADA.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Brincar é um modo de existir no mundo

Quando a escola esquece isso, a infância adoece

Brincar não é um intervalo entre atividades “sérias”.

Brincar é uma forma profunda de estar no mundo.

Na brincadeira, a criança não apenas aprende conteúdos: ela experimenta a existência. Explora possibilidades, testa limites, constrói sentidos, habita o tempo sem pressa. Ao brincar, o corpo pensa, o afeto organiza o mundo e o sentido nasce da relação viva com o que está ao redor.

Quando a escola compreende o brincar apenas como recurso didático ou recompensa após o “trabalho”, algo essencial se perde. A infância deixa de ser vivida como presença e passa a ser tratada como preparação. O resultado é um cotidiano escolar marcado pela antecipação, pela aceleração e pelo excesso de exigências que não respeitam o tempo próprio da criança.

Adoecer a infância não significa apenas produzir sofrimento visível. Muitas vezes, o adoecimento se manifesta de forma silenciosa:

na dificuldade de se concentrar,

na apatia,

na agressividade,

na perda do encanto,

na necessidade constante de controle externo.

Isso acontece porque a criança deixa de existir a partir de si e passa a funcionar para atender expectativas que não dialogam com sua experiência concreta de mundo.

Brincar é o espaço onde a criança pode ser inteira.

Sem fragmentação entre corpo e pensamento.

Sem separação entre aprender e sentir.

Sem a obrigação de produzir resultados mensuráveis.

É na brincadeira que a criança se reconhece como alguém que age, escolhe, cria e se relaciona. Ali, ela constrói um modo próprio de habitar o mundo não como espectadora, mas como presença viva.

Uma educação que sustenta a infância não pergunta apenas o que a criança precisa aprender, mas como ela está existindo naquele espaço.

Que tipo de mundo a escola está oferecendo para ser vivido?

Um mundo de controle ou de descobertas?

De respostas prontas ou de perguntas abertas?

Defender o brincar não é defender menos educação.

É defender uma educação mais profunda, mais humana e mais fiel à experiência infantil.

Quando a escola esquece que brincar é um modo de existir, a infância adoece.

Quando a escola se lembra disso, ela se torna um lugar onde a vida pode acontecer antes de ser avaliada.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.