Quando a escola esquece isso, a infância adoece
Brincar não é um intervalo entre atividades “sérias”.
Brincar é uma forma profunda de estar no mundo.
Na brincadeira, a criança não apenas aprende conteúdos: ela experimenta a existência. Explora possibilidades, testa limites, constrói sentidos, habita o tempo sem pressa. Ao brincar, o corpo pensa, o afeto organiza o mundo e o sentido nasce da relação viva com o que está ao redor.
Quando a escola compreende o brincar apenas como recurso didático ou recompensa após o “trabalho”, algo essencial se perde. A infância deixa de ser vivida como presença e passa a ser tratada como preparação. O resultado é um cotidiano escolar marcado pela antecipação, pela aceleração e pelo excesso de exigências que não respeitam o tempo próprio da criança.
Adoecer a infância não significa apenas produzir sofrimento visível. Muitas vezes, o adoecimento se manifesta de forma silenciosa:
na dificuldade de se concentrar,
na apatia,
na agressividade,
na perda do encanto,
na necessidade constante de controle externo.
Isso acontece porque a criança deixa de existir a partir de si e passa a funcionar para atender expectativas que não dialogam com sua experiência concreta de mundo.
Brincar é o espaço onde a criança pode ser inteira.
Sem fragmentação entre corpo e pensamento.
Sem separação entre aprender e sentir.
Sem a obrigação de produzir resultados mensuráveis.
É na brincadeira que a criança se reconhece como alguém que age, escolhe, cria e se relaciona. Ali, ela constrói um modo próprio de habitar o mundo não como espectadora, mas como presença viva.
Uma educação que sustenta a infância não pergunta apenas o que a criança precisa aprender, mas como ela está existindo naquele espaço.
Que tipo de mundo a escola está oferecendo para ser vivido?
Um mundo de controle ou de descobertas?
De respostas prontas ou de perguntas abertas?
Defender o brincar não é defender menos educação.
É defender uma educação mais profunda, mais humana e mais fiel à experiência infantil.
Quando a escola esquece que brincar é um modo de existir, a infância adoece.
Quando a escola se lembra disso, ela se torna um lugar onde a vida pode acontecer antes de ser avaliada.

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