Há um equívoco silencioso que atravessa muitas práticas educativas: o de tratar o brincar como intervalo, descanso, prêmio ou preparação para algo que virá depois. Como se o essencial estivesse sempre em outro lugar na tarefa, no conteúdo, no resultado.
Mas o brincar não espera o depois. Ele acontece agora.
Quando uma criança brinca, ela não está fugindo do mundo. Ela está entrando nele. Está explorando, testando, arriscando sentidos. O brincar é o modo como a infância se coloca em relação com tudo o que existe.
Brincar é linguagem.
Uma linguagem que não se organiza apenas por palavras, mas por gestos, silêncios, repetições, invenções. No brincar, a criança diz quem é, o que sente, o que teme, o que deseja mesmo quando não consegue explicar.
Por isso, brincar não é acessório do desenvolvimento. É condição de existência.
Ao brincar, a criança não representa o mundo como algo distante. Ela habita o mundo. O chão vira estrada, a caixa vira casa, o pano vira abrigo. Nada é fixo. Tudo pode ser outro modo de ser.
Esse movimento não é aleatório. Ele revela uma compreensão profunda: viver é estar em relação. Com o espaço, com os objetos, com o outro, consigo mesma.
Quando o brincar é interrompido, controlado em excesso ou reduzido a atividade dirigida, algo essencial se perde. Perde-se a possibilidade de escuta. Perde-se a abertura para o inesperado. Perde-se a chance de a criança mostrar, do seu jeito, como está sendo no mundo.
Educar, então, não deveria ser corrigir

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