*BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL DESDE 2013*

Pesquisa, conceito e autoria: Renata Bravo / Contato: renatarjbravo@gmail.com

Inspirada em Heidegger, a Brincadeira Sustentável não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser vivida, elaborada e incorporada.
A tese que fundamenta este blog parte de uma ideia simples e duradoura: a infância, o brincar, a cultura, a natureza e as relações humanas constituem dimensões essenciais da formação do indivíduo e da construção da vida em sociedade. Embora os contextos históricos, as tecnologias e os modos de viver se transformem, essa base permanece atual. Por isso, não se trata de uma tese vinculada a uma época específica, mas de uma perspectiva que atravessa gerações e continua encontrando sentido sempre que uma criança brinca, aprende, cria, convive e estabelece sua relação com o mundo.

A INFÂNCIA EM TRÂNSITO: MEMÓRIA, CULTURA E FUTURO

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Sustentabilidade: o legado que construímos juntos


SUSTENTABILIDADE, LEGADO E RELAÇÕES HUMANAS NA EDUCAÇÃO DA INFÂNCIA

INTRODUÇÃO

A sustentabilidade costuma ser associada à preservação ambiental, ao uso responsável dos recursos naturais e à construção de formas de vida capazes de responder às necessidades do presente sem comprometer as possibilidades das futuras gerações. Essa dimensão é fundamental, mas não esgota o conceito. Quando observada a partir da educação, a sustentabilidade também envolve cultura, relações sociais, memória, pertencimento, cuidado e responsabilidade coletiva. Sustentar não significa apenas conservar aquilo que existe na natureza; significa também reconhecer aquilo que uma sociedade recebe, transforma e decide transmitir.

É nesse ponto que o conceito de legado adquire relevância. Legado não corresponde somente a bens materiais, monumentos ou objetos de valor histórico. Pode estar em uma brincadeira ensinada por um avô, em uma receita familiar, em uma história contada muitas vezes, em uma música, em um conhecimento tradicional, em uma árvore plantada, em uma praça preservada, em um modo de fazer ou em uma forma de cuidar. São elementos aparentemente cotidianos, mas que carregam continuidade. Algo chega até nós porque alguém, antes de nós, o conheceu, praticou, preservou ou transmitiu.

A educação da infância pode tornar essa continuidade perceptível. Ao investigar aquilo que recebeu de sua família, de sua comunidade e de seu território, a criança pode compreender que cultura não é apenas aquilo que está registrado nos livros ou preservado em instituições. Cultura também vive nas relações, nos gestos, nas narrativas, nos objetos, nas brincadeiras e nos conhecimentos que circulam entre pessoas.

A criança, portanto, não precisa ser compreendida apenas como destinatária de um patrimônio já constituído. Ela participa daquilo que será preservado, transformado ou esquecido. Cada geração recebe um mundo que não construiu sozinha e, ao mesmo tempo, participa das condições do mundo que deixará.

É a partir dessa perspectiva que esta proposta estabelece uma relação entre sustentabilidade, legado e relações humanas. A educação ambiental permanece fundamental, mas é articulada a uma compreensão mais ampla do cuidado, na qual natureza, cultura, memória, território, convivência e responsabilidade intergeracional constituem dimensões relacionadas da experiência humana.

1. PROBLEMATIZAÇÃO

Como ampliar, na educação da infância, a compreensão de sustentabilidade para além da preservação ambiental, relacionando-a à memória cultural, ao legado, ao pertencimento e às relações humanas?

Grande parte das práticas educativas relacionadas à sustentabilidade concentra-se em questões como reciclagem, economia de água, preservação das florestas, redução do desperdício e consumo responsável. Essas práticas são necessárias, mas a própria ideia de continuidade pode ser investigada em outros campos da experiência.

Uma cultura também pode ser preservada ou desaparecer. Um conhecimento pode ser transmitido ou interromper seu percurso. Uma brincadeira pode atravessar gerações ou deixar de ser praticada. Um lugar pode permanecer como espaço de convivência ou perder sua função social. Uma relação pode ser cuidada ou abandonada.

A infância constitui um período particularmente significativo para essa investigação porque é durante a formação das primeiras referências que a criança estabelece relações com a família, a escola, o território, a natureza, os pares e as manifestações culturais. Trabalhar com a ideia de legado permite introduzir uma dimensão temporal nessa experiência: aquilo que recebemos do passado, aquilo que fazemos no presente e aquilo que poderá chegar ao futuro.

A questão deixa, então, de ser apenas “o que devemos preservar?” e passa a incluir outras perguntas: o que recebemos? O que estamos transformando? O que desejamos transmitir?

2. HIPÓTESE

Práticas educativas fundamentadas na investigação do legado cultural e das relações humanas podem ampliar a compreensão infantil sobre sustentabilidade ao relacioná-la à memória, ao pertencimento, à responsabilidade coletiva, à cooperação e à continuidade entre gerações.

Essa abordagem não substitui a educação ambiental. Ao contrário, procura ampliar seu campo de reflexão, reconhecendo que as condições de vida das futuras gerações dependem não apenas da conservação dos recursos naturais, mas também da qualidade das relações sociais, da preservação de referências culturais e da capacidade de uma comunidade transmitir conhecimentos e construir formas responsáveis de convivência.

3. OBJETIVO GERAL

Investigar e desenvolver práticas pedagógicas que ampliem a compreensão de sustentabilidade na infância, articulando preservação ambiental, memória cultural, legado, pertencimento, cooperação e relações humanas.

4. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Ampliar a compreensão infantil sobre sustentabilidade; reconhecer cultura e memória como dimensões do patrimônio coletivo; valorizar conhecimentos familiares e comunitários; estimular processos de transmissão entre gerações; fortalecer a relação de pertencimento ao território; desenvolver atitudes de cuidado com pessoas, espaços, objetos, natureza e referências culturais; reconhecer a criança como participante da construção de um legado coletivo; estabelecer relações entre passado, presente e futuro; estimular investigação, documentação e criação; e promover experiências interdisciplinares envolvendo Arte, História, Geografia, Ciências, Língua Portuguesa, Educação Ambiental e Educação Patrimonial.

5. REFERENCIAL TEÓRICO

O referencial teórico desta proposta parte da compreensão de que sustentabilidade, cultura, memória, território, infância e relações humanas não constituem campos isolados. São dimensões que se encontram na experiência cotidiana e podem ser investigadas pela educação.

5.1 Sustentabilidade como conceito ampliado

A sustentabilidade pode ser compreendida como uma perspectiva de responsabilidade diante das condições de vida presentes e futuras. Embora sua dimensão ambiental seja central, a educação para a sustentabilidade também envolve aspectos sociais, culturais e econômicos e exige reflexão sobre os efeitos das escolhas realizadas no presente.

Nessa perspectiva, sustentabilidade pode ser aproximada da ideia de cuidado. Cuidar implica reconhecer que aquilo que recebemos possui uma história e que nossas ações interferem em sua continuidade.

Essa compreensão permite estabelecer uma relação entre sustentabilidade e legado sem confundir os conceitos. Sustentabilidade diz respeito às condições de continuidade da vida e das sociedades; legado diz respeito, entre outras dimensões, àquilo que uma geração recebe, transforma e transmite.

5.2 Cultura como dimensão da continuidade

A cultura é constituída por conhecimentos, práticas, narrativas, manifestações artísticas, brincadeiras, músicas, receitas, celebrações, técnicas, objetos e formas de convivência produzidos socialmente ao longo do tempo.

Entretanto, cultura não é sinônimo de imobilidade. Aquilo que uma geração recebe é reinterpretado pela seguinte. Uma brincadeira muda de espaço, uma receita ganha novos ingredientes, uma história recebe novas versões, um objeto passa a desempenhar outra função.

A continuidade cultural depende, portanto, de uma tensão produtiva entre permanência e transformação. Preservar não significa impedir que algo mude. Significa criar condições para que aquilo que possui significado possa continuar sendo conhecido, interpretado e recriado.

5.3 Patrimônio cultural e transmissão entre gerações

O patrimônio cultural compreende dimensões materiais e imateriais. Objetos, edificações, documentos e lugares convivem com conhecimentos, práticas, celebrações, expressões artísticas, narrativas e modos de fazer.

Na educação, investigar uma brincadeira ensinada por um familiar, compreender a trajetória de um objeto, registrar uma receita ou conhecer a história de determinado lugar pode aproximar o conhecimento escolar das experiências concretas da comunidade.

A escola pode atuar, nesse processo, como espaço de mediação: não para transformar toda experiência cotidiana em conteúdo escolar, mas para criar condições de investigação, registro, diálogo e reflexão sobre aquilo que constitui a vida cultural do grupo.

5.4 Memória, identidade e pertencimento

A memória estabelece relações entre pessoas, acontecimentos, objetos e lugares. Uma fotografia pode recuperar uma história familiar; uma brincadeira pode reabrir uma experiência de infância; uma árvore pode representar décadas de convivência; uma praça pode reunir lembranças de diferentes gerações.

O pertencimento também se constrói por meio dessas relações. O território não é apenas uma superfície geográfica: é um espaço vivido, atravessado por experiências, vínculos, conflitos, memórias e significados.

Quando a criança investiga seu território, ela não apenas aprende sobre um lugar. Aprende também que os lugares possuem histórias e que as pessoas estabelecem diferentes relações com eles.

5.5 A infância como experiência cultural

A criança participa da cultura enquanto vive. Ela observa, interpreta, inventa, modifica linguagens, cria brincadeiras e produz significados nas relações que estabelece.

O brincar evidencia esse processo. Uma brincadeira transmitida entre gerações não precisa permanecer idêntica para continuar sendo culturalmente significativa. Ao ser retomada, pode ganhar novas regras, materiais, personagens, espaços e sentidos.

Reconhecer a infância como experiência cultural significa, portanto, compreender a criança como sujeito que recebe referências, mas também participa de sua transformação.

5.6 Arte, expressão e investigação

A arte oferece diferentes possibilidades de observar, interpretar, registrar e comunicar experiências. Desenhos, pinturas, fotografias, mapas, colagens, objetos, instalações e narrativas podem funcionar como linguagens por meio das quais a criança organiza aquilo que percebe como significativo.

Nesse contexto, a produção artística não precisa ser compreendida apenas como resultado estético. Pode constituir também um processo de investigação. Ao desenhar um lugar de memória, representar uma brincadeira ou construir um objeto para uma exposição, a criança seleciona, interpreta e comunica uma experiência.

A arte pode, assim, tornar visíveis relações entre infância, cultura, território, natureza e memória.

5.7 Futuro e responsabilidade intergeracional

A sustentabilidade introduz uma questão fundamental: nossas escolhas produzem efeitos que ultrapassam o presente.

Essa dimensão temporal pode ser trabalhada pedagogicamente por meio da imaginação e da investigação. O que uma criança gostaria que outra criança, daqui a cinquenta anos, soubesse sobre seu tempo? Que brincadeiras ainda gostaria que existissem? Que lugar gostaria que permanecesse? Que história não gostaria que fosse esquecida?

Pensar o futuro dessa maneira desloca a sustentabilidade de uma ideia abstrata para uma experiência de responsabilidade. A criança passa a perceber que também participa da construção das condições materiais e culturais que serão encontradas por outras pessoas.

5.8 Legado como categoria pedagógica

Nesta proposta, legado é compreendido como aquilo que uma geração recebe, interpreta, transforma e transmite. Pode ser material ou imaterial, familiar ou comunitário, individual ou coletivo.

A categoria não estabelece previamente aquilo que deve ser preservado. Seu papel pedagógico está justamente em provocar investigação e escolha. Uma criança pode considerar importante preservar uma brincadeira; outra, uma história; outra, um lugar; outra, uma receita ou um conhecimento.

O processo educativo consiste em criar condições para que essas escolhas sejam investigadas, contextualizadas e compartilhadas.

O legado, nesse sentido, não é apenas aquilo que permanece. É também a pergunta sobre por que algo merece permanecer.

5.9 Educação, comunidade e aprendizagem colaborativa

Conhecimento não circula exclusivamente no interior da escola. Famílias, comunidades, territórios e diferentes gerações constituem espaços de produção, transmissão e transformação de saberes.

A participação de familiares e membros da comunidade pode ampliar as possibilidades de investigação, aproximando a educação de experiências concretas e permitindo que conhecimentos cotidianos sejam reconhecidos como fontes legítimas de pesquisa.

A escola pode funcionar como espaço de encontro entre esses saberes, promovendo investigação, documentação, diálogo e sistematização sem apagar as diferenças entre conhecimento escolar, memória familiar e experiência comunitária.

5.10 Interdisciplinaridade

A sustentabilidade, quando compreendida em sua complexidade, não pertence a uma única área do conhecimento.

Uma brincadeira tradicional pode ser investigada pela História, pela Língua Portuguesa, pela Arte e pela Educação Física. Uma receita familiar pode envolver História, Matemática, Ciências e cultura. Um objeto antigo pode permitir investigações sobre materiais, tecnologia, transformações sociais e memória. Um lugar significativo pode ser analisado pela Geografia, História, Ciências, Educação Ambiental e Educação Patrimonial.

A interdisciplinaridade permite compreender que os fenômenos da vida não chegam divididos em disciplinas. As áreas do conhecimento organizam maneiras de investigá-los; a experiência, entretanto, permanece integrada.

6. METODOLOGIA

A proposta utilizará uma abordagem investigativa, participativa e interdisciplinar, organizada em oito experiências articuladas. O percurso será processual e permitirá que as crianças observem, pesquisem, entrevistem, registrem, criem, compartilhem e reflitam.

Mais do que executar atividades isoladas, a metodologia pretende construir um percurso de investigação no qual cada experiência produza perguntas para a seguinte.

6.1 O que queremos deixar?

A investigação terá início com uma pergunta simples e aberta: o que você gostaria que continuasse existindo depois de você?

As crianças poderão escolher uma história, brincadeira, desenho, receita, música, conhecimento, lugar ou atitude de cuidado. O registro poderá ocorrer por escrita, desenho, colagem, fotografia ou outra linguagem adequada.

6.2 Brincadeiras que atravessam gerações

Cada criança poderá investigar, junto a familiares ou membros da comunidade, uma brincadeira pertencente a outra geração. A pesquisa poderá considerar quem ensinou, onde acontecia, quais materiais eram utilizados, quais eram suas regras e como a brincadeira se transformou.

Posteriormente, o grupo poderá experimentar as brincadeiras e comparar aquilo que foi transmitido com aquilo que surgiu durante a experiência.

6.3 Objetos que contam histórias

Cada criança poderá selecionar um objeto significativo de sua família ou comunidade e investigar sua origem, função, trajetória, transformações e significado.

O objeto será tratado como fonte de investigação. Mais do que descobrir “o que é”, a criança será convidada a perguntar quem o utilizou, em que contexto, o que ele revela sobre uma época e por que ainda possui significado.

6.4 Mapa dos afetos

Será elaborado coletivamente um mapa com pessoas, lugares e referências significativas para as crianças. Poderão aparecer familiares, amigos, escola, praças, árvores, rios, ruas, espaços de convivência e outros lugares importantes.

O mapa permitirá relacionar território, memória, pertencimento e cuidado, revelando que os espaços também são constituídos pelas relações que estabelecemos com eles.

6.5 Uma história para o futuro

O grupo criará uma narrativa sobre uma criança do futuro que encontra um objeto, fotografia ou registro produzido no presente.

A partir desse encontro imaginário, as crianças decidirão o que gostariam que essa criança soubesse sobre sua época, suas brincadeiras, sua comunidade, seus modos de viver e suas referências culturais.

6.6 O que merece ser preservado?

Serão investigados elementos culturais considerados significativos pelas próprias crianças: músicas, brincadeiras, histórias, receitas, objetos, festas, manifestações artísticas, conhecimentos e lugares.

A investigação buscará compreender por que determinadas referências permanecem, como foram transformadas e o que acontece quando uma prática deixa de ser transmitida.

6.7 Cápsula do Legado

Cada criança produzirá uma mensagem, desenho, fotografia, texto ou pequeno registro representando algo que considera importante transmitir.

Os materiais formarão uma Cápsula do Legado, entendida não como depósito de objetos, mas como registro simbólico das escolhas e reflexões produzidas durante o percurso.

6.8 Exposição “Nosso Legado”

Ao final, será organizada uma exposição reunindo desenhos, objetos, pesquisas, fotografias, histórias, registros de brincadeiras, mapas e outras produções.

A exposição transformará experiências individuais em uma narrativa coletiva e permitirá que a comunidade conheça não apenas os produtos desenvolvidos, mas também as perguntas que orientaram o processo.

7. PROCEDIMENTOS DE DESENVOLVIMENTO

O percurso poderá ser organizado em seis movimentos articulados: sensibilização, investigação, registro, criação, compartilhamento e reflexão.

A sensibilização introduzirá perguntas, objetos, imagens, histórias, brincadeiras ou situações relacionadas à memória, à cultura, à natureza e às relações humanas.

A investigação envolverá observação, entrevistas, conversas com familiares, pesquisa documental, levantamento de objetos e exploração do território.

O registro organizará as descobertas por meio de textos, desenhos, fotografias, mapas, relatos, colagens, gravações e outras linguagens.

A criação transformará os registros em produções individuais ou coletivas.

O compartilhamento permitirá apresentar descobertas aos colegas, familiares e comunidade.

A reflexão retomará o percurso para identificar o que foi aprendido, transformado e escolhido para ser transmitido.

O processo não será compreendido como uma sequência rígida. As etapas poderão se sobrepor conforme as perguntas produzidas pelas próprias crianças.

8. INTERDISCIPLINARIDADE

A proposta poderá articular diferentes campos do conhecimento a partir dos objetos concretos da investigação. Em Arte, serão desenvolvidos desenhos, pinturas, colagens, fotografias, instalações e produções visuais. Em Língua Portuguesa, serão trabalhados relatos, entrevistas, registros, narrativas, leitura e práticas de oralidade e escrita. Em História, serão investigadas memória, temporalidade, transmissão cultural e histórias familiares e comunitárias. Em Geografia, serão explorados território, pertencimento, lugares de memória e relações espaciais. Em Ciências, poderão ser investigadas relações entre seres humanos, natureza e ambiente. Em Matemática, poderão ser organizadas informações, classificações, contagens, medidas e representações derivadas das pesquisas. Em Educação Ambiental, serão discutidos cuidado, preservação e responsabilidade. Em Educação Patrimonial, serão trabalhados reconhecimento, valorização, investigação e transmissão de referências culturais.

A interdisciplinaridade, nesse contexto, não significa simplesmente reunir conteúdos de diferentes disciplinas. Significa permitir que um mesmo fenômeno seja observado por diferentes perspectivas.

9. AVALIAÇÃO

A avaliação será processual e acompanhará o percurso de aprendizagem, considerando tanto as produções quanto as transformações observadas durante as experiências.

Serão considerados a capacidade de investigar e formular perguntas, reconhecer referências culturais significativas, escutar e registrar informações, comunicar descobertas, estabelecer relações entre gerações, reconhecer vínculos com o território, participar de experiências coletivas e refletir sobre cuidado, continuidade e responsabilidade.

Portfólios, fotografias, desenhos, textos, mapas, entrevistas, registros das atividades e observações pedagógicas poderão compor a documentação do processo.

Mais importante que verificar se a criança reproduziu uma definição de sustentabilidade será observar se passou a estabelecer novas relações entre aquilo que vive, aquilo que recebeu e aquilo que poderá transmitir.

10. SÍNTESE PEDAGÓGICA

A proposta amplia a compreensão de sustentabilidade ao relacioná-la à continuidade da vida, da cultura, da memória, dos conhecimentos e das relações humanas.

Sustentabilidade passa a ser compreendida também como uma atitude diante daquilo que recebemos. Uma brincadeira ensinada, uma história registrada, uma árvore cuidada, uma receita compartilhada, um objeto preservado, um lugar reconhecido ou uma relação construída com respeito podem constituir formas concretas de cuidado e continuidade.

A educação participa desse processo ao possibilitar que a criança reconheça o patrimônio cultural que recebe, investigue seus significados, questione suas permanências e participe de sua transformação.

O legado deixa, então, de ser uma ideia distante associada apenas ao passado. Ele passa a ser uma responsabilidade do presente.

11. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A proposta compreende o legado como uma dimensão possível da educação para a sustentabilidade. Investigar histórias, objetos, brincadeiras, lugares, conhecimentos e relações permite ampliar a percepção infantil sobre o que significa cuidar e sobre as consequências de nossas escolhas.

Essa perspectiva não reduz a importância da preservação ambiental. Ao contrário, procura situá-la dentro de uma compreensão mais ampla da continuidade da vida, reconhecendo que natureza, cultura, território, memória e relações sociais participam da experiência humana.

A escola constitui um espaço privilegiado para essa investigação porque reúne diferentes histórias, gerações e formas de conhecimento. Por meio da pesquisa, do registro, da criação e do compartilhamento, a criança pode compreender que a memória coletiva não é algo que simplesmente existe: ela também é construída pelas escolhas realizadas no presente.

A questão central da proposta pode ser condensada em três perguntas:

O que estamos recebendo?
O que estamos transformando?
O que queremos deixar?

As perguntas deslocam a criança de uma posição exclusivamente receptiva e a reconhecem como participante da cultura. Ela recebe um mundo, mas também interfere nele. Aprende com o que veio antes, produz experiências no presente e participa das possibilidades que chegarão depois.

Nesse sentido, sustentabilidade não é apenas uma questão de recursos naturais. É também uma questão de continuidade, cuidado, legado e relações humanas.

12. ARTICULAÇÃO DOS CONCEITOS DA PESQUISA

Os conceitos de sustentabilidade, legado, memória, cultura, território, arte, infância, comunidade e relações humanas são compreendidos como dimensões interdependentes da proposta.

A sustentabilidade constitui o eixo mais amplo da responsabilidade diante do presente e do futuro. O legado introduz a dimensão intergeracional, relacionando aquilo que recebemos ao que transformamos e transmitimos. A memória permite compreender como experiências, objetos, pessoas e lugares permanecem significativos. A cultura reúne conhecimentos, práticas, brincadeiras, narrativas, manifestações artísticas e formas de convivência produzidas e transformadas socialmente. O território situa essas experiências em espaços vividos e atravessados por relações e significados. A arte oferece linguagens de investigação, expressão e documentação. A infância constitui o espaço de participação e produção cultural. A comunidade amplia as possibilidades de circulação de conhecimentos entre escola, família e território.

Esses conceitos formam uma rede. A sustentabilidade pergunta sobre continuidade; o legado pergunta o que atravessa gerações; a memória pergunta o que permanece significativo; a cultura pergunta o que produzimos coletivamente; o território pergunta onde essas experiências acontecem; a arte pergunta como podemos expressá-las; e a infância pergunta o que acontece quando uma nova geração recebe esse mundo e começa a transformá-lo.

A proposta parte, portanto, de uma compreensão ampliada do cuidado: cuidar do futuro também significa cuidar das relações, das memórias, dos conhecimentos, dos lugares e das referências culturais que dão sentido à experiência humana.

13. REFERÊNCIAS INSTITUCIONAIS INICIAIS

UNESCO. Education for Sustainable Development in Brazil. Paris: UNESCO.

UNESCO. Education for Sustainable Development: ESD for 2030. Paris: UNESCO.

UNESCO. Culture & Sustainable Development: Thematic Factsheet. Paris: UNESCO.

UNESCO. Advancing sustainability education through art, expression and culture. Paris: UNESCO.

UNESCO. Promoting sustainable development through arts education. Paris: UNESCO.

UNESCO. Culture: at the heart of Sustainable Development Goals. Paris: UNESCO.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Percepção multissensorial e criatividade

Introdução Desde a infância, percebo o mundo de maneira predominantemente multissensorial. Letras, números, formas, cores, objetos e configu...