Hoje, em um grupo escoteiro, uma criança de 5 anos, integrante do Ramo Filhote, neurodivergente, autista e com deficiência auditiva, passou por uma mulher grávida e percebeu sua barriga. Em vez de tocá-la diretamente, aproximou-se, colocou a mão sobre a região do coração e, em seguida, abraçou-a. Depois desse primeiro encontro, sempre que a encontrava, voltava sua atenção para ela e repetia a aproximação e o abraço. O episódio chamou atenção pela maneira singular como a criança utilizou o corpo para estabelecer uma relação.
Para compreender a situação, é importante recorrer ao conhecimento científico sobre o desenvolvimento do vínculo materno sem transformar uma hipótese em certeza. O vínculo entre bebê e cuidador não depende de um único estímulo. Trata-se de um processo progressivo, iniciado ainda durante a gestação e fortalecido após o nascimento por experiências sensoriais, emocionais e relacionais. Durante a vida fetal, o bebê é exposto a estímulos provenientes do organismo materno e do ambiente, incluindo sons, movimentos e ritmos fisiológicos. A voz materna pode tornar-se familiar ainda durante a gestação; após o nascimento, odor, voz, contato físico, amamentação, olhar e respostas do cuidador participam da construção e da manutenção do vínculo.
Os batimentos cardíacos maternos fazem parte do ambiente sonoro e rítmico experimentado pelo feto, mas não é cientificamente correto afirmar que o recém-nascido reconhece a mãe exclusivamente por eles. O reconhecimento e a vinculação são processos multissensoriais e relacionais, nos quais diferentes pistas são integradas ao longo do desenvolvimento. Essa distinção é importante para que uma experiência afetiva não seja transformada em uma explicação biológica simplificada.
É justamente nesse contexto que o gesto observado ganha relevância. A criança percebeu uma mulher grávida, aproximou-se, realizou um contato corporal específico e, em seguida, estabeleceu uma interação afetiva por meio do abraço. Após esse primeiro encontro, passou a reconhecer aquela mulher e a repetir espontaneamente a mesma sequência sempre que a encontrava. Não é possível determinar, a partir desse comportamento, o que ela compreendeu sobre a gestação ou qual significado atribuiu à experiência. É possível, entretanto, reconhecer que o gesto funcionou, naquele contexto, como uma forma de exploração, comunicação e estabelecimento de vínculo, sem que seja necessário atribuir-lhe uma única interpretação.
Essa interação pode envolver diferentes processos: curiosidade, exploração sensorial, reconhecimento, busca de contato, expressão de afeto ou uma combinação deles. No autismo, a comunicação pode ocorrer por diferentes canais e assumir funções que nem sempre são imediatamente evidentes para o adulto. A deficiência auditiva também torna especialmente relevante considerar recursos visuais, gestuais e corporais, sem pressupor que crianças com características semelhantes se comuniquem da mesma maneira.
A repetição posterior acrescenta uma dimensão relacional. A criança passou a reconhecer aquela pessoa e reproduzir uma sequência de interação quando a encontrava. A repetição pode contribuir para estabelecer previsibilidade, demonstrar interesse, organizar uma experiência ou manter uma interação que adquiriu significado. Somente uma observação continuada, considerando a história e as formas habituais de comunicação da criança, permitiria compreender melhor sua função.
O episódio também evidencia que a comunicação infantil não se limita à linguagem verbal. A criança pode expressar interesse, reconhecimento e afeto por meio do olhar, do movimento, da aproximação e de gestos. Isso não significa que todo comportamento tenha uma mensagem única que o adulto possa decifrar imediatamente. Significa que o comportamento precisa ser observado dentro de seu contexto, respeitando a singularidade da criança.
No Ramo Filhote, essa perspectiva possui especial relevância. A aprendizagem acontece também pela convivência, pela experiência concreta, pela exploração e pela construção de vínculos. Para uma criança neurodivergente e com deficiência auditiva, uma prática inclusiva precisa reconhecer diferentes formas de participação e comunicação, sem reduzir a criança à sua condição ou pressupor uma única maneira correta de demonstrar interesse, afeto ou compreensão.
Ao mesmo tempo, vínculo não significa ausência de limites. O desenvolvimento da autonomia inclui compreender que cada pessoa possui direito ao próprio corpo. Abraços e contatos físicos precisam respeitar a disponibilidade e o consentimento do outro. Esses conceitos podem ser ensinados por meio de recursos visuais, gestuais, Libras, histórias sociais e experiências concretas.
O episódio não permite concluir exatamente o que aquela criança compreendeu sobre a gravidez. Permite, porém, observar algo fundamental: ela percebeu uma pessoa, estabeleceu uma relação e encontrou uma forma própria de manter aquele encontro.
Na perspectiva da Epistemologia do Brincar, conhecer não é apenas receber informações. É também perceber, experimentar, investigar, relacionar e construir significado. A criança aprende com o ambiente, mas aprende também com as relações que estabelece dentro dele.
Talvez nunca saibamos exatamente por que aquele gesto aconteceu daquela maneira. E não precisamos preencher essa lacuna com uma explicação definitiva. A observação cuidadosa pode ser mais importante do que uma resposta imediata.
Porque, na infância, muitas vezes o corpo começa a comunicar aquilo que a linguagem ainda está aprendendo a nomear.
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