Ele é construído nas experiências que oferecemos às crianças no presente.
Existe uma ideia recorrente de que o futuro começa quando a criança crescer. Nessa perspectiva, a infância aparece como uma espécie de intervalo preparatório: primeiro a criança aprende, depois participa; primeiro recebe, depois cria; primeiro brinca, depois transforma o mundo. Essa separação, entretanto, ignora que a criança já vive no mundo, já estabelece relações, já produz cultura e já participa das formas pelas quais uma sociedade constrói seu presente.
O futuro não é um território distante que começa quando termina a infância. Ele está sendo formado nas experiências cotidianas que as crianças vivem agora. A maneira como aprendem a observar, perguntar, criar, cooperar, cuidar, resolver problemas, lidar com diferenças e relacionar-se com a natureza participa da construção das possibilidades que terão posteriormente para habitar o mundo.
Por isso, pensar a infância exige pensar também o tipo de sociedade que está sendo construído por meio dela. Uma educação que valoriza somente a competição produz determinadas formas de relação. Uma educação que reconhece a cooperação amplia outras possibilidades. Uma educação que trata a natureza apenas como recurso ensina uma determinada maneira de habitá-la. Uma educação que possibilita experimentar, investigar e cuidar pode construir outra relação com o território.
O mesmo acontece com a cultura. Quando uma criança conhece uma brincadeira tradicional, uma história, uma manifestação artística ou a memória de sua comunidade, não está simplesmente olhando para o passado. Está recebendo elementos que poderão ser reinterpretados no presente. Quando cria uma nova brincadeira, transforma um objeto ou inventa uma narrativa, também está produzindo algo que poderá integrar a memória cultural de seu grupo.
É nesse movimento que a infância se torna uma dimensão fundamental da continuidade social. A criança recebe um mundo que não criou, mas não precisa permanecer apenas como sua destinatária. Ela pode questioná-lo, recriá-lo e acrescentar novas possibilidades. A educação tem a responsabilidade de oferecer condições para que esse processo aconteça com liberdade, repertório, responsabilidade e participação.
A Brincadeira Sustentável insere-se nesse campo ao compreender o brincar como experiência de transformação. Quando uma criança transforma um material, também pode transformar sua percepção sobre aquilo que considera útil, descartável, belo ou possível. Quando constrói coletivamente, aprende que uma ideia pode nascer da relação com outras ideias. Quando brinca com elementos da natureza, estabelece uma relação sensível com o território. Quando cria, deixa marcas de sua própria presença cultural.
Sustentabilidade, nesse sentido, não pode ser reduzida à preocupação com aquilo que será deixado para as próximas gerações. É preciso considerar também aquilo que estamos formando nas pessoas que chegarão a esse futuro. Não basta perguntar que planeta deixaremos. É necessário perguntar que repertório, que vínculos, que valores, que conhecimentos e que capacidade de criação estamos oferecendo às crianças que irão habitá-lo.
O futuro não precisa ser imaginado como uma promessa abstrata. Ele pode ser observado nas pequenas experiências que se repetem todos os dias: na criança que aprende a esperar, na que descobre outra maneira de resolver um problema, na que percebe o outro, na que transforma um objeto, na que pergunta por que determinada coisa é assim, na que inventa uma solução que ninguém havia previsto.
É nessas experiências aparentemente pequenas que uma sociedade começa a construir suas formas futuras de conhecimento, convivência e criação.
Por isso, cuidar da infância não é apenas cuidar de uma etapa da vida. É cuidar das condições culturais, ambientais, afetivas e intelectuais nas quais uma sociedade continuará existindo.
O futuro não começa depois da infância. Ele começa na maneira como uma sociedade escolhe viver a infância no presente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.