*BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL DESDE 2013*

Pesquisa, conceito e autoria: Renata Bravo / Contato: renatarjbravo@gmail.com

Inspirada em Heidegger, a Brincadeira Sustentável não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser vivida, elaborada e incorporada.
A tese que fundamenta este blog parte de uma ideia simples e duradoura: a infância, o brincar, a cultura, a natureza e as relações humanas constituem dimensões essenciais da formação do indivíduo e da construção da vida em sociedade. Embora os contextos históricos, as tecnologias e os modos de viver se transformem, essa base permanece atual. Por isso, não se trata de uma tese vinculada a uma época específica, mas de uma perspectiva que atravessa gerações e continua encontrando sentido sempre que uma criança brinca, aprende, cria, convive e estabelece sua relação com o mundo.

A INFÂNCIA EM TRÂNSITO: MEMÓRIA, CULTURA E FUTURO

sábado, 19 de setembro de 2026

O objeto não é apenas um objeto


Matéria, memória, função e possibilidade.

Um objeto raramente é apenas aquilo que aparenta ser. Sua forma, sua matéria, sua função e seu contexto revelam apenas parte de sua existência. Uma caixa pode ter sido embalagem, um tecido pode ter pertencido a uma roupa, uma madeira pode ter vindo de uma construção, uma garrafa pode ter cumprido uma função cotidiana. Antes de chegar às mãos de uma criança, cada objeto já percorreu uma história. Quando é retirado de sua função original e colocado diante de novas possibilidades, essa história não desaparece. Ela passa a fazer parte daquilo que poderá ser criado.

Na infância, essa transformação acontece com frequência. Uma cadeira pode virar uma casa, uma caixa pode transformar-se em barco, um pedaço de papel pode tornar-se mapa, uma pedra pode representar um personagem. A criança não vê somente o objeto que o adulto reconhece. Ela percebe possibilidades. Essa capacidade de atribuir novos sentidos à matéria é uma das manifestações mais potentes da imaginação e também uma forma de pensamento.

O objeto, nesse contexto, torna-se mediador entre a criança e o mundo. Sua resistência apresenta um limite; sua forma sugere uma possibilidade; seu peso modifica o movimento; sua textura provoca uma resposta; sua fragilidade exige cuidado. Ao interagir com a matéria, a criança precisa negociar entre aquilo que imaginou e aquilo que o objeto permite realizar. É nesse encontro que a criação deixa de ser apenas fantasia e passa a envolver investigação.

Essa relação também possui uma dimensão cultural. Objetos cotidianos podem guardar hábitos, modos de fazer, tecnologias, escolhas estéticas e memórias familiares ou comunitárias. Um brinquedo antigo, uma ferramenta, um utensílio doméstico ou uma peça artesanal pode revelar formas de vida que não aparecem nos livros. A matéria também conta histórias.

Por isso, trabalhar com objetos na educação não precisa significar apenas utilizá-los como recursos para ensinar determinado conteúdo. O próprio objeto pode ser objeto de investigação. De onde veio? Para que servia? Quem o utilizava? Como foi produzido? Por que deixou de ser utilizado? Que materiais o constituem? O que poderia ser feito com ele agora? Essas perguntas transformam uma coisa aparentemente comum em campo de conhecimento.

É nesse ponto que a Brincadeira Sustentável ultrapassa a ideia de reciclagem. Reciclar está relacionado à transformação da matéria dentro de determinados processos. Ressignificar envolve também transformar a relação que estabelecemos com ela. O que antes era visto como sobra pode passar a ser percebido como recurso, linguagem, memória, ferramenta ou matéria artística.

Essa mudança de olhar é fundamental para a sustentabilidade. Uma cultura baseada exclusivamente na substituição tende a considerar rapidamente os objetos ultrapassados. Uma cultura orientada pela ressignificação pergunta antes se aquilo realmente perdeu sua possibilidade de uso, de transformação ou de significado. O valor de um objeto não está necessariamente limitado à função para a qual foi originalmente produzido.

Na experiência infantil, essa ressignificação pode produzir uma importante aprendizagem: as coisas não precisam permanecer exatamente como foram encontradas. Mas isso não significa transformar tudo indiscriminadamente. Ressignificar exige observar, compreender características, reconhecer limites e imaginar possibilidades. É uma criação baseada no encontro entre intenção e matéria.

A arte também nasce desse encontro. O artista não trabalha apenas com uma ideia abstrata. Trabalha com materiais que oferecem resistência, surpresa e possibilidade. A criança, quando cria com objetos, experimenta uma relação semelhante: imagina algo, tenta realizar, encontra um obstáculo, modifica o projeto e descobre uma solução que talvez não estivesse prevista.

Existe, portanto, uma dimensão epistemológica na relação com a matéria. Ao transformar um objeto, a criança também investiga aquilo que ele é e aquilo que pode vir a ser. Aprende que a realidade possui características, mas também possui possibilidades. Aprende que conhecer não significa apenas identificar, mas também estabelecer relações.

Essa experiência pode modificar a própria percepção sobre o descarte. Aquilo que parecia sem valor passa a ser observado novamente. E, quando o olhar muda, a relação com o mundo também pode mudar.

Um objeto não é apenas aquilo que foi. Ele também pode carregar aquilo que foi vivido, aquilo que representa e aquilo que ainda pode se tornar.

É nesse espaço entre memória, matéria e possibilidade que a criança transforma um objeto e, muitas vezes, transforma também a maneira de olhar para o mundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Percepção multissensorial e criatividade

Introdução Desde a infância, percebo o mundo de maneira predominantemente multissensorial. Letras, números, formas, cores, objetos e configu...