*BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL DESDE 2013*

Pesquisa, conceito e autoria: Renata Bravo / Contato: renatarjbravo@gmail.com

Inspirada em Heidegger, a Brincadeira Sustentável não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser vivida, elaborada e incorporada.
A tese que fundamenta este blog parte de uma ideia simples e duradoura: a infância, o brincar, a cultura, a natureza e as relações humanas constituem dimensões essenciais da formação do indivíduo e da construção da vida em sociedade. Embora os contextos históricos, as tecnologias e os modos de viver se transformem, essa base permanece atual. Por isso, não se trata de uma tese vinculada a uma época específica, mas de uma perspectiva que atravessa gerações e continua encontrando sentido sempre que uma criança brinca, aprende, cria, convive e estabelece sua relação com o mundo.

A INFÂNCIA EM TRÂNSITO: MEMÓRIA, CULTURA E FUTURO

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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

AUTISMO E APRENDIZAGEM: COMPREENDER O ESTUDANTE PARA ENSINAR MELHOR

1. Compreender antes de avaliar

A inclusão de estudantes autistas exige que a escola compreenda como cada criança percebe o ambiente, recebe informações, estabelece relações, comunica suas necessidades e participa das atividades pedagógicas. O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), por si só, não determina o potencial de aprendizagem, o nível de autonomia ou as estratégias educacionais necessárias. O espectro reúne pessoas com características, habilidades e necessidades de apoio distintas. Por isso, não existe uma única metodologia capaz de atender igualmente a todos os estudantes autistas. O planejamento pedagógico precisa considerar as particularidades de cada criança, sem reduzir suas possibilidades ao diagnóstico.

2. Comunicação e compreensão das orientações

Uma criança pode compreender mais do que consegue expressar oralmente. Outra pode apresentar boa comunicação verbal, mas ter dificuldade para interpretar instruções extensas, compreender expressões figuradas ou acompanhar conversas em ambientes com muitos estímulos. Há também estudantes que utilizam gestos, imagens, pranchas de comunicação, dispositivos de comunicação alternativa ou Língua Brasileira de Sinais (Libras). Essas formas de comunicação precisam ser reconhecidas e respeitadas.

Na prática escolar, instruções objetivas, organizadas em etapas, podem facilitar a compreensão. Em vez de apresentar várias tarefas simultaneamente, o professor pode indicar uma ação por vez, demonstrar o que deve ser feito e verificar se a criança compreendeu a proposta. Recursos visuais, sequências ilustradas, objetos concretos e exemplos práticos podem ampliar o acesso à informação. Essas estratégias não devem ser aplicadas automaticamente a todos os estudantes, mas selecionadas conforme a resposta observada em cada situação.

3. Previsibilidade, rotina e participação

A organização da rotina pode favorecer a participação de estudantes que encontram dificuldades diante de mudanças inesperadas, transições ou ambientes pouco previsíveis. Um quadro visual com a sequência do dia, avisos prévios sobre alterações e a divisão de tarefas em etapas ajudam a tornar as atividades mais compreensíveis. Quando uma mudança for necessária, explicar o que acontecerá e apresentar a próxima etapa pode reduzir a incerteza.

Entretanto, previsibilidade não significa impedir mudanças ou manter a criança permanentemente afastada de novas experiências. O objetivo é construir condições para que ela amplie gradualmente sua participação, desenvolva estratégias de adaptação e conquiste autonomia, respeitando seu ritmo e suas necessidades de apoio.

4. Processamento sensorial e ambiente escolar

Ruídos intensos, iluminação, cheiros, contato com determinadas texturas, aglomerações e excesso de estímulos visuais podem interferir na participação de alguns estudantes autistas. Em certas situações, a criança pode demonstrar desconforto, afastar-se, cobrir os ouvidos, ficar agitada ou apresentar dificuldade para continuar uma atividade. Essas manifestações precisam ser observadas com cuidado, sem interpretações precipitadas de desobediência, falta de interesse ou indisciplina.

A escola pode avaliar a possibilidade de reorganizar o espaço, reduzir ruídos desnecessários, oferecer pausas planejadas, antecipar ambientes movimentados e disponibilizar materiais que favoreçam a participação. Quando necessário, a família e os profissionais que acompanham a criança podem contribuir para identificar estratégias adequadas. A observação pedagógica não substitui uma avaliação clínica, mas permite reconhecer barreiras presentes no cotidiano escolar.

5. Brincar também é aprender

As brincadeiras constituem oportunidades de aprendizagem, comunicação, exploração, imaginação, resolução de problemas e convivência. Entretanto, nem todas as crianças participam de uma proposta da mesma maneira. Um estudante pode preferir observar antes de entrar na atividade, necessitar de uma demonstração concreta, utilizar um objeto de referência ou começar a brincar individualmente antes de interagir com os colegas.

Em vez de exigir uma única forma de participação, o educador pode oferecer diferentes possibilidades de envolvimento. Uma brincadeira de classificação, por exemplo, pode utilizar peças coloridas, figuras, objetos concretos ou materiais com diferentes texturas, desde que sejam adequados e seguros. Uma atividade de construção pode permitir que a criança escolha materiais, acompanhe um modelo visual, trabalhe com um colega ou execute determinadas etapas com apoio.

Na perspectiva da Brincadeira Sustentável, materiais reutilizáveis podem ampliar as experiências de investigação, criação e transformação. Caixas, rolos de papel, tecidos e embalagens higienizadas podem integrar propostas de classificação, construção, composição artística e resolução de desafios. A seleção deve considerar idade, riscos de ingestão, pontas, bordas, alergias, higiene e necessidades específicas de cada participante. O material não é inclusivo apenas por estar disponível: precisa ser acessível, seguro e compatível com a atividade proposta.

6. Interesses específicos como possibilidades pedagógicas

Alguns estudantes autistas demonstram interesse intenso por determinados assuntos, objetos, sistemas, personagens ou atividades. Esses interesses podem servir como ponto de partida para ampliar aprendizagens, desde que não sejam utilizados para limitar a criança a um único tema ou impedir o contato com novas experiências.

Se um estudante demonstra interesse por números, o professor pode propor situações de contagem, comparação de quantidades, organização de sequências e resolução de problemas. Se gosta de mapas, pode explorar localização, trajetos, paisagens e relações espaciais. Se observa atentamente veículos, máquinas ou animais, esses elementos podem integrar atividades de desenho, leitura, investigação e produção de modelos.

O planejamento deve utilizar os interesses como recursos de aproximação e engajamento, ampliando progressivamente o repertório cultural, a comunicação e a participação do estudante. Também é importante reconhecer competências que podem não aparecer em tarefas convencionais e oferecer oportunidades para que sejam demonstradas de diferentes maneiras.

7. Avaliar a aprendizagem sem confundir desempenho e capacidade

Uma criança pode conhecer determinado conteúdo e, ainda assim, encontrar dificuldades para demonstrá-lo em uma avaliação que exige leitura extensa, resposta oral, escrita manual, interação em grupo ou permanência prolongada em um ambiente com muitos estímulos. Quando isso acontece, é necessário analisar se a atividade está medindo o conhecimento pretendido ou se as barreiras de comunicação, acesso e execução estão interferindo no resultado.

A avaliação pode utilizar demonstrações práticas, respostas por seleção de imagens, materiais concretos, recursos de comunicação alternativa, tempo adequado e instruções organizadas em etapas, conforme as necessidades do estudante e os objetivos curriculares. Adaptar o modo de acesso ou de resposta não significa necessariamente reduzir a exigência pedagógica. Significa criar condições para avaliar efetivamente o que a criança aprendeu, preservando os objetivos essenciais e registrando seus avanços.

O professor também precisa acompanhar o processo, não apenas o resultado final. Registros de observação, produções, participação, estratégias utilizadas e progressos individuais contribuem para um planejamento mais consistente.

8. Autonomia e apoio na medida necessária

Oferecer apoio não significa realizar todas as tarefas pela criança. A intervenção pedagógica precisa identificar quais etapas o estudante consegue executar sozinho, em quais necessita de orientação e em quais depende de apoio mais direto. Quando possível, o adulto pode apresentar um modelo, oferecer uma pista visual, organizar os materiais ou orientar o início da tarefa, reduzindo a ajuda conforme a criança desenvolve novas habilidades.

Por outro lado, retirar apoio antes que o estudante tenha condições de realizar uma atividade pode produzir exclusão, frustração e perda de oportunidades de aprendizagem. A autonomia não deve ser utilizada como justificativa para negar recursos necessários. Ela é construída por meio de experiências acessíveis, ensino intencional, oportunidades de escolha e apoios compatíveis com as necessidades individuais.

A escola deve observar a evolução do estudante e rever as estratégias quando elas não produzem participação ou aprendizagem. A permanência física na sala de aula, sem acesso efetivo às atividades, não equivale à inclusão educacional.

9. Família, escola e profissionais: responsabilidades complementares

A família conhece aspectos importantes da história, da comunicação, dos interesses e das necessidades da criança. A escola possui a responsabilidade pedagógica de planejar o ensino, promover acessibilidade e acompanhar o desenvolvimento educacional. Profissionais da saúde e de outras áreas podem contribuir dentro de suas competências, respeitando os limites de atuação de cada campo.

A comunicação entre esses envolvidos pode ajudar a identificar barreiras e construir estratégias coerentes. Entretanto, a responsabilidade pela escolarização não pode ser transferida integralmente à família, nem condicionada à realização de terapias particulares. A ausência de determinado atendimento externo não elimina o dever da instituição de oferecer ensino acessível e os apoios educacionais legalmente devidos.

Quando houver necessidade de recursos de acessibilidade, atendimento educacional especializado ou profissional de apoio escolar, a instituição deve avaliar as necessidades do estudante conforme a legislação aplicável e organizar os serviços pertinentes. Esses recursos possuem funções distintas e não substituem o trabalho pedagógico do professor.

10. O direito à educação inclusiva

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) estabelece direitos relacionados à educação inclusiva, à acessibilidade e à eliminação de barreiras. A Lei nº 12.764/2012 institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e reconhece a pessoa autista como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. O Decreto nº 8.368/2014 regulamenta essa política e trata, entre outros pontos, do acesso à educação e do acompanhante especializado nas situações previstas na legislação.

Essas normas devem ser compreendidas em conjunto com as necessidades concretas do estudante. A inclusão não consiste em aplicar uma solução padronizada a todas as crianças autistas, mas em assegurar acesso, participação, aprendizagem e desenvolvimento, com os recursos necessários a cada situação.

Referências legais e pedagógicas

Lei Brasileira de Inclusão - Lei nº 13.146/2015: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm

Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista - Lei nº 12.764/2012: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm

Decreto nº 8.368/2014: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/decreto/d8368.htm

Base Nacional Comum Curricular (BNCC): https://basenacionalcomum.mec.gov.br/

Desenho Universal para a Aprendizagem — CAST: https://udlguidelines.cast.org/

Considerações finais

Compreender o estudante autista é reconhecer que aprender não depende de uma única forma de comunicar, brincar, responder ou participar. O papel da escola é identificar barreiras, organizar estratégias pedagógicas, oferecer acessibilidade e criar oportunidades reais para o desenvolvimento das potencialidades de cada criança. A inclusão acontece quando o estudante deixa de ser tratado como alguém que precisa simplesmente se ajustar a um modelo único e passa a ser reconhecido como sujeito de direitos, participante do processo educativo e capaz de construir conhecimentos.

PROFISSIONAL DE APOIO ESCOLAR: DIREITO, NECESSIDADE INDIVIDUAL E RESPONSABILIDADE DA ESCOLA


A inclusão escolar exige mais do que a matrícula e a presença física do estudante na sala de aula. Para que a participação e a aprendizagem sejam efetivas, é necessário identificar as barreiras existentes, organizar os recursos de acessibilidade e garantir os apoios previstos na legislação, de acordo com as necessidades de cada criança. Nesse contexto, o profissional de apoio escolar pode desempenhar uma função importante, mas sua atuação precisa ser compreendida corretamente, sem confusão com as atribuições do professor ou com as responsabilidades pedagógicas da instituição.

A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Lei nº 13.146/2015, define o profissional de apoio escolar e estabelece responsabilidades relacionadas à oferta de condições de acesso, permanência, participação e aprendizagem. A Lei nº 12.764/2012, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, também prevê o direito a acompanhante especializado em casos de comprovada necessidade, no contexto da classe comum do ensino regular. A aplicação dessas disposições deve considerar a legislação vigente, as necessidades identificadas e as atribuições de cada profissional.

É importante esclarecer que o apoio não deve ser definido apenas pelo diagnóstico. Crianças com a mesma deficiência ou condição podem apresentar necessidades bastante diferentes. Algumas precisam de auxílio em atividades relacionadas à alimentação, à higiene, à locomoção ou à comunicação; outras podem necessitar de recursos específicos para participar das atividades escolares. A avaliação deve considerar as barreiras enfrentadas pelo estudante e o tipo de apoio necessário para assegurar sua participação, autonomia e segurança.

O profissional de apoio escolar não substitui o professor regente, não assume sozinho a responsabilidade pelo ensino e não deve ser utilizado como justificativa para afastar o estudante do convívio com a turma. O planejamento pedagógico continua sendo responsabilidade dos profissionais da educação. A atuação do apoio deve contribuir para que a criança participe das atividades propostas, interaja com os colegas e tenha acesso às experiências escolares, respeitando suas necessidades e favorecendo o desenvolvimento progressivo da autonomia.

Também é necessário distinguir o profissional de apoio escolar do professor do Atendimento Educacional Especializado (AEE). O AEE tem finalidade própria na identificação e na organização de recursos pedagógicos e de acessibilidade, buscando eliminar barreiras à participação e à aprendizagem. Já o profissional de apoio atua nas atividades previstas para sua função, conforme as necessidades do estudante e os limites legais. Esses serviços podem ser complementares, mas não são intercambiáveis.

Uma das dificuldades enfrentadas por famílias ocorre quando a instituição informa que não dispõe de profissionais suficientes e, diante disso, a criança permanece sem o apoio necessário ou a matrícula é dificultada. A falta de recursos humanos é um problema de organização e gestão que precisa ser enfrentado pelos responsáveis pelo sistema de ensino. Não deve se transformar em impedimento automático ao acesso à educação nem em justificativa para manter o estudante sem condições adequadas de participação.

A organização das equipes pode exigir concursos públicos, processos seletivos, formação continuada, planejamento orçamentário e, quando legalmente cabível, contratação de serviços especializados. A escolha do procedimento depende das regras administrativas aplicáveis e da realidade de cada rede de ensino. O essencial é que a instituição identifique as necessidades, planeje as providências e busque soluções efetivas, em vez de transferir o problema para as famílias.

Os responsáveis podem colaborar fornecendo informações sobre a rotina, as formas de comunicação, as necessidades e as estratégias que favorecem a participação da criança. Também podem sugerir profissionais qualificados ou compartilhar experiências que ajudem na busca de soluções. Essa colaboração, porém, não significa que devam contratar, pagar ou encontrar por conta própria o profissional necessário para garantir o atendimento escolar. A parceria com a família deve complementar o trabalho institucional, não substituir as responsabilidades da escola ou do poder público.

A formação dos profissionais é outro aspecto indispensável. O apoio escolar exige respeito à dignidade da criança, compreensão de suas necessidades, capacidade de seguir orientações da equipe pedagógica, cuidado com a privacidade e atenção à promoção da autonomia. O profissional não deve decidir isoladamente quais atividades a criança realizará, reduzir sua participação por conveniência ou mantê-la afastada dos colegas sem uma justificativa pedagógica e sem considerar alternativas inclusivas.

A atuação precisa ser planejada para evitar tanto a ausência de apoio quanto a dependência desnecessária. A finalidade não é fazer tudo pela criança, mas oferecer o suporte de que ela precisa para participar de maneira progressivamente mais autônoma. Isso requer observação, diálogo entre os profissionais e revisão periódica das estratégias, considerando mudanças nas necessidades e os avanços do estudante.

Na Educação Infantil, essa organização é especialmente relevante porque as brincadeiras, a exploração dos materiais, a interação com outras crianças e as experiências cotidianas constituem oportunidades importantes de aprendizagem. O apoio pode facilitar o acesso a brinquedos, a compreensão das regras, a comunicação e a participação em atividades coletivas. Entretanto, a criança precisa continuar sendo reconhecida como participante da experiência, e não apenas como alguém que recebe assistência individual.

Na perspectiva da Brincadeira Sustentável, a acessibilidade também deve ser considerada na seleção e na preparação dos materiais, na organização do espaço e na apresentação das propostas. Uma brincadeira com materiais reutilizáveis pode precisar de peças maiores, objetos fixados à superfície, instruções visuais, ferramentas adaptadas ou outras estratégias. Essas escolhas devem ser feitas conforme as necessidades do grupo e as características dos participantes, com atenção à higiene e à segurança. O planejamento acessível amplia as possibilidades de participação, mas não elimina a necessidade de apoio individual quando este for necessário.

Quando a família identifica que a criança não está recebendo os recursos necessários, é importante registrar as dificuldades, solicitar uma reunião com a escola e pedir esclarecimentos sobre as medidas previstas. Se o problema persistir, pode buscar orientação junto à Secretaria de Educação, aos órgãos de proteção dos direitos da pessoa com deficiência, à Defensoria Pública ou ao Ministério Público, conforme a situação. A documentação das solicitações e das respostas pode contribuir para esclarecer os fatos e encaminhar a demanda pelos meios adequados.

A discussão sobre o profissional de apoio escolar não deve ser reduzida à quantidade de pessoas disponíveis. O ponto central é garantir que cada estudante tenha as condições necessárias para acessar o currículo, participar da rotina, comunicar-se, conviver com os colegas e desenvolver suas potencialidades. A existência de um profissional, por si só, não assegura inclusão; é necessário que sua atuação esteja integrada ao planejamento pedagógico e aos objetivos de participação e aprendizagem.

O profissional de apoio escolar não é um substituto da escola nem um privilégio concedido à família. É um recurso cuja necessidade deve ser avaliada e atendida conforme a legislação, para que o direito à educação inclusiva se concretize na rotina escolar.

Referências legais

BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm

BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm

BRASIL. Decreto nº 8.368, de 2 de dezembro de 2014. Regulamenta a Lei nº 12.764/2012. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/decreto/d8368.htm

ADAPTAR NÃO É FACILITAR: É GARANTIR CONDIÇÕES PARA APRENDER


A educação inclusiva exige compreender que oferecer a mesma atividade, da mesma maneira e nas mesmas condições, não garante igualdade de oportunidades. Crianças diferentes podem necessitar de recursos, estratégias, tempos e formas de participação distintos para alcançar objetivos de aprendizagem. Adaptar uma atividade não significa diminuir a capacidade do estudante, eliminar desafios ou oferecer vantagens indevidas. Significa identificar barreiras e organizar condições para que cada criança possa participar, aprender e desenvolver suas potencialidades.

Uma proposta pedagógica precisa considerar as características dos estudantes, os objetivos de aprendizagem e as condições concretas de participação. Quando uma criança apresenta dificuldade para compreender uma instrução exclusivamente verbal, por exemplo, o uso de imagens, demonstrações práticas, objetos concretos ou sequências visuais pode tornar a atividade mais acessível. Quando há dificuldades motoras, pode ser necessário modificar o tamanho dos materiais, a forma de segurá-los, a disposição dos objetos ou o modo de realizar determinada tarefa. Quando existem necessidades específicas de comunicação, as orientações precisam ser apresentadas por meios que a criança consiga compreender e utilizar.

Essas adaptações não devem ser improvisadas apenas depois que o estudante demonstra dificuldade. O planejamento inclusivo procura antecipar diferentes necessidades e oferecer mais de uma possibilidade de acesso ao conteúdo, participação e expressão do que foi aprendido. Essa perspectiva se aproxima dos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), que orientam a organização de experiências educacionais flexíveis, com diferentes formas de apresentar informações, envolver os estudantes e permitir que demonstrem suas aprendizagens.

Na Educação Infantil, essa abordagem pode ser incorporada às brincadeiras, às atividades artísticas, às experiências com a natureza, à exploração de materiais e às propostas de movimento. Uma atividade de classificação, por exemplo, pode utilizar cores, formas, texturas ou tamanhos, permitindo diferentes formas de exploração. Uma construção com materiais reutilizáveis pode ser realizada com peças maiores, elementos previamente preparados ou ferramentas adaptadas, conforme as necessidades e a segurança dos participantes. Uma história pode ser apresentada com imagens, objetos concretos, gestos, comunicação alternativa ou Libras, quando pertinente.

O importante é preservar o objetivo pedagógico sem transformar uma única forma de execução em condição obrigatória para aprender. Se o objetivo é reconhecer formas geométricas, a criança pode demonstrar essa compreensão apontando, selecionando, agrupando, nomeando ou utilizando um sistema de comunicação acessível. Se a proposta pretende explorar relações espaciais, o estudante pode participar por meio da movimentação de objetos, da observação, da orientação verbal acessível ou de recursos visuais, de acordo com suas possibilidades.

Também é necessário diferenciar adaptação de exclusão disfarçada. Retirar a criança de todas as atividades coletivas, oferecer-lhe tarefas sem relação com o conteúdo trabalhado ou mantê-la permanentemente ocupada com exercícios repetitivos não garante inclusão. A participação precisa ter sentido pedagógico e social. Sempre que possível, a atividade deve preservar oportunidades de interação, colaboração e pertencimento ao grupo, com os apoios necessários.

A avaliação também deve acompanhar essa perspectiva. O professor precisa observar o que a criança compreendeu, quais estratégias utilizou, que avanços apresentou e quais barreiras ainda interferem em sua participação. Uma dificuldade em realizar determinada tarefa pode estar relacionada ao formato da instrução, ao material utilizado, ao ambiente, à comunicação ou à necessidade de apoio, e não necessariamente à ausência de aprendizagem. Por isso, observar o processo é tão importante quanto analisar o resultado final.

A parceria com a família e com os profissionais que acompanham o estudante pode contribuir para identificar estratégias eficazes, respeitando a privacidade da criança e as atribuições de cada profissional. Essa colaboração, porém, não substitui a responsabilidade pedagógica da escola nem a obrigação de organizar os recursos de acessibilidade e apoio cabíveis.

Na perspectiva da Brincadeira Sustentável, adaptar também significa transformar materiais e possibilidades de uso. Papelão, tecidos, tampas, caixas, rolos e outros materiais reutilizáveis podem ser selecionados e organizados para atender a diferentes formas de exploração. É necessário avaliar higiene, integridade, dimensões, risco de ingestão, pontas, bordas e demais condições de segurança antes de disponibilizá-los. A reutilização consciente pode ampliar as experiências educativas, desde que a escolha dos materiais considere a faixa etária, as necessidades dos participantes e os objetivos da atividade.

A inclusão não exige que todas as crianças façam tudo exatamente da mesma maneira. Exige que tenham oportunidades reais de participar, aprender e progredir. Quando uma atividade precisa ser modificada para se tornar acessível, o planejamento pedagógico cumpre sua função: reconhecer as diferenças sem transformar essas diferenças em impedimentos.

Adaptar não é facilitar. É remover barreiras, ampliar possibilidades e garantir que o direito de aprender se transforme em experiência concreta.

Referências para aprofundamento

BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/

CAST. Universal Design for Learning Guidelines. Referência internacional sobre os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem. Disponível em: https://udlguidelines.cast.org/

Percepção multissensorial e criatividade

Introdução Desde a infância, percebo o mundo de maneira predominantemente multissensorial. Letras, números, formas, cores, objetos e configu...