*BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL DESDE 2013*

Pesquisa, conceito e autoria: Renata Bravo / Contato: renatarjbravo@gmail.com

Inspirada em Heidegger, a Brincadeira Sustentável não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser vivida, elaborada e incorporada.
A tese que fundamenta este blog parte de uma ideia simples e duradoura: a infância, o brincar, a cultura, a natureza e as relações humanas constituem dimensões essenciais da formação do indivíduo e da construção da vida em sociedade. Embora os contextos históricos, as tecnologias e os modos de viver se transformem, essa base permanece atual. Por isso, não se trata de uma tese vinculada a uma época específica, mas de uma perspectiva que atravessa gerações e continua encontrando sentido sempre que uma criança brinca, aprende, cria, convive e estabelece sua relação com o mundo.

A INFÂNCIA EM TRÂNSITO: MEMÓRIA, CULTURA E FUTURO

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A AVENIDA BRASIL E O DECLÍNIO INDUSTRIAL DO RIO DE JANEIRO: FÁBRICAS, EMPREGOS E TRANSFORMAÇÕES URBANAS


A Avenida Brasil faz parte da história da industrialização do Rio de Janeiro. Ao longo de seu percurso e em suas proximidades, instalaram-se fábricas de diferentes segmentos, responsáveis pela produção de bens de consumo, produtos químicos, materiais de construção, equipamentos, alimentos e artigos utilizados no cotidiano da população. Essas indústrias contribuíram para a geração de empregos, a formação profissional e o desenvolvimento econômico dos bairros cariocas.

Durante décadas, a atividade industrial movimentou uma extensa rede de trabalhadores e empresas. Além dos funcionários das fábricas, havia fornecedores de matérias-primas, transportadores, mecânicos, eletricistas, profissionais de manutenção, comerciantes e prestadores de serviços. Uma indústria não representa apenas um prédio ou uma linha de produção: ela integra uma cadeia econômica que pode sustentar inúmeras famílias e movimentar toda uma região.

Entretanto, o Rio de Janeiro passou por profundas transformações industriais. Muitas fábricas encerraram suas atividades, transferiram a produção ou tiveram seus terrenos destinados a empreendimentos comerciais e outros usos. Esse processo modificou a paisagem urbana e levantou questões sobre a perda de empregos, a redução da capacidade produtiva e o destino do patrimônio industrial.

Entre as antigas indústrias que marcaram essa história estão a fábrica de Sabão Português, na região de Manguinhos; a Rheem Química, em Benfica; e a General Electric, em Maria da Graça. São exemplos de instalações industriais que deixaram de funcionar como fábricas e que ajudam a compreender as transformações ocorridas nos subúrbios cariocas.

Em Coelho Neto, a Remington, associada à fabricação de máquinas de escrever, representa outro capítulo dessa história. A popularização dos computadores e dos processadores de texto transformou o mercado e reduziu a demanda por equipamentos tradicionais. Esse caso permite compreender como as mudanças tecnológicas podem modificar profissões, produtos e cadeias produtivas inteiras.

A memória industrial dos subúrbios também inclui referências a empresas como Cisper, Eternit, Sanofi, IFF, Pimaco e Perdigão, associadas à atividade econômica da região. A situação de cada unidade precisa ser distinguida, pois a presença histórica de uma empresa em determinado bairro não significa necessariamente que todas as suas instalações tenham fechado.

Em Del Castilho, a antiga Fábrica de Tecidos Nova América teve seu complexo transformado em empreendimento comercial. Em Bangu, a antiga fábrica têxtil deu lugar a um shopping. Em Vila Isabel, a Companhia de Fiação e Tecidos Confiança permanece como parte da memória industrial carioca. No Santo Cristo, a antiga fábrica de chocolates Bhering passou a abrigar ateliês e atividades culturais após o encerramento de sua produção industrial tradicional.

Outras empresas associadas à história industrial fluminense incluem Nashua, Eninco, Estub e Blindex, relacionadas a diferentes atividades produtivas e regiões da cidade. A reconstrução dessa memória exige identificar os endereços e as trajetórias de cada unidade, distinguindo fábricas efetivamente fechadas daquelas que foram transferidas, vendidas ou continuaram operando em outros locais.

O levantamento pode abranger bairros como Manguinhos, Benfica, Bonsucesso, Ramos, Penha, Cordovil, Fazenda Botafogo, Coelho Neto e Campo Grande, além de outras áreas industriais do município. Nem todas essas fábricas ficavam exatamente à margem da Avenida Brasil, mas muitas integravam a rede produtiva e logística dos subúrbios cariocas.

Por que tantas indústrias encerraram suas atividades?

Não existe uma única explicação para o declínio industrial. Entre os fatores que podem contribuir para o fechamento de fábricas estão as crises econômicas, a redução da demanda, a concorrência com produtos importados, os custos de energia e transporte, as dificuldades de financiamento, a insuficiência de investimentos em modernização e as decisões empresariais de transferir a produção para outras regiões ou países.

As mudanças tecnológicas também transformam a indústria. Produtos que antes eram indispensáveis podem perder mercado diante de novas soluções. Ao mesmo tempo, países que investem em pesquisa, infraestrutura, equipamentos e formação profissional podem ampliar sua capacidade de produzir bens de maior complexidade tecnológica.

A concorrência internacional merece atenção porque, quando a produção de determinados bens se concentra no exterior, o Brasil pode passar a importar produtos que anteriormente fabricava internamente. O comércio internacional é importante para a economia, mas também é necessário desenvolver capacidade produtiva, conhecimento técnico e inovação dentro do próprio país.

As transformações urbanas também influenciam o destino das antigas áreas industriais. A valorização imobiliária, as mudanças no uso do solo e a expansão do comércio e dos serviços podem modificar a ocupação desses espaços. Entretanto, cada fechamento precisa ser analisado individualmente, pois não é correto atribuir todos os casos a uma única causa.

O que acontece com os empregos quando uma fábrica fecha?

Quando uma indústria encerra suas atividades, os efeitos podem ultrapassar o número de funcionários demitidos. A empresa deixa de comprar insumos, contratar determinados serviços e movimentar fornecedores. Os trabalhadores precisam procurar novas oportunidades, e os pequenos negócios que dependiam daquela atividade podem perder parte de sua renda.

A substituição de uma fábrica por um empreendimento comercial não garante que os empregos perdidos sejam recuperados em quantidade, remuneração ou qualificação. Por isso, a transformação de antigas áreas industriais deve ser avaliada também pela capacidade de gerar trabalho digno, renda e oportunidades para os moradores.

Fortalecer a economia de uma região não significa apenas construir novos empreendimentos, mas criar condições para o desenvolvimento de atividades produtivas diversificadas, capazes de oferecer empregos qualificados e estimular a circulação de renda.

Indústria, educação e formação profissional desde a infância

O desenvolvimento industrial está diretamente relacionado à educação. As atividades produtivas exigem conhecimentos científicos, matemáticos, técnicos e tecnológicos, além de competências ligadas ao planejamento, à organização, à manutenção, à segurança e à resolução de problemas.

A educação profissional não começa exclusivamente quando o jovem ingressa em um curso técnico. Desde a infância, experiências com desenho, construção, modelagem, artesanato, experimentação de materiais e criação de objetos podem contribuir para o desenvolvimento da coordenação motora, da observação, do raciocínio, da criatividade e da capacidade de planejar e executar projetos.

Isso não significa antecipar o ingresso das crianças no mercado de trabalho, mas ampliar suas experiências educativas e apresentar diferentes formas de criar, produzir e resolver problemas. Essas vivências podem contribuir para escolhas profissionais futuras, respeitando os interesses e o desenvolvimento de cada criança.

Na perspectiva da Brincadeira Sustentável, a transformação de materiais reutilizáveis oferece oportunidades para explorar essas relações. Ao selecionar materiais, compreender suas propriedades, planejar uma construção e transformar um objeto em outro, a criança vivencia processos de criação, experimentação e resolução de problemas. Essas atividades aproximam arte, educação ambiental, tecnologia e compreensão dos processos produtivos.

A arte, o artesanato e a produção criativa também podem constituir caminhos profissionais. Oficinas, ateliês, cooperativas e pequenos empreendimentos fazem parte da economia e demonstram que o conhecimento dos materiais e o domínio de técnicas podem se transformar em trabalho e geração de renda.

Preservar a memória industrial é compreender a cidade

Os antigos prédios industriais são documentos da história econômica e social. Suas estruturas, máquinas, fotografias e relatos de trabalhadores ajudam a compreender como o Rio de Janeiro se desenvolveu, quais produtos fabricava e quais conhecimentos foram construídos ao longo do tempo.

Preservar essa memória não significa impedir toda mudança de uso, mas reconhecer o valor histórico desses espaços e documentar as atividades que contribuíram para a formação da cidade. Sempre que possível, o patrimônio industrial pode ser integrado a projetos educativos, culturais e de desenvolvimento urbano.

A história das fábricas da Avenida Brasil e dos subúrbios cariocas permite discutir questões atuais: como gerar empregos de qualidade, fortalecer a produção nacional, desenvolver tecnologia, preparar profissionais e criar atividades econômicas compatíveis com a responsabilidade ambiental?

O desafio não é simplesmente recuperar o passado industrial, mas compreender suas experiências para planejar o futuro. Isso exige investimentos em infraestrutura, pesquisa, inovação e formação profissional, além de condições para que empresas de diferentes portes possam produzir com competitividade e responsabilidade social e ambiental.

Uma cidade que conhece sua história produtiva tem melhores condições de discutir quais atividades deseja desenvolver, quais oportunidades pretende oferecer à população e como pode conciliar trabalho, educação, inovação e sustentabilidade.


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