*BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL DESDE 2013*

Pesquisa, conceito e autoria: Renata Bravo / Contato: renatarjbravo@gmail.com

Inspirada em Heidegger, a Brincadeira Sustentável não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser vivida, elaborada e incorporada.
A tese que fundamenta este blog parte de uma ideia simples e duradoura: a infância, o brincar, a cultura, a natureza e as relações humanas constituem dimensões essenciais da formação do indivíduo e da construção da vida em sociedade. Embora os contextos históricos, as tecnologias e os modos de viver se transformem, essa base permanece atual. Por isso, não se trata de uma tese vinculada a uma época específica, mas de uma perspectiva que atravessa gerações e continua encontrando sentido sempre que uma criança brinca, aprende, cria, convive e estabelece sua relação com o mundo.

A INFÂNCIA EM TRÂNSITO: MEMÓRIA, CULTURA E FUTURO

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

JOGOS DE TABULEIRO, FUNÇÕES EXECUTIVAS E APRENDIZAGEM: O QUE ACONTECE QUANDO A CRIANÇA BRINCA?


Introdução

Uma criança observa o tabuleiro, analisa as peças, pensa nas possibilidades, escolhe uma jogada e aguarda a resposta do adversário. Em alguns momentos, precisa mudar de estratégia, lidar com uma surpresa ou aceitar que sua primeira ideia não funcionou.

À primeira vista, parece apenas uma brincadeira. Entretanto, durante uma partida, a criança pode mobilizar diferentes habilidades cognitivas, emocionais e sociais.

Os jogos de tabuleiro oferecem oportunidades para planejar, tomar decisões, acompanhar regras, antecipar consequências, controlar impulsos e aprender a lidar com situações inesperadas. Essas experiências podem contribuir para o desenvolvimento das funções executivas, um conjunto de processos mentais importantes para organizar pensamentos, emoções e comportamentos em direção a objetivos.

No Brincadeira Sustentável, propomos olhar para os jogos não apenas como entretenimento, mas também como recursos educativos que podem ser explorados de maneira intencional, respeitando a idade, os interesses e as características de cada criança.

A questão central não é simplesmente descobrir qual jogo ensina mais, mas compreender como a experiência de jogar pode criar oportunidades para pensar, experimentar, conviver e aprender.

1. O que são funções executivas?

As funções executivas são processos cognitivos que ajudam a pessoa a orientar suas ações, controlar respostas imediatas, manter informações relevantes e adaptar seu comportamento diante de diferentes situações.

Elas são especialmente importantes quando uma tarefa exige esforço mental, organização, flexibilidade ou controle consciente.

Entre seus componentes fundamentais, destacam-se três:

Memória de trabalho

É a capacidade de manter e utilizar informações temporariamente durante uma atividade.

Em um jogo, a criança pode precisar lembrar as regras, acompanhar a posição das peças e considerar o que aconteceu nas rodadas anteriores para decidir sua próxima jogada.

Controle inibitório

É a capacidade de controlar impulsos, resistir a distrações e evitar respostas imediatas quando elas não são adequadas à situação.

Durante uma partida, isso pode significar esperar sua vez, observar antes de agir ou conter a vontade de mover uma peça sem verificar as regras.

Flexibilidade cognitiva

É a capacidade de mudar de perspectiva, adaptar estratégias e considerar alternativas quando as circunstâncias se modificam.

Se o adversário realiza uma jogada inesperada, a criança pode precisar abandonar seu plano inicial e construir uma nova estratégia.

Esses processos trabalham em conjunto e se relacionam com outras capacidades, como atenção, planejamento, monitoramento de erros e tomada de decisões.

As funções executivas se desenvolvem ao longo da infância e da adolescência, sob a influência de múltiplos fatores, incluindo experiências, relações sociais, condições ambientais e oportunidades de aprendizagem.

Por isso, não devem ser compreendidas como habilidades fixas que uma criança possui ou não possui. São capacidades em desenvolvimento, que podem ser exercitadas em diferentes situações cotidianas.

2. Como os jogos de tabuleiro mobilizam essas habilidades?

Os jogos de tabuleiro apresentam desafios que variam conforme suas regras, objetivos, duração e grau de complexidade.

Em jogos mais simples, a criança pode precisar reconhecer símbolos, acompanhar uma sequência e respeitar a alternância de turnos. Em jogos de estratégia, pode precisar comparar possibilidades, antecipar movimentos e avaliar consequências.

Observe algumas relações possíveis entre os jogos e os processos cognitivos.

Atenção e observação

A criança acompanha o tabuleiro, identifica mudanças e observa as ações dos demais participantes.

Memória de trabalho

Ela mantém informações relevantes disponíveis para utilizá-las durante a partida.

Planejamento

A criança estabelece objetivos e organiza ações para tentar alcançá-los.

Flexibilidade cognitiva

Ela considera alternativas e adapta suas escolhas diante de novas situações.

Controle inibitório

Ela aprende a interromper uma resposta impulsiva, esperar o momento adequado e considerar as regras.

Tomada de decisões

A criança compara opções, avalia riscos e escolhe uma possibilidade entre várias.

Monitoramento e aprendizagem com os erros

Ela observa o resultado de uma jogada, identifica o que não funcionou e considera o que poderia fazer de outra maneira.

É importante destacar que jogar não garante, por si só, melhorias duradouras em todas essas habilidades. Os benefícios dependem de fatores como a natureza do jogo, a frequência da experiência, o envolvimento da criança e as oportunidades de refletir sobre o que aconteceu.

A aprendizagem também pode não ser transferida automaticamente para situações diferentes. Por isso, educadores e familiares podem ajudar a estabelecer conexões entre as estratégias utilizadas no jogo e outros desafios cotidianos.

3. Aprender a esperar também é aprender

Em uma sociedade marcada pela rapidez das respostas e pela disponibilidade imediata de muitos estímulos, esperar pode representar um desafio para algumas crianças.

Nos jogos de tabuleiro, a alternância de turnos cria uma situação concreta na qual cada participante precisa reconhecer que não pode agir o tempo todo.

Enquanto espera, a criança pode observar o adversário, acompanhar as mudanças no tabuleiro e pensar em suas possibilidades.

Essa experiência permite trabalhar a diferença entre desejar fazer algo e decidir quando e como fazê-lo.

Entretanto, a espera não deve ser transformada em uma prova de obediência ou em motivo de constrangimento. Algumas crianças precisam de partidas mais curtas, lembretes visuais, mediação do adulto ou adaptações nas regras.

O objetivo é construir condições para que desenvolvam progressivamente estratégias de autorregulação.

Em vez de dizer apenas “você precisa ter paciência”, o educador pode perguntar:

  • O que você pode observar enquanto espera?

  • Qual é o seu objetivo para a próxima jogada?

  • Que possibilidades você está considerando?

  • Como podemos lembrar a ordem dos participantes?

Dessa maneira, a espera ganha uma função concreta dentro da brincadeira.

4. Perder, ganhar e lidar com as emoções

Uma partida envolve incerteza. Mesmo quando a criança se prepara e planeja suas ações, o resultado nem sempre corresponde às suas expectativas.

Ganhar pode produzir alegria e entusiasmo. Perder pode gerar frustração, tristeza, irritação ou vontade de abandonar o jogo.

Essas emoções fazem parte da experiência humana e não devem ser tratadas automaticamente como sinais de mau comportamento.

O contexto lúdico pode oferecer oportunidades para reconhecer sentimentos, expressar desconfortos, negociar soluções e retomar uma atividade depois de uma dificuldade.

A mediação do adulto faz diferença. Em vez de exigir que a criança aceite a derrota imediatamente, é possível ajudá-la a compreender o que está sentindo e pensar em maneiras de lidar com a situação.

Algumas perguntas úteis são:

  • Como você se sentiu quando essa jogada aconteceu?

  • O que você gostaria de tentar de outra maneira?

  • É possível aprender alguma coisa com esta partida?

  • Como podemos continuar brincando de forma respeitosa?

Também é importante valorizar experiências cooperativas, nas quais os participantes precisam alcançar um objetivo comum.

Nem toda aprendizagem precisa acontecer por meio da competição. Jogos cooperativos permitem explorar comunicação, planejamento coletivo, negociação e responsabilidade compartilhada.

5. Nem todo jogo desenvolve as mesmas habilidades

Um equívoco comum é imaginar que todos os jogos de tabuleiro oferecem os mesmos desafios cognitivos.

Na realidade, cada jogo apresenta exigências diferentes.

Jogos de percurso podem envolver contagem, reconhecimento de números e acompanhamento de sequências. Jogos de memória podem exigir a recuperação de informações sobre posições e imagens. Jogos de estratégia podem mobilizar planejamento e antecipação. Jogos cooperativos podem exigir coordenação de ações e comunicação entre participantes.

A escolha deve considerar o objetivo pedagógico, a faixa etária, os interesses da criança e o nível de dificuldade.

Um jogo excessivamente simples pode não despertar interesse. Um jogo complexo demais pode gerar confusão e frustração. Em ambos os casos, ajustes podem tornar a experiência mais significativa.

Também não é necessário utilizar exclusivamente jogos comerciais. Jogos criados com papelão, cartolina, desenhos, peças reutilizáveis e regras elaboradas coletivamente podem oferecer experiências ricas de aprendizagem.

O importante é que o material seja seguro, que as regras possam ser compreendidas e que os participantes tenham oportunidades reais de tomar decisões.

6. Proposta prática: criando um jogo de estratégia com materiais reutilizados

A construção de um jogo de tabuleiro pode integrar educação ambiental, matemática, linguagem, planejamento e funções executivas.

Objetivo: desenvolver oportunidades de planejamento, tomada de decisões, flexibilidade cognitiva, comunicação e criação de regras.

Público: crianças da educação infantil e do ensino fundamental, com adaptações de acordo com a idade.

Duração sugerida: uma ou duas sessões, conforme a complexidade do projeto.

Materiais necessários

  • Papelão limpo ou cartolina reutilizada;

  • Papel para desenhar o tabuleiro;

  • Lápis, canetas ou lápis de cor;

  • Peças grandes e seguras, confeccionadas com materiais adequados;

  • Régua;

  • Tesoura sem ponta, com supervisão quando necessária.

Etapa 1 - Definir o desafio

Convide as crianças a imaginar um jogo cujo objetivo seja atravessar uma floresta, construir uma cidade, proteger um jardim ou transportar recursos até um destino.

A escolha do tema pode estabelecer conexões com conteúdos que estejam sendo estudados.

Pergunte: qual será o objetivo do jogo? O que os participantes precisarão fazer para alcançá-lo?

Etapa 2 - Desenhar o tabuleiro

As crianças criam o percurso, definem os pontos de partida e chegada e identificam possíveis obstáculos.

Essa etapa permite explorar sequências, orientação espacial, formas geométricas e organização visual.

Etapa 3 - Criar as regras

O grupo decide como cada participante se movimentará, quais ações serão permitidas e como será determinado o final da partida.

O educador pode ajudar a tornar as regras claras, coerentes e acessíveis.

Etapa 4 - Testar o jogo

Os participantes realizam uma partida experimental.

Durante o teste, podem descobrir que uma regra não funciona, que um percurso está muito difícil ou que uma situação não foi prevista.

Esses problemas são oportunidades para revisar o projeto.

Etapa 5 - Modificar e compartilhar

Depois da primeira partida, as crianças discutem o que funcionou e o que precisa ser alterado.

Em seguida, apresentam o jogo a outra turma ou a familiares e explicam suas regras.

O processo envolve mais do que brincar: inclui imaginar, projetar, testar, avaliar e aprimorar uma criação.

7. Como observar as aprendizagens durante a brincadeira?

A observação pedagógica pode ajudar o educador a compreender quais desafios aparecem durante uma partida e que tipo de apoio pode ser necessário.

Em vez de avaliar somente quem venceu, é possível observar como cada criança participa.

Alguns aspectos a acompanhar:

  • Consegue acompanhar a sequência de turnos?

  • Lembra as regras principais ou precisa consultar lembretes?

  • Consegue explicar o motivo de uma escolha?

  • Percebe quando uma estratégia não está funcionando?

  • Considera alternativas diante de um obstáculo?

  • Pede ajuda quando necessário?

  • Consegue negociar regras e respeitar os demais participantes?

  • Retoma a atividade depois de uma dificuldade, com o apoio adequado?

Essas observações não constituem testes clínicos nem permitem diagnosticar dificuldades de desenvolvimento.

Seu propósito é orientar a mediação educativa, reconhecer avanços individuais e identificar ajustes que possam favorecer a participação.

Uma criança pode apresentar excelente capacidade de planejamento em determinada atividade e encontrar dificuldades em outra. O desempenho varia de acordo com o contexto, o interesse, a familiaridade com as regras, o cansaço e diversos outros fatores.

Por isso, é importante observar padrões ao longo do tempo, sem rotular a criança a partir de uma única partida.

8. Inclusão: adaptar o jogo para ampliar a participação

Os jogos precisam ser acessíveis a crianças com diferentes habilidades, experiências e necessidades.

Algumas adaptações possíveis incluem:

  • Utilizar tabuleiros com imagens e símbolos claros;

  • Reduzir o número de regras em uma primeira experiência;

  • Oferecer lembretes visuais sobre a sequência de turnos;

  • Utilizar peças maiores e fáceis de manipular;

  • Permitir respostas por fala, gestos ou outros meios de comunicação;

  • Reduzir a duração das partidas;

  • Criar versões cooperativas;

  • Disponibilizar tempo adicional para analisar as jogadas.

As adaptações não diminuem necessariamente o valor educativo do jogo. Muitas vezes, elas tornam os desafios mais acessíveis e permitem que mais crianças participem de maneira significativa.

A inclusão não consiste apenas em colocar todos ao redor do mesmo tabuleiro, mas em criar condições para que cada participante compreenda, decida, interaja e contribua.

9. Da brincadeira para a vida cotidiana

As habilidades mobilizadas durante os jogos podem ser relacionadas a situações vividas fora deles.

Planejar uma jogada pode abrir uma conversa sobre como organizar uma tarefa escolar. Rever uma estratégia pode ajudar a pensar em alternativas diante de um problema. Aguardar a vez pode ser relacionado à organização de atividades coletivas.

Essas conexões devem ser feitas de maneira explícita, por meio de conversas e experiências complementares. Não se deve presumir que a criança transferirá automaticamente tudo o que aprendeu durante o jogo para outras situações.

A família e a escola podem favorecer essa reflexão ao perguntar como uma estratégia utilizada na partida poderia ser útil em outro contexto.

É igualmente importante preservar o caráter prazeroso da atividade. Quando toda brincadeira se transforma em exercício formal ou avaliação, corre-se o risco de reduzir a iniciativa e o interesse espontâneo da criança.

O equilíbrio entre liberdade, desafio e mediação é fundamental.

10. Jogos de tabuleiro, educação e sustentabilidade

A produção de jogos com materiais reutilizados acrescenta outra dimensão à proposta pedagógica.

Ao criar um tabuleiro com papelão, desenhar suas casas, produzir peças e elaborar regras, as crianças participam de diferentes etapas do processo de criação.

Elas podem investigar a origem dos materiais, avaliar quais recursos são necessários, reaproveitar itens disponíveis e desenvolver soluções para prolongar a vida útil do jogo.

Também podem trocar jogos com outras turmas, reparar componentes danificados e modificar regras para criar novas experiências.

Assim, o jogo deixa de ser apenas um produto pronto para consumo e passa a ser um projeto coletivo, aberto à experimentação e à transformação.

Essa perspectiva articula desenvolvimento cognitivo, criatividade, convivência e educação ambiental, respeitando os diferentes objetivos de cada área.

Conclusão

Os jogos de tabuleiro podem oferecer oportunidades importantes para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, emocionais e sociais. Ao jogar, a criança pode exercitar planejamento, memória de trabalho, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, tomada de decisões e resolução de problemas.

Entretanto, os resultados dependem da qualidade da experiência, das características do jogo, das oportunidades de participação e da mediação oferecida. Jogar não substitui outras experiências educativas, nem constitui, isoladamente, tratamento para dificuldades de aprendizagem ou desenvolvimento.

O potencial pedagógico dos jogos está na possibilidade de criar situações nas quais a criança possa experimentar, pensar, comunicar-se, rever estratégias e aprender com os resultados de suas ações.

Quando também participa da criação dos próprios jogos, ela amplia essas oportunidades, envolvendo-se no planejamento, na elaboração de regras, na resolução de problemas e na transformação de materiais.

No Brincadeira Sustentável, entendemos que brincar é uma maneira de explorar o mundo, construir conhecimentos e desenvolver possibilidades. Um tabuleiro pode ser muito mais do que uma superfície com peças: pode se tornar um espaço de investigação, convivência, criatividade e aprendizagem.

Brincar, pensar, experimentar e aprender: cada partida pode abrir novas possibilidades de desenvolvimento.

Referências para aprofundamento

DIAMOND, Adele. Executive Functions. Annual Review of Psychology, v. 64, p. 135–168, 2013. DOI: https://doi.org/10.1146/annurev-psych-113011-143750

CENTER ON THE DEVELOPING CHILD, HARVARD UNIVERSITY. Enhancing and Practicing Executive Function Skills with Children from Infancy to Adolescence. Disponível em: https://developingchild.harvard.edu/

ZELAZO, Philip David; BLAIR, Clancy; WILLOUGHBY, Michael. Executive Function: Implications for Education. National Center for Education Research, 2016. Disponível em: https://ies.ed.gov/

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/

Nota editorial: as referências oferecem pontos de partida para aprofundamento. A escolha e a utilização de jogos devem considerar a faixa etária, a acessibilidade, os objetivos educativos e as características de cada grupo.


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