Sequência didática para Educação Infantil e Ensino Fundamental anos iniciais
1. APRESENTAÇÃO
A horta escolar pode funcionar como um laboratório vivo, no qual as crianças observam fenômenos naturais, formulam perguntas, investigam hipóteses e constroem conhecimentos a partir de experiências concretas. Entre esses fenômenos está a fotossíntese, processo pelo qual plantas, algas e algumas bactérias utilizam energia luminosa para produzir matéria orgânica a partir de substâncias inorgânicas. Nas plantas, esse processo ocorre principalmente nas células que possuem cloroplastos, especialmente nas folhas.
Para realizar a fotossíntese, a planta utiliza água, gás carbônico e energia luminosa. A água é absorvida pelas raízes e transportada para outras partes da planta. O gás carbônico entra principalmente pelos estômatos, pequenas aberturas presentes nas folhas. A clorofila participa da captação da energia luminosa, que possibilita reações químicas responsáveis pela produção de açúcares. Durante a fotossíntese, ocorre também a liberação de oxigênio.
Os açúcares produzidos são utilizados no metabolismo e no crescimento da planta, além de poderem ser armazenados ou transformados em outras substâncias. Os nutrientes minerais absorvidos do solo também são essenciais ao desenvolvimento vegetal, mas não substituem a luz, a água e o gás carbônico necessários à fotossíntese.
O objetivo pedagógico não é antecipar conteúdos científicos complexos, mas permitir que as crianças construam explicações progressivamente mais elaboradas, respeitando suas experiências, sua faixa etária e suas formas de comunicação e participação.
2. OBJETIVOS GERAIS
- Compreender progressivamente a fotossíntese e sua importância para as plantas e os ecossistemas.
- Identificar a participação da luz, da água e do gás carbônico na produção de açúcares.
- Reconhecer funções básicas das raízes, do caule e das folhas.
- Desenvolver observação, investigação, formulação de hipóteses e registro de descobertas.
- Relacionar o conhecimento científico ao cultivo de plantas e à preservação ambiental.
- Estimular a linguagem oral, visual, corporal, escrita e matemática.
- Promover cooperação, autonomia, criatividade e participação.
- Garantir condições de acessibilidade para que todas as crianças possam aprender e participar das atividades.
3. DIFERENÇAS ENTRE AS ETAPAS DE ENSINO
Educação Infantil: crianças de 4 e 5 anos
Na Educação Infantil, a proposta deve partir da brincadeira, da exploração sensorial, da observação e da interação. O foco é despertar a curiosidade sobre as plantas, reconhecer suas necessidades e incentivar as crianças a expressarem suas descobertas por meio de desenhos, gestos, conversas, movimentos e construções.
Não se exige que memorizem a equação química da fotossíntese nem que compreendam detalhadamente suas reações. O vocabulário científico deve ser introduzido de maneira contextualizada, sem substituir a experiência concreta.
Objetivos específicos:
- Observar plantas e reconhecer algumas de suas partes.
- Perceber que as plantas precisam de água e luz para se desenvolver.
- Conhecer, de maneira introdutória, a ideia de que as plantas produzem seu próprio alimento.
- Participar de brincadeiras de representação da fotossíntese.
- Expressar descobertas por meio de diferentes linguagens.
- Desenvolver atitudes de cuidado com as plantas e o ambiente.
Campos de experiências relacionados à BNCC:
- Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações.
- Corpo, gestos e movimentos.
- Escuta, fala, pensamento e imaginação.
- Traços, sons, cores e formas.
- O eu, o outro e o nós.
Ensino Fundamental: Anos Iniciais, do 1º ao 5º ano
Nos Anos Iniciais, as crianças podem avançar da observação para a investigação sistemática. A complexidade das explicações deve crescer progressivamente, considerando os conhecimentos já construídos pela turma.
Objetivos específicos:
- Identificar água, luz e gás carbônico como elementos necessários à fotossíntese.
- Compreender que a planta produz açúcares e libera oxigênio durante o processo.
- Diferenciar a absorção de água e nutrientes minerais pelas raízes da produção de açúcares na fotossíntese.
- Formular hipóteses, comparar observações e organizar registros.
- Interpretar desenhos, tabelas simples e sequências de acontecimentos.
- Relacionar a fotossíntese à vida nos ecossistemas.
Progressão sugerida:
- 1º e 2º anos: observação das plantas, identificação de partes, comparação de condições de cultivo, desenhos e relatos.
- 3º ano: investigação das necessidades das plantas, registros sistemáticos e comparação de hipóteses.
- 4º e 5º anos: aprofundamento da relação entre luz, água, gás carbônico, produção de açúcares, liberação de oxigênio e equilíbrio dos ecossistemas.
A proposta pode ser articulada às habilidades de Ciências da Natureza da BNCC, especialmente à habilidade EF02CI05, que envolve investigar a importância da água e da luz para a manutenção da vida das plantas em diferentes ambientes. Outras habilidades devem ser selecionadas de acordo com o ano escolar, o currículo da rede e os objetivos efetivamente desenvolvidos.
4. SEQUÊNCIA DIDÁTICA COMPLETA
Tema: Fotossíntese na horta: como as plantas produzem seu alimento.
Público: Educação Infantil: 4 e 5 anos; Ensino Fundamental: 1º ao 5º ano.
Duração sugerida: cinco encontros de 30 a 50 minutos, ajustáveis à rotina escolar e às necessidades da turma.
Espaços: sala de aula, pátio, horta escolar ou outro ambiente com plantas.
Materiais: plantas vivas, vasos, cartões ilustrados, papel reutilizado em boas condições, lápis, materiais para desenho, etiquetas, recipientes de cultivo e instrumentos de registro acessíveis.
Etapa 1 - Levantamento dos conhecimentos prévios
Pergunta investigativa: De onde vem o alimento que mantém uma planta viva?
Organize uma roda de conversa e apresente uma planta real. Convide as crianças a observar as folhas, o caule e a terra. Pergunte o que imaginam que a planta precisa para crescer e de onde vem seu alimento.
Registre as ideias sem classificá-las imediatamente como certas ou erradas. As hipóteses iniciais serão retomadas no encerramento.
Educação Infantil: as crianças podem responder oralmente, apontar imagens, fazer gestos ou desenhar suas ideias.
Anos Iniciais: além das respostas orais, os estudantes podem escrever hipóteses e construir um esquema inicial sobre as necessidades da planta.
Aprendizagem esperada: reconhecer conhecimentos prévios, formular perguntas e compreender que a investigação científica começa pela observação e pela elaboração de hipóteses.
Etapa 2 - Observação e investigação na horta
Apresente plantas e observe suas características. Mostre as raízes, quando possível sem danificar a planta, o caule e as folhas. Explique que as raízes absorvem água e nutrientes minerais, enquanto as folhas são importantes para a fotossíntese.
Proponha uma investigação comparativa sobre a influência da luz no desenvolvimento vegetal. Utilize plantas semelhantes e mantenha, tanto quanto possível, as mesmas condições de água, solo e temperatura, variando apenas a disponibilidade de luz. Acompanhe as mudanças durante vários dias, sem deixar plantas sob condições prejudiciais por períodos prolongados.
Educação Infantil: observar, comparar, desenhar e relatar diferenças percebidas.
Anos Iniciais: registrar data, condições de observação e características das plantas; comparar resultados e discutir se as observações apoiam as hipóteses iniciais.
Cuidados científicos: o crescimento depende de vários fatores. Uma planta que cresce em local escuro pode apresentar alongamento e perda de coloração, mas isso não significa que esteja saudável. A investigação deve considerar o tempo necessário para observar mudanças.
Aprendizagem esperada: desenvolver a observação sistemática e compreender que as plantas respondem às condições ambientais.
Etapa 3 - Construção do conceito de fotossíntese
Utilize três cartões principais: LUZ, ÁGUA e GÁS CARBÔNICO (CO₂). Acrescente dois cartões de resultado: AÇÚCARES e OXIGÊNIO (O₂).
Explique que a planta utiliza energia luminosa para transformar água e gás carbônico em açúcares, liberando oxigênio durante o processo.
Apresente uma sequência visual:
LUZ + ÁGUA + GÁS CARBÔNICO → FOTOSSÍNTESE → AÇÚCARES + OXIGÊNIO
Essa representação é simplificada e não corresponde a uma equação química balanceada. Seu objetivo é apoiar a compreensão inicial do processo.
Educação Infantil: contar a história de uma folha que recebe luz, utiliza água e gás carbônico e produz açúcares. Não exigir memorização das fórmulas.
Anos Iniciais: identificar os elementos de entrada e os produtos, explicar a sequência com palavras próprias e relacionar a fotossíntese ao crescimento vegetal.
Aprendizagem esperada: construir uma explicação progressiva e cientificamente coerente sobre a produção de açúcares pelas plantas.
Etapa 4 - Jogo do Cozinheiro Verde
Distribua papéis na brincadeira: luz solar, água, gás carbônico, planta, açúcares e oxigênio. As crianças podem representar esses elementos com cartões, objetos, gestos, movimentos ou recursos de comunicação alternativa.
A criança que representa a água se desloca simbolicamente até a planta. A luz e o gás carbônico são representados por outros participantes. A criança que representa a planta organiza os cartões junto às folhas e apresenta os resultados: açúcares e oxigênio.
Explique que a representação é simbólica: não se trata de misturar ingredientes como em uma cozinha real, mas de representar um processo químico que acontece nas células vegetais.
Educação Infantil: priorizar a imaginação, a participação corporal e a identificação visual dos elementos.
Anos Iniciais: pedir que os estudantes expliquem o papel de cada elemento e identifiquem o que entra no processo e o que é produzido.
Aprendizagem esperada: consolidar conceitos por meio do movimento, da linguagem, da cooperação e da representação simbólica.
Etapa 5 - Registro, comunicação e avaliação
Convide as crianças a produzir um registro final sobre o que aprenderam.
Educação Infantil: desenho da planta, colagem de cartões, explicação oral, sequência de imagens ou gravação de áudio, conforme os recursos disponíveis.
Anos Iniciais: texto explicativo, esquema com setas, tabela de observação ou apresentação coletiva. Nos anos mais avançados, os estudantes podem comparar as hipóteses iniciais com as conclusões obtidas.
Retome a pergunta da primeira etapa: de onde vem o alimento que mantém uma planta viva?
Avalie se as crianças ampliaram suas explicações, identificam a importância da luz e da água, reconhecem o papel do gás carbônico e compreendem, de acordo com a etapa escolar, que a planta produz açúcares por meio da fotossíntese.
5. ADAPTAÇÕES DE ACESSIBILIDADE E PARTICIPAÇÃO
A acessibilidade deve ser planejada desde o início. Não se trata de criar uma atividade paralela para algumas crianças, mas de oferecer diferentes caminhos para que todas possam observar, investigar, comunicar ideias e demonstrar suas aprendizagens.
Deficiência visual e baixa visão
- Utilizar plantas naturais, modelos tridimensionais e materiais com texturas diferenciadas.
- Descrever oralmente os elementos, as ações e as mudanças observadas.
- Disponibilizar cartões ampliados, com alto contraste e letras legíveis, conforme as necessidades de cada estudante.
- Oferecer diagramas táteis e símbolos em relevo quando forem úteis.
- Garantir acesso seguro à horta e aos materiais, com organização espacial estável.
A exploração tátil deve respeitar a segurança, as preferências e a autonomia da criança.
Deficiência auditiva
- Apresentar instruções escritas, imagens, demonstrações visuais e sequências ilustradas.
- Garantir boa visibilidade do rosto de quem fala e dos recursos apresentados.
- Utilizar Libras e outros apoios de comunicação quando necessários, conforme os recursos disponíveis.
- Evitar depender exclusivamente de explicações orais ou de sinais sonoros para organizar a atividade.
Deficiência física ou mobilidade reduzida
- Disponibilizar vasos, mesas e materiais em alturas acessíveis.
- Garantir rotas de circulação seguras e espaço para cadeiras de rodas e outros dispositivos de mobilidade.
- Oferecer alternativas aos deslocamentos, como cartões manipuláveis, pranchas, apontamento ou participação por meio de um dispositivo de comunicação.
- Permitir que a criança escolha como participar, sem exigir movimentos que não sejam necessários ao objetivo pedagógico.
Deficiência intelectual e dificuldades de aprendizagem
- Dividir as tarefas em etapas curtas e apresentar uma instrução por vez.
- Utilizar imagens concretas, repetição contextualizada e demonstrações práticas.
- Oferecer tempo adicional e reduzir a quantidade de informações apresentadas simultaneamente.
- Verificar a compreensão por diferentes meios, sem depender apenas da escrita.
- Retomar os conceitos em diferentes situações, respeitando o ritmo individual.
Transtorno do espectro autista (TEA)
- Antecipar a sequência da atividade com imagens ou agenda visual.
- Explicar mudanças de ambiente e combinar previamente as etapas da brincadeira.
- Oferecer alternativas à exploração tátil, a cheiros, a ruídos e ao contato com determinados materiais.
- Disponibilizar um espaço tranquilo para pausas, quando necessário.
- Respeitar diferentes formas de interação, comunicação, interesse e participação, sem obrigar a criança a representar um papel específico.
Deficiência múltipla e necessidades complexas de comunicação
- Combinar recursos visuais, táteis, auditivos e objetos de referência conforme as necessidades individuais.
- Utilizar pranchas de comunicação, símbolos, gestos, olhar direcionado ou dispositivos de comunicação alternativa e aumentativa.
- Oferecer tempo suficiente para respostas e escolhas.
- Planejar a participação com a equipe pedagógica, a família e os profissionais de apoio, quando pertinente.
Crianças com altas habilidades ou interesse avançado
- Propor investigações complementares, como comparar registros de crescimento ou pesquisar a função dos estômatos e dos cloroplastos.
- Incentivar a elaboração de perguntas investigativas e a comunicação das descobertas para a turma.
- Oferecer desafios adicionais sem transformar a criança em responsável permanente por ensinar os colegas.
Princípio pedagógico: acessibilidade não significa reduzir automaticamente o objetivo de aprendizagem. Significa diversificar os meios de acesso, participação, expressão e avaliação, ajustando os apoios às necessidades de cada estudante.
6. AVALIAÇÃO: O QUE OBSERVAR?
A avaliação deve ser processual, considerando os conhecimentos prévios, a participação na investigação, as explicações construídas e os registros produzidos.
Indicadores para a Educação Infantil:
- Demonstra curiosidade e observa características das plantas.
- Reconhece que a luz e a água são importantes para seu desenvolvimento.
- Participa da representação da fotossíntese por alguma forma de comunicação.
- Expressa descobertas por desenhos, gestos, palavras ou outros recursos.
Indicadores para os Anos Iniciais:
- Identifica luz, água e gás carbônico como elementos envolvidos na fotossíntese.
- Explica que as plantas produzem açúcares e liberam oxigênio durante o processo.
- Diferencia, de maneira progressiva, a absorção de água e nutrientes pelas raízes da produção de açúcares nas folhas.
- Registra observações, compara hipóteses e comunica conclusões.
- Relaciona o conhecimento científico ao cuidado com as plantas e os ambientes.
Os indicadores devem ser interpretados de acordo com a faixa etária, os objetivos previstos e as formas de comunicação de cada criança. A avaliação não deve penalizar estudantes por barreiras de acesso ou por utilizarem meios alternativos de expressão.
7. INTERDISCIPLINARIDADE E BNCC
A sequência permite integrar diferentes campos de conhecimento:
Ciências da Natureza: plantas, fotossíntese, necessidades dos seres vivos e relações ambientais.
Língua Portuguesa: oralidade, ampliação de vocabulário, produção de relatos e textos explicativos.
Matemática: contagem, comparação, medidas, organização de dados e elaboração de tabelas.
Arte: desenho científico, modelagem, composição visual e construção de materiais didáticos com elementos reutilizados.
Educação Física e experiências corporais: gestos, deslocamentos e representação de processos naturais, com alternativas acessíveis de participação.
Educação ambiental: cuidado com a horta, uso responsável da água, observação da biodiversidade e valorização dos espaços verdes.
Na Educação Infantil, a organização deve respeitar os direitos de aprendizagem e desenvolvimento e os campos de experiências da BNCC. Nos Anos Iniciais, as habilidades devem ser selecionadas conforme o ano escolar e o currículo da rede, evitando atribuir a uma única atividade o desenvolvimento integral de todas as competências envolvidas.
8. BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL: CONHECIMENTO, TRANSFORMAÇÃO E LEGADO
Aprender sobre fotossíntese é mais do que memorizar o nome de um fenômeno natural. É desenvolver a capacidade de observar, formular perguntas, testar hipóteses, interpretar resultados e compreender relações entre os seres vivos e o ambiente.
A horta escolar oferece oportunidades para transformar o conhecimento científico em experiência concreta. A utilização de materiais reutilizados na construção de cartões, modelos e jogos amplia as possibilidades de criação, desde que os materiais estejam limpos, seguros e adequados à faixa etária.
A proposta da Brincadeira Sustentável articula ciência, arte, sustentabilidade, acessibilidade e relações humanas, reconhecendo a criança como participante ativa do processo de aprendizagem.
A fotossíntese é um processo vital para as plantas, que as permite produzir seu próprio alimento utilizando a luz solar. Conforme ilustrado na imagem e descrito no texto, os elementos chave envolvidos na fotossíntese são:
Luz do Sol - A energia luminosa é absorvida pelas plantas, principalmente através da clorofila presente nas folhas, e é essencial para impulsionar o processo.Gás Carbônico (CO2) - As plantas absorvem o dióxido de carbono do ar através de seus estômatos (pequenas aberturas nas folhas).
Água (H2O) - A água é absorvida pelas raízes da planta e transportada para as folhas.
Glicose - É o açúcar produzido pelas plantas como resultado da fotossíntese, servindo como fonte de energia e matéria-prima para o crescimento e desenvolvimento da planta.
Oxigênio (O2) - O oxigênio é liberado no ar como um subproduto da fotossíntese.
A fotossíntese converte a energia luminosa do sol, o dióxido de carbono do ar e a água em glicose (alimento) e oxigênio (liberado para a atmosfera).
