*BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL DESDE 2013*

Pesquisa, conceito e autoria: Renata Bravo / Contato: renatarjbravo@gmail.com

Inspirada em Heidegger, a Brincadeira Sustentável não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser vivida, elaborada e incorporada.
A tese que fundamenta este blog parte de uma ideia simples e duradoura: a infância, o brincar, a cultura, a natureza e as relações humanas constituem dimensões essenciais da formação do indivíduo e da construção da vida em sociedade. Embora os contextos históricos, as tecnologias e os modos de viver se transformem, essa base permanece atual. Por isso, não se trata de uma tese vinculada a uma época específica, mas de uma perspectiva que atravessa gerações e continua encontrando sentido sempre que uma criança brinca, aprende, cria, convive e estabelece sua relação com o mundo.

A INFÂNCIA EM TRÂNSITO: MEMÓRIA, CULTURA E FUTURO

domingo, 25 de outubro de 2026

APRENDIZAGEM COLABORATIVA

ENSINAR, APRENDER E CONSTRUIR JUNTOS

A aprendizagem colaborativa é uma abordagem pedagógica na qual os participantes trabalham em torno de objetivos comuns, compartilham informações, analisam possibilidades e constroem soluções por meio da interação. Diferentemente de uma atividade realizada apenas em grupo, a colaboração exige que as contribuições individuais se relacionem e que os participantes tenham oportunidades efetivas de participar das decisões e do processo de aprendizagem. Sua finalidade não é somente concluir uma tarefa coletiva, mas desenvolver conhecimentos, estratégias de pensamento, comunicação e responsabilidade compartilhada.

Essa concepção pode ser relacionada ao princípio de compartilhamento associado a Frank Charles Laubach, conhecido pela expressão Each One Teach One. Em suas iniciativas de alfabetização de adultos, Laubach valorizou a participação de pessoas que compartilhavam conhecimentos de leitura e escrita com outras. A aprendizagem colaborativa contemporânea, porém, abrange uma variedade de fundamentos e práticas pedagógicas e não deve ser apresentada como simples extensão direta do trabalho de Laubach. A relação entre essas perspectivas está na valorização da participação e na compreensão de que o acesso ao conhecimento pode ser ampliado por meio das interações humanas.

Na educação, trabalhar em grupo não garante, por si só, aprendizagem colaborativa. Quando uma criança executa toda a tarefa, enquanto as demais apenas observam, existe agrupamento físico, mas pouca participação compartilhada. Para que a colaboração aconteça, o educador precisa definir um propósito compreensível, organizar os recursos, propor desafios adequados e observar como as crianças interagem. A distribuição de responsabilidades deve permitir que todos contribuam, sem transformar as funções em posições fixas ou limitar as oportunidades de aprendizagem de quem necessita de mais apoio.

Na Educação Infantil, a colaboração emerge principalmente nas brincadeiras, nas explorações, nas narrativas e nas situações cotidianas. Ao construir uma cidade com caixas e blocos, por exemplo, as crianças precisam decidir onde colocar as construções, negociar o uso dos materiais, experimentar formas de sustentação e explicar suas ideias. Em uma brincadeira simbólica, podem combinar personagens, criar regras e ajustar o enredo conforme as contribuições dos colegas. Na organização de uma horta, podem observar o solo, comparar folhas, distribuir tarefas e acompanhar mudanças ao longo do tempo. Nessas experiências, o educador favorece a aprendizagem ao fazer perguntas, ampliar o vocabulário, apresentar novos materiais e ajudar o grupo a examinar suas hipóteses.

A intencionalidade pedagógica pode ser expressa em objetivos observáveis. Em uma atividade de construção, o educador pode acompanhar se a criança apresenta uma proposta, escuta a ideia de outra pessoa, testa uma solução e participa de uma decisão coletiva. Em uma investigação sobre plantas, pode observar se compara características, registra uma mudança por meio de desenho ou fala e compartilha uma hipótese com o grupo. Em uma leitura coletiva, pode verificar se acompanha a narrativa, relaciona informações, formula perguntas e contribui para a interpretação da história. Esses registros devem considerar o contexto, as oportunidades oferecidas e os apoios necessários, sem reduzir o desenvolvimento infantil a uma lista rígida de comportamentos.

Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a aprendizagem colaborativa pode ser incorporada à leitura, à escrita, à matemática, às ciências e às artes. Um grupo pode comparar diferentes estratégias para resolver um problema matemático, produzir um texto destinado a um público real, organizar resultados de uma investigação ou analisar informações de fontes distintas. A atividade precisa manter objetivos de aprendizagem explícitos, e o professor deve verificar o que cada estudante compreendeu. A produção coletiva não substitui a avaliação individual, pois um resultado bem-sucedido do grupo não significa necessariamente que todos tenham desenvolvido os mesmos conhecimentos.

A colaboração também exige atenção às relações de poder e às diferenças entre os participantes. Crianças mais comunicativas podem ocupar o espaço de decisão, enquanto outras permanecem em silêncio ou são excluídas das tarefas. Cabe ao educador criar condições para que diferentes formas de expressão sejam reconhecidas, alternar responsabilidades e intervir quando surgirem situações de exclusão. Recursos visuais, objetos concretos, comunicação alternativa, adaptações de materiais e tecnologias assistivas podem ampliar a participação de estudantes que enfrentam barreiras de comunicação, mobilidade, percepção ou compreensão. A inclusão não consiste apenas em permitir que todos estejam presentes, mas em assegurar condições para que possam contribuir e aprender.

Na perspectiva da educação inclusiva, a colaboração não deve depender de uma criança ser considerada responsável pelo desenvolvimento de outra. O apoio entre colegas pode ser valioso, mas não substitui os recursos, as adaptações e a mediação profissional necessários. Tampouco se deve atribuir permanentemente a uma criança a função de auxiliar ou ensinar, pois ela também precisa experimentar, errar, perguntar e receber apoio. Uma organização colaborativa adequada distribui oportunidades de participação e reconhece que as necessidades podem variar de acordo com a atividade e o momento.

A avaliação da aprendizagem colaborativa requer observar tanto o conhecimento construído quanto o processo de interação. O educador pode documentar as estratégias apresentadas, as perguntas formuladas, as decisões tomadas, os conflitos resolvidos e as modificações realizadas após os testes. Também pode propor momentos individuais de explicação, desenho, registro escrito ou demonstração, a fim de compreender o que cada estudante aprendeu. Essas evidências ajudam a identificar avanços, dificuldades e próximos passos, além de orientar a reorganização das atividades.

Ensinar, aprender e construir juntos são ações que dependem de planejamento, escuta e responsabilidade pedagógica. A colaboração amplia as oportunidades de aprender com diferentes perspectivas, mas precisa ser organizada para que o objetivo comum não apague as necessidades individuais. Ao criar situações em que as crianças possam investigar, compartilhar ideias, rever estratégias e reconhecer as contribuições dos colegas, a escola desenvolve não apenas conhecimentos específicos, mas também condições para uma participação mais consciente e responsável. O valor da aprendizagem colaborativa está na articulação entre objetivos claros, mediação docente, acessibilidade e participação efetiva de todos.

Referências para aprofundamento: BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília: MEC, 2010; BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018; JOHNSON, David W.; JOHNSON, Roger T. Estudos sobre aprendizagem cooperativa; LAUBACH, Frank C. Each One Teach One. Princípio associado às iniciativas de alfabetização comunitária.

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