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terça-feira, 16 de junho de 2026

A corrupção não começa em Brasília"

O problema nunca foi a figurinha


O episódio das garrafas de Coca-Cola violadas para a retirada de figurinhas promocionais da Copa do Mundo é muito mais do que um caso de prejuízo empresarial. É o retrato incômodo de uma sociedade que passou a enxergar a desonestidade como esperteza e a fraude como simples oportunidade.

É importante destacar que as figurinhas eram um brinde promocional e que o valor do produto não havia sido aumentado por causa delas. Portanto, a discussão não é sobre o preço da figurinha, mas sobre o ato de violar uma mercadoria para retirar algo destinado ao consumidor que a compraria. O valor do item é pequeno; o princípio envolvido não.

Alguém rasga o rótulo, pega o que não lhe pertence e deixa o prejuízo para outra pessoa, provavelmente convencido de que não cometeu nada grave. É exatamente assim que começa a falência moral de um país: quando o errado deixa de provocar vergonha e passa a ser admirado como "jeitinho brasileiro".

Essa normalização não termina no supermercado. Aceitamos golpes digitais como parte inevitável da vida, toleramos pirataria, falsificações, sonegação, pequenos furtos, fraudes em benefícios e inúmeras formas de vantagem indevida. Depois, demonstramos indignação diante de políticos que desviam recursos públicos, compram apoio ou usam o Estado em benefício próprio.

Mas a lógica moral é a mesma: apropriar-se do que não lhe pertence porque existe uma oportunidade e porque a possibilidade de punição é pequena. A escala muda; o princípio permanece. O político desonesto não surgiu de outro planeta. Ele foi formado em uma cultura que frequentemente relativiza regras quando obedecê-las contraria interesses pessoais.

Uma sociedade moralmente falida não é apenas aquela que possui criminosos, mas aquela que perde a capacidade de chamar o erro pelo nome. Quando não há reprovação social, responsabilidade individual nem consequências para os atos praticados, o desvio se transforma em hábito, e o hábito passa a ser cultura.

Combater a corrupção exige muito mais do que substituir governantes. Exige abandonar a conveniente moral seletiva que condena o roubo de milhões, mas sorri diante do pequeno golpe cotidiano. Um país não se torna ético por meio de discursos solenes, mas quando seus cidadãos decidem fazer o que é correto mesmo quando ninguém está olhando.

O mais preocupante não são as figurinhas retiradas das garrafas. É perceber que, para muitos, o certo passou a ser visto como ingenuidade e o errado como vantagem.

O problema nunca foi a figurinha. O problema é quando a honestidade deixa de ser um valor e passa a ser uma escolha opcional.

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