Um ponto que quase nunca é falado quando se trata de deficiência é o quanto a sociedade espera uma narrativa de “superação” o tempo todo. Existe uma expectativa silenciosa de que a pessoa com deficiência precise transformar cada experiência em inspiração, como se sua existência tivesse que ter uma função pedagógica para os outros.
Isso coloca uma pressão injusta: a de que não basta viver é preciso provar valor o tempo todo, de preferência de forma admirável.
Mas viver não deveria exigir performance.
Nem toda experiência precisa virar história de superação. Às vezes, é apenas uma vida comum, com dias bons e ruins, acertos, cansaços e rotinas.
A pandemia ajuda a entender isso de forma mais clara para quem não vive a deficiência.
Durante a pandemia, milhões de pessoas passaram por limitações, mudanças de rotina, dificuldades de adaptação e incertezas. Houve momentos em que tarefas simples se tornaram difíceis, e ninguém esperava que cada pessoa transformasse isso em uma narrativa inspiradora. Era simplesmente uma realidade coletiva sendo atravessada.
Nesse período, ninguém precisava “performar superação” para justificar o próprio esforço de se adaptar. Bastava estar vivendo aquilo.
Para muitas pessoas com deficiência, no entanto, existe uma cobrança constante para transformar qualquer dificuldade em exemplo positivo, como se a dor ou o esforço precisassem ser sempre convertidos em inspiração para serem aceitos.
Isso gera um peso invisível: o de ter que estar sempre demonstrando força, gratidão ou evolução, mesmo em situações que são apenas difíceis como qualquer outra vida humana pode ser.
Reconhecer o direito de não performar superação é reconhecer a deficiência como parte da vida real, e não como um espetáculo para o olhar dos outros.
Porque inclusão verdadeira também passa por isso:
não exigir que ninguém transforme sua existência em prova de valor.
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