INSPIRADO EM HEIDEGGER, BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL (POR RENATA BRAVO) NÃO SE APRESENTA COMO UM CONTEÚDO A SER DECORADO, MAS COMO UMA EXPERIÊNCIA A SER DIGERIDA, VIVIDA E INCORPORADA.

CONTATO: RENATARJBRAVO@GMAIL.COM - PESQUISAS, TECNOLOGIA ASSISTIVA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESDE 2013.

domingo, 21 de junho de 2026

Quando a música abre portas

Inclusão de uma Escoteira Autista no Grupo

Em muitos momentos, aquilo que parece ser desinteresse, desobediência ou falta de participação pode, na verdade, ser uma forma diferente de perceber e interagir com o mundo.

Recentemente, observei uma situação muito interessante em nosso grupo de escoteiros. Uma escoteira autista de 7 anos costumava apresentar bastante agitação durante algumas atividades. Frequentemente tinha dificuldade em seguir orientações e parecia não se interessar por determinadas propostas.

À primeira vista, alguém poderia concluir que ela simplesmente não queria participar. Mas, quando observei com mais atenção, descobri algo importante.

Em determinado momento, a menina comentou que tinha medo de um dos chefes porque ele falava alto. Ela associava aquele tom de voz a algo semelhante ao ambiente militar. O que para muitos poderia parecer apenas uma forma firme de comunicação, para ela era percebido como algo intimidador.

Ao mesmo tempo, outro aspecto chamou minha atenção: sempre que havia música, tudo mudava.

Ela passava a prestar atenção, dançava, sorria e se envolvia nas atividades. As orientações eram recebidas com mais facilidade e sua participação aumentava significativamente. Além disso, buscava segurança dando a mão ao chefe principal, demonstrando confiança e vínculo afetivo.

Essas observações me levaram a uma reflexão importante: será que o problema estava na criança ou na forma como estávamos nos comunicando com ela?

O que aprendi com essa experiência?

Muitas pessoas imaginam que inclusão significa apenas permitir que a criança esteja presente. Mas a verdadeira inclusão acontece quando procuramos compreender como ela aprende, se comunica e se sente segura.

Cada criança possui formas diferentes de acessar o mundo.

Algumas aprendem melhor ouvindo explicações verbais. Outras precisam de apoio visual. Algumas necessitam de movimento. E há aquelas que encontram na música uma poderosa ferramenta de comunicação.

A música oferece ritmo, previsibilidade, organização e expressão emocional. Para muitas crianças autistas, ela pode funcionar como uma ponte entre o ambiente e a participação social.

Possíveis soluções e estratégias

A experiência me mostrou algumas ações simples que podem fazer uma grande diferença:

Utilizar a música como recurso educativo

Canções, ritmos, palmas e pequenas coreografias podem ajudar na compreensão das atividades e aumentar o interesse da criança.

Adaptar a comunicação

Nem sempre é necessário falar mais alto para ser compreendido. Muitas vezes, uma voz calma, objetiva e acolhedora produz melhores resultados.

Construir vínculos de confiança

A confiança é uma das maiores ferramentas de inclusão. Quando a criança se sente segura com os adultos que a acompanham, tende a participar mais e enfrentar novos desafios com maior tranquilidade.

Respeitar as formas individuais de participação

Nem toda participação acontece da mesma maneira. Dançar, observar, acompanhar o grupo ou dar a mão para alguém de confiança também são formas legítimas de envolvimento.

Valorizar os interesses da criança

Quando descobrimos aquilo que desperta seu interesse, encontramos um caminho para ampliar suas experiências e aprendizagens.

A lição mais importante

Essa escoteira me ensinou algo valioso: muitas vezes, a chave da inclusão não está em mudar a criança, mas em mudar meu olhar.

Quando deixo de enxergar apenas os comportamentos que me desafiam e passo a observar aquilo que desperta alegria, segurança e interesse, encontro caminhos para que ela participe de forma genuína.

A música não resolveu todas as dificuldades. Mas abriu uma porta.

E, na inclusão, cada porta que se abre representa uma nova oportunidade de pertencimento, aprendizado e crescimento para todos nós.

Porque a verdadeira inclusão acontece quando cada criança encontra um espaço onde pode ser compreendida, respeitada e valorizada exatamente como é. 

Leia também: importância do acolhimento, da inclusão e do respeito às diferentes formas de ser e participar

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Jogo da memória tátil (adaptado para deficientes visuais)

O impacto do surto de esclerose múltipla e o fortalecimento de habilidades preexistentes

Introdução Desde muito cedo, percebi que minha forma de experimentar o mundo era diferente da maioria das pessoas. Durante anos, acreditei q...