Um relato do cotidiano escoteiro
A importância do acolhimento às famílias, pais e responsáveis de crianças com autismo vai muito além de orientação técnica: trata-se de construir um espaço de compreensão, vínculo e aprendizagem contínua, em que todos possam crescer juntos.
Quando uma criança com autismo chega à família, ela também convida esse núcleo a aprender uma nova forma de comunicação e de leitura do mundo. Muitas atitudes que, à primeira vista, podem parecer “difíceis” ou “inexplicáveis”, na verdade são formas legítimas de expressão: podem indicar sobrecarga sensorial, necessidade de previsibilidade, busca de regulação emocional ou simplesmente uma maneira própria de interagir com o ambiente.
Por isso, o acolhimento às famílias é essencial. Não basta apenas informar; é preciso formar, acompanhar e escutar. Pais e responsáveis precisam de apoio para aprender a “traduzir” esses comportamentos, não no sentido de corrigir a criança, mas de compreender o que ela está comunicando. Esse processo reduz a culpa, o medo e a insegurança, e fortalece a confiança no cuidado diário.
Quando a família é bem orientada e acolhida, ela deixa de estar sozinha. Ela passa a ter ferramentas para entender padrões, antecipar necessidades e criar rotinas mais seguras e previsíveis. Isso impacta diretamente no desenvolvimento da criança, porque o ambiente familiar se torna mais estável, respeitoso e sensível às suas particularidades.
Um exemplo que ajuda a compreender isso é a pandemia: muitas pessoas vivenciaram sobrecarga, isolamento, dificuldade de comunicação e necessidade de adaptação constante. De certa forma, isso se aproxima do que muitas crianças com autismo sentem no cotidiano diante de estímulos excessivos ou mudanças inesperadas. Quando a família entende isso, fica mais fácil ajustar expectativas e construir estratégias mais empáticas.
Esse acolhimento também precisa ser coletivo. Escola, profissionais da saúde e rede de apoio devem caminhar junto com a família, para que o cuidado não recaia apenas sobre os pais. A criança com autismo não precisa ser “encaixada” em um padrão, mas compreendida em sua forma singular de existir.
No fim, aprender a conviver com o autismo é um processo de mão dupla: a criança ensina novas formas de perceber o mundo, e a família aprende a olhar com mais sensibilidade, paciência e escuta.
Um exemplo vivido no grupo de escoteiros
Um exemplo importante que vivenciei hoje no grupo de escoteiros reforça essa necessidade de acolhimento e compreensão das famílias de crianças com autismo.
Temos um escoteiro de 4 anos, que já mencionei em um post anterior. Ele ainda não participa oficialmente do ramo dos Filhotes, pois não atingiu a idade mínima, mas já vem sendo acolhido com cuidado, já que faltam poucos meses para sua entrada.
Durante uma atividade da tropa escoteira (crianças de 11 a 14 anos), o chefe estava preparando um momento com bambolês coloridos. Ao ver a cena, o nosso futuro filhote se aproximou espontaneamente e começou a ajudar o chefe da forma que ele entende e sente como adequada. O chefe, sensível à iniciativa, permitiu que ele ficasse com os bambolês enquanto foi buscar as bolinhas coloridas, que fariam parte da atividade.
No entanto, a dinâmica principal ainda não havia começado naquele momento, pois a primeira etapa seria um quiz que levaria algum tempo até chegar à parte dos bambolês. Enquanto aguardava ansioso pela atividade que ele já havia antecipado e criado expectativa, a criança demonstrou insatisfação por não ver a ação acontecer e acabou indo buscar a mãe.
Nesse momento, a mãe não compreendeu imediatamente o que estava acontecendo. Foi então que eu realizei a mediação e expliquei tanto para a mãe quanto para a chefe presidente do grupo o contexto da reação da criança — não como “birra”, mas como frustração diante de uma expectativa criada e não correspondida.
Esse momento de explicação foi fundamental. A partir dele, houve uma mudança de olhar e compreensão por parte da presidente do grupo. E, depois dessa minha percepção de que ele já demonstra pertencimento e entendimento de que faz parte do grupo, a presidente decidiu incluí-lo com os demais escoteiros no momento do grito final, para que ele já comece a se adaptar à dinâmica coletiva.
O grito final no escotismo marca o encerramento da atividade e varia de acordo com o Grupo Escoteiro, o ramo (faixa etária) ou a patrulha. Geralmente, os escoteiros formam uma “corrente de união” em círculo e realizam o grito que simboliza o lema ou a identidade do grupo.
Esse gesto de inclusão representa muito mais do que participação: representa pertencimento. Permitir que ele vivencie esse momento coletivo é uma forma concreta de ajudá-lo a se reconhecer como parte do grupo desde cedo.
Esse episódio reforça algo essencial: a inclusão não acontece apenas quando a criança participa da atividade, mas quando os adultos aprendem a ler seus sinais, compreender suas necessidades e ajustar o ambiente com empatia.
Por outro lado, também fica evidente que muitas famílias ainda estão em processo de aprendizagem. A mãe, neste caso, não tinha ainda essa leitura mais profunda do comportamento do filho, mas terá oportunidade de construir esse entendimento com apoio, orientação e acolhimento.
Quando a família é escutada e acompanhada, ela não apenas entende melhor a criança, como também se fortalece para conduzir o dia a dia com mais segurança e menos angústia. E quando a escola, os grupos sociais e os espaços coletivos caminham juntos, a inclusão deixa de ser teoria e passa a ser prática viva.
Foi justamente a partir dessa experiência que surgiu uma reflexão importante. Mais do que participar de uma atividade, aquele menino nos mostrou algo fundamental: antes da inclusão, existe o pertencimento.
Essa experiência que vivi no grupo de escoteiros me levou a uma reflexão muito importante: muitas vezes falamos sobre inclusão, mas esquecemos de algo que vem antes dela: o pertencimento. Incluir não é apenas permitir que alguém participe de uma atividade. Incluir é fazer com que a pessoa se sinta parte daquele espaço, reconhecida, acolhida e esperada por ele.
O nosso futuro filhote ainda não atingiu a idade mínima para ingressar oficialmente no ramo, mas algo ficou muito claro para mim naquele dia: ele já se sente escoteiro. Isso não foi dito por palavras, mas demonstrado por suas atitudes. Ele observou a preparação da atividade, aproximou-se espontaneamente, ajudou na organização dos materiais, criou expectativas sobre o que aconteceria em seguida e demonstrou frustração quando aquilo que imaginava não aconteceu no tempo que esperava. Tudo isso revela envolvimento, interesse e vínculo. Quem não se sente parte dificilmente cria expectativas. Quem não se sente pertencente geralmente observa de longe. Mas ele estava ali, atento, envolvido e participando da forma que conseguia naquele momento.
Foi então que percebi algo que talvez passasse despercebido para muitas pessoas: ele não estava apenas assistindo a uma atividade escoteira. Ele já estava vivendo o escotismo à sua maneira. Essa percepção foi compartilhada por mim com a mãe e com a presidente do grupo. Expliquei que sua reação não era uma birra ou uma atitude sem sentido, mas a demonstração de uma expectativa criada a partir de algo que lhe despertou interesse e entusiasmo. Quando conseguimos enxergar além do comportamento e compreender seu significado, passamos a tomar decisões diferentes.
Talvez por isso a decisão da presidente de incluí-lo no grito final tenha sido tão significativa. Para muitas pessoas, poderia parecer apenas um momento de encerramento da atividade. No entanto, para ele, aquele gesto representava algo muito maior: reconhecimento, acolhimento e pertencimento. O grito final no escotismo é um momento especial. É quando os escoteiros se reúnem em círculo, formando uma corrente de união, e celebram juntos a identidade e os valores do grupo. Ao ser convidado para estar ali com os demais, mesmo antes de fazer parte oficialmente do ramo, ele recebeu uma mensagem silenciosa, mas extremamente poderosa: "Nós vemos você. Você faz parte deste grupo. Seu lugar está sendo preparado."
O mais bonito é que a inclusão verdadeira raramente acontece por meio de grandes discursos ou ações extraordinárias. Ela nasce nos pequenos gestos do cotidiano. Nasce quando alguém decide observar antes de julgar. Quando procura compreender antes de corrigir. Quando se pergunta não "o que há de errado com essa criança?", mas "o que ela está tentando me comunicar?". Nasce quando alguém consegue perceber potencial onde outros enxergam apenas dificuldades.
A pandemia pode nos ajudar a compreender essa realidade. Durante aquele período, muitas pessoas sentiram falta da escola, do trabalho, dos amigos, dos encontros familiares e das atividades que faziam parte da rotina. O que fazia falta não era apenas a atividade em si, mas a sensação de pertencer a um grupo, de fazer parte de uma comunidade e de ter um lugar onde sua presença era importante. De certa forma, essa experiência nos ajuda a entender a importância do pertencimento para qualquer ser humano.
Por isso, acredito que antes da inclusão vem o pertencimento. Antes de aprender uma nova habilidade, a criança precisa sentir que aquele espaço também é dela. Antes de seguir regras e rotinas, ela precisa sentir que é aceita. Antes de se desenvolver socialmente, ela precisa perceber que sua presença tem valor. Nenhuma estratégia, adaptação ou recurso será tão eficaz quanto a sensação de ser acolhida e reconhecida.
Naquele círculo do grito final, algumas pessoas talvez tenham visto apenas uma criança acompanhando os demais escoteiros. Eu vi algo maior. Vi uma criança começando a construir sua identidade dentro de um grupo. Vi adultos aprendendo a enxergar além do óbvio. Vi uma família iniciando um caminho de compreensão. Vi um grupo escoteiro dando mais um passo em direção à inclusão verdadeira.
E, mais uma vez, compreendi que a inclusão não começa quando abrimos uma porta. Ela começa quando fazemos alguém sentir que aquela porta sempre esteve aberta para ele.
Afinal, toda criança precisa ser incluída, mas antes disso, ela precisa sentir que pertence.



