Perfil Psico-Educativo Revisto (PEP-R)
O Perfil Psico-Educativo Revisto (PEP-R), desenvolvido por Schopler e colaboradores em 1990, no Centro de Chapel Hill, na Carolina do Norte, constitui um instrumento de avaliação destinado a analisar de forma sistemática as competências escolares e pré-escolares da criança, bem como os seus padrões de comportamento. Originalmente indicado especialmente para crianças até aos 7 anos de idade, o instrumento foi amplamente utilizado na avaliação de crianças com perturbações do desenvolvimento, nomeadamente no espectro do autismo. A Escala de Desenvolvimento do PEP-R contempla sete áreas: Imitação, Percepção, Motricidade Fina, Motricidade Global, Coordenação Óculo-Manual, Desempenho Cognitivo e Cognição Verbal. A sua aplicação permite identificar áreas de maior competência, áreas que necessitam de maior apoio e competências emergentes, constituindo uma importante base para o planeamento da intervenção educativa e terapêutica.
Complementarmente, a Escala de Comportamento do PEP-R procura identificar comportamentos considerados não habituais e característicos das perturbações do desenvolvimento. A observação permite compreender o modo como a criança estabelece relações, interage com os materiais, responde aos estímulos sensoriais e utiliza a linguagem. São consideradas quatro grandes áreas: Relações e Afeto, Jogo e Interação com o Material, Respostas Sensoriais e Linguagem.
No caso analisado, foram realizadas avaliações através da Escala de Desenvolvimento e da Escala de Comportamento do PEP-R em 11 de abril de 2002, quando a criança apresentava idade cronológica de 6 anos e 10 meses, e posteriormente em 31 de outubro de 2003, aos 8 anos e 4 meses. Na primeira avaliação, foram identificadas diferentes competências e emergências nas áreas avaliadas. No domínio da Imitação, a criança demonstrava capacidade para imitar sons de animais, participar em jogos simples, como o jogo das escondidas, imitar ações com objetos sonoros e reproduzir movimentos globais, além de conseguir repetir dígitos. Na área da Percepção, revelava interesse por materiais relacionados com a linguagem, especialmente livros.
Na Motricidade Fina, apresentava competências como moldar uma taça com plasticina e tocar sequencialmente com o polegar nos restantes dedos. Na Motricidade Global, conseguia chutar, atirar e apanhar uma bola. Relativamente à Coordenação Óculo-Manual, demonstrava capacidade para copiar figuras geométricas, nomeadamente triângulo e losango, pintar dentro dos limites e copiar letras.
No Desempenho Cognitivo, a criança reconhecia imagens, identificava cores, formas geométricas, letras, partes do corpo, tamanhos e quantidades, escrevia o próprio nome, compreendia e seguia ordens simples e demonstrava compreender a função de diferentes objetos, inclusive através da representação dessas funções por meio de gestos. Na área da Cognição Verbal, conseguia nomear cores, formas geométricas, letras e objetos, utilizar o plural e alguns pronomes, repetir frases curtas e simples, identificar o próprio nome e género e resolver situações-problema apresentadas na segunda pessoa. Também realizava a leitura de palavras curtas e de uma frase, apresentando alguns erros, mas demonstrando compreensão do que lia.
A Observação do Comportamento permitiu analisar aspectos relacionados com as relações interpessoais, os materiais, as respostas sensoriais e a linguagem. Na área das relações, foram observados aspectos como a reação ao medo, o contacto visual, a cooperação, a tolerância a interrupções e a motivação perante reforços sociais. Na relação com os materiais, foram considerados a motivação por recompensas concretas, a exploração do ambiente, o modo como examinava os materiais e a capacidade de atenção. Na dimensão sensorial, foram observadas respostas a estímulos visuais, auditivos, gustativos, tácteis e olfactivos, assim como a presença de gestos estereotipados. Na linguagem, foram analisados a utilização e a inteligibilidade das palavras, a entoação e a inflexão, a presença de ecolália imediata ou diferida e a utilização dos pronomes.
A partir dos resultados obtidos na avaliação formal e da identificação das competências emergentes, foi elaborado um Plano Individual de Intervenção, com o objetivo de definir metas, estratégias e formas de acompanhamento ajustadas ao perfil da criança. O plano constitui o ponto de partida para uma intervenção especializada nas áreas em que foram identificadas maiores necessidades, sem deixar de considerar as competências já adquiridas e o potencial de desenvolvimento apresentado.
A elaboração do plano contou ainda com entrevistas realizadas com a família e com os técnicos responsáveis pelo acompanhamento da criança. Essa articulação permitiu relacionar os objetivos propostos com os interesses da família e com as atividades realizadas no quotidiano, procurando assegurar maior significado e funcionalidade às aprendizagens. Por se tratar de um instrumento dinâmico, o plano deve ser revisto e ajustado sempre que necessário, de modo a acompanhar a evolução da criança e responder adequadamente às suas necessidades.
Entre os objetivos definidos encontravam-se o desenvolvimento da Imitação, do Desempenho Cognitivo, da Comunicação e Linguagem, da Autonomia, da Socialização e da Motricidade Global. Na área da Imitação, por exemplo, observava-se uma reação à apresentação de um fantoche e estabeleceu-se como objetivo a sua manipulação na área do “Aprender”, recorrendo a ajudas físicas e verbais. No Desempenho Cognitivo, partia-se de uma exploração livre dos materiais, muitas vezes levando-os à boca, para desenvolver a capacidade de associar duas imagens de animais mediante uma solicitação verbal, utilizando jogos de loto, demonstração e ajuda física.
Na área da Autonomia, considerando que a criança necessitava de ajuda durante as refeições, foi estabelecido como objetivo promover maior independência na alimentação, especialmente através da utilização adequada da colher e do garfo. Na Comunicação e Linguagem, verificava-se que a criança comunicava principalmente quando necessitava de ir à casa de banho, utilizando um gesto, sendo estabelecido como objetivo ampliar a capacidade de expressar necessidades e desejos e aumentar o repertório de palavras, incluindo a utilização da palavra para pedir água.
No domínio da Socialização, considerando que a criança ainda não cumprimentava as pessoas, estabeleceu-se como objetivo que passasse a dizer “bom dia” ao chegar à sala. Na Motricidade Global, partindo da observação de que chutava a bola de forma indiscriminada, procurou-se desenvolver a capacidade de direcioná-la para um colega, estabelecendo como meta chutar a bola para o outro pelo menos cinco vezes consecutivas. No Desempenho Cognitivo, considerando a dificuldade inicial na identificação das cores, foi estabelecido o objetivo de reconhecer pelo menos três cores: azul, vermelho e verde.
As estratégias e orientações metodológicas incluíam trabalho individualizado, demonstração das tarefas, utilização de ajudas físicas e verbais, reforço positivo e recurso a pictogramas como forma de estimular a autonomia e facilitar a compreensão das atividades. A avaliação do progresso deveria ocorrer de forma contínua, através da observação direta e de registos sistemáticos, permitindo ajustar o programa sempre que necessário, complementada por avaliações formais no início e no final do ano letivo.
A participação da criança no grupo ou turma regular fazia parte igualmente do plano de intervenção. Estava previsto o cumprimento do horário da sala regular, das 8h às 12h, com participação nas atividades desenvolvidas pela turma, incluindo visitas de estudo, música e educação física. O acompanhamento era complementado por apoios especializados, nomeadamente terapia da fala duas vezes por semana e psicomotricidade uma vez por semana.
Posteriormente, foram realizadas novas avaliações através da Escala de Desenvolvimento e da Escala de Comportamento do PEP-R, em 31 de outubro de 2003, quando a criança apresentava idade cronológica de 8 anos e 4 meses. A comparação entre os diferentes momentos de avaliação permite acompanhar a evolução das competências e dos comportamentos observados e constitui um importante recurso para a revisão e adequação das estratégias de intervenção.
Dessa forma, o PEP-R e o Plano Individual de Intervenção não devem ser compreendidos apenas como instrumentos de avaliação ou classificação, mas como recursos para conhecer a criança em sua singularidade, reconhecer aquilo que já consegue realizar, identificar competências emergentes e planejar oportunidades de aprendizagem que respeitem seu ritmo, suas necessidades, seus interesses e suas possibilidades de desenvolvimento.

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