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Dilemas da Sustentabilidade frente ao consumismo

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O brincar como resistência: educação infantil, inclusão e ética do cuidado

Educação Infantil, Inclusão e Cuidado com a Vida: contribuições do pensamento de Michel Foucault para uma pedagogia sensível

Resumo

Este artigo propõe uma reflexão sobre a Educação Infantil inclusiva a partir do pensamento de Michel Foucault, com foco nas relações de poder, nos processos de normalização e na ética do cuidado. Partindo da compreensão de que a escola é um espaço atravessado por discursos e práticas que produzem subjetividades, discute-se como determinadas rotinas pedagógicas podem reforçar exclusões sutis, especialmente no contexto da inclusão. Em contraponto, apresenta-se a perspectiva do cuidado de si e do cuidado do outro como fundamento para uma pedagogia sensível, humanizada e comprometida com a infância. O artigo dialoga com a proposta do Brincadeira Sustentável, entendendo o brincar como linguagem legítima da criança e como prática pedagógica que resiste à padronização e valoriza a diversidade.

1- Introdução

A Educação Infantil ocupa um lugar central na constituição das subjetividades, pois é nesse período que as crianças iniciam sua inserção em espaços institucionais e coletivos. Nesse contexto, a inclusão não pode ser compreendida apenas como acesso ou matrícula, mas como um compromisso ético com práticas pedagógicas que respeitem as singularidades infantis.

O pensamento de Michel Foucault oferece importantes contribuições para a análise crítica da educação, ao evidenciar como as instituições produzem normas, regulam corpos e estabelecem padrões de comportamento. Ao trazer essa perspectiva para a Educação Infantil, torna-se possível problematizar práticas naturalizadas e refletir sobre caminhos pedagógicos mais sensíveis, inclusivos e humanizados.

2- Poder, disciplina e normalização na Educação Infantil

Segundo Foucault (1987), o poder se exerce de maneira capilar, por meio de práticas cotidianas que organizam o tempo, o espaço e os corpos. Na escola, esses mecanismos se manifestam em rotinas rígidas, classificações, comparações e expectativas de desenvolvimento homogêneo.

Na Educação Infantil, tais práticas podem assumir formas sutis, como a exigência de silêncio prolongado, a padronização do brincar ou a antecipação de conteúdos escolares. Para crianças que fogem aos padrões normativos como crianças com deficiência, transtornos do desenvolvimento ou diferentes contextos socioculturais esses mecanismos tendem a produzir exclusão, ainda que não intencional.

A partir da noção foucaultiana de normalização, compreende-se que a inclusão exige mais do que adaptações pontuais: demanda uma revisão crítica das lógicas que sustentam o cotidiano escolar.

3- Inclusão como resistência às práticas excludentes

Foucault (1979) destaca que onde há poder, há também possibilidades de resistência. Na Educação Infantil, a resistência se expressa em práticas pedagógicas que rompem com a lógica da padronização e reconhecem a infância como plural.

Uma pedagogia inclusiva, nessa perspectiva, valoriza:

O brincar como eixo estruturante do currículo;

O corpo como lugar de expressão, comunicação e aprendizagem;

O tempo da criança, respeitando ritmos e processos singulares;

A escuta ativa como princípio pedagógico.

Essas práticas deslocam o foco da correção e do controle para o acolhimento e a participação, fortalecendo o pertencimento de todas as crianças ao espaço educativo.

4- O cuidado de si e o cuidado do outro na prática pedagógica

Nos escritos finais de sua obra, Foucault (2006) apresenta o conceito de cuidado de si como uma prática ética que envolve atenção, responsabilidade e relação com o outro. No campo educacional, esse conceito contribui para a construção de uma pedagogia que valoriza o vínculo, a presença e a sensibilidade.

Na Educação Infantil, o cuidado de si e do outro se traduz em práticas que:

Reconhecem a criança como sujeito de direitos;

Promovem ambientes afetivos e seguros;

Sustentam relações de confiança;

Favorecem a autonomia sem negligenciar o apoio.

Para crianças em contextos de inclusão, essa abordagem é fundamental, pois rompe com a lógica da medicalização excessiva e da correção constante, promovendo uma educação comprometida com a dignidade humana.

5- Brincadeira Sustentável e a ética do cuidado na infância

A proposta do Brincadeira Sustentável dialoga diretamente com essa perspectiva foucaultiana ao compreender o brincar como linguagem essencial da infância e como prática pedagógica que resiste à aceleração, à padronização e à exclusão.

Sustentar o brincar significa sustentar relações, tempos e experiências que respeitam a criança em sua integralidade. A sustentabilidade, nesse contexto, ultrapassa a dimensão ambiental e se estende ao cuidado com as relações humanas, com os afetos e com os processos de aprendizagem.

Assim, a Educação Infantil torna-se um espaço de produção de subjetividades mais livres, solidárias e inclusivas.

6- Considerações finais

A partir das contribuições de Michel Foucault, este artigo evidencia que a Educação Infantil não é um espaço neutro, mas um território atravessado por relações de poder, discursos e práticas que moldam modos de ser criança.

Assumir uma perspectiva inclusiva e sensível implica reconhecer essas relações e optar por práticas pedagógicas baseadas no cuidado, na escuta e no respeito às diferenças. Nesse sentido, o brincar se apresenta como um potente instrumento de resistência e humanização, alinhando-se aos princípios do Brincadeira Sustentável e à construção de uma educação comprometida com a vida.

Referências

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.


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