*BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL DESDE 2013*

Pesquisa, conceito e autoria: Renata Bravo / Contato: renatarjbravo@gmail.com

Inspirada em Heidegger, a Brincadeira Sustentável não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser vivida, elaborada e incorporada.
A tese que fundamenta este blog parte de uma ideia simples e duradoura: a infância, o brincar, a cultura, a natureza e as relações humanas constituem dimensões essenciais da formação do indivíduo e da construção da vida em sociedade. Embora os contextos históricos, as tecnologias e os modos de viver se transformem, essa base permanece atual. Por isso, não se trata de uma tese vinculada a uma época específica, mas de uma perspectiva que atravessa gerações e continua encontrando sentido sempre que uma criança brinca, aprende, cria, convive e estabelece sua relação com o mundo.

A INFÂNCIA EM TRÂNSITO: MEMÓRIA, CULTURA E FUTURO

terça-feira, 6 de outubro de 2026

BRINCAR PARA INVESTIGAR: QUANDO A BRINCADEIRA PRODUZ CONHECIMENTO


Série: Da Sucata à Matéria de Criação - Brincadeira Sustentável

Brincar é uma forma de experimentar o mundo. Quando a criança manipula um objeto, modifica sua posição, combina materiais, testa uma construção, observa um movimento ou inventa uma nova função para aquilo que tem nas mãos, ela não está apenas se divertindo. Está observando, formulando hipóteses, experimentando possibilidades e construindo relações.

Na Brincadeira Sustentável, essa dimensão investigativa do brincar ganha especial importância porque os materiais utilizados não chegam necessariamente à criança com uma função lúdica definida. Uma caixa não nasce como brinquedo. Uma tampinha não é, originalmente, uma peça de jogo. Um tubo de papel não é necessariamente um personagem. A criança é convidada a descobrir possibilidades.

Objetivo

Utilizar o brincar como estratégia de investigação, estimulando curiosidade, formulação de hipóteses, experimentação, resolução de problemas, criatividade, autonomia, comunicação e construção de conhecimentos a partir da interação com materiais.

Público-alvo

Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, com adequação da complexidade das situações investigativas à faixa etária. A proposta também pode ser aplicada em oficinas, espaços culturais, projetos interdisciplinares, atividades familiares e ações de educação ambiental.

Brincar não é apenas utilizar um brinquedo

Existe uma diferença importante entre brincar com um brinquedo pronto e brincar investigando as possibilidades de um objeto.

Quando uma criança recebe um brinquedo pronto, ela pode descobrir diferentes maneiras de utilizá-lo. Quando recebe materiais que ainda não possuem uma função lúdica definida, precisa tomar decisões: o que fazer com aquilo? Como juntar as partes? Como fazer funcionar? Que regras criar? Que história inventar?

Essa situação amplia a participação da criança na própria construção da experiência.

O objeto deixa de ser apenas aquilo que serve para brincar e passa a ser também objeto de investigação.

A pergunta como ponto de partida

Uma investigação pode começar com uma pergunta simples:

“O que isso pode virar?”

Mas outras perguntas podem ampliar o percurso:

“O que acontece se juntarmos esses materiais?”

“Como podemos fazer esse objeto se movimentar?”

“O que podemos modificar para que ele fique mais resistente?”

“Quantas maneiras encontramos de construir isso?”

“O que acontece se mudarmos a posição?”

“Podemos fazer de outro jeito?”

“Por que essa construção caiu?”

Essas perguntas não precisam ter uma resposta previamente definida pelo adulto. O objetivo é criar uma situação em que a criança possa investigar.

Hipótese, experiência e descoberta

Quando uma criança afirma que determinado objeto vai conseguir sustentar outro, ela está formulando uma hipótese.

Quando coloca os objetos juntos para verificar, está experimentando.

Se a estrutura permanecer em pé, terá uma informação que confirma parcialmente sua hipótese. Se cair, terá outra informação e poderá reformular sua ideia.

Esse ciclo pode ser repetido diversas vezes:

perguntar → imaginar → testar → observar → modificar → testar novamente.

O conhecimento não aparece apenas quando a criança encontra a resposta considerada correta. Ele também se constrói durante as tentativas.

O erro como informação

Uma construção que não funciona pode ser mais educativa do que uma construção que funciona imediatamente.

Quando uma roda não gira, por exemplo, pode ser necessário investigar seu eixo. Quando uma torre cai, pode ser necessário observar sua base. Quando uma ponte não suporta determinado peso, pode-se testar outra estrutura.

O erro deixa de ser apenas algo que deve ser corrigido e passa a ser uma fonte de informação para a investigação.

Isso não significa deixar a criança sem orientação. O professor pode ajudar a formular perguntas e apresentar novas possibilidades sem retirar dela a autoria da descoberta.

O papel do professor

O professor não precisa fornecer todas as respostas.

Seu papel pode ser o de criar condições para que a criança investigue, disponibilizar materiais, organizar o espaço, propor situações-problema, observar, registrar e fazer intervenções que ampliem o pensamento.

Em vez de dizer imediatamente “faça assim”, pode perguntar:

“O que você acha que está acontecendo?”

“O que poderíamos mudar?”

“Você consegue pensar em outra maneira?”

“Qual material poderia ajudar?”

“O que aconteceu quando você tentou?”

A mediação não elimina a dificuldade. Ela ajuda a criança a permanecer diante dela e procurar possibilidades.

O brincar também pode ser coletivo

A investigação pode acontecer individualmente ou em pequenos grupos.

Quando várias crianças tentam construir uma estrutura, podem surgir diferentes ideias. Elas precisam explicar suas propostas, ouvir as dos colegas, negociar decisões, dividir materiais e avaliar conjuntamente os resultados.

Nesse processo, o brincar também desenvolve relações humanas.

A construção deixa de ser apenas uma experiência material e passa a envolver comunicação, cooperação, negociação e responsabilidade compartilhada.

Materiais

Podem ser utilizados materiais previamente selecionados, limpos e secos, como caixas, tubos, tampas, papelão, papéis, tecidos, barbantes, embalagens adequadas, recipientes plásticos e outros materiais seguros.

Podem ser acrescentados materiais de apoio, como fita adesiva, cola, lápis, canetas, tintas, pincéis e tesouras adequadas à faixa etária.

É interessante disponibilizar materiais com propriedades diferentes, permitindo que as crianças comparem resistência, flexibilidade, peso, forma, textura e possibilidades de combinação.

Segurança

A seleção dos materiais deve ser realizada previamente por um adulto. Devem ser excluídos materiais cortantes, quebrados, enferrujados, contaminados ou que tenham acondicionado substâncias tóxicas, medicamentos ou produtos químicos.

Objetos pequenos devem ser utilizados de acordo com a faixa etária e com supervisão, especialmente quando houver possibilidade de ingestão ou aspiração.

Ferramentas de corte, perfuração ou aquecimento devem ser utilizadas por adultos ou somente quando forem apropriadas à idade e houver supervisão adequada.

O espaço deve permanecer organizado, permitindo que as crianças manipulem os materiais e se movimentem com segurança.

Acessibilidade

A investigação pode ser adaptada para diferentes formas de participação.

Materiais maiores ou mais leves podem facilitar a manipulação por crianças com limitações motoras. Recursos táteis, sonoros e espaciais podem ampliar a participação de crianças com deficiência visual. Crianças com sensibilidades sensoriais específicas podem explorar inicialmente os materiais por observação ou utilizando instrumentos intermediários.

As adaptações devem preservar a possibilidade de escolha e descoberta. Acessibilidade não significa oferecer uma atividade paralela, mas criar condições para que cada criança possa participar da mesma experiência investigativa por diferentes caminhos.

Indicadores de observação

Durante a atividade, podem ser observados:

  • curiosidade diante dos materiais;
  • capacidade de formular perguntas;
  • elaboração de hipóteses;
  • iniciativa para experimentar;
  • persistência diante das dificuldades;
  • capacidade de modificar estratégias;
  • resolução de problemas;
  • comunicação de ideias;
  • interação e cooperação;
  • autonomia nas escolhas;
  • capacidade de explicar o que descobriu;
  • relação entre experiência e conclusão.

Avaliação

A avaliação deve considerar o percurso investigativo.

Mais importante do que verificar se a criança chegou ao objeto esperado é observar como ela pensou durante o processo.

Que perguntas fez? Que hipóteses formulou? O que tentou? O que modificou? Como reagiu quando algo não funcionou? Conseguiu explicar o que descobriu? Procurou outras soluções?

Esses elementos permitem compreender a aprendizagem que ocorreu durante a brincadeira.

Brincar, investigar e transformar

Quando a criança brinca com materiais que ainda não possuem uma função determinada, ela precisa construir possibilidades.

Ela pode transformar uma caixa em cenário, uma tampinha em roda, um tubo em personagem ou vários materiais em uma construção coletiva. Mas pode também descobrir que determinada combinação não funciona e decidir começar novamente.

O valor da experiência está justamente nessa abertura.

Brincar, nesse contexto, não é apenas utilizar aquilo que já foi criado. É investigar aquilo que ainda pode ser criado.

Na Brincadeira Sustentável, o brincar pode ser compreendido como um percurso de descoberta:

observar → perguntar → imaginar → experimentar → transformar → testar → modificar → brincar → descobrir → compartilhar.

E quando a brincadeira produz perguntas, hipóteses, descobertas e novas possibilidades, ela também produz conhecimento.

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