Série: Da Sucata à Matéria de Criação - Brincadeira Sustentável
Existe uma diferença significativa entre uma criança produzir um objeto seguindo todas as etapas determinadas por um adulto e uma criança participar das decisões que conduzem à sua construção. Nos dois casos existe uma produção manual, mas a experiência de aprendizagem pode ser bastante diferente.
Quando o adulto define previamente o material, a forma, as cores, a sequência e o resultado esperado, a criança pode desenvolver habilidades importantes de execução, mas possui pouca participação nas decisões. Quando recebe materiais e condições para investigar, escolher e experimentar, ela passa a ocupar outra posição: a de autora.
Na Brincadeira Sustentável, essa autoria é um dos elementos fundamentais do processo.
Objetivo
Estimular a autoria, a autonomia, a imaginação e a capacidade de tomada de decisões por meio da construção de brinquedos e objetos a partir de materiais previamente selecionados, permitindo que a criança participe ativamente das diferentes etapas do processo.
Público-alvo
Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, com adequações de acordo com a idade e o nível de autonomia dos participantes. Também pode ser aplicada em oficinas, espaços culturais, projetos interdisciplinares, atividades familiares e ações de educação ambiental.
Quando a criança deixa de apenas executar
Uma atividade pode começar com uma proposta simples: “Vamos construir um brinquedo.”
A partir daí, em vez de apresentar imediatamente um modelo, o professor pode disponibilizar diferentes materiais e perguntar:
O que você gostaria de construir?
Que materiais poderiam ser utilizados?
Como essa parte poderia ficar fixa?
O que precisa acontecer para que o brinquedo funcione?
Que outra solução podemos experimentar?
Essas perguntas devolvem à criança parte das decisões que normalmente ficam concentradas no adulto.
Ela precisa escolher, planejar, testar e modificar.
Autoria não significa ausência de orientação
Dar autonomia à criança não significa deixá-la sem referências ou sem acompanhamento.
O professor continua responsável pela organização do ambiente, seleção dos materiais, segurança, mediação e apresentação de possibilidades. A diferença está em não transformar a criança em mera executora de um projeto previamente concluído pelo adulto.
O professor pode ensinar uma técnica quando necessário, demonstrar uma possibilidade, apresentar uma ferramenta ou ajudar na resolução de um problema. Entretanto, sempre que possível, a decisão sobre o que fazer, como combinar elementos e que significado atribuir à produção pode permanecer com a criança.
O brinquedo pode nascer durante o processo
Nem sempre a criança precisa saber antecipadamente qual será o resultado.
Uma caixa pode começar sendo uma estrutura e transformar-se em veículo. Um conjunto de tampinhas pode inicialmente ser utilizado para testar movimentos e depois se transformar em um jogo. Um tubo pode ser explorado como objeto sonoro antes de se tornar um personagem.
A criação pode acontecer enquanto a criança experimenta.
Essa abertura permite que a ideia inicial seja modificada. O planejamento não precisa ser rígido. Ele pode ser revisto diante das descobertas realizadas durante a construção.
Imaginação e função
Um brinquedo não precisa reproduzir exatamente um objeto existente.
Uma caixa pode representar uma casa sem possuir portas ou janelas convencionais. Um pedaço de papelão pode representar uma estrada. Uma tampinha pode ser uma roda, uma moeda, uma pedra preciosa ou qualquer outro elemento dentro da narrativa criada pela criança.
A imaginação permite que a função simbólica ultrapasse a função física.
Nesse sentido, o brinquedo construído pela criança pode ser simultaneamente objeto, representação, narrativa e experiência.
Autonomia e resolução de problemas
Construir envolve enfrentar problemas concretos.
Como unir duas partes? Como fazer uma estrutura permanecer em pé? Como criar movimento? Como tornar determinada parte mais resistente? Como modificar uma peça que não funcionou?
Cada problema exige uma decisão.
A criança pode pedir ajuda, observar o trabalho de outra criança, experimentar outra técnica ou modificar o projeto.
Esse processo favorece a autonomia porque a criança percebe que pode participar da busca por soluções.
Materiais
Podem ser utilizados materiais previamente selecionados, limpos, secos e adequados à faixa etária, como caixas, papelão, tubos, tampas, papéis, tecidos, barbantes, embalagens, recipientes plásticos e outros materiais disponíveis.
Materiais complementares podem incluir lápis, canetas, giz de cera, tintas, pincéis, cola, fita adesiva, tesouras sem ponta e outros recursos artísticos apropriados.
É interessante oferecer materiais variados, mas sem determinar antecipadamente qual deverá ser utilizado para cada finalidade.
Segurança
Todos os materiais devem ser previamente avaliados por um adulto e estar limpos, secos e em condições adequadas de uso.
Devem ser excluídos materiais cortantes, quebrados, enferrujados, contaminados ou que tenham acondicionado produtos tóxicos, medicamentos ou substâncias de procedência desconhecida.
Tesouras, ferramentas de corte e perfuração e outros instrumentos potencialmente perigosos devem ser adequados à idade ou utilizados por adultos.
A autonomia da criança não elimina a responsabilidade do adulto pela segurança do ambiente. A criança pode escolher dentro de um ambiente previamente preparado e seguro.
Acessibilidade
A autoria deve estar disponível para todas as crianças.
Podem ser oferecidos materiais de diferentes tamanhos, pesos e formas, permitindo que cada participante encontre maneiras de manipulá-los. Suportes, bases, adaptadores ou instrumentos podem facilitar a participação de crianças com dificuldades motoras.
Para crianças com deficiência visual, podem ser priorizadas características táteis, sonoras e espaciais. Crianças com diferentes necessidades sensoriais podem escolher materiais com os quais se sintam confortáveis, ampliando gradualmente suas experiências quando desejarem.
O importante é que as adaptações não retirem da criança o direito de escolher, experimentar e decidir.
Indicadores de observação
Durante a atividade, podem ser observados:
- iniciativa para começar uma construção;
- capacidade de escolher materiais;
- participação nas decisões;
- formulação de ideias;
- planejamento das etapas;
- experimentação de diferentes soluções;
- persistência diante de dificuldades;
- capacidade de modificar o projeto;
- resolução de problemas;
- utilização simbólica dos materiais;
- comunicação das próprias ideias;
- autonomia;
- interação com outras crianças;
- reconhecimento da própria autoria.
Avaliação
A avaliação deve considerar o grau de participação da criança no processo e não apenas o objeto produzido.
É importante observar se ela tomou decisões, se conseguiu explicar suas escolhas, se experimentou possibilidades, se modificou estratégias diante de dificuldades e se reconheceu sua produção como resultado de suas próprias ações.
Também é importante evitar comparar as produções com um padrão estético único.
Um brinquedo simples pode representar uma experiência de grande complexidade quando a criança teve que imaginar, decidir, testar e solucionar problemas para construí-lo.
Do objeto construído ao sentimento de autoria
Quando a criança percebe que uma ideia sua pode se transformar em um objeto concreto, estabelece uma relação importante entre imaginação e realização.
Ela imagina algo que ainda não existe, escolhe materiais, experimenta possibilidades, enfrenta dificuldades, modifica o projeto e finalmente observa aquilo que conseguiu produzir.
Esse percurso pode fortalecer autonomia, confiança, responsabilidade e percepção de capacidade.
O brinquedo deixa, então, de ser apenas algo para brincar.
Ele passa a ser também registro de uma ideia que a criança conseguiu transformar em matéria.
Na Brincadeira Sustentável, construir não é apenas montar.
É imaginar, escolher, experimentar, decidir e transformar.
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