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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Brincar não é intervalo

É modo de existir.

Durante muito tempo, tratamos o brincar como algo secundário na educação.

Um descanso entre atividades “sérias”.

Uma recompensa depois do que realmente importa.

Mas quem escuta com atenção percebe:

é no brincar que a criança pensa, sente, cria e se constitui.

No brincar, a criança não está treinando para a vida futura, ela está vivendo.

Ali, o mundo não é apresentado como um conjunto de respostas prontas, mas como um campo aberto de possibilidades. Objetos ganham novos sentidos, o tempo desacelera, o corpo fala antes das palavras.

Quando brinca, a criança não separa razão e emoção, mente e corpo, sujeito e mundo.

Ela está inteira. Presente. Em relação.

O brincar é linguagem.

Uma linguagem que não se explica, se experimenta.

Uma forma de compreender o mundo não por conceitos, mas por envolvimento, por presença, por sentido vivido.

É nesse espaço que a criança se descobre como alguém que pode agir, transformar, imaginar.

Não alguém que apenas repete o que lhe foi dado, mas alguém que habita o mundo de forma própria.

Quando a escola reduz o brincar a um recurso pedagógico ou a um momento residual, perde algo essencial: perde o acesso ao modo mais originário pelo qual a criança se relaciona com a existência.

Educar, então, não é preencher vazios, nem antecipar performances.

É sustentar espaços onde a criança possa ser, experimentar, errar, criar e significar.

Onde brincar não é pausa.

É fundamento.

Talvez o que chamamos de aprendizagem só aconteça de verdade quando a escola reaprende a escutar o brincar não como método, mas como modo de estar no mundo.


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