O Cerrado é um bioma brasileiro que possui grande biodiversidade. É considerado o segundo maior bioma do Brasil e da América do Sul.
O Cerrado como “berço das águas do Brasil”: importância hidrológica e desafios contemporâneos
O termo “Cerrado: o berço das águas do Brasil” é amplamente utilizado por diversos autores para destacar a relevância desse domínio morfoclimático na distribuição hídrica do país. Essa denominação se apoia na compreensão de que o Cerrado abriga os divisores de água das principais bacias hidrográficas brasileiras, desempenhando papel fundamental na dinâmica da rede de drenagem nacional.
Embora a água seja um recurso natural renovável dentro de um ciclo hidrológico contínuo, sua circulação e disponibilidade têm sido profundamente alteradas pelas ações humanas, o que compromete sua quantidade e qualidade ao longo do tempo. Nesse contexto, surgem questionamentos centrais: o Cerrado pode, de fato, ser considerado o “berço das águas”? Quais elementos justificam essa designação? E como essa nomenclatura se relaciona com o atual cenário de uso e ocupação desse bioma?
Essas questões se inserem em uma análise mais ampla sobre o processo de apropriação dos territórios e dos recursos naturais do Cerrado, especialmente diante da expansão agrícola, da urbanização e das mudanças no uso do solo. Nesse sentido, a Educação Geográfica assume papel essencial, pois contribui para a compreensão das práticas espaciais e para a formação de uma consciência cidadã voltada à conservação ambiental.
Objetivo do estudo
O presente trabalho tem como objetivo discutir a importância hidrológica do Cerrado e seu papel no ensino e aprendizagem da Geografia Escolar, contribuindo para reflexões sobre conscientização e preservação desse domínio.
Materiais e métodos
A pesquisa foi desenvolvida por meio de revisão bibliográfica em livros, artigos, teses e dissertações que abordam o Cerrado em suas dimensões físico-naturais, sociais e culturais. Também foram utilizados dados de instituições como CPRM, ANA, IBGE e EMBRAPA, envolvendo informações sobre relevo, solos, geologia e hidrogeologia.
Esses dados foram organizados em ambiente SIG (ArcGIS), permitindo a elaboração de mapas temáticos que possibilitam a análise espacial do Cerrado e sua relação com a disponibilidade hídrica.
Estrutura da análise
O estudo foi organizado em três eixos principais:
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Potencialidade hídrica do Cerrado, destacando suas características naturais e o conceito de “berço das águas”;
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Recursos hídricos e seus usos, incluindo conflitos decorrentes da gestão inadequada da água;
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Conservação e educação geográfica, enfatizando o papel da escola na formação de uma consciência ambiental.
O Cerrado e seu potencial hídrico
O Cerrado está localizado principalmente no Planalto Central do Brasil, abrangendo diversos estados e funcionando como área estratégica de recarga hídrica. Estudos indicam que ele concentra nascentes que alimentam importantes bacias hidrográficas, como as dos rios Paraná, São Francisco, Tocantins-Araguaia, Paraguai, Parnaíba e parte da Amazônica.
Além disso, abriga importantes aquíferos, como o Guarani, Bambuí e Urucuia, que contribuem para a manutenção dos sistemas hídricos superficiais. Por essa razão, o bioma é frequentemente chamado de “berço das águas” ou “grande caixa d’água do Brasil”.
Também é descrito como o “efeito guarda-chuva”, por sua localização elevada e central, que favorece a dispersão das águas para diferentes regiões hidrográficas do continente.
Importância e desafios
Apesar de sua relevância, o Cerrado enfrenta forte pressão ambiental devido à expansão da agricultura, pecuária e outros usos do solo. Essas transformações alteram o equilíbrio hídrico, comprometendo a recarga de aquíferos e a manutenção das nascentes.
A análise integrada dos dados físicos e ambientais demonstra que a preservação do Cerrado é essencial não apenas para o Brasil, mas para o equilíbrio hídrico de toda a América do Sul.
Considerações finais
O Cerrado desempenha um papel estratégico na regulação hídrica e climática, sendo fundamental para o abastecimento de água e manutenção dos ecossistemas. Seu estudo e preservação devem estar integrados à educação geográfica, fortalecendo a conscientização e promovendo práticas sustentáveis.

Figura 1
Representação da área contínua do Cerrado no contexto das regiões hidrográficas brasileiras, 2011.LIMA, Jorge Enoch Furquim Werneck (2011).
Tabela 1
Contribuição hídrica superficial do Cerrado por região hidrográfica do território brasileiro (2005)Lima e Silva (2008b).A precipitação no Cerrado e sua variabilidade espacial e temporal
A precipitação média mensal na região do Cerrado apresenta, segundo Coutinho (2002), uma forte estacionalidade, concentrando-se principalmente na primavera e no verão, entre os meses de outubro e março. Esse período é conhecido como estação chuvosa, no qual, apesar do elevado volume de chuvas, podem ocorrer os chamados “veranicos”, caracterizados por curtos intervalos de estiagem.
No período de maio a setembro, observa-se uma significativa redução dos índices pluviométricos, configurando a estação seca, que pode durar de três a cinco meses.
Em relação à precipitação média anual, os dados climáticos indicam variações expressivas ao longo do território do Cerrado. Na porção leste, os índices variam entre 770 mm e 1.682 mm, enquanto na direção oeste podem ultrapassar 2.100 mm. Essa diferença evidencia uma variação espacial importante na distribuição das chuvas.
Essa variabilidade ocorre, em grande parte, devido à influência da região Amazônica, que interfere na dinâmica atmosférica e no regime de chuvas do Cerrado (FARIAS; LUIZ; FERREIRA JÚNIOR, 2015).
Dessa forma, torna-se evidente que o Cerrado não pode ser tratado como uma área hidrologicamente homogênea, uma vez que apresenta diferenças significativas em seus padrões de precipitação. Isso reforça a necessidade de análises regionais mais detalhadas, especialmente quando se utilizam índices hidrológicos médios para compreensão do bioma (LIMA; SILVA, 2008b).

Figura 2
Precipitação média anual do Cerrado (1977-2006)Organização dos autores (2017).O relevo do Cerrado e sua importância para a dinâmica hídrica
O relevo da região do Cerrado caracteriza-se, de modo geral, por uma topografia plana ou suavemente ondulada, em razão da presença predominante de planaltos, chapadas e tabuleiros (Figura 3). Essas formas de relevo, juntas, representam cerca de 45,11% da área total do bioma (IBGE; EMBRAPA, 2008).
Essa configuração geomorfológica, associada às elevadas altitudes em determinadas áreas, favorece a infiltração da água no solo em detrimento do escoamento superficial. Como resultado, o Cerrado apresenta condições altamente favoráveis à recarga de aquíferos, desempenhando um papel essencial na manutenção das zonas de recarga hídrica e no equilíbrio do ciclo hidrológico.

Figura 3
Compartimentos de relevo do Cerrado (2006)Organização dos autores (2017).Os solos do Cerrado e sua contribuição para a recarga hídrica
Outra condição físico-natural que favorece a infiltração da água precipitada e, consequentemente, a recarga hídrica no Cerrado, está relacionada aos solos predominantes na região. Os Latossolos, amplamente distribuídos nesse bioma (Figura 4), apresentam características que facilitam a permeabilidade da água.
Mesmo quando possuem textura muito argilosa, esses solos apresentam elevado espaço poroso devido à sua estrutura granular. Esses agregados, por vezes comparados a “grãos de pó de café” por sua semelhança com a areia, conferem aos solos alta porosidade e permeabilidade (LEPSCH, 2010).
Essa característica favorece a infiltração da água no perfil do solo, contribuindo diretamente para a recarga dos aquíferos e para a manutenção do equilíbrio hidrológico do Cerrado.

Figura 4
Solos do Cerrado (2006)Organização dos autores (2017).Vegetação, solos e geologia do Cerrado na dinâmica da infiltração hídrica
Silva (2009) destaca que as características dos Latossolos predominantes em áreas de topografia plana ou suavemente ondulada fazem com que esses solos atuem como verdadeiras “esponjas” naturais, absorvendo a água da chuva e contribuindo para a alimentação do nível freático. Além disso, o autor ressalta que a fisiologia e a ecologia da vegetação do Cerrado também desempenham papel importante na disponibilidade hídrica do ambiente.
A baixa produção de biomassa, associada à presença de cascas espessas e folhas coriáceas, contribui para uma menor transpiração das plantas, ao mesmo tempo em que favorece a retenção e o equilíbrio hídrico no ecossistema.
Nesse contexto, a cobertura vegetal exerce função essencial na infiltração da água no solo. De acordo com Morais (2012), a vegetação protege os horizontes superficiais do impacto direto das gotas de chuva, reduzindo processos de compactação e encrostamento. Além disso, aumenta a macroporosidade do solo, favorecendo a infiltração e a recarga hídrica, ao mesmo tempo em que contribui para uma drenagem mais eficiente.
Outro aspecto relevante é o sistema radicular profundo da vegetação do Cerrado. Segundo Coutinho (2002), muitas espécies apresentam raízes pivotantes que podem ultrapassar 15 metros de profundidade, permitindo o acesso à água em camadas permanentemente úmidas do solo, inclusive durante o período de seca. Esse sistema radicular também contribui para a manutenção da porosidade do solo e para o aumento da infiltração da água.
No que se refere à geologia, observa-se que as rochas sedimentares predominam em aproximadamente 57,97% da área do Cerrado (Figura 5). Essas formações geológicas, por apresentarem porosidade granular, são altamente permeáveis e possuem grande capacidade de armazenamento de água, sendo classificadas como de elevada vocação aquífera (CARNEIRO; CAMPOS, 2002).
Essas rochas, frequentemente associadas a bacias sedimentares e áreas de deposição de sedimentos arenosos, dão origem a importantes aquíferos porosos, fundamentais para a manutenção dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos do Cerrado.

Figura 5
Geologia simplificada do Cerrado (2015)Organização dos autores (2017).O predomínio das bacias sedimentares e a riqueza hídrica do Cerrado
O predomínio de bacias sedimentares no Cerrado (Figura 6), que corresponde a 43,89% da área total, também contribui para explicar a elevada riqueza hídrica desse bioma. Isso ocorre porque a porosidade desses aquíferos favorece a circulação e o armazenamento de água subterrânea.
Essa dinâmica permite a descarga gradual do recurso hídrico subterrâneo em cursos d’água superficiais, processo conhecido como fluxo de base. Esse mecanismo é fundamental para a manutenção das vazões dos rios, garantindo a presença de água mesmo durante o período de seca (CARNEIRO; CAMPOS, 2002).

Figura 6
Domínios hidrogeológicos do Cerrado (2014)Organização dos autores (2017).Aquíferos do Cerrado e a dinâmica das águas subterrâneas
Destarte, encontram-se no domínio do Cerrado três grandes aquíferos: Guarani, Bambuí e Urucuia. O volume de água armazenado no Aquífero Guarani, por exemplo, segundo Carneiro e Campos (2002), é estimado em cerca de 50.000 km³, com volume aproveitável da ordem de 40 km³/ano.
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA, 2007, p. 11), “as águas subterrâneas são aquelas que se encontram sob a superfície da Terra, preenchendo os espaços vazios existentes entre os grãos do solo, rochas e fissuras (rachaduras, quebras, descontinuidades e espaços vazios)”.
A Figura 7 representa a trajetória da água no subsolo, desde a superfície até as camadas mais profundas. Nesse percurso, a água atravessa a zona não saturada, onde coexistem água e ar nos espaços do solo, até atingir a zona saturada, na qual os poros e fissuras estão completamente preenchidos por água. Segundo o MMA (2007), o limite entre essas duas zonas é denominado nível freático.

Figura 7
Caracterização das zonas saturadas e não saturadas no subsolohttp://www.mma.gov.br/agua/recursos-hidricos/aguas-subterraneas/ciclo-hidrologico. 2007.Recursos hídricos do Cerrado e suas múltiplas formas de uso
Ainda segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA, 2007), as rochas saturadas permitem a circulação, o armazenamento e a extração de água, processo que dá origem aos aquíferos, responsáveis por armazenar grandes volumes de água subterrânea.
Sobre a contribuição dos recursos hídricos do Cerrado, Lima (2011) destaca que sua importância ultrapassa os limites da própria região de vegetação típica, abrangendo diferentes usos como abastecimento humano, atividades industriais, irrigação agrícola, navegação, recreação e turismo. Soma-se a isso o papel relevante das águas do Cerrado na geração de energia elétrica no Brasil.
Entre as principais finalidades de uso da água nesse domínio, destaca-se a irrigação, conforme apresentado no Quadro 1 a seguir.
Quadro 1
Consumo das águas do Cerrado
| CONSUMO DE ÁGUAS | QUANTIDADE |
| Irrigação | 69% |
| Abastecimento urbano | 11% |
| Uso na produção animal | 11% |
| Uso nas Indústrias | 7% |
| Abastecimento rural | 2% |
Lima, Jorge Enoch Furquim Werneck (2011). Adaptação autores, (2017).Recursos hídricos, irrigação e impactos ambientais no Cerrado
Ao mesmo tempo em que a irrigação se consolida como o principal uso das águas do Cerrado, observa-se que ela também se torna um dos principais desafios ambientais da atualidade. Quando realizada de forma descontrolada e sem manejo adequado, essa prática contribui para uma série de impactos negativos, como erosões, assoreamento dos cursos d’água e outras formas de degradação ambiental.
Recursos hídricos e impactos ambientais
O Conselho Nacional do Meio Ambiente define impacto ambiental como qualquer alteração das propriedades físicas, químicas ou biológicas do meio ambiente, resultante de atividades humanas que afetam direta ou indiretamente a saúde, a segurança e o bem-estar da população, as atividades sociais e econômicas, a biota, as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente e a qualidade dos recursos ambientais (OLIVEIRA FILHO; LIMA, 2002).
Segundo os mesmos autores, os impactos das atividades agrícolas sobre os recursos hídricos podem ser avaliados por meio da análise da qualidade da água. Embora essa qualidade possa ser influenciada por diversas fontes, a agricultura possui atividades específicas que podem alterar significativamente os corpos hídricos.
A avaliação da qualidade da água pode ser realizada por critérios numéricos e qualitativos. Entre eles destacam-se:
a) Índice de Qualidade das Águas (IQA)
Baseia-se em nove parâmetros: temperatura, pH, oxigênio dissolvido (OD), demanda bioquímica de oxigênio (DBO5), coliformes fecais, nitrogênio total, fósforo total, sólidos totais e turbidez. Esses parâmetros são ponderados e resultam em um índice entre 1 e 100, que classifica a qualidade da água.
b) Resolução CONAMA 20
Estabelece padrões para parâmetros físico-químicos e biológicos, além de limites para substâncias químicas potencialmente perigosas, incluindo metais pesados e agrotóxicos.
c) Portaria 1.469/2000
Define padrões de qualidade da água para consumo humano, estabelecendo Valores Máximos Permitidos (VMP) para substâncias físico-químicas, biológicas e químicas, incluindo compostos orgânicos, inorgânicos e agrotóxicos.
Agricultura e uso da água no Cerrado
O Cerrado brasileiro é considerado estrategicamente importante para a expansão da produção de alimentos. De acordo com Campos Filho (2010), a agricultura é atualmente a atividade que mais consome água nas regiões do Cerrado.
Esse cenário transforma o bioma em alvo de disputas por grandes empresas do setor agrícola, especialmente devido à sua expressiva disponibilidade hídrica e às condições climáticas relativamente estáveis, quando comparadas a outras regiões do país. Soma-se a isso a expansão do setor sucroalcooleiro, com implantação e planejamento de diversas usinas, o que reforça a necessidade de estudos sobre os impactos da mudança no uso do solo sobre a qualidade e a disponibilidade da água (CAMPOS FILHO, 2010).
Estima-se que o Cerrado possua cerca de 10 milhões de hectares com potencial para irrigação, dos quais menos de 1 milhão são efetivamente utilizados. Isso indica grande possibilidade de expansão dessa prática, condicionada a fatores como infraestrutura, mercado e financiamento.
No entanto, a gestão inadequada dos recursos hídricos e a ausência de técnicas apropriadas de manejo da irrigação têm intensificado conflitos pelo uso da água. Esse cenário reflete um processo histórico de ocupação desigual do território e resulta, em algumas regiões, na concentração de sistemas de irrigação, como os pivôs centrais, conforme ilustrado na Figura 8.

Figura 8
Pivôs-centrais instalados em área de Cerrado em 2002LIMA, Jorge Enoch Furquim Werneck (2011).Muitos técnicos consideram que o principal fator gerador de conflitos relacionados ao uso da água e aos impactos ambientais no Cerrado seja o elevado número de pivôs centrais instalados na região, uma vez que esses sistemas representam cerca de 50% da área irrigada. No entanto, para uma análise mais aprofundada desses conflitos, é fundamental considerar não apenas a presença dos pivôs, mas toda a área irrigada e, sobretudo, a existência ou não de um manejo adequado da irrigação (LIMA; SILVA, 2008b).
De acordo com Lima (2011), a área total irrigada por pivô central em toda a região contínua do Cerrado corresponde a 478.632 hectares, conforme apresentado na Tabela 2.

Tabela 2
Número de pivôs-centrais e respectiva área irrigada em 2002 na região contínua de Cerrado, por unidade federativaLima, Jorge Enoch Furquim Werneck (2011).