quarta-feira, 13 de maio de 2026

A preensão é a habilidade de segurar, agarrar ou pegar objetos, e é um marco importante no desenvolvimento infantil. É uma função manual que se desenvolve desde o nascimento

Fases de desenvolvimento da preensão

Reflexo de preensão
O bebê fecha as mãos automaticamente quando toca a mão ou quando um objeto é colocado próximo.

Preensão palmar
A criança pega objetos com a mão toda, como uma bola, um jogo de encaixe ou uma escova de cabelo.

Preensão digital
Os dedos passam a ser a principal ferramenta de suporte, e a criança começa a usar mais o cotovelo e o antebraço.

Preensão quadrípode
A criança utiliza os quatro dedos para pegar e manipular o objeto.

Preensão trípode
A criança usa o indicador e o polegar em forma de pinça, com o dedo médio como apoio.

Como estimular a preensão palmar

Brincadeiras e atividades simples do dia a dia, brinquedos educativos e estímulo da força da mão.

A preensão palmar é fundamental para que a criança consiga segurar o lápis, trocar de roupa, manter o brinquedo na mão e segurar a colher.

Desde bebê, já possuímos este ato motor, porém no início ele se apresenta apenas como reflexo, também conhecido como reflexo palmar.
Com a maturação do sistema nervoso central, o que era reflexo vai se tornando um ato intencional e cada vez mais refinado. O bebê começa a aprimorar o movimento, sendo capaz de pegar objetos cada vez menores, chegando até mesmo a conseguir pegar um grão de feijão através do movimento de pinça.

É comum educadores nomearem a preensão como “pressão”, mas são conceitos diferentes. A preensão é o movimento que a mão realiza em torno de um objeto para pegá-lo. Já a pressão é a força exercida pela mão sobre esse objeto. Assim, ao observar uma criança escrevendo, podemos identificar tanto a preensão do lápis quanto a pressão exercida durante o grafismo.

A pinça é um ato motor refinado. Inicialmente o bebê usa a mão toda para pegar, depois passa a utilizar principalmente o polegar e o indicador, que serão responsáveis pela pinça. À medida que o movimento se torna mais preciso, também graças ao aprimoramento da coordenação visomotora, a criança consegue realizar atividades de enfiagem e encaixe com maior estabilidade e precisão.

Propiciar brinquedos que favoreçam a pinça pode auxiliar muito na precisão do grafismo. Além disso, ensinar a criança desde cedo a executar atividades básicas do cotidiano, como amarrar sapatos, abotoar e afivelar, favorece o desenvolvimento do tônus muscular das mãos e braços, essencial para a escrita, tanto no ritmo quanto na qualidade da produção.

Renata Bravo

Educadora, escritora e pesquisadora em Formação Humana, Arte e Legado Cultural.










terça-feira, 12 de maio de 2026

O Cerrado é conhecido como “floresta de ponta cabeça” porque as raízes das suas árvores são mais longas do que as copas

O Cerrado é um bioma brasileiro que possui grande biodiversidade. É considerado o segundo maior bioma do Brasil e da América do Sul.

As raízes das plantas do Cerrado são extremamente profundas, podendo chegar a até 20 metros de comprimento. Essa adaptação permite que elas alcancem a água armazenada no subsolo, contribuindo também para a recarga de aquíferos subterrâneos.

O Cerrado é conhecido como “floresta de ponta cabeça” porque:

  • As raízes são mais longas e desenvolvidas do que as copas das árvores;
  • As árvores funcionam como uma espécie de “esponja gigante”, absorvendo e armazenando água;
  • A vegetação se adapta para acessar a umidade presente no lençol freático.

O Cerrado é um bioma antigo, com milhões de anos de existência. No entanto, nas últimas décadas, vem sofrendo intensa degradação devido à expansão de pastagens, agricultura e atividades de mineração, o que ameaça sua biodiversidade e o equilíbrio ambiental.

O Cerrado é conhecido como uma “floresta invertida” por especialistas devido à sua estrutura única, já que é abaixo da superfície que se encontra a maior parte da biomassa desse bioma.

Cerrado: Uma Floresta Invertida no Coração do Brasil

Uma floresta invertida, de ponta cabeça, ocupa a área central do Brasil. Essa floresta é o Cerrado. Esse termo, criado por especialistas, ajuda a descrever a complexa dinâmica desse bioma extraordinário. O Cerrado é, de fato, a savana com maior biodiversidade do mundo. Embora contenha mais de 12.000 espécies de plantas catalogadas, a maior parte de sua vegetação é composta por árvores de pequeno porte, arbustos e gramíneas retorcidas. No entanto, é sob a terra, nas profundezas do solo e das raízes, que se encontra a maior parte da biomassa desse bioma.

O bioma subterrâneo

Quando pensamos no Cerrado, geralmente imaginamos vastas paisagens de gramíneas e árvores retorcidas. No entanto, sua riqueza vai muito além do que se vê na superfície. Com o aumento das concentrações de gás carbônico na atmosfera e os impactos das mudanças climáticas, diversas pesquisas têm buscado compreender o potencial de cada ecossistema na absorção e armazenamento de carbono.

Estudos indicam que o Cerrado pode armazenar, em média, cinco vezes mais carbono abaixo do solo do que acima dele. Pesquisas como a de Terra et al. (2023) analisaram 21 áreas do Cerrado, com 144 parcelas permanentes, para avaliar os estoques de carbono acima e abaixo do solo.

Os resultados revelam que a biomassa acima do solo é de aproximadamente 20,4 megagramas por hectare, enquanto as raízes contribuem com cerca de 14,24 megagramas por hectare. No entanto, o maior estoque está no solo, com uma média de 123,13 megagramas por hectare. O carbono total estimado chega a 145,62 megagramas por hectare, evidenciando a enorme capacidade de armazenamento desse bioma.

A floresta que guarda água e vida

O Cerrado pode parecer seco à superfície, mas grande parte de sua umidade está no subsolo. Suas raízes profundas funcionam como uma verdadeira esponja, contribuindo para a recarga dos aquíferos que alimentam importantes bacias hidrográficas do Brasil. Por isso, o Cerrado também é conhecido como o “berçário das águas”.

Em períodos de chuva, essa rede de raízes ajuda a infiltrar a água no solo; em períodos de seca, muitas espécies mantêm suas folhas graças ao acesso à umidade profunda.

Uma floresta invertida sob ameaça

Apesar de sua importância, o Cerrado é um dos biomas mais ameaçados do mundo. A expansão da agricultura, da pecuária e das queimadas tem provocado intensa perda de vegetação nativa. Mais de 50% de sua área original já foi convertida para outros usos do solo.

A substituição da vegetação nativa por monoculturas e pastagens, que possuem raízes superficiais, altera profundamente a dinâmica hídrica e pode comprometer a recarga dos aquíferos, afetando o equilíbrio ambiental e os recursos hídricos.

Importância global do Cerrado

As savanas, incluindo o Cerrado, são responsáveis por cerca de 30% da produtividade primária líquida terrestre global. Isso reforça seu papel essencial no ciclo do carbono e na regulação climática do planeta.

O Cerrado, portanto, não é apenas uma paisagem, mas um sistema vivo que atua profundamente na regulação da água, do carbono e da biodiversidade.

Preservar é garantir o futuro

A conservação do Cerrado é fundamental não apenas para manter sua biodiversidade única, mas também para proteger os recursos hídricos e enfrentar as mudanças climáticas. Sua importância vai além das fronteiras do Brasil, sendo vital para o equilíbrio ambiental global.

Cuidar do Cerrado é cuidar da vida, da natureza e do futuro do planeta.

O Cerrado como “berço das águas do Brasil”: importância hidrológica e desafios contemporâneos

O termo “Cerrado: o berço das águas do Brasil” é amplamente utilizado por diversos autores para destacar a relevância desse domínio morfoclimático na distribuição hídrica do país. Essa denominação se apoia na compreensão de que o Cerrado abriga os divisores de água das principais bacias hidrográficas brasileiras, desempenhando papel fundamental na dinâmica da rede de drenagem nacional.

Embora a água seja um recurso natural renovável dentro de um ciclo hidrológico contínuo, sua circulação e disponibilidade têm sido profundamente alteradas pelas ações humanas, o que compromete sua quantidade e qualidade ao longo do tempo. Nesse contexto, surgem questionamentos centrais: o Cerrado pode, de fato, ser considerado o “berço das águas”? Quais elementos justificam essa designação? E como essa nomenclatura se relaciona com o atual cenário de uso e ocupação desse bioma?

Essas questões se inserem em uma análise mais ampla sobre o processo de apropriação dos territórios e dos recursos naturais do Cerrado, especialmente diante da expansão agrícola, da urbanização e das mudanças no uso do solo. Nesse sentido, a Educação Geográfica assume papel essencial, pois contribui para a compreensão das práticas espaciais e para a formação de uma consciência cidadã voltada à conservação ambiental.

Objetivo do estudo

O presente trabalho tem como objetivo discutir a importância hidrológica do Cerrado e seu papel no ensino e aprendizagem da Geografia Escolar, contribuindo para reflexões sobre conscientização e preservação desse domínio.

Materiais e métodos

A pesquisa foi desenvolvida por meio de revisão bibliográfica em livros, artigos, teses e dissertações que abordam o Cerrado em suas dimensões físico-naturais, sociais e culturais. Também foram utilizados dados de instituições como CPRM, ANA, IBGE e EMBRAPA, envolvendo informações sobre relevo, solos, geologia e hidrogeologia.

Esses dados foram organizados em ambiente SIG (ArcGIS), permitindo a elaboração de mapas temáticos que possibilitam a análise espacial do Cerrado e sua relação com a disponibilidade hídrica.

Estrutura da análise

O estudo foi organizado em três eixos principais:

  • Potencialidade hídrica do Cerrado, destacando suas características naturais e o conceito de “berço das águas”;
  • Recursos hídricos e seus usos, incluindo conflitos decorrentes da gestão inadequada da água;
  • Conservação e educação geográfica, enfatizando o papel da escola na formação de uma consciência ambiental.

O Cerrado e seu potencial hídrico

O Cerrado está localizado principalmente no Planalto Central do Brasil, abrangendo diversos estados e funcionando como área estratégica de recarga hídrica. Estudos indicam que ele concentra nascentes que alimentam importantes bacias hidrográficas, como as dos rios Paraná, São Francisco, Tocantins-Araguaia, Paraguai, Parnaíba e parte da Amazônica.

Além disso, abriga importantes aquíferos, como o Guarani, Bambuí e Urucuia, que contribuem para a manutenção dos sistemas hídricos superficiais. Por essa razão, o bioma é frequentemente chamado de “berço das águas” ou “grande caixa d’água do Brasil”.

Também é descrito como o “efeito guarda-chuva”, por sua localização elevada e central, que favorece a dispersão das águas para diferentes regiões hidrográficas do continente.

Importância e desafios

Apesar de sua relevância, o Cerrado enfrenta forte pressão ambiental devido à expansão da agricultura, pecuária e outros usos do solo. Essas transformações alteram o equilíbrio hídrico, comprometendo a recarga de aquíferos e a manutenção das nascentes.

A análise integrada dos dados físicos e ambientais demonstra que a preservação do Cerrado é essencial não apenas para o Brasil, mas para o equilíbrio hídrico de toda a América do Sul.

Considerações finais

O Cerrado desempenha um papel estratégico na regulação hídrica e climática, sendo fundamental para o abastecimento de água e manutenção dos ecossistemas. Seu estudo e preservação devem estar integrados à educação geográfica, fortalecendo a conscientização e promovendo práticas sustentáveis.

Representação da área
contínua do Cerrado no contexto das regiões hidrográficas brasileiras, 2011.
Figura 1
Representação da área contínua do Cerrado no contexto das regiões hidrográficas brasileiras, 2011.
LIMA, Jorge Enoch Furquim Werneck (2011).

O “efeito guarda-chuva” e a importância hidrológica do Cerrado

O “efeito guarda-chuva” representa a ocorrência de nascentes situadas em áreas de maior altitude no território nacional, as quais alimentam cursos d’água de diferentes regiões hidrográficas, contribuindo para a formação e manutenção da rede hídrica local e regional. Nesse sentido, o Cerrado é considerado uma área de origem das grandes bacias hidrográficas brasileiras e sul-americanas (LIMA; SILVA, 2008a), devido à sua expressiva contribuição hídrica superficial e subterrânea.

Ao utilizar expressões como “berço das águas” ou “efeito guarda-chuva” para o Cerrado, destacam-se três elementos fundamentais: água, altitude e infiltração. Essa relação se torna compreensível a partir do ciclo hidrológico, que descreve o movimento contínuo da água no ambiente em seus diferentes estados físicos. Esse ciclo envolve processos como evaporação, condensação, precipitação, infiltração, escoamento, transpiração e evapotranspiração. Dentre eles, a infiltração desempenha papel essencial, pois permite que a água da chuva penetre no solo, abastecendo os aquíferos e sustentando o fluxo de base dos rios.

As taxas de infiltração, no entanto, variam conforme características ambientais como intensidade e frequência das chuvas, porosidade do solo, relevo, tipo e densidade da cobertura vegetal. O Cerrado, localizado predominantemente no Planalto Central Brasileiro, destaca-se justamente por suas condições favoráveis à recarga hídrica e à manutenção de importantes sistemas aquíferos.

De acordo com Lima e Silva (2005), desconsiderando a produção hídrica da bacia Amazônica, o Cerrado é responsável por cerca de 43% da produção hídrica do território nacional, evidenciando sua relevância no contexto brasileiro.

As bacias hidrográficas e o papel do Cerrado

Segundo Lima e Silva (2005), oito grandes bacias hidrográficas brasileiras recebem contribuição direta das áreas de Cerrado: Amazônica, Tocantins-Araguaia, Parnaíba, São Francisco, Atlântico Nordeste Ocidental, Atlântico Leste, Paraná e Paraguai.

Dentre elas, seis possuem nascentes localizadas no próprio Cerrado, com destaque para:

  • Bacia Amazônica (rios Xingu, Madeira e Trombetas);
  • Bacia Tocantins-Araguaia (rios Tocantins e Araguaia);
  • Bacia Atlântico Nordeste Ocidental (rios Parnaíba e Itapecuru);
  • Bacia do São Francisco (rios das Velhas, Paracatu, Urucuia, entre outros);
  • Bacia Atlântico Leste (rios Pardo e Jequitinhonha);
  • Bacia Paraná/Paraguai (rios Paranaíba, Grande, Cuiabá, entre outros).

Essas conexões demonstram a amplitude da influência do Cerrado na organização da rede hidrográfica brasileira.

Contribuição hídrica e relevância nacional

A contribuição do Cerrado para a produção hídrica é significativa em várias regiões hidrográficas, com destaque para o Paraguai (135,75%), Parnaíba (105,8%), São Francisco (93,8%) e Araguaia-Tocantins (61,6%) (LIMA; SILVA, 2008a).

Esses dados reforçam a importância estratégica do Cerrado como regulador hídrico do território brasileiro, evidenciando que sua preservação é essencial para a manutenção dos recursos hídricos, do equilíbrio ambiental e da segurança hídrica nacional.

Contribuição hídrica superficial do Cerrado por região
hidrográfica do território brasileiro (2005)
Tabela 1
Contribuição hídrica superficial do Cerrado por região hidrográfica do território brasileiro (2005)
Lima e Silva (2008b).

A precipitação no Cerrado e sua variabilidade espacial e temporal

A precipitação média mensal na região do Cerrado apresenta, segundo Coutinho (2002), uma forte estacionalidade, concentrando-se principalmente na primavera e no verão, entre os meses de outubro e março. Esse período é conhecido como estação chuvosa, no qual, apesar do elevado volume de chuvas, podem ocorrer os chamados “veranicos”, caracterizados por curtos intervalos de estiagem.

No período de maio a setembro, observa-se uma significativa redução dos índices pluviométricos, configurando a estação seca, que pode durar de três a cinco meses.

Em relação à precipitação média anual, os dados climáticos indicam variações expressivas ao longo do território do Cerrado. Na porção leste, os índices variam entre 770 mm e 1.682 mm, enquanto na direção oeste podem ultrapassar 2.100 mm. Essa diferença evidencia uma variação espacial importante na distribuição das chuvas.

Essa variabilidade ocorre, em grande parte, devido à influência da região Amazônica, que interfere na dinâmica atmosférica e no regime de chuvas do Cerrado (FARIAS; LUIZ; FERREIRA JÚNIOR, 2015).

Dessa forma, torna-se evidente que o Cerrado não pode ser tratado como uma área hidrologicamente homogênea, uma vez que apresenta diferenças significativas em seus padrões de precipitação. Isso reforça a necessidade de análises regionais mais detalhadas, especialmente quando se utilizam índices hidrológicos médios para compreensão do bioma (LIMA; SILVA, 2008b).

Precipitação média anual
do Cerrado (1977-2006)
Figura 2
Precipitação média anual do Cerrado (1977-2006)
Organização dos autores (2017).

O relevo do Cerrado e sua importância para a dinâmica hídrica

O relevo da região do Cerrado caracteriza-se, de modo geral, por uma topografia plana ou suavemente ondulada, em razão da presença predominante de planaltos, chapadas e tabuleiros (Figura 3). Essas formas de relevo, juntas, representam cerca de 45,11% da área total do bioma (IBGE; EMBRAPA, 2008).

Essa configuração geomorfológica, associada às elevadas altitudes em determinadas áreas, favorece a infiltração da água no solo em detrimento do escoamento superficial. Como resultado, o Cerrado apresenta condições altamente favoráveis à recarga de aquíferos, desempenhando um papel essencial na manutenção das zonas de recarga hídrica e no equilíbrio do ciclo hidrológico.

Compartimentos de relevo do Cerrado
(2006)
Figura 3
Compartimentos de relevo do Cerrado (2006)
Organização dos autores (2017).

Os solos do Cerrado e sua contribuição para a recarga hídrica

Outra condição físico-natural que favorece a infiltração da água precipitada e, consequentemente, a recarga hídrica no Cerrado, está relacionada aos solos predominantes na região. Os Latossolos, amplamente distribuídos nesse bioma (Figura 4), apresentam características que facilitam a permeabilidade da água.

Mesmo quando possuem textura muito argilosa, esses solos apresentam elevado espaço poroso devido à sua estrutura granular. Esses agregados, por vezes comparados a “grãos de pó de café” por sua semelhança com a areia, conferem aos solos alta porosidade e permeabilidade (LEPSCH, 2010).

Essa característica favorece a infiltração da água no perfil do solo, contribuindo diretamente para a recarga dos aquíferos e para a manutenção do equilíbrio hidrológico do Cerrado.

Solos do Cerrado (2006)
Figura 4
Solos do Cerrado (2006)
Organização dos autores (2017).

Vegetação, solos e geologia do Cerrado na dinâmica da infiltração hídrica

Silva (2009) destaca que as características dos Latossolos predominantes em áreas de topografia plana ou suavemente ondulada fazem com que esses solos atuem como verdadeiras “esponjas” naturais, absorvendo a água da chuva e contribuindo para a alimentação do nível freático. Além disso, o autor ressalta que a fisiologia e a ecologia da vegetação do Cerrado também desempenham papel importante na disponibilidade hídrica do ambiente.

A baixa produção de biomassa, associada à presença de cascas espessas e folhas coriáceas, contribui para uma menor transpiração das plantas, ao mesmo tempo em que favorece a retenção e o equilíbrio hídrico no ecossistema.

Nesse contexto, a cobertura vegetal exerce função essencial na infiltração da água no solo. De acordo com Morais (2012), a vegetação protege os horizontes superficiais do impacto direto das gotas de chuva, reduzindo processos de compactação e encrostamento. Além disso, aumenta a macroporosidade do solo, favorecendo a infiltração e a recarga hídrica, ao mesmo tempo em que contribui para uma drenagem mais eficiente.

Outro aspecto relevante é o sistema radicular profundo da vegetação do Cerrado. Segundo Coutinho (2002), muitas espécies apresentam raízes pivotantes que podem ultrapassar 15 metros de profundidade, permitindo o acesso à água em camadas permanentemente úmidas do solo, inclusive durante o período de seca. Esse sistema radicular também contribui para a manutenção da porosidade do solo e para o aumento da infiltração da água.

No que se refere à geologia, observa-se que as rochas sedimentares predominam em aproximadamente 57,97% da área do Cerrado (Figura 5). Essas formações geológicas, por apresentarem porosidade granular, são altamente permeáveis e possuem grande capacidade de armazenamento de água, sendo classificadas como de elevada vocação aquífera (CARNEIRO; CAMPOS, 2002).

Essas rochas, frequentemente associadas a bacias sedimentares e áreas de deposição de sedimentos arenosos, dão origem a importantes aquíferos porosos, fundamentais para a manutenção dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos do Cerrado.

Geologia simplificada do Cerrado (2015)
Figura 5
Geologia simplificada do Cerrado (2015)
Organização dos autores (2017).

O predomínio das bacias sedimentares e a riqueza hídrica do Cerrado

O predomínio de bacias sedimentares no Cerrado (Figura 6), que corresponde a 43,89% da área total, também contribui para explicar a elevada riqueza hídrica desse bioma. Isso ocorre porque a porosidade desses aquíferos favorece a circulação e o armazenamento de água subterrânea.

Essa dinâmica permite a descarga gradual do recurso hídrico subterrâneo em cursos d’água superficiais, processo conhecido como fluxo de base. Esse mecanismo é fundamental para a manutenção das vazões dos rios, garantindo a presença de água mesmo durante o período de seca (CARNEIRO; CAMPOS, 2002).

Domínios hidrogeológicos do Cerrado
(2014)
Figura 6
Domínios hidrogeológicos do Cerrado (2014)
Organização dos autores (2017).

Aquíferos do Cerrado e a dinâmica das águas subterrâneas

Destarte, encontram-se no domínio do Cerrado três grandes aquíferos: Guarani, Bambuí e Urucuia. O volume de água armazenado no Aquífero Guarani, por exemplo, segundo Carneiro e Campos (2002), é estimado em cerca de 50.000 km³, com volume aproveitável da ordem de 40 km³/ano.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA, 2007, p. 11), “as águas subterrâneas são aquelas que se encontram sob a superfície da Terra, preenchendo os espaços vazios existentes entre os grãos do solo, rochas e fissuras (rachaduras, quebras, descontinuidades e espaços vazios)”.

A Figura 7 representa a trajetória da água no subsolo, desde a superfície até as camadas mais profundas. Nesse percurso, a água atravessa a zona não saturada, onde coexistem água e ar nos espaços do solo, até atingir a zona saturada, na qual os poros e fissuras estão completamente preenchidos por água. Segundo o MMA (2007), o limite entre essas duas zonas é denominado nível freático.

Caracterização das zonas
saturadas e não saturadas no subsolo
Figura 7
Caracterização das zonas saturadas e não saturadas no subsolo
http://www.mma.gov.br/agua/recursos-hidricos/aguas-subterraneas/ciclo-hidrologico. 2007.

Recursos hídricos do Cerrado e suas múltiplas formas de uso

Ainda segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA, 2007), as rochas saturadas permitem a circulação, o armazenamento e a extração de água, processo que dá origem aos aquíferos, responsáveis por armazenar grandes volumes de água subterrânea.

Sobre a contribuição dos recursos hídricos do Cerrado, Lima (2011) destaca que sua importância ultrapassa os limites da própria região de vegetação típica, abrangendo diferentes usos como abastecimento humano, atividades industriais, irrigação agrícola, navegação, recreação e turismo. Soma-se a isso o papel relevante das águas do Cerrado na geração de energia elétrica no Brasil.

Entre as principais finalidades de uso da água nesse domínio, destaca-se a irrigação, conforme apresentado no Quadro 1 a seguir.

Quadro 1
Consumo das águas do Cerrado
CONSUMO DE ÁGUASQUANTIDADE
Irrigação69%
Abastecimento urbano11%
Uso na produção animal11%
Uso nas Indústrias7%
Abastecimento rural2%
Lima, Jorge Enoch Furquim Werneck (2011). Adaptação autores, (2017).

Recursos hídricos, irrigação e impactos ambientais no Cerrado

Ao mesmo tempo em que a irrigação se consolida como o principal uso das águas do Cerrado, observa-se que ela também se torna um dos principais desafios ambientais da atualidade. Quando realizada de forma descontrolada e sem manejo adequado, essa prática contribui para uma série de impactos negativos, como erosões, assoreamento dos cursos d’água e outras formas de degradação ambiental.

Recursos hídricos e impactos ambientais

O Conselho Nacional do Meio Ambiente define impacto ambiental como qualquer alteração das propriedades físicas, químicas ou biológicas do meio ambiente, resultante de atividades humanas que afetam direta ou indiretamente a saúde, a segurança e o bem-estar da população, as atividades sociais e econômicas, a biota, as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente e a qualidade dos recursos ambientais (OLIVEIRA FILHO; LIMA, 2002).

Segundo os mesmos autores, os impactos das atividades agrícolas sobre os recursos hídricos podem ser avaliados por meio da análise da qualidade da água. Embora essa qualidade possa ser influenciada por diversas fontes, a agricultura possui atividades específicas que podem alterar significativamente os corpos hídricos.

A avaliação da qualidade da água pode ser realizada por critérios numéricos e qualitativos. Entre eles destacam-se:

a) Índice de Qualidade das Águas (IQA)
Baseia-se em nove parâmetros: temperatura, pH, oxigênio dissolvido (OD), demanda bioquímica de oxigênio (DBO5), coliformes fecais, nitrogênio total, fósforo total, sólidos totais e turbidez. Esses parâmetros são ponderados e resultam em um índice entre 1 e 100, que classifica a qualidade da água.

b) Resolução CONAMA 20
Estabelece padrões para parâmetros físico-químicos e biológicos, além de limites para substâncias químicas potencialmente perigosas, incluindo metais pesados e agrotóxicos.

c) Portaria 1.469/2000
Define padrões de qualidade da água para consumo humano, estabelecendo Valores Máximos Permitidos (VMP) para substâncias físico-químicas, biológicas e químicas, incluindo compostos orgânicos, inorgânicos e agrotóxicos.

Agricultura e uso da água no Cerrado

O Cerrado brasileiro é considerado estrategicamente importante para a expansão da produção de alimentos. De acordo com Campos Filho (2010), a agricultura é atualmente a atividade que mais consome água nas regiões do Cerrado.

Esse cenário transforma o bioma em alvo de disputas por grandes empresas do setor agrícola, especialmente devido à sua expressiva disponibilidade hídrica e às condições climáticas relativamente estáveis, quando comparadas a outras regiões do país. Soma-se a isso a expansão do setor sucroalcooleiro, com implantação e planejamento de diversas usinas, o que reforça a necessidade de estudos sobre os impactos da mudança no uso do solo sobre a qualidade e a disponibilidade da água (CAMPOS FILHO, 2010).

Estima-se que o Cerrado possua cerca de 10 milhões de hectares com potencial para irrigação, dos quais menos de 1 milhão são efetivamente utilizados. Isso indica grande possibilidade de expansão dessa prática, condicionada a fatores como infraestrutura, mercado e financiamento.

No entanto, a gestão inadequada dos recursos hídricos e a ausência de técnicas apropriadas de manejo da irrigação têm intensificado conflitos pelo uso da água. Esse cenário reflete um processo histórico de ocupação desigual do território e resulta, em algumas regiões, na concentração de sistemas de irrigação, como os pivôs centrais, conforme ilustrado na Figura 8.

Pivôs-centrais
instalados em área de Cerrado em 2002
Figura 8
Pivôs-centrais instalados em área de Cerrado em 2002
LIMA, Jorge Enoch Furquim Werneck (2011).

Muitos técnicos consideram que o principal fator gerador de conflitos relacionados ao uso da água e aos impactos ambientais no Cerrado seja o elevado número de pivôs centrais instalados na região, uma vez que esses sistemas representam cerca de 50% da área irrigada. No entanto, para uma análise mais aprofundada desses conflitos, é fundamental considerar não apenas a presença dos pivôs, mas toda a área irrigada e, sobretudo, a existência ou não de um manejo adequado da irrigação (LIMA; SILVA, 2008b).

De acordo com Lima (2011), a área total irrigada por pivô central em toda a região contínua do Cerrado corresponde a 478.632 hectares, conforme apresentado na Tabela 2.

Número de pivôs-centrais e
respectiva área irrigada em 2002 na região contínua de Cerrado, por unidade
federativa
Tabela 2
Número de pivôs-centrais e respectiva área irrigada em 2002 na região contínua de Cerrado, por unidade federativa
Lima, Jorge Enoch Furquim Werneck (2011).

Conservação do Cerrado e o papel da educação geográfica

O “efeito guarda-chuva” representa a ocorrência de nascentes localizadas em áreas de maior altitude no território nacional, que alimentam cursos d’água de diferentes regiões hidrográficas e contribuem para a formação da rede hídrica local e regional. Nesse contexto, o Cerrado é considerado área de origem das grandes bacias hidrográficas brasileiras e sul-americanas, em razão de sua contribuição hídrica superficial e subterrânea (LIMA; SILVA, 2008a).

Ao se adotar as denominações “berço das águas” ou “guarda-chuva” para o Cerrado, destacam-se três elementos fundamentais: água, altitude e infiltração. Essa relação se explica a partir do ciclo hidrológico, que descreve a circulação da água na natureza em seus diferentes estados físicos. Esse ciclo envolve processos como evaporação, condensação, precipitação, infiltração, escoamento, transpiração e evapotranspiração. Entre eles, a infiltração é especialmente relevante, pois permite que a água da chuva penetre no solo, abasteça os aquíferos e contribua para o fluxo de base dos rios.

As taxas de infiltração variam conforme fatores como intensidade das chuvas, tipo de solo, relevo, porosidade e cobertura vegetal. No Cerrado, a localização no Planalto Central e suas características físico-naturais favorecem significativamente a recarga hídrica. Segundo Lima e Silva (2005), desconsiderando a bacia Amazônica, o Cerrado responde por cerca de 43% da produção hídrica do território brasileiro.

Bacias hidrográficas e contribuição do Cerrado

O Cerrado contribui para oito grandes bacias hidrográficas brasileiras: Amazônica, Tocantins-Araguaia, Parnaíba, São Francisco, Atlântico Nordeste Ocidental, Atlântico Leste, Paraná e Paraguai. Dessas, seis possuem nascentes em seu território, evidenciando sua importância estratégica na organização da rede hidrográfica nacional.

Além disso, sua contribuição hídrica é expressiva em diversas regiões, como Paraguai (135,75%), Parnaíba (105,8%), São Francisco (93,8%) e Araguaia-Tocantins (61,6%) (LIMA; SILVA, 2008a).

Precipitação e variabilidade climática

A precipitação no Cerrado apresenta forte sazonalidade, concentrando-se entre outubro e março (estação chuvosa), podendo ocorrer veranicos. De maio a setembro, instala-se a estação seca, com duração média de três a cinco meses. A distribuição das chuvas varia regionalmente, com índices entre 770 mm e mais de 2.100 mm anuais, influenciados pela interação com a região Amazônica.

Essa heterogeneidade demonstra que o Cerrado não pode ser tratado como um sistema hidrológico uniforme, exigindo análises regionais mais detalhadas.

Relevo, solos e geologia

O relevo predominantemente plano ou suavemente ondulado favorece a infiltração da água, reduzindo o escoamento superficial e ampliando a recarga de aquíferos. Os Latossolos, por sua estrutura granular e alta porosidade, funcionam como verdadeiras “esponjas” naturais, facilitando o armazenamento e a circulação da água no subsolo.

As rochas sedimentares, que ocupam cerca de 57,97% do bioma, apresentam elevada porosidade e permeabilidade, sendo fundamentais na formação de aquíferos importantes. Além disso, o predomínio de bacias sedimentares (43,89%) reforça a capacidade de armazenamento e liberação gradual da água subterrânea, garantindo o fluxo dos rios mesmo na estação seca.

Vegetação e dinâmica hídrica

A vegetação do Cerrado também exerce papel essencial na infiltração da água. Suas raízes profundas favorecem a recarga hídrica e a manutenção da umidade do solo. A cobertura vegetal protege o solo contra o impacto da chuva, reduz a compactação e aumenta a macroporosidade. Assim, contribui diretamente para a infiltração e conservação da água.

Aquíferos e águas subterrâneas

O Cerrado abriga importantes aquíferos, como o Guarani, Bambuí e Urucuia. As águas subterrâneas circulam e são armazenadas nos espaços entre grãos de solo e rochas, sendo fundamentais para o abastecimento de rios e manutenção dos ecossistemas.

Uso da água e impactos ambientais

Os recursos hídricos do Cerrado são amplamente utilizados para abastecimento, irrigação, indústria, geração de energia, turismo e navegação. A irrigação, embora essencial, também representa um dos principais fatores de pressão sobre os recursos hídricos quando realizada sem manejo adequado, podendo gerar erosão, assoreamento e conflitos pelo uso da água.

Impacto ambiental, segundo o CONAMA, envolve qualquer alteração das propriedades do meio ambiente que afete a saúde, o equilíbrio ecológico e a qualidade dos recursos naturais.

A agricultura é atualmente o maior consumidor de água no Cerrado, o que intensifica disputas entre setores produtivos, especialmente agricultura, energia e abastecimento urbano.

Gestão e desafios

Entre os principais desafios para a gestão dos recursos hídricos no Cerrado estão:

  • integração de legislações estaduais;
  • fortalecimento dos sistemas de gestão;
  • ampliação do saneamento básico;
  • implantação de redes de monitoramento hidrológico;
  • transferência de tecnologia para o uso racional da água;
  • avanço na pesquisa sobre processos hidrológicos;
  • inclusão da temática hídrica na educação básica.

Educação e conservação

A conservação do Cerrado depende diretamente da construção de conhecimento e do fortalecimento do sentimento de pertencimento. A educação geográfica desempenha papel central nesse processo, ao integrar aspectos naturais e sociais e promover uma visão crítica e sistêmica do espaço.

A formação cidadã exige superar visões fragmentadas do Cerrado e compreender suas múltiplas dimensões ambientais, econômicas, sociais e culturais de modo integrado.

Considerações finais

O Cerrado é um bioma estratégico para o Brasil e para a América do Sul, essencial na regulação hídrica, no ciclo do carbono e na manutenção da biodiversidade. Sua preservação é fundamental para garantir a segurança hídrica e o equilíbrio ambiental.

A educação, especialmente a educação geográfica, surge como instrumento essencial para transformar a relação da sociedade com o Cerrado, promovendo consciência, pertencimento e responsabilidade ambiental.

Renata Bravo

Educadora, escritora e pesquisadora em Formação Humana, Arte e Legado Cultural.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Cerrado: a “caixa d’água do Brasil” e sua importância para a vida e o equilíbrio hídrico

O Cerrado é conhecido como a “caixa d’água do Brasil” porque desempenha um papel fundamental na produção, armazenamento e distribuição de água em grande parte do território nacional.

Isso ocorre porque o bioma possui grande quantidade de águas subterrâneas e inúmeras nascentes de rios importantes. Sua localização central no país, associada ao relevo predominantemente plano, aos solos altamente porosos e à distribuição sazonal das chuvas, favorece a infiltração da água da chuva no solo e a recarga dos aquíferos.

Além disso, o Cerrado está situado sobre importantes divisores de águas do Brasil, sendo a origem de rios que alimentam grandes bacias hidrográficas, como a Amazônica, a do São Francisco e a do Paraná (Bacia Platina), contribuindo também para sistemas hídricos de outros países da América do Sul.

O bioma também abriga parte do Aquífero Guarani, considerado um dos maiores reservatórios de água doce subterrânea do mundo, o que reforça ainda mais sua importância estratégica para a segurança hídrica.

Apesar de toda essa relevância ambiental, o Cerrado vem sofrendo intensa degradação ao longo das últimas décadas, tendo grande parte de sua vegetação original já modificada ou substituída por atividades agropecuárias e outros usos do solo.

Renata Bravo

Educadora, escritora e pesquisadora em Formação Humana, Arte e Legado Cultural.


sábado, 9 de maio de 2026

Os sons do Cerrado: a comunicação das aves e a vida na biodiversidade do bioma

As aves do Cerrado, como campainha-azul, bandoleta, patativa, suiriri-da-chapada, pássaro-preto, patativa-chorona, peixe-frito, saci, trinca-ferro batuqueiro, arredio-do-rio, meia-lua-do-cerrado, limpa-folha-do-buriti, bico-de-brasa, chora-chuva-preto, seriema e canário-do-mato, utilizam a comunicação sonora como uma estratégia essencial de sobrevivência.

Por meio dos sons, esses animais conseguem transmitir informações importantes, como aviso de perigo, defesa de território, localização de parceiros, pedido de alimento e até sinais de alerta sobre mudanças no ambiente. Cada espécie possui um repertório próprio de vocalizações, o que permite o reconhecimento entre indivíduos da mesma espécie e a organização dentro do ecossistema.

O Cerrado é um dos biomas mais biodiversos do mundo, abrigando mais de 6 mil espécies de árvores e cerca de 800 espécies de aves, além de uma grande variedade de mamíferos e outros animais.

Entre os mamíferos e outros animais característicos desse bioma, destacam-se o lobo-guará, a onça-pintada, o tatu-canastra, o veado-mateiro, a raposa-do-campo, o gato-do-mato, o macaco-prego, o tamanduá-bandeira, a lontra e o catitu, todos adaptados às condições específicas desse ambiente.

Renata Bravo

Educadora, escritora e pesquisadora em Formação Humana, Arte e Legado Cultural.


Patativa-chorona


quinta-feira, 7 de maio de 2026

O desafio invisível e a construção do pensamento

Na Pedagogia da Presença e do Legado, aprender não significa apenas encontrar respostas rápidas. Aprender envolve desenvolver a capacidade de investigar, sustentar dúvidas, observar padrões e construir caminhos próprios de compreensão.

Os quebra-cabeças matemáticos revelam muito sobre esse processo humano de pensar.

O sudoku, por exemplo, tornou-se conhecido no mundo inteiro justamente porque exige algo que vai além da memorização: exige raciocínio lógico, percepção de relações e persistência diante da complexidade.

Durante muitos anos, estudiosos investigaram quantas pistas mínimas seriam necessárias para que um sudoku tivesse solução única. Entre 2011 e 2012, Gary McGuire utilizou milhões de horas de supercomputação para demonstrar matematicamente que um sudoku válido precisaria de pelo menos 17 dicas iniciais.

Essa investigação mostra algo muito importante sobre o conhecimento humano: pensar profundamente exige tempo, observação e investigação contínua.

Mas existe uma experiência ainda mais interessante dentro desse universo: os chamados “sudokus desnudos”, quebra-cabeças construídos sem nenhuma dica numérica inicial.

À primeira vista, isso parece impossível. Como resolver algo sem receber respostas prontas?

E talvez justamente aí esteja uma das aprendizagens mais importantes.

Na Pedagogia da Presença e do Legado, acredita-se que a ausência de respostas imediatas também educa. Quando a criança não encontra tudo pronto, ela é convidada a desenvolver autonomia intelectual, criatividade e capacidade investigativa.

Nos sudokus desnudos, a própria estrutura do desafio oferece pistas. Em algumas versões, como o sudoku-produto, pequenas informações matemáticas relacionadas ao produto dos números substituem as dicas tradicionais.

Isso faz com que o pensamento matemático deixe de ser apenas repetição de cálculos e passe a envolver análise de padrões, divisibilidade, relações espaciais e formulação de hipóteses.

A criança aprende a pensar antes de responder.

Aprende também que problemas complexos nem sempre podem ser resolvidos rapidamente. Muitas vezes, é necessário observar novamente, reconsiderar escolhas, reorganizar estratégias e persistir diante das dificuldades.

Na Pedagogia da Presença e do Legado, esse tipo de experiência possui enorme valor porque fortalece não apenas habilidades cognitivas, mas também aspectos emocionais importantes para a vida.

A tolerância à frustração, a paciência, a atenção concentrada e a capacidade de continuar investigando mesmo diante da incerteza fazem parte da formação humana.

Existe ainda outro aspecto importante nesses desafios: eles mostram que a inteligência não se manifesta de uma única forma.

Algumas pessoas percebem padrões rapidamente. Outras desenvolvem estratégias diferentes. Algumas avançam pela lógica matemática; outras pela observação visual ou espacial.

Isso ensina que aprender não é reproduzir um único caminho correto, mas construir formas próprias de compreender o mundo.

Na Pedagogia da Presença e do Legado, o pensamento lógico não é tratado apenas como habilidade técnica. Ele é entendido como prática de consciência.

Porque pensar exige presença.

Exige atenção ao detalhe, capacidade de perceber relações invisíveis e coragem para permanecer diante do que ainda não foi compreendido.

Talvez seja justamente por isso que os quebra-cabeças fascinam tantas pessoas: eles nos lembram que todo conhecimento nasce de perguntas que ainda não possuem respostas prontas.

E que aprender, muitas vezes, é continuar investigando mesmo quando o caminho ainda parece incompleto.


1- Sudoku-produto: matemática, lógica e percepção de padrões

O sudoku-produto é uma variação do sudoku tradicional que acrescenta novas camadas de raciocínio lógico e percepção matemática.

As regras básicas continuam as mesmas: os números de 1 a 9 não podem se repetir em nenhuma linha, coluna ou bloco 3x3 da grade.

No entanto, o sudoku-produto adiciona um novo desafio.

Além das linhas e blocos tradicionais, existem regiões coloridas dentro da grade. Nessas regiões, também não podem existir números repetidos. E há ainda uma informação extra: um pequeno número aparece no topo de cada região indicando qual deve ser o produto final da multiplicação dos números que ocupam aquele espaço.

Isso significa que o jogador não trabalha apenas com posicionamento lógico dos números, mas também com multiplicação, fatores e divisibilidade.

Por exemplo, se uma determinada região possui o número 35 no topo, isso indica que os números colocados ali devem resultar em 35 quando multiplicados entre si. Assim, o jogador começa a pensar nas possíveis combinações que formam aquele resultado.

Esse tipo de estrutura faz com que o quebra-cabeça possa ser resolvido mesmo sem pistas numéricas iniciais tradicionais.

A lógica passa a surgir das próprias relações matemáticas existentes dentro da grade.

Os números 5 e 7 costumam ser mais fáceis de localizar no início porque possuem menos combinações possíveis de fatores em comparação com outros números. Isso ajuda o jogador a reduzir possibilidades e construir estratégias de resolução.

Ao utilizar fatores de divisibilidade, o pensamento matemático deixa de ser apenas cálculo mecânico e passa a envolver investigação, antecipação de possibilidades e análise de padrões.

O sudoku-produto estimula atenção concentrada, raciocínio lógico, percepção espacial e capacidade de formular hipóteses.

Mais do que encontrar respostas, o desafio convida o jogador a compreender relações invisíveis entre os números.

E talvez essa seja uma das partes mais interessantes desse quebra-cabeça: perceber que a solução não aparece pronta, mas vai sendo construída pouco a pouco através da observação e da lógica.

No Quebra-cabeça 2: Sudoku-maior-que, as regras básicas do Sudoku continuam as mesmas: cada linha, coluna e bloco deve conter os números de 1 a 9 sem repetição.

A diferença está em uma informação extra entre algumas células vizinhas. Em vez de apenas deduzir os números, você também usa sinais que indicam relação de valor entre elas:

  • O símbolo de “maior que” ( > ) mostra que uma célula tem valor maior que a sua vizinha.
  • Já os símbolos em forma de triângulo indicam uma diferença mais forte, ou seja, um número é mais de uma unidade maior que o outro.

Essas pistas funcionam como “pistas de comparação”, ajudando a restringir possibilidades e a organizar os números com mais precisão.

Uma boa estratégia inicial é observar as cores (células rosas e azuis, quando presentes no diagrama), pois elas podem ajudar a identificar rapidamente posições prováveis de 1s e 9s. A partir disso, o raciocínio se expande naturalmente para os 2s e 8s, depois para os demais números, sempre usando as comparações como guia lógico.

Esse tipo de Sudoku exige não só atenção às regras tradicionais, mas também um olhar atento às relações de ordem entre os números.

No Quebra-cabeça 3: Sudoku-divisão, as regras tradicionais do Sudoku também se mantêm: cada linha, coluna e bloco deve conter os números de 1 a 9 sem repetição.

Aqui, porém, surgem dois tipos de relações adicionais entre células vizinhas:

  • O símbolo A ⊂ B indica uma relação de divisão, ou seja, A divide B exatamente (B é múltiplo de A).
  • Em algumas posições, aparece também o símbolo de “maior que” ( > ), indicando apenas comparação direta de valor entre duas células.

Esse quebra-cabeça combina, portanto, lógica de ordem (maior/menor) com lógica de divisibilidade (múltiplos e divisores), exigindo que o jogador pense tanto em tamanho quanto em fatores numéricos.

Pergunta bônus: por que sempre é necessário pelo menos um sinal “maior que”?

Porque a relação de divisão sozinha não define uma ordem completa entre todos os números. Ela apenas diz quem é múltiplo de quem, mas não garante qual célula é maior em todos os casos nem cria uma hierarquia global suficiente para resolver o Sudoku de forma única.

Assim, o sinal “maior que” é indispensável para estabelecer comparação direta de grandeza, garantindo coerência e evitando ambiguidades na solução.


A seguir, apresentamos a solução do Sudoku-produto proposto.


A seguir, apresentamos a solução do Sudoku-maior-que proposto.


A seguir, apresentamos a solução do Sudoku-divisão proposto.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

O erro como transformação e amadurecimento

Na Pedagogia da Presença e do Legado, o erro não é compreendido como fracasso definitivo, mas como parte natural dos processos de transformação humana.

Vivemos em uma cultura que frequentemente associa erro à incapacidade, punição ou inadequação. Desde cedo, muitas crianças aprendem a ter medo de errar, como se o valor de uma pessoa dependesse da ausência de falhas.

No entanto, a própria natureza mostra outro caminho.

Quando o leite passa por transformações, ele não perde valor. Se o leite muda, pode se tornar iogurte. E o iogurte, por sua vez, pode se transformar em queijo. Cada etapa representa um novo processo, uma nova forma de existência e, muitas vezes, um valor ainda maior do que o estado inicial.

O mesmo acontece com a uva. Quando o suco muda, amadurece e atravessa processos de transformação, ele não necessariamente se deteriora. Muitas vezes, torna-se algo ainda mais complexo e valioso.

A vida humana também funciona assim.

Os erros, as mudanças inesperadas, as tentativas frustradas e os caminhos interrompidos frequentemente se tornam experiências que ampliam consciência, maturidade e compreensão sobre o mundo.

Na Pedagogia da Presença e do Legado, errar não significa perder valor. Significa entrar em processo.

Por isso, o educador não deve tratar o erro apenas como algo a ser corrigido rapidamente, mas também como oportunidade de investigação, crescimento e desenvolvimento da autonomia.

Quando a criança erra, ela revela hipóteses, formas de pensar, estratégias e maneiras de compreender a realidade. O erro oferece pistas importantes sobre o processo de aprendizagem.

Do ponto de vista pedagógico, isso transforma completamente o olhar sobre avaliação e desenvolvimento humano. Em vez de perguntar apenas “acertou ou errou?”, passamos a perguntar: “o que essa experiência está ensinando?”

Grandes descobertas da humanidade nasceram justamente de erros, desvios ou acontecimentos inesperados. Cristóvão Colombo buscava outro caminho quando chegou à América. Alexander Fleming observou um fenômeno acidental que contribuiu para a descoberta da penicilina.

Esses exemplos mostram que o conhecimento humano nem sempre avança por trajetos perfeitamente planejados. Muitas vezes, ele cresce através da capacidade de observar, reinterpretar e aprender com aquilo que inicialmente parecia inadequado.

Na infância, isso é ainda mais importante.

Uma criança que cresce com medo constante de errar tende a reduzir criatividade, iniciativa e coragem para experimentar. Já uma criança que compreende o erro como parte da aprendizagem desenvolve mais autonomia, persistência e confiança para continuar tentando.

Isso não significa valorizar descuido ou ausência de responsabilidade. Significa compreender que amadurecimento humano não acontece sem tentativa, adaptação e transformação.

Na Pedagogia da Presença e do Legado, a prática não busca perfeição imediata. Busca consciência.

Porque não é apenas a repetição que forma alguém. É a capacidade de perceber, refletir, reorganizar e continuar caminhando.

Os erros não precisam interromper o percurso. Muitas vezes, são eles que aprofundam a aprendizagem.

Grandes passos quase nunca acontecem sem tropeços anteriores.

Por isso, educar também é ensinar coragem.

Coragem para experimentar. Coragem para tentar novamente. Coragem para compreender que transformação faz parte da vida.

E talvez uma das aprendizagens mais importantes seja justamente esta: aquilo que atravessa processos profundos pode se tornar mais forte, mais consciente e mais valioso do que era no início.

Renata Bravo

Educadora, escritora e pesquisadora em Formação Humana, Arte e Legado Cultural.


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