*BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL DESDE 2013*

Pesquisa, conceito e autoria: Renata Bravo / Contato: renatarjbravo@gmail.com

Inspirada em Heidegger, a Brincadeira Sustentável não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser vivida, elaborada e incorporada.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Chaplin e a florista

Chaplin e a Florista: quando a cidade se ilumina para quem aprende a enxergar

Vivenciar, sentir ou compreender aquilo que uma pessoa com deficiência visual experimenta todos os dias não é tão simples quanto parece. Como representar a experiência de alguém que pode perceber a beleza de um pôr do sol, o movimento de uma borboleta ou as cores de uma cidade e, em determinado momento, passar a perceber o mundo de outra maneira?

É justamente por isso que o cinema pode ser uma poderosa ferramenta de reflexão. Uma história pode nos colocar diante de uma realidade que não é a nossa e nos convidar a olhar para o outro com mais atenção, respeito e empatia.

Foi nesse contexto que Charles Chaplin criou uma de suas obras mais marcantes. Em um período em que o cinema sonoro já começava a dominar as telas, Chaplin decidiu realizar Luzes da Cidade, lançado em 1931, mantendo a estrutura do cinema mudo, mas utilizando a linguagem cinematográfica para construir uma história que mistura humor, romance, crítica social e sensibilidade.

Considerado uma das grandes obras de Chaplin, o filme apresenta o Vagabundo, personagem interpretado pelo próprio diretor, e seu encontro com uma jovem florista cega, interpretada por Virginia Cherrill. A partir desse encontro, nasce uma história que fala de afeto, dignidade, pobreza, desigualdade, aparência e solidariedade.

O encontro com a florista

A história começa quando o Vagabundo conhece a florista nas ruas da cidade. Ela vende flores para sobreviver e, por ser cega, acredita inicialmente que ele seja um homem rico. O engano nasce de uma situação simples, mas conduz toda a narrativa.

O Vagabundo, por sua vez, apaixona-se por ela e passa a buscar maneiras de ajudá-la. Embora tenha muito pouco, tenta conseguir dinheiro para que a jovem possa melhorar sua condição de vida.

Uma das cenas mais marcantes é justamente o primeiro encontro entre os dois. Sem diálogos falados, Chaplin utiliza gestos, expressões, movimentos e pausas para construir uma comunicação extremamente delicada. O espectador é convidado a preencher o silêncio com sua própria imaginação.

A cena demonstra uma das grandes forças do cinema de Chaplin: quando as palavras desaparecem, outros modos de comunicação ganham importância. Um olhar, um gesto, uma expressão ou um movimento podem dizer aquilo que muitas palavras não conseguem explicar.

Uma florista que não é definida pela deficiência

A personagem da florista merece uma atenção especial. Ela é uma mulher com deficiência visual, mas sua identidade não se resume à cegueira.

Ela trabalha, vende flores, toma decisões, reconhece seus clientes e procura encontrar caminhos para enfrentar as dificuldades da vida. Sua condição modifica sua relação com o ambiente, mas não elimina seus desejos, sua inteligência, sua capacidade de trabalhar ou sua vontade de construir uma vida melhor.

Essa representação é particularmente importante quando observamos o contexto social em que o filme foi produzido. Pessoas com deficiência eram frequentemente submetidas a preconceitos e vistas a partir de suas limitações, em vez de serem reconhecidas por suas capacidades e direitos.

O filme, portanto, permite uma reflexão sobre como a sociedade olha para a deficiência. A questão não está apenas na condição individual, mas também nas barreiras sociais, econômicas e culturais que podem limitar a participação das pessoas.

Quando a aparência engana

Outro personagem importante para compreender a crítica social do filme é o milionário que aparece na vida do Vagabundo. Quando está bêbado, ele se mostra generoso e considera o Vagabundo seu amigo. Quando está sóbrio, porém, não o reconhece.

A situação cria momentos de humor, mas também revela uma crítica à sociedade e às relações baseadas em aparência, dinheiro e posição social.

O Vagabundo possui poucos recursos, mas demonstra solidariedade. O milionário possui dinheiro, mas sua generosidade aparece de maneira instável. Chaplin utiliza essa contradição para questionar aquilo que a sociedade costuma associar ao sucesso, à riqueza e ao valor de uma pessoa.

No filme, quem possui menos pode demonstrar mais sensibilidade diante da necessidade do outro.

A deficiência visual e o acesso aos recursos

A história também pode abrir uma discussão sobre a relação entre deficiência visual, desigualdade social e acesso à saúde.

As condições econômicas podem influenciar o acesso à prevenção, ao diagnóstico, ao tratamento e aos recursos necessários para uma vida com maior autonomia. Por isso, falar sobre deficiência visual também significa falar sobre direitos, acessibilidade e oportunidades.

É importante, entretanto, evitar a ideia de que a deficiência visual seja simplesmente consequência da pobreza. Existem diferentes causas e condições associadas à perda de visão. O que a desigualdade pode fazer é aumentar as barreiras para prevenção e tratamento e dificultar o acesso aos recursos que poderiam favorecer a saúde visual e a autonomia.

Essa discussão permite levar o filme para além da narrativa e aproximá-lo de uma questão contemporânea: uma sociedade inclusiva não deve apenas reconhecer as diferenças, mas também criar condições para que todas as pessoas possam participar plenamente da vida social.

Muitas luzes

O próprio título do filme carrega uma dimensão simbólica muito bonita.

Luzes da Cidade apresenta uma metrópole movimentada, iluminada e cheia de possibilidades. Mas, para a florista, aquela mesma cidade é experimentada de outra maneira.

A cidade pode representar simultaneamente luz e escuridão, oportunidade e obstáculo, movimento e exclusão. Enquanto as ruas estão cheias de pessoas, sons e acontecimentos, a personagem precisa encontrar maneiras próprias de se relacionar com aquele ambiente.

É justamente nesse contraste que Chaplin constrói uma de suas maiores reflexões: uma cidade pode estar cheia de luzes e, ainda assim, ser incapaz de enxergar determinadas pessoas.

A questão, portanto, não é apenas quem pode ver, mas quem é visto.

Enxergar com outros sentidos

O encontro entre o Vagabundo e a florista também nos convida a pensar sobre os diferentes modos de perceber o mundo.

A deficiência visual não elimina a capacidade de sentir, imaginar, compreender, desejar, amar, trabalhar ou participar da sociedade. Ela modifica determinadas formas de interação com o ambiente e pode exigir outros recursos e estratégias.

Essa percepção é fundamental para uma educação verdadeiramente inclusiva. Em vez de ensinar a criança a olhar para a deficiência como falta, podemos ajudá-la a compreender a diversidade humana como parte da própria vida.

O cinema pode ser um caminho para essa aprendizagem porque permite experimentar, ainda que de maneira limitada, outras perspectivas. Ao assistir a uma história, conversar sobre os personagens e questionar seus próprios preconceitos, a criança aprende que cada pessoa possui uma maneira singular de estar no mundo.

Luzes da Cidade permanece atual justamente porque não oferece apenas uma história de amor. Chaplin constrói uma narrativa sobre dignidade, desigualdade, aparência, solidariedade e humanidade.

A florista não é apenas alguém que não pode enxergar. O Vagabundo não é apenas um homem pobre. O milionário não é apenas um homem rico. Cada personagem carrega contradições e nos ajuda a perceber que nenhuma pessoa pode ser reduzida a uma única característica.

Talvez seja essa a grande lição de Luzes da Cidade: enxergar não significa apenas perceber aquilo que está diante dos nossos olhos. Às vezes, é preciso aprender a reconhecer o outro, compreender suas diferenças e perceber sua humanidade. Porque uma cidade pode ter muitas luzes, mas é o olhar humano, aquele que acolhe e respeita, que verdadeiramente ilumina.


Chaplin e sustentabilidade

Chaplin e Sustentabilidade: quando o ser humano precisa parar para pensar

Quando falamos em sustentabilidade, é comum pensarmos imediatamente em florestas, rios, oceanos, animais, reciclagem e mudanças climáticas. Mas existe uma pergunta anterior a todas essas questões: que tipo de relação estamos construindo com o mundo em que vivemos?

O meio ambiente não está separado de nós. Somos parte dele. A palavra ecossistema vem do grego oikos, casa, e systema, sistema, remetendo ao sistema em que a vida acontece. Pensar ambientalmente, portanto, é também pensar a nossa própria casa, as relações que estabelecemos, a maneira como produzimos, consumimos e convivemos.

Os problemas socioambientais provocados pelas ações humanas são evidentes em diferentes lugares do planeta. A degradação dos ambientes naturais, a geração excessiva de resíduos, a desigualdade social, o consumo de recursos e as condições de trabalho fazem parte de uma mesma realidade. Por isso, a sustentabilidade não pode ser compreendida apenas como uma questão tecnológica ou ambiental. Ela também envolve escolhas humanas, econômicas, sociais, culturais e éticas.

É nesse ponto que Charles Chaplin continua tão atual.

Em Tempos Modernos, lançado em 1936, Chaplin apresenta, por meio do humor e da crítica social, um trabalhador submetido ao ritmo acelerado de uma fábrica. Seu corpo acompanha a velocidade das máquinas, repetindo movimentos até quase se confundir com o próprio sistema de produção.

A cena é engraçada, mas a pergunta que permanece é séria: para que serve o progresso quando o ser humano deixa de ser considerado em sua própria humanidade?

Chaplin não estava discutindo sustentabilidade com o vocabulário que utilizamos atualmente, mas sua obra permite uma leitura socioambiental extremamente contemporânea. O filme questiona uma sociedade organizada em torno da produtividade, da velocidade, do consumo e da eficiência, quando esses valores passam a ocupar um lugar maior do que a própria pessoa.

A sustentabilidade nos coloca diante de uma questão semelhante. Não basta produzir mais, consumir mais ou desenvolver novas tecnologias. É necessário perguntar para quê, para quem e a que custo.

O valor humano no mundo que construímos

Uma sociedade sustentável precisa considerar o valor da vida em suas diferentes dimensões. Isso significa cuidar dos ambientes naturais, mas também das pessoas, das relações de trabalho, das comunidades e das condições necessárias para uma existência digna.

Chaplin nos ajuda a perceber que o ser humano não pode ser reduzido a uma peça dentro de uma engrenagem. Quando isso acontece, perdemos de vista aquilo que deveria estar no centro de qualquer projeto de sociedade: a dignidade humana.

A crítica apresentada em Tempos Modernos permanece atual porque ainda convivemos com relações de produção e consumo que podem transformar pessoas e recursos naturais em simples instrumentos para alcançar resultados econômicos.

Por isso, construir sustentabilidade também significa rever nossas escolhas. O que produzimos? Quanto consumimos? O que descartamos? Quem trabalha para que aquilo que consumimos chegue até nós? Quais recursos naturais são utilizados? Quais consequências permanecem depois que o produto deixa de nos interessar?

Essas perguntas aproximam a sustentabilidade da cidadania.

A crise ambiental também é uma crise de relações

Enquanto diferentes debates científicos procuram compreender as transformações ambientais e climáticas do planeta, os problemas concretos continuam presentes no cotidiano. A qualidade da água, a produção de resíduos, a perda de biodiversidade, a poluição e as desigualdades ambientais mostram que existe uma dimensão humana incontornável nessas questões.

Por isso, independentemente das diferentes interpretações presentes no debate público, existe uma responsabilidade que não podemos transferir para a ciência, para a tecnologia, para os governos ou para o futuro: a responsabilidade pelas nossas próprias escolhas.

A ciência possui um papel fundamental para compreender os fenômenos ambientais e orientar decisões. A sociedade, por sua vez, precisa transformar conhecimento em ação. E essa transformação também envolve valores, cultura, educação e ética.

É justamente aí que entram os grandes pensadores, educadores, artistas e mestres que, ao longo da história, nos ajudam a questionar o modo como vivemos.

Chaplin é um deles.

Parar a máquina

Talvez uma das maiores contribuições de Tempos Modernos para uma reflexão sobre sustentabilidade esteja justamente na imagem da máquina que não para.

O trabalhador precisa acompanhar o ritmo da produção. A produção precisa acompanhar o ritmo do consumo. O consumo exige novos produtos. Os produtos exigem mais recursos. E o ciclo continua.

Chaplin interrompe essa lógica com o humor e nos obriga a observar aquilo que, quando estamos dentro da engrenagem, muitas vezes não conseguimos perceber.

Sustentabilidade exige justamente essa capacidade de parar, observar e perguntar.

Precisamos mesmo consumir dessa maneira? Precisamos descartar aquilo que ainda pode ser utilizado? Precisamos produzir sem considerar os impactos sociais e ambientais? Precisamos aceitar como inevitável uma forma de desenvolvimento que produz riqueza para alguns e custos para tantos outros?

Talvez construir um mundo sustentável comece por esse gesto aparentemente simples: parar para pensar.

Aprender com nossos erros

O futuro sustentável não será construído apenas com novas máquinas, novas tecnologias ou novos produtos. Será construído também por pessoas capazes de reconhecer seus erros, rever hábitos e assumir responsabilidades.

É nesse sentido que a obra de Chaplin permanece tão poderosa. Ele não apresenta soluções prontas. Ele provoca perguntas.

O que aconteceu com o trabalhador quando a máquina passou a determinar seu ritmo? O que acontece com a sociedade quando a produtividade vale mais do que a pessoa? O que acontece com o planeta quando o consumo se torna maior do que nossa capacidade de regenerar os recursos que utilizamos?

Essas perguntas continuam abertas.

A sustentabilidade, portanto, não deve ser compreendida apenas como uma meta ambiental. Ela é também uma construção humana. Envolve educação, cultura, ciência, economia, ética, cidadania e a capacidade de estabelecer relações mais equilibradas entre pessoas e natureza.

Chaplin nos ensinou a rir diante das contradições do mundo, mas também a enxergá-las. Em Tempos Modernos, a máquina revela o perigo de uma sociedade que esquece o ser humano. Hoje, diante dos desafios socioambientais, talvez precisemos recuperar justamente essa capacidade de parar, refletir e escolher novos caminhos. Porque construir um Brasil e um mundo sustentável não depende apenas da transformação dos materiais, mas, прежде de tudo, da transformação do nosso modo de pensar, produzir, consumir e viver.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Desenvolvimento Sustentável e os 5 R’s de Atitudes Lúdicas

Desenvolvimento sustentável é a capacidade de promover o progresso e suprir as necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade das futuras gerações de atender às suas próprias necessidades. É um desenvolvimento que busca utilizar os recursos naturais de maneira responsável, preservando-os para o futuro.

Como Educadora Ambiental, percebo que o conceito de sustentabilidade pode ir além da preservação dos recursos naturais. Ele também pode contemplar os recursos da natureza humana e é principalmente na infância que encontramos esses recursos em grande abundância.

Surge, então, uma pergunta:

Como favorecer o desenvolvimento da criança sem comprometer sua capacidade humana nas outras fases de sua vida?

Valorizar a infância é uma importante atitude de preservação da natureza humana. A infância é uma das fases mais férteis da vida, quando podemos oferecer o adubo necessário para que floresça uma existência com vitalidade, curiosidade, gosto pela descoberta, capacidade de iniciativa e disposição para aprender e realizar.

A criança, quando nasce, já é alguém.

Ela não será alguém somente quando crescer. É um indivíduo em formação, com identidade própria, que precisa ter seu tempo, seu espaço e seu ambiente infantil respeitados. É também através do brincar que a criança pode conhecer a si mesma, experimentar possibilidades, elaborar suas descobertas e construir sua maneira de estar no mundo.

Brincar é, para a criança, uma espécie de meditação sobre si mesma através da ação.

Enquanto brinca, ela observa, experimenta, imagina, transforma e atribui significado ao que vivencia.

Nós, adultos, somos responsáveis não apenas pelos recursos naturais do planeta, mas também por cuidar dos recursos humanos presentes em nossas crianças.

Como preservar esses recursos durante a infância?

Inspirando-me no conceito dos 5 R’s do Desenvolvimento Sustentável, desenvolvi, como Brinquedista, os 5 R’s de Atitudes Lúdicas: atitudes que podem contribuir para preservar e sustentar os recursos humanos da criança ao longo de sua vida.

REFLETIR sobre o tempo de qualidade que passamos junto às crianças. Esse tempo tem sido realmente aproveitado para fortalecer nossos vínculos de afeto, escuta e convivência?

RECUSAR a adultização da infância, o consumismo excessivo e a antecipação de comportamentos que não pertencem ao universo infantil. A criança precisa ter o direito de viver sua infância.

REDUZIR o tempo de exposição às telas e ampliar as oportunidades de movimento, convivência, imaginação e brincadeira. As orientações sobre o uso de telas devem considerar a idade da criança e a qualidade do conteúdo, além da participação dos adultos.

RECICLAR as imagens e experiências vivenciadas pela criança durante o dia, permitindo que elas sejam transformadas em brincadeiras. Ao brincar livremente, a criança reorganiza aquilo que observou e cria novas possibilidades para compreender o mundo.

REAPROVEITAR a curiosidade e o interesse da criança pelos fenômenos da natureza, transformando essas descobertas em experiências de encantamento com a água, a terra, o ar, as plantas, os animais e todos os elementos que fazem parte da vida.

5 R’s: sustentabilidade também é cuidar da infância

Praticar os 5 R’s de Atitudes Lúdicas é uma maneira de contribuir para que a infância seja vivida com mais liberdade, criatividade, natureza, afeto e brincadeira.

Porque preservar a infância também é preservar aquilo que existe de mais precioso na natureza humana.

Ser criança é ser natural! 

E quando pensamos em Reaproveitar, Reciclar e Brincar, podemos transformar materiais simples em possibilidades extraordinárias de criação.

Rolinhos de papelão transformados em bonecas

Um simples rolinho de papelão pode ganhar vida pelas mãos das crianças e se transformar em personagens, bonecas e companheiros de brincadeira.

Material:

  • rolinhos de papelão;

  • meias;

  • retalhos de tecidos;

  • lã;

  • fitas;

  • linha;

  • outros materiais reutilizáveis disponíveis.

A proposta é deixar a criança experimentar, combinar materiais, criar personagens e inventar suas próprias histórias.

Mais do que transformar um material que seria descartado, estamos transformando objetos em brinquedos, experiências em aprendizagem e imaginação em cultura de infância.

A sustentabilidade também pode começar assim: brincando. 






segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Bolha de sabão e arte

Bolha de Sabão: brincar, arte e formas geométricas

Área de conhecimento: Linguagem oral e escrita, Arte, Linguagem Corporal e Matemática.

Conteúdos: Oralidade e linguagem; elaboração de produções artísticas envolvendo pintura; reconhecimento de figuras geométricas planas e tridimensionais, com destaque para o círculo e a esfera.

Objetivos: Conhecer fatos interessantes sobre a brincadeira “Bolha de Sabão”; desenvolver noções de formas geométricas planas e tridimensionais, identificando o círculo e a esfera; vivenciar a brincadeira com bolas e bolhas de sabão, relacionando-a às representações realizadas por artistas plásticos.

Desenvolvimento: Recepcionaremos as crianças com os blocos lógicos, proporcionando um primeiro contato com as formas geométricas por meio da exploração e da brincadeira.

No primeiro momento, organizados na colcha para a roda de conversa, relembraremos fatos sobre a vida e a obra do artista plástico Ivan Cruz, conversando sobre diferentes telas que ele já produziu e retomando as brincadeiras representadas em suas obras. Em seguida, apresentaremos a tela “Bolha de Sabão” e deixaremos que as crianças observem atentamente a cena, relatando o que percebem e identificando o que as crianças representadas estão fazendo. Perguntaremos se já conhecem a brincadeira e se já brincaram de fazer bolhas de sabão. Depois, iremos ao pátio, onde disponibilizaremos água e sabão para que possam experimentar e brincar livremente com as bolhas.

No segundo momento, retomaremos a experiência por meio de uma conversa sobre as formas das bolhas. Perguntaremos às crianças com que forma geométrica elas se parecem e observaremos bolas e outros objetos presentes no ambiente que possam estabelecer relações com a esfera. Exploraremos, assim, a diferença entre o círculo, uma figura geométrica plana, e a esfera, uma forma tridimensional. Também retomaremos os blocos lógicos e utilizaremos a caixa didática de figuras geométricas para manusear e explorar o círculo por meio de diferentes texturas. Em seguida, iremos até a parede que contém as casas representadas na tela de Ivan Cruz para realizarmos fotografias inspiradas na obra, aproximando as crianças da linguagem artística por meio da experiência corporal e da recriação.

No terceiro momento, utilizando a televisão, apresentaremos imagens de diferentes obras de artistas plásticos que também representaram a brincadeira “Bolha de Sabão”. Após essa apreciação, iremos novamente ao pátio externo para uma nova experiência artística. As crianças brincarão com bolhas de sabão preparadas com corantes e experimentarão produzir marcas e impressões sobre cartolinas, observando as formas, cores e efeitos criados pelas bolhas. As cartolinas produzidas serão utilizadas na elaboração de um painel coletivo, juntamente com as fotografias inspiradas na obra de Ivan Cruz, para posteriormente serem expostas na instituição.

No quarto momento, retomaremos o livro Folclorices de Brincar, de Mércia Maria Leitão e Neide Duarte, relembrando as brincadeiras presentes na obra. Em seguida, realizaremos a leitura do poema relacionado à vivência e convidaremos as crianças a representá-lo por meio de suas próprias ilustrações, valorizando a expressão artística e a interpretação individual.

Recursos: Blocos lógicos, diferentes tipos de bolas, água, detergente, colcha para a roda de conversa, televisão, cartolinas, giz de cera, corantes, caixa didática de formas geométricas e materiais necessários para a produção das bolhas de sabão.

Avaliação: A avaliação acontecerá por meio da observação da participação e da interação das crianças durante as vivências, considerando suas descobertas, hipóteses, movimentos, produções artísticas e manifestações orais. Serão observadas também as relações que estabelecem entre a brincadeira, as obras de arte e as formas geométricas, bem como seus relatos e conhecimentos prévios sobre os artistas e as manifestações artísticas apresentadas.

Bolhas de sabão- Ivan Cruz

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Plano Individual de Intervenção para Criança no Espectro do Autismo


Perfil Psico-Educativo Revisto (PEP-R)

O Perfil Psico-Educativo Revisto (PEP-R), desenvolvido por Schopler e colaboradores em 1990, no Centro de Chapel Hill, na Carolina do Norte, constitui um instrumento de avaliação destinado a analisar de forma sistemática as competências escolares e pré-escolares da criança, bem como os seus padrões de comportamento. Originalmente indicado especialmente para crianças até aos 7 anos de idade, o instrumento foi amplamente utilizado na avaliação de crianças com perturbações do desenvolvimento, nomeadamente no espectro do autismo. A Escala de Desenvolvimento do PEP-R contempla sete áreas: Imitação, Percepção, Motricidade Fina, Motricidade Global, Coordenação Óculo-Manual, Desempenho Cognitivo e Cognição Verbal. A sua aplicação permite identificar áreas de maior competência, áreas que necessitam de maior apoio e competências emergentes, constituindo uma importante base para o planeamento da intervenção educativa e terapêutica.

Complementarmente, a Escala de Comportamento do PEP-R procura identificar comportamentos considerados não habituais e característicos das perturbações do desenvolvimento. A observação permite compreender o modo como a criança estabelece relações, interage com os materiais, responde aos estímulos sensoriais e utiliza a linguagem. São consideradas quatro grandes áreas: Relações e Afeto, Jogo e Interação com o Material, Respostas Sensoriais e Linguagem.

No caso analisado, foram realizadas avaliações através da Escala de Desenvolvimento e da Escala de Comportamento do PEP-R em 11 de abril de 2002, quando a criança apresentava idade cronológica de 6 anos e 10 meses, e posteriormente em 31 de outubro de 2003, aos 8 anos e 4 meses. Na primeira avaliação, foram identificadas diferentes competências e emergências nas áreas avaliadas. No domínio da Imitação, a criança demonstrava capacidade para imitar sons de animais, participar em jogos simples, como o jogo das escondidas, imitar ações com objetos sonoros e reproduzir movimentos globais, além de conseguir repetir dígitos. Na área da Percepção, revelava interesse por materiais relacionados com a linguagem, especialmente livros.

Na Motricidade Fina, apresentava competências como moldar uma taça com plasticina e tocar sequencialmente com o polegar nos restantes dedos. Na Motricidade Global, conseguia chutar, atirar e apanhar uma bola. Relativamente à Coordenação Óculo-Manual, demonstrava capacidade para copiar figuras geométricas, nomeadamente triângulo e losango, pintar dentro dos limites e copiar letras.

No Desempenho Cognitivo, a criança reconhecia imagens, identificava cores, formas geométricas, letras, partes do corpo, tamanhos e quantidades, escrevia o próprio nome, compreendia e seguia ordens simples e demonstrava compreender a função de diferentes objetos, inclusive através da representação dessas funções por meio de gestos. Na área da Cognição Verbal, conseguia nomear cores, formas geométricas, letras e objetos, utilizar o plural e alguns pronomes, repetir frases curtas e simples, identificar o próprio nome e género e resolver situações-problema apresentadas na segunda pessoa. Também realizava a leitura de palavras curtas e de uma frase, apresentando alguns erros, mas demonstrando compreensão do que lia.

A Observação do Comportamento permitiu analisar aspectos relacionados com as relações interpessoais, os materiais, as respostas sensoriais e a linguagem. Na área das relações, foram observados aspectos como a reação ao medo, o contacto visual, a cooperação, a tolerância a interrupções e a motivação perante reforços sociais. Na relação com os materiais, foram considerados a motivação por recompensas concretas, a exploração do ambiente, o modo como examinava os materiais e a capacidade de atenção. Na dimensão sensorial, foram observadas respostas a estímulos visuais, auditivos, gustativos, tácteis e olfactivos, assim como a presença de gestos estereotipados. Na linguagem, foram analisados a utilização e a inteligibilidade das palavras, a entoação e a inflexão, a presença de ecolália imediata ou diferida e a utilização dos pronomes.

A partir dos resultados obtidos na avaliação formal e da identificação das competências emergentes, foi elaborado um Plano Individual de Intervenção, com o objetivo de definir metas, estratégias e formas de acompanhamento ajustadas ao perfil da criança. O plano constitui o ponto de partida para uma intervenção especializada nas áreas em que foram identificadas maiores necessidades, sem deixar de considerar as competências já adquiridas e o potencial de desenvolvimento apresentado.

A elaboração do plano contou ainda com entrevistas realizadas com a família e com os técnicos responsáveis pelo acompanhamento da criança. Essa articulação permitiu relacionar os objetivos propostos com os interesses da família e com as atividades realizadas no quotidiano, procurando assegurar maior significado e funcionalidade às aprendizagens. Por se tratar de um instrumento dinâmico, o plano deve ser revisto e ajustado sempre que necessário, de modo a acompanhar a evolução da criança e responder adequadamente às suas necessidades.

Entre os objetivos definidos encontravam-se o desenvolvimento da Imitação, do Desempenho Cognitivo, da Comunicação e Linguagem, da Autonomia, da Socialização e da Motricidade Global. Na área da Imitação, por exemplo, observava-se uma reação à apresentação de um fantoche e estabeleceu-se como objetivo a sua manipulação na área do “Aprender”, recorrendo a ajudas físicas e verbais. No Desempenho Cognitivo, partia-se de uma exploração livre dos materiais, muitas vezes levando-os à boca, para desenvolver a capacidade de associar duas imagens de animais mediante uma solicitação verbal, utilizando jogos de loto, demonstração e ajuda física.

Na área da Autonomia, considerando que a criança necessitava de ajuda durante as refeições, foi estabelecido como objetivo promover maior independência na alimentação, especialmente através da utilização adequada da colher e do garfo. Na Comunicação e Linguagem, verificava-se que a criança comunicava principalmente quando necessitava de ir à casa de banho, utilizando um gesto, sendo estabelecido como objetivo ampliar a capacidade de expressar necessidades e desejos e aumentar o repertório de palavras, incluindo a utilização da palavra para pedir água.

No domínio da Socialização, considerando que a criança ainda não cumprimentava as pessoas, estabeleceu-se como objetivo que passasse a dizer “bom dia” ao chegar à sala. Na Motricidade Global, partindo da observação de que chutava a bola de forma indiscriminada, procurou-se desenvolver a capacidade de direcioná-la para um colega, estabelecendo como meta chutar a bola para o outro pelo menos cinco vezes consecutivas. No Desempenho Cognitivo, considerando a dificuldade inicial na identificação das cores, foi estabelecido o objetivo de reconhecer pelo menos três cores: azul, vermelho e verde.

As estratégias e orientações metodológicas incluíam trabalho individualizado, demonstração das tarefas, utilização de ajudas físicas e verbais, reforço positivo e recurso a pictogramas como forma de estimular a autonomia e facilitar a compreensão das atividades. A avaliação do progresso deveria ocorrer de forma contínua, através da observação direta e de registos sistemáticos, permitindo ajustar o programa sempre que necessário, complementada por avaliações formais no início e no final do ano letivo.

A participação da criança no grupo ou turma regular fazia parte igualmente do plano de intervenção. Estava previsto o cumprimento do horário da sala regular, das 8h às 12h, com participação nas atividades desenvolvidas pela turma, incluindo visitas de estudo, música e educação física. O acompanhamento era complementado por apoios especializados, nomeadamente terapia da fala duas vezes por semana e psicomotricidade uma vez por semana.

Posteriormente, foram realizadas novas avaliações através da Escala de Desenvolvimento e da Escala de Comportamento do PEP-R, em 31 de outubro de 2003, quando a criança apresentava idade cronológica de 8 anos e 4 meses. A comparação entre os diferentes momentos de avaliação permite acompanhar a evolução das competências e dos comportamentos observados e constitui um importante recurso para a revisão e adequação das estratégias de intervenção.

Dessa forma, o PEP-R e o Plano Individual de Intervenção não devem ser compreendidos apenas como instrumentos de avaliação ou classificação, mas como recursos para conhecer a criança em sua singularidade, reconhecer aquilo que já consegue realizar, identificar competências emergentes e planejar oportunidades de aprendizagem que respeitem seu ritmo, suas necessidades, seus interesses e suas possibilidades de desenvolvimento.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Que tal levar até oito crianças para a escola usando uma “bicicleta”?

Imagine chegar à escola pedalando junto com os amigos, em vez de entrar em um carro ou em um ônibus.

Na Holanda, essa ideia já existe. São bicicletas especiais, projetadas para transportar várias crianças de uma só vez. Um dos modelos desenvolvidos para esse tipo de uso comporta até oito crianças, além do adulto responsável pela condução.

Além de ser uma experiência divertida para as crianças, esse tipo de transporte estimula a atividade física e ajuda a pensar em uma cidade com menos carros, menos poluição e mais espaços para bicicletas.

Mais do que um meio de transporte, a proposta nos convida a imaginar uma outra relação com a cidade: uma cidade em que o caminho até a escola também possa ser uma experiência de convivência, movimento e descoberta.

E fica a pergunta:

Será que uma ideia como essa poderia funcionar no Brasil? 

Talvez a questão não seja apenas trazer a bicicleta holandesa para cá, mas pensar em como podemos criar nossas próprias soluções de mobilidade para a infância.

Porque uma cidade sustentável também começa no caminho que a criança faz todos os dias para chegar à escola. 



Percepção multissensorial e criatividade

Introdução Desde a infância, percebo o mundo de maneira predominantemente multissensorial. Letras, números, formas, cores, objetos e configu...