EDUCAÇÃO AMBIENTAL, PERCEPÇÃO AMBIENTAL E FORMAÇÃO PARA A CIDADANIA
A escola constitui um espaço privilegiado para estabelecer conexões entre conhecimento, território, experiência e participação social, criando condições para que os estudantes desenvolvam atitudes responsáveis diante das questões ambientais. Nesse contexto, a Educação Ambiental ultrapassa a transmissão de conceitos ecológicos e passa a compreender a relação entre os sujeitos, a sociedade e o ambiente em que vivem.
A presente pesquisa foi desenvolvida em uma Escola Municipal de Ensino Básico localizada no estado de Mato Grosso, em uma comunidade situada próxima às margens do Rio Cuiabá. A escolha do local esteve relacionada às características socioambientais da comunidade, na qual parte significativa das famílias possui relação direta com a pesca e com a agricultura familiar. Essa proximidade com o rio torna o território um elemento fundamental para compreender as relações estabelecidas entre comunidade, recursos naturais, modos de vida e conservação ambiental.
O estudo teve como objetivo analisar a percepção ambiental de 60 estudantes, com idades entre 8 e 11 anos, bem como investigar a contribuição da Educação Ambiental para a ampliação dessa percepção. Foram utilizadas diferentes estratégias pedagógicas, incluindo questionário semiestruturado, atividades reflexivas e orientativas sobre resíduos sólidos, coleta seletiva e os 3Rs — reduzir, reutilizar e reciclar —, aula de campo no espaço escolar e oficina prática de Educação Ambiental.
A pesquisa foi organizada em cinco etapas, permitindo acompanhar as mudanças na percepção dos estudantes ao longo do desenvolvimento das atividades. O questionário foi aplicado no início e ao final do processo, possibilitando uma comparação entre os conhecimentos e percepções apresentados pelos participantes antes e depois das intervenções pedagógicas.
Os resultados indicaram ampliação da compreensão dos estudantes sobre sua relação com o ambiente, com aumento de 43% no reconhecimento de que também fazem parte do meio ambiente em que vivem. Após as atividades relacionadas aos resíduos sólidos, observou-se aumento de 41% na compreensão sobre a destinação dos resíduos produzidos. Os dados também indicaram que a escola constituía, para 56% dos participantes, a principal fonte de acesso às informações relacionadas ao meio ambiente, evidenciando sua importância como espaço de formação ambiental.
Esses resultados reforçam a necessidade de uma Educação Ambiental contínua, contextualizada e relacionada ao território. Mais do que apresentar informações sobre preservação, é necessário criar situações em que os estudantes possam observar, experimentar, questionar, interpretar e participar de ações relacionadas aos problemas ambientais presentes em seu cotidiano.
INTRODUÇÃO
As transformações ambientais provocadas ou intensificadas pelas atividades humanas produzem efeitos sobre os ecossistemas, a biodiversidade e as condições de vida das populações. Nesse cenário, a Educação Ambiental constitui uma dimensão fundamental da formação cidadã, especialmente quando desenvolvida desde a infância por meio de experiências concretas e contextualizadas.
A infância apresenta condições favoráveis à construção de conhecimentos, valores, atitudes e formas de interação com o ambiente. Por isso, abordar questões ambientais nos primeiros anos da escolarização não significa apenas antecipar conteúdos científicos, mas possibilitar que a criança compreenda progressivamente as relações existentes entre sociedade, natureza, consumo, território e responsabilidade coletiva.
A escola possui papel estratégico nesse processo por constituir um espaço social de aprendizagem, convivência e construção de valores. Sua função não se limita à transmissão de conceitos, podendo favorecer a compreensão das relações entre os indivíduos e o ambiente e estimular práticas capazes de produzir mudanças no cotidiano.
No contexto investigado, essa relação apresenta particular importância devido à proximidade da comunidade com o Rio Cuiabá. O rio integra a dinâmica ambiental, econômica e cultural do território, ao mesmo tempo em que recebe impactos decorrentes das atividades realizadas ao longo de sua bacia. Resíduos sólidos, efluentes e outras formas de interferência humana podem alcançar os ambientes associados ao rio e produzir consequências que ultrapassam os limites de uma comunidade específica.
Nesse sentido, compreender como as crianças percebem o ambiente em que vivem constitui uma etapa importante para o planejamento de ações educativas. A percepção ambiental envolve aspectos sociais, culturais e educacionais e pode revelar conhecimentos consolidados, lacunas de compreensão e diferentes formas de interpretar as relações entre sociedade e natureza.
A Educação Ambiental, portanto, pode atuar como instrumento de ampliação dessa percepção, favorecendo a construção de conhecimentos associados à realidade local e estimulando a participação dos estudantes como sujeitos do processo educativo.
O objetivo geral deste trabalho foi analisar a percepção ambiental de estudantes de 8 a 11 anos e investigar a contribuição da Educação Ambiental escolar para sua ampliação e transformação. Especificamente, buscou-se identificar a percepção inicial dos estudantes sobre o meio ambiente; desenvolver atividades práticas e reflexivas relacionadas à conservação ambiental; abordar a problemática dos resíduos sólidos e da coleta seletiva; trabalhar os princípios de reduzir, reutilizar e reciclar; realizar atividades de observação do ambiente escolar; e avaliar possíveis mudanças na percepção dos participantes após as intervenções.
EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL
A institucionalização da Educação Ambiental está relacionada ao processo internacional de construção de políticas voltadas à proteção ambiental, especialmente a partir da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em 1972. No Brasil, esse movimento contribuiu para o desenvolvimento de políticas públicas e instrumentos legais voltados à proteção ambiental e à formação de uma consciência ambiental.
A Constituição Federal de 1988 estabelece, em seu artigo 225, que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e atribui ao poder público a responsabilidade de promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente.
Posteriormente, a Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental — PNEA e definiu a Educação Ambiental como componente essencial e permanente da educação nacional. A legislação estabelece que ela deve estar presente de maneira articulada em diferentes níveis e modalidades de ensino, não se restringindo a uma disciplina isolada.
Essa perspectiva reforça o caráter interdisciplinar da Educação Ambiental, permitindo que questões ambientais sejam trabalhadas em conexão com diferentes campos do conhecimento e, principalmente, com situações concretas vivenciadas pelos estudantes.
A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, também representou um marco importante ao ampliar o debate internacional sobre desenvolvimento, conservação ambiental e responsabilidade compartilhada. A chamada Agenda 21 consolidou princípios relacionados à participação social, à sustentabilidade e à necessidade de integrar desenvolvimento econômico, proteção ambiental e qualidade de vida.
No campo educacional, documentos curriculares brasileiros passaram progressivamente a incorporar a dimensão ambiental. Os Parâmetros Curriculares Nacionais apresentaram o meio ambiente como tema transversal, fortalecendo a compreensão de que questões ambientais devem atravessar diferentes áreas do conhecimento.
Atualmente, a Educação Ambiental pode ser compreendida de maneira ainda mais ampla, envolvendo não apenas conservação de recursos naturais, mas também território, cultura, cidadania, consumo, resíduos, biodiversidade, saúde ambiental, participação social e responsabilidade coletiva.
PERCEPÇÃO AMBIENTAL E EXPERIÊNCIA EDUCATIVA
Conhecer a percepção ambiental dos estudantes permite identificar como eles compreendem o espaço em que vivem e quais relações estabelecem com os elementos naturais e sociais que compõem esse espaço. Essa percepção não é formada exclusivamente pela informação escolar. Ela resulta da experiência cotidiana, da cultura, das relações familiares, da comunidade e das experiências concretas com o território.
Por essa razão, uma Educação Ambiental efetiva precisa ultrapassar a exposição exclusivamente teórica. Observar o ambiente, identificar resíduos, investigar sua origem e destino, reconhecer diferentes materiais, compreender os impactos do descarte inadequado e experimentar formas de reutilização constituem experiências capazes de aproximar o conhecimento da realidade.
A criança aprende também por meio dos sentidos, do movimento, da observação, da investigação, da experimentação, do jogo e da expressão artística. Dessa forma, atividades ambientais podem integrar linguagem, matemática, ciências, arte, cultura corporal e conhecimentos sobre o território, construindo uma aprendizagem interdisciplinar.
Essa abordagem desloca a Educação Ambiental de uma perspectiva exclusivamente informativa para uma perspectiva experiencial. O estudante deixa de ser apenas receptor de informações e passa a participar da investigação do ambiente, produzindo interpretações e construindo possibilidades de intervenção.
Nesse sentido, trabalhar com resíduos sólidos não significa apenas ensinar a separar materiais. Significa compreender os ciclos de produção e consumo, questionar o descarte, reconhecer possibilidades de redução e reutilização e perceber que um objeto considerado sem utilidade pode adquirir uma nova função por meio da criatividade e da transformação.
A perspectiva dos 3Rs — reduzir, reutilizar e reciclar — pode, portanto, ser trabalhada como uma sequência de tomada de decisão: primeiro reduzir o consumo e o desperdício; depois prolongar a utilização dos materiais; e, quando essas alternativas não forem possíveis, encaminhar corretamente os resíduos para reciclagem ou destinação adequada.
METODOLOGIA
A pesquisa foi realizada com 60 estudantes, com idades entre 8 e 11 anos, matriculados em uma Escola Municipal de Ensino Básico localizada em uma comunidade próxima ao Rio Cuiabá, no estado de Mato Grosso.
Foi utilizado um questionário semiestruturado para identificar a percepção ambiental dos participantes antes e depois das atividades. A intervenção pedagógica foi organizada em cinco etapas: diagnóstico inicial; atividades de sensibilização e reflexão; observação e investigação do ambiente escolar; oficina prática de Educação Ambiental; e avaliação final.
As atividades abordaram os conceitos de meio ambiente, resíduos sólidos, coleta seletiva, redução do consumo, reutilização e reciclagem. Também foram realizadas atividades de campo no espaço escolar, buscando aproximar os conteúdos da realidade observada pelos próprios estudantes.
A comparação entre os questionários inicial e final permitiu observar mudanças na percepção dos participantes e identificar possíveis contribuições das atividades para a compreensão das relações entre indivíduo, comunidade e ambiente.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados demonstraram mudanças na percepção ambiental dos estudantes após a realização das atividades. Observou-se aumento de 43% no reconhecimento de que os próprios estudantes integram o ambiente em que vivem. Esse resultado é relevante porque indica uma passagem de uma compreensão do meio ambiente como algo externo ao indivíduo para uma percepção de pertencimento e corresponsabilidade.
Também foi identificado aumento de 41% na compreensão sobre a destinação dos resíduos produzidos. A abordagem prática possibilitou relacionar o descarte cotidiano aos impactos ambientais, tornando mais concreta uma questão que frequentemente é apresentada de maneira abstrata.
Outro dado significativo foi a identificação da escola como principal fonte de informações ambientais para 56% dos participantes. Esse resultado evidencia o papel da instituição escolar na formação de conhecimentos e atitudes relacionados ao ambiente, especialmente em comunidades nas quais o território e os recursos naturais fazem parte diretamente do cotidiano das famílias.
A experiência demonstra que atividades práticas, contextualizadas e articuladas ao território podem contribuir para ampliar a percepção ambiental das crianças. A aprendizagem torna-se mais significativa quando o estudante consegue relacionar o conteúdo trabalhado àquilo que observa, utiliza, descarta e vivencia diariamente.
Nesse processo, a escola atua não somente como espaço de transmissão de conhecimento, mas como ambiente de investigação, convivência, experimentação e participação. A Educação Ambiental torna-se, assim, uma prática formativa que articula conhecimento científico, experiência cotidiana e responsabilidade social.
CONCLUSÃO
A pesquisa evidencia a importância da Educação Ambiental como componente permanente da formação escolar e demonstra que atividades contextualizadas podem contribuir para ampliar a percepção ambiental de crianças.
A comparação entre os resultados obtidos antes e depois das atividades indicou mudanças na compreensão dos estudantes sobre sua relação com o ambiente e sobre a destinação dos resíduos sólidos. A identificação da escola como importante fonte de informação ambiental também reforça a responsabilidade da instituição educativa na construção de conhecimentos, valores e práticas sustentáveis.
No contexto de uma comunidade próxima ao Rio Cuiabá, a Educação Ambiental assume ainda maior relevância, pois permite relacionar o conhecimento escolar às condições concretas do território, aos modos de vida da população e aos impactos produzidos pelas ações humanas.
A formação ambiental na infância não deve restringir-se à memorização de conceitos. É necessário proporcionar experiências que envolvam observação, investigação, movimento, criatividade, participação e tomada de decisão. A criança precisa compreender que faz parte do ambiente e que suas escolhas produzem consequências.
Dessa maneira, a Educação Ambiental pode contribuir para a formação de sujeitos capazes de interpretar criticamente o território, reconhecer problemas ambientais, participar de sua solução e atuar como multiplicadores de conhecimentos e práticas responsáveis em suas famílias e comunidades.
Mais do que ensinar a preservar, trata-se de construir uma relação de pertencimento com o ambiente. Quando a criança reconhece que o rio, a escola, o solo, os animais, as plantas, os objetos e as pessoas fazem parte de uma mesma rede de relações, a Educação Ambiental deixa de ser apenas conteúdo escolar e passa a constituir uma experiência de formação para a cidadania.










