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Dilemas da Sustentabilidade frente ao consumismo

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

As grandes construções da humanidade são legados das civilizações antigas e resistem ao tempo, sendo visitadas por turistas de todo o mundo.

Obras que representam o engenho e a criatividade das civilizações passadas. Algumas das mais conhecidas são:

- Göbekli Tepe: Localizado no sudeste da Turquia, é considerado o templo mais antigo do mundo, com cerca de 11 mil anos.

- As Pirâmides de Gizé: Uma das Maravilhas do Mundo Antigo. Construídas há cerca de 4.500 anos, no Antigo Império Egípcio, as Pirâmides de Gizé são túmulos dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos.

- A Grande Muralha da China: Um símbolo de proteção e persistência.
Uma construção que resistiu ao tempo.

- O Coliseu: O coração do entretenimento romano.
Anfiteatro romano que servia para apresentações teatrais e jogos gladiadores.

- Teatro de Epidauro: Uma obra-prima da arquitetura grega antiga, construída por volta de 300 a.C. Acústica extraordinária.

- Panteão Romano: Edifício romano construído no auge do Império Romano, conhecido pela sua cúpula e geometria celeste.

- Jericó: Muralhas da Antiguidade.

- Túmulo de Newgrange: Alinhado com o Sol.


- Stonehenge: Enigma de pedra na Inglaterra.

- Templo de Karnak: Esplendor do Egito Antigo.

- Ziggurat de Ur: Monumento Mesopotâmico.

Algumas construções mais atuais:

- A Torre Eiffel: O emblema de Paris.

- O Burj Khalifa: O maior arranha-céu do mundo, localizado em Dubai.

- Eurotúnel: Um túnel ferroviário que atravessa o Canal da Mancha, entre a França e a Inglaterra.

- Catedral de Nossa Senhora de Estrasburgo: Foi por mais de 200 anos o edifício mais alto do mundo.

- Itaipu Binacional: Uma usina hidrelétrica que fica na fronteira do Brasil com o Paraguai

- Hidrelétrica de Três Gargantas: Uma usina de produção de energia localizada na China, no rio Yang-tsé



As pirâmides do Egito são exemplos de construções antigas que podem inspirar a criação de edifícios sustentáveis.

A engenharia milenar utilizada na construção das pirâmides pode ser aplicada em soluções inovadoras para problemas de engenharia civil.

Pirâmides do Egito
As pirâmides do Egito foram construídas com calcário, granito, basalto, argamassa e tijolos de barro cozido.
Os egípcios utilizaram ferramentas de cobre e pedra para recortar os blocos nas pedreiras.
Para mover os blocos, eles usavam alavancas, trenós de madeira e cordas, e barcaças.
Os egípcios alinhavam as pirâmides com estrelas.

Projeto Zigurate
O Projeto Zigurate é um projeto de construção de um prédio em forma de pirâmide que visa ser auto-sustentável.
O projeto propõe que cidades inteiras possam ser acomodadas em complexos que ocupam menos de 10% da superfície original.
O projeto também visa melhorar a qualidade de vida dos habitantes.


As pirâmides, construídas em tempos remotíssimos, exercem grande fascínio no homem e estão dentre as estruturas consideradas mais impressionantes existentes. Os motivos para isso são diversos, desde o fato de que os trabalhadores não possuíam o benefício das ferramentas e maquinarias modernas, de elas terem resistido a tantos anos, até o de sua construção perfeita, não sendo se introduzir nem mesmo uma folha de papel entre os blocos de pedra, tamanha a perfeição de sua sobreposição.

Definidas pela Geometria Espacial como sólidos geométricos com base quadrada e quatro lados triangulares equilaterais, as pirâmides têm um formato mais estruturalmente estável, o que as torna uma boa opção para projetos que envolvem grandes quantidades de pedra ou de alvenaria. Sabe-se que, de fato, as antigas pirâmides foram construídas com blocos de pedra que chegavam a pesar até duas toneladas e sua execução podia durar de décadas a centenas de anos.

Apesar de existirem em várias partes do mundo, de diversos tamanhos e complexidades, quando se fala de pirâmides, o Egito é logo lembrado. Lá, com o objetivo de abrigar e proteger o corpo do faraó mumificado e seus pertences (joias, objetos pessoais e outros bens materiais) dos saqueadores de túmulos, as construções deveriam ser extremamente resistentes, protegidas e de difícil acesso. Por isso, os engenheiros responsáveis planejavam armadilhas e falsos acessos dentro das pirâmides.

Primeira pirâmide em degraus do Egito, em Saqqara, foi concluída em 2620 a.C. pelo faraó Djoser. Ela tinha quatro níveis e uma câmara mortuária subterrânea.
Primeira pirâmide em degraus do Egito, em Saqqara, foi concluída em 2620 a.C. pelo faraó Djoser. Ela tinha quatro níveis e uma câmara mortuária subterrânea.
Antes das grandes estruturas piramidais, as tumbas eram montes de terra que cobriam câmaras mortuárias. Passaram a ser construções planas, em formato de caixa, e, depois, foram acrescentados níveis sobre os topos das caixas, formando pirâmides com degraus. Os egípcios, porém, levaram os projetos a patamares mais altos com a construção do complexo de pirâmides de Gizé, na margem oeste do rio Nilo, no século 26 a.C.


A Grande Pirâmide de Quéops (Khufu) é a maior e mais bem elaborada que existe, tem 146 metros de altura, uma base quadrada com 230 metros de lado e pesa cerca de 6,5 milhões de toneladas. Para a sua construção, foram utilizados 2,3 milhões de blocos de calcário e granito e eles resistem, até hoje, a milhares de anos à exposição aos elementos da natureza.Sem título


Podemos perceber, pela imagem, as seguintes partes da Pirâmide: a câmara mortuária do rei, que contém a tumba do rei, a câmara mortuária da rainha, que encontra-se abaixo da pirâmide, as câmaras de descarga de peso acima da do rei, que distribuem o peso da pedra acima dela e evitam que a câmara do rei desmorone, a galeria, que é uma grande passagem com um teto abobadado com modilhão e paredes estruturadas em camadas ascendentes, as passagens descendentes e ascendentes que conectam as câmaras umas às outras e ao lado externo, ductos de ar, que ligam a câmara do rei ao ar livre (projetados, provavelmente, por conta da crença de que o espírito do rei pudesse sair dali posteriormente), a entrada, que seria lacrada após a colocação do corpo do faraó, e o acabamento externo feito de pedras de calcário branco, as quais, em sua maioria, já sofreram corrosão com o tempo.


O botânico e o mecenas: João Barbosa Rodrigues e a ciência no Brasil na segunda metade do século XIX

O trabalho analisa a trajetória científica do naturalista brasileiro João Barbosa Rodrigues, enfatizando seus estudos botânicos e abordando os seguintes aspectos: a história natural e a política científica brasileira a partir da segunda metade do século XIX; a transformação de Barbosa Rodrigues de botânico amador em profissional; a decisiva influência do mecenas Guilherme Schüch de Capanema em sua carreira; e a afirmação de Rodrigues como membro do cenário científico nacional e internacional.

Introdução

A segunda metade do século XIX pode ser caracterizada como uma época de mudanças significativas no cenário científico nacional. A afirmação da comunidade científica brasileira começou a se definir a partir de movimentos liderados por alguns doutos cientistas que, pressionando por uma política mais agressiva do governo em relação à reformulação das instituições científicas e ao apoio a cientistas nacionais, criaram um cenário propício ao desenvolvimento de velhas e novas disciplinas ligadas às ciências e à formação de especialistas brasileiros que se tornariam referência mundial.

Durante esse período, disputas e divergências entre os acadêmicos eram tornadas públicas e veiculadas nos principais jornais da Corte. O apoio do imperador a eventos e publicações científicas chancelava os empreendimentos promovidos pelos cientistas. Também à época, a formação acadêmica no exterior e a convivência com cientistas estrangeiros de renome constituíam credenciais para que os cientistas brasileiros se afirmassem entre seus pares. A inserção de João Barbosa Rodrigues no meio científico nacional vai acontecer nesse cenário de afirmação da ciência produzida no Brasil. Sem qualquer expressão no meio científico, Barbosa Rodrigues apresentou, no ano de 1870, uma obra sobre orquídeas brasileiras cientificamente ilustrada por ele, que incluía descrições de inúmeras espécies novas. Para surpresa de uns e incredulidade de outros, esse desconhecido estudioso da flora brasileira vai se tornar, no decorrer dos anos, um dos cientistas de maior expressão no país e no exterior.

Durante sua carreira científica (1871-1909), Barbosa Rodrigues irá se caracterizar essencialmente como um cientista polêmico, ambicioso e astuto. Autodidata, envolveu-se com temas tão diversificados como a etnografia, a lingüística, a arqueologia, o indigenismo, a botânica, a química e a farmácia. Sua neta, Dilke de Barbosa Rodrigues Salgado (1945), publicou um livro em que discute a vida e a obra de Barbosa, usando, além de fontes secundárias, relatos de familiares e documentação concernente em posse da família. Outra descendente de Barbosa Rodrigues, Flora Castaño Ferreira, também possuidora de material inédito de seu bisavô, publicou em parceria com Scott Mori, do Jardim Botânico de Nova York, trabalho com material científico inédito de Barbosa Rodrigues (Mori e Ferreira, 1987). Várias outras biografias do botânico brasileiro surgiram através dos anos (Ihering, 1911; Hoehne, 1941; Pereira, 1942); e sua obra sobre palmeiras amazônicas foi analisada criticamente em 1995 por Henderson, um especialista do Jardim Botânico de Nova York.

Apesar de toda a correspondência e documentos particulares de Barbosa Rodrigues terem permanecido com a família e se extraviado ao longo do tempo (Mori e Ferreira, 1987), é possível refazer sua trajetória científica por meio das inúmeras publicações técnicas e artigos em jornais da época, assim como pela escassa documentação primária depositada em instituições como o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o Museu Imperial em Petrópolis. No presente artigo, pretende-se analisar a trajetória de Barbosa Rodrigues no cenário botânico nacional e mundial por intermédio das fontes já citadas e outras primárias ainda inéditas, como correspondência e diários de viagem de naturalistas contemporâneos. Tal material encontra-se depositado em instituições brasileiras e estrangeiras e está discriminado ao longo do trabalho. Através de uma apreciação crítica baseada em tais fontes, tem-se por objetivo compreender a especificidade de sua trajetória de amador a cientista e o apoio do barão de Capanema a este personagem que, ainda hoje, é aclamado por especialistas como um dos maiores botânicos do Brasil.

1| O botânico brasileiro Francisco Freire Alemão Cysneiros foi um dos primeiros a protestar contra a falta de reconhecimento, pelos naturalistas estrangeiros, dos trabalhos realizados pelos brasileiros. Ele acusava principalmente os botânicos, e em particular Carl von Martius, que estava sempre pedindo que lhe enviassem material do Brasil para que fosse analisado pelos especialistas estrangeiros e incluído em sua obra Flora Brasiliensis, não levando em consideração as descrições feitas pelos brasileiros (Neiva, 1929, p. 26).

2| Estatuto da Sociedade Vellosiana de 6 de setembro de 1850 (Arquivo Histórico-Administrativo do Museu Nacional, pasta 3, doc. 157).

3| Vários naturalistas estrangeiros que trabalhavam no Brasil enviavam periodicamente material científico e o resultado de suas pesquisas para publicação às suas instituições de origem (Mello Leitão, 1937).

A história natural no Brasil na segunda metade do século XIX

É de lastimar que o Brasil, onde se pensa tanta coisa boa e grandiosa, ainda se não tenha cuidado em preparar os elementos para uma exploração científica, de que tanta utilidade tiraríamos, quando mais não fosse, o sermos tratados com consideração, e não com desprezo pelo estrangeiro, a quem até hoje ainda se deve o que a ciência tem descoberto sobre este vasto império (Capanema, 1859).

Com esse desabafo, Guilherme Schüch, barão de Capanema, dirigiu-se aos membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em sessão realizada em 1854. Amigo de infância de d. Pedro II e de grande influência na Corte, Capanema — engenheiro, geólogo e apaixonado por botânica — incluía-se entre os brasileiros que propunham uma nova ordem em relação ao apoio governamental aos estudiosos nacionais.

As reivindicações de Capanema encontravam respaldo entre os membros da comunidade científica, que condenavam os privilégios concedidos pelo governo a naturalistas estrangeiros que visitavam o país, grande parte deles em busca de mera promoção pessoal. O acesso irrestrito desses estrangeiros às informações científicas acumuladas nas instituições locais era, segundo os naturalistas brasileiros, usado aberta e indiscriminadamente pelos visitantes em benefício próprio. Também motivo de crítica era o descaso dos estrangeiros com os trabalhos científicos desenvolvidos pelos
4| Manuscrito Museu Imperial de Petrópolis, Arquivo D. Pedro II, M. 25, doc. 913.

5| Ver relação dessas publicações em Guimarães (1952); Barbosa Rodrigues (Rodriguesia, 15, no 27, pp. 191-212).

6| Manuscrito Museu Imperial de Petrópolis, Arquivo D. Pedro II, M. 25, doc. 913.


Botânico amador ou profissional? A comunidade científica brasileira surpreendida

Em 1870, João Barbosa Rodrigues surpreendeu a comunidade científica nacional com a apresentação de uma obra sobre orquídeas brasileiras, em três volumes e com descrições em latim e francês. A imprensa da época assim noticiou o feito: "Dr. João Barbosa Rodrigues, após longos anos de estudos botânicos e de longas viagens pelas florestas do Brasil, tinha conseguido fazer o mais profundo e completo trabalho até hoje conhecido sobre a família das orquídeas brasileiras, do qual tinha prontos três volumes de estampas com descrições em latim e
(1869) partiu para o centro de Minas o sr. Barbosa a estabelecer-se ali com uma coudelaria provisoriamente, como o disse a todo o mundo, e como creio, pois nesse tempo falava-se muito do C. Jacome e do gosto apurado que aquele inteligente brasileiro soube dar ao estudo da equitação, e o sr. Barbosa, invejoso como sempre, ia tentar pôr-lhe a barra à frente nessa especialidade. A demora que devia ser de três meses elevou-se ao duplo desse prazo. O homem voltou afinal, mas não já com a tendência para cavalos; vinha com alguns espécimens de Orchidaceas mineiras e trazia o projeto de desenho em grande álbum. Procurou-me e consultou-me a respeito e respondi-lhe que para desenhar uma planta era preciso conhecer tecnicamente o vegetal e que, com toda a cordura, lhe aconselhava que tomasse um compêndio elementar qualquer e o estudasse antes de empreender o seu louvável trabalho. O conselho não lhe agradou ao que me pareceu, pois, tendo tomado em seguida quase nova residência, nunca mais me apareceu.

7| Manuscrito Museu Imperial de Petrópolis, Arquivo D. Pedro II — Correspondência Barbosa Rodrigues, 1870.

8| Manuscrito Museu Imperial de Petrópolis, Arquivo D. Pedro II, M. 25, doc. 913.

Ladislau Netto era, à época, chefe interino da seção de botânica do Museu Imperial e secretário perpétuo da Sociedade Vellosiana. Barbosa, ao mostrar sua coleção de orquídeas e projeto de ilustração científica a Netto, esperava apoio, e nunca a reação desencorajadora que recebeu. Contudo, Netto, que tinha sérias restrições a ele, especialmente em relação a seu caráter, julgou ser esta mais uma tentativa de Barbosa projetar-se mesmo sem reunir condições científicas para realizar tão ambiciosa obra.

Para surpresa geral, entretanto, um ano depois, Barbosa Rodrigues apresentou à sociedade científica brasileira a sua obra sobre orquídeas do Brasil (Figura 1). Em carta enviada ao imperador, solicitou "proteção imperial e permissão ao imperador para dedicar sua obra a ele". Ao mesmo tempo, afirmava ao imperador ter sido incentivado em seu trabalho pelos botânicos Francisco Freire Alemão e frei Custódio Alves

9| Ludwig Riedel, botânico alemão residente no Brasil desde 1820, foi convidado pelo barão de Langsdorff para participar da expedição científica comandada por ele ao interior do Brasil. Ao final da expedição (1825-29), Riedel radicou-se no Rio de Janeiro, ocupando o posto de diretor do Jardim do Passeio Público e, posteriormente, diretor da seção de botânica do Museu Nacional. Faleceu em 1861.

10| Stephan Ladislau Endlicher foi o primeiro colaborador de Martius na Flora Brasiliensis.


O fato de Barbosa Rodrigues ser realmente um amador contribuiu muito para que seu trabalho não fosse reconhecido como realização científica. A institucionalização de disciplinas ligadas à história natural, como a zoologia, a botânica, a geologia e a arqueologia, na época, contribuiu para que animosidades surgissem entre os que se consideravam cientistas profissionais e os amadores, incluindo-se entre os últimos tanto o barão de Capanema, com seu interesse por botânica, como Barbosa Rodrigues, na época apenas um professor de desenho do Colégio Pedro II. A rejeição inicial a Barbosa pode ser comparada à sofrida pelo também ilustrador científico e naturalista amador inglês William Swainson. Igualmente autodidata, Swainson acabou por não obter o reconhecimento almejado por parte da comunidade científica da época, ainda que tenha conseguido reunir uma rica coleção de vários grupos animais e vegetais, com coletas em várias partes da Europa e da América do Sul, e descrito e ilustrado primorosamente não só exemplares por ele coletados como outros existentes em coleções européias (Parkinson, 1984; Knight, 1986).

As divergências de Ladislau Netto com Barbosa Rodrigues e o barão de Capanema foram bem exploradas pela imprensa, com acusações mútuas tornadas públicas em vários jornais e periódicos da época.

Capanema, apesar de engenheiro e atuando como geólogo, tinha na botânica um dos seus hobbies científicos. Trabalhou na seção de geologia do Museu Nacional, tendo participado da 1ª Expedição Científica Brasileira. Foi também um dos fundadores da Sociedade Vellosiana, que acabou por abandonar, em razão de desentendimentos com outros membros, levando-o a fundar outra sociedade, a da Palestra Científica.

Segundo Capanema, seu interesse pela botânica começou ainda na infância, graças à sua convivência com Ludwig
11| Eichler faleceu em 1887, tendo sido substituído por Ignacio Urban, botânico de nacionalidade alemã. A Flora foi finalizada em 1906, com cerca de vinte mil espécies descritas. Dos 65 naturalistas participantes, 38 eram alemães, cinco austríacos, cinco ingleses, cinco suíços, quatro franceses, dois belgas, dois dinamarqueses, dois tchecoslovacos, um holandês e um húngaro (Mello Leitão, 1937).

12| Ver documentos depositados nos Arquivos do Museu Nacional (AAHCMN, docs. 35, 1874; 31, 33 e 34, 1876).

Um naturalista no campo: o aprendizado com os caboclos e os indígenas

Após o polêmico julgamento de seu trabalho sobre orquídeas, Barbosa Rodrigues, sob o patrocínio do barão de Capanema, foi comissionado pelo governo brasileiro para explorar o vale do rio Amazonas, "tendo entre outras obrigações a de completar, corrigir e aumentar o gênero Palmarum do venerado Martius". O naturalista bávaro Carl Friedrich von Martius havia percorrido a região amazônica no início do século XIX e se dedicado às palmeiras do Brasil, tendo recebido subsídio do governo brasileiro para editar sua obra Flora Brasiliensis. Após a morte de Martius, em 1868, o botânico alemão August Eichler assumiu a edição do trabalho, tendo se mantido o apoio do governo
13| Regnell nasceu em Estocolmo em 1807 e faleceu em Caldas (MG) em 1884. Veio para o Brasil para tratamento pulmonar, aqui completando seus estudos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Fixou residência em Caldas, em 1841, dedicando-se à clínica e à coleção botânica. Financiou a vinda de vários botânicos suecos para estudar e coletar material no Brasil. Sua coleção atualmente se encontra na Suécia e leva o seu nome.



A habilidade de Barbosa para distinguir espécies na natureza foi provavelmente adquirida quando de suas primeiras excursões, em companhia do botânico sueco Salamon Eberhard Henschen, pelas serras de Minas Gerais, em busca de orquídeas. Henschen viera para o Brasil a convite do médico sueco e colecionador botânico Anders Fredrick Regnell, que residiu na cidade de Caldas, em Minas Gerais. Regnell financiava compatriotas seus para virem ao Brasil estudar e aumentar a coleção de plantas que possuía.



Prioridade científica: a eterna luta de Barbosa

Quando se encontrava em Óbidos no ano de 1873, Barbosa foi procurado por três britânicos que participavam de uma expedição de exploração na região amazônica a serviço da companhia de navegação Amazon Steam Navigation Company. Os britânicos — um botânico e médico, um engenheiro e um geólogo — haviam acabado de chegar à cidade e, ao tomarem conhecimento da presença de um especialista em botânica da capital do Império, prontamente se dirigiram à residência de Barbosa. Sentindo-se lisonjeado, Barbosa recebeu-os de forma fraternal, tendo lhes mostrado com orgulho seus desenhos e coleções. Dessa visita, o botânico britânico James William Helenus Trail registrou (apud Sá, 1998, p. 152):

Barbosa Rodrigues aparenta um pouco mais de trinta anos, e tem postura (óculos) e toda aparência de um cientista alemão. Ele acabou de voltar de uma viagem de exploração ao rio Urubu e encontrou um bom número de palmeiras. Ele nos mostrou um grande número de ilustrações de palmeiras e orquídeas que fez, das quais ele pensa que muitas são espécies novas, mas ele não conhece nenhum trabalho sobre palmeiras americanas, com exceção dos de Martius e Kunth, Enumeratio Palmarum. Ele passou algum tempo em Ererê e nos mostrou fósseis que ele pegou perto de um córrego... Ele lê bem inglês, mas não consegue falar.

Dias mais tarde, Barbosa Rodrigues retribuiu a visita aos ingleses, tendo o botânico Trail registrado na ocasião:

Cerca de meio-dia, B. Rodrigues chegou e sentou conosco por algum tempo. O trabalho de Spruce sobre palmeiras interessou muito a ele, especialmente quando eu chamei a atenção para uma ou duas descrições (feitas por Spruce) que se encaixavam nas espécies coletadas por ele (Barbosa). Logo depois eu o acompanhei até sua casa para ver o restante de seus desenhos sobre palmeiras... Entre os seus livros existiam muitos trabalhos em inglês, especialmente Lindley...

Trail e Barbosa iniciaram então uma relação de camaradagem, trocando informações científicas e participando de coletas conjuntas; homenageavam um ao outro, nomeando espécies novas de plantas (no caso, palmeiras) (Figura 5). Barbosa Rodrigues esforçava-se ao máximo para agradar aos visitantes estrangeiros. Após alguns dias de convivência harmoniosa, contudo, um sentimento de desconfiança surgiu no brasileiro, que passou a achar suspeito o excessivo interesse do botânico europeu pelas mesmas palmeiras que vinha coletando. Tal sentimento fez com que Barbosa não mais fornecesse informações a Trail, e após um mês de pacífica convivência teve início um processo de competição entre eles. As conseqüências do episódio, contudo, só iriam transparecer anos mais tarde.

Ao regressar ao Rio de Janeiro, Barbosa Rodrigues (1875) publicou imediatamente a diagnose das palmeiras que havia coletado durante os três anos e meio que passou na região amazônica, tendo enviado prontamente uma cópia do trabalho para o Jardim Botânico de Kew, em Londres. Os pesquisadores de Kew, sabedores do interesse de Trail por palmeiras e de quem vinham recebendo material coletado na Amazônia, contataram imediatamente o botânico europeu para obter informações sobre o brasileiro e sua coleção de palmeiras. Surpreso com a rapidez com que Barbosa publicou o trabalho sobre as palmeiras da Amazônia, Trail respondeu assim aos pesquisadores de Kew, em carta ao seu diretor, Joseph Hooker:

...Eu fiquei muito surpreso ao saber que ele (Barbosa) tinha publicado suas descrições ... . ele me disse no Pará, antes de eu deixar o Brasil, que ele pretendia vir à Europa para comparar suas descrições com as várias espécies/tipos e consultar os trabalhos publicados a que ele não tinha acesso no Brasil... ele me prometeu cópias das diagnoses de suas espécies novas quando nos encontramos no Pará... Eu atribuo sua pressa em publicar ao medo de que eu pudesse antecipá-lo... Eu dei a ele quatro espécies com os nomes e diagnoses caso sejam novas. Se ele clama essas espécies como dele, ele mostra que é inescrupuloso e procura anexar seu nome às espécies a qualquer meio... (manuscrito D.C. vol. 103, doc. 305-306, Arquivos do Royal Botanic Gardens, Kew).

Um ano após ser lançado o trabalho de Barbosa, Trail publicou um estudo sobre o material de palmeiras coletado por ele na Amazônia, ignorando então algumas das descrições publicadas por Barbosa em 1875. Tinha tomado tal decisão porque considerava ter ele prioridade sobre a descrição dessas espécies, já que, antes de partir do Pará para a Inglaterra, havia deixado com Barbosa amostras desse material com suas respectivas diagnoses (Trail, 1877a; 1877b; 1876). Tomando a atitude de Trail como um insulto, tendo-a considerado mesmo como um desrespeito aos naturalistas brasileiros, já que a prioridade é de quem publicou primeiro, Barbosa Rodrigues (1903; 1888; 1882; 1879) desencadeou uma série de protestos publicados (Figueiredo, 1879).

Apesar das reivindicações de Barbosa contra a pretensa usurpação do botânico europeu em relação às suas espécies novas, foi Trail o escolhido para colaborar na Flora Brasiliensis na parte relativa às palmeiras. É interessante notar que Barbosa, que fora rejeitado pelos botânicos brasileiros, tivera seu trabalho plagiado por um cientista europeu. Trail, médico de formação que cursara botânica na faculdade e havia atuado como monitor desta cadeira, ao conhecer Barbosa, não questionou seus conhecimentos botânicos, tendo mesmo trocado informações e opiniões com o brasileiro sobre estruturas das plantas. A única objeção que fazia a Barbosa era precisamente a mesma que os naturalistas estrangeiros faziam aos brasileiros, ou seja, a escassez de bibliografia técnica para consulta e a falta de coleções de referência para comparação de exemplares. De fato, o trabalho de identificação taxionômica e descrição de novas espécies baseia-se essencialmente em comparações morfológicas, sendo fundamental a existência de material comparativo.

Ao mesmo tempo que Barbosa travava disputa com o botânico europeu, uma outra pendência sobre prioridade científica desenvolvia-se entre ele e naturalistas alemães e belgas. Nesse caso, porém, o objeto de disputa era seu trabalho sobre orquídeas brasileiras.

Após ter-se inviabilizado a publicação de sua obra sobre orquídeas em 1871, Barbosa partiu para a Amazônia e lá procurou conciliar estudos sobre palmeiras com os referentes às orquídeas da região. Nesse meio tempo, o barão de Capanema tomou a iniciativa de enviar um exemplar da obra de Barbosa sobre orquídeas para August Eichler, botânico alemão que à época era o responsável pela continuação da edição da Flora Brasiliensis (arquivo Capanema, manuscrito GScrp 10, depositado no Museu Histórico, RJ). O botânico alemão Heinrich Gustav Reichenbach, considerado o maior especialista em orquidologia da época e convidado por Eichler para escrever a parte dedicada às orquídeas da Flora, teve em mãos o exemplar da obra de Rodrigues e, em carta ao amigo Regnell, escreveu:

O objetivo de minha carta é falar sobre o sr. Barbosa Rodrigues. Devo admitir que suas pesquisas são muito boas, e que nós poderíamos ser úteis um ao outro. Se ele publicar suas orquídeas, acredito que metade já tenha sido descrita, e ele poderia evitar esta duplicação trazendo para a Europa os tipos de suas novas descobertas, e assim ninguém poderia contestá-lo. É sabido ser impossível produzir um trabalho perfeito (de taxionomia) fora da Europa... Por favor, gostaria de chamar a atenção de seu amigo para esses fatos e dizer a ele que eu me ofereço a publicar suas novas descobertas em co-autoria... Por favor, informe-me imediatamente de sua decisão e envie a ele meus respeitos... (Barbosa Rodrigues, 1877).

Informado por Regnell do conteúdo da carta, Barbosa não aceitou a oferta e, em 1877, publicou a diagnose de suas espécies sem contudo ilustrá-las. A justificativa para tal atitude dada por Barbosa foi a de que ele já havia se comprometido com editores brasileiros e estes não aceitaram interromper o processo de impressão da obra. Reichenbach, desiludido por Barbosa ter rejeitado publicar em co-autoria a diagnose das orquídeas brasileiras, retirou sua proposta e acabou desistindo de participar da Flora Brasiliensis. Barbosa (1882), por seu turno, continuou a receber ofertas de outros pesquisadores encarregados de escrever a parte de orquídea da Flora; contudo, não as aceitou por julgá-las desfavoráveis a ele. Após desencontros vários, até mesmo entre os próprios botânicos europeus, o belga Alfred Cogniaux finalmente aceitou assumir a tarefa. Conhecedor do trabalho de Barbosa, Cogniaux igualmente convidou-o a participar da obra de Martius por meio da utilização dos seus desenhos de orquídeas ainda inéditos e das descrições das espécies novas. Em 1892, Barbosa finalmente aceitou o convite.

Desiludido com a indiferença demonstrada para com sua obra por seus conterrâneos, Barbosa enviou seu material iconográfico para a Europa, tendo permitido que todas as suas pranchas fossem copiadas no Jardim Botânico de Kew, Inglaterra, tal foi o sucesso que seus desenhos fizeram. Entre 1894 e 1895, Harriet Thieselton-Dyer, filha de Joseph Hooker e esposa do então diretor de Kew, William Thieselton-Dyer, dedicou-se a copiar as mais de trezentas pranchas de orquídeas brasileiras de Barbosa Rodrigues (Sprunger et alii, 1996) (Figura 6).

14 Amaral (1951), Ofiólogo Lacerda (em João Batista de Lacerda, Comemoração do centenário de nascimento 1846-1946, Publicações Avulsas do Museu Nacional, RJ).


Das 372 pranchas publicadas em preto-e-branco na Flora Brasiliensis, 267 foram copiadas dos originais de Barbosa Rodrigues. Em relação a isso, ele nunca deixou de registrar em seus trabalhos posteriores uma grande frustração em relação à ínfima participação que teve na elaboração da parte de orquídeas da Flora Brasiliensis. A mágoa que ele e outros naturalistas compatriotas tinham referia-se ao fato de que, já que o governo brasileiro subsidiava a monumental obra, deveria incentivar a participação de cientistas nascidos aqui na sua elaboração e não tolerar sua atuação como meros colaboradores dos 'grandes especialistas europeus'.

A iconografia das orquídeas brasileiras de Barbosa permaneceu inédita por mais de um século, só tendo sido finalmente publicada por Sprunger em 1996. Os originais acabaram sendo desmembrados: dos seis volumes produzidos, o quarto (provavelmente após a sua morte) foi levado para os Estados Unidos e hoje encontra-se depositado na Universidade de Harvard, no Oakes Ames Herbarium.

As disputas que envolveram Barbosa na década de 1870 sobre prioridade científica culminaram com uma grande polêmica, que atingiu até mesmo membros da Academia de Medicina. Barbosa, que na Amazônia havia assimilado dos indígenas o preparo do curare, observando as espécies vegetais empregadas em sua confecção, alimentou uma calorosa discussão entre 1878 e 1879 com João Batista de Lacerda, médico e antropólogo do Museu Nacional. A desavença entre os dois foi desencadeada por opiniões divergentes em relação ao vegetal usado na preparação do curare e ao antídoto que poderia ser empregado para neutralizar o
15 Tribo indígena que vivia às margens do rio Jatapu, afluente do rio Uatumã, no Pará.

16 Segundo o botânico do Museu Nacional, prof. Luiz Emygdio de Mello Filho, a pariquina foi comercializada até meados de 1930 (comunicação pessoal).

A afirmação de Barbosa Rodrigues como cientista no cenário nacional e internacional

Em seu artigo 'Mbaé-Kaá', Barbosa Rodrigues (apud Hoehne, 1925) destacou:

Os índios agrupam as espécies em gêneros e conhecem perfeitamente a utilidade do sistema binário, sem contudo o terem aprendido do sábio sueco. Se perguntarmos a um silvícola o que são: merity, assahy, buriti, e outras palmeiras, eles responderão que são pindós, isto é, plantas da família das palmeiras. Na taxionomia os nomes que eles dão às espécies vegetais traduzem muitas vezes bem melhor os caracteres das mesmas, que aqueles escolhidos pelos discípulos de Lineu.

Barbosa Rodrigues foi um excelente observador dos costumes dos indígenas, principalmente em relação ao conhecimento e uso da natureza por eles. Publicou vários trabalhos de etnografia e aprendeu com os índios
Avesso a empregar medicamentos privilegiados e secretos, cuja ação por esses mesmos motivos considero problemática, não representando a meus olhos senão uma variante dos numerosos meios usados e abusados do mais desenfreado mercantilismo, não trepidei, contudo, em prescrever a pariquina aos doentes que se entregavam aos meus cuidados profissionais... Não me arrependi; muito pelo contrário, é com grande satisfação que o declaro, não só emprego quotidianamente a pariquina como julgo de meu dever aconselhar a divulgação do seu emprego a bem do nosso povo tão flagelado por afecções hepáticas.

17 A Vellosia teve seu primeiro volume impresso em Manaus em 1888. Retirada de circulação por problemas gráficos, teve sua segunda edição impressa no Rio de Janeiro em 1891.

18 Joaquim Campos Porto, ex-secretário do Museu Botânico do Amazonas e genro de Barbosa Rodrigues, publicou na segunda edição da Vellosia (p. 76), as impressões deixadas pelo viajante Frank Vincent em Around and about South América, sobre o Museu Botânico.

A Revista do Instituto Histórico e Geográfico serviu bem aos propósitos de divulgação e promoção dos trabalhos realizados por Barbosa com os indígenas e sobre a geografia da região amazônica. Em 1876, Barbosa Rodrigues, Guilherme S. de Capanema e Baptista Nogueira fundaram uma revista dedicada à divulgação científica intitulada Ensaios de Sciencia, deixando claro, porém, que ela representaria um espaço para que os amadores pudessem divulgar suas investigações. A revista teve apenas três números — o último em 1879. Outra publicação utilizada por Rodrigues como meio para divulgar seus trabalhos foi a Revista de Horticultura, que teve quatro volumes editados durante os anos de 1876 e 1879.
Na década de 1880, Barbosa foi convidado por Capanema para trabalhar na fábrica de formicida que este possuía em Rodeio. Não tendo até então conseguido se firmar profissionalmente como botânico, para lá mudou-se Barbosa Rodrigues com a família, permanecendo alguns anos na região. Durante essa temporada, Barbosa aproveitou para dar prosseguimento a seus estudos sobre orquídeas, publicando já em 1881 trabalho com descrição de espécies novas coletadas na região.
Em 1883, novamente graças à influência de Capanema, Barbosa foi chamado pelo governo imperial para dirigir o recém-criado Museu Botânico do Amazonas. Após 13 anos de esforços para ser reconhecido como pesquisador em botânica, Barbosa finalmente foi convidado a atuar como profissional da área e a dirigir uma instituição científica. Essa fase contribuiu decisivamente para consolidar sua posição de destaque entre os estudiosos da flora brasileira.
Responsável pela concepção básica do museu, Barbosa Rodrigues apresentou um plano ambicioso, no qual os estudos de botânica aplicada à medicina e à indústria tinham lugar de destaque. Entre as propostas, foram incluídas a análise química e extração de material para experiências fisiológicas e terapêuticas, "para se conhecer sua ação e seus efeitos sobre o organismo humano", e a análise de substâncias com potencial para utilização na indústria. Além de um herbário, a criação de uma revista especializada também foi programada. Denominada Vellosia, em homenagem ao botânico frei Velloso, o periódico científico teve apenas um número.

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brasileiros.
O movimento dos profissionais brasileiros originou várias iniciativas renovadoras em diversas áreas do conhecimento, tendo proporcionado mudanças significativas em educação e divulgação científica. Um dos primeiros fóruns criados à época (1850), para discussão e divulgação de atividades e contribuições científicas, foi a Sociedade Vellosiana, que tinha por objetivo "indagar, coligir e estudar todos os objetos pertencentes às ciências naturais, com particularidade os pertencentes à história natural do Brasil, e juntamente averiguar e interpretar as palavras indígenas, com que forem esses objetos
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designados".
Nessa mesma década houve a primeira iniciativa do governo brasileiro de formar uma comissão com o objetivo específico de inventariar as riquezas naturais do país. Organizada pelo IHGB e com a participação dos naturalistas do Museu Nacional, foi constituída a Comissão Científica de Exploração, delegação esta que atuou no Ceará entre 1859 e 1961. À época, o IHGB foi o principal núcleo de incentivo e apoio a esses empreendimentos, intermediando financiamentos do Estado. Como mencionado por Figueirôa (1995), o "sucesso institucional do IHGB deveu-se também, desde a fundação, à sua vinculação obrigatória e contínua ao governo".
O Museu Nacional (então Imperial), como observado por Kury (1998), consolidou-se como instituição central para a história natural do país. Em 1876, foi reestruturado e modernizado por seu diretor Ladislau Netto, tendo à mesma época também iniciado a publicação dos
Archivos do Museu Nacional, periódico que se tornaria referência internacional para assuntos relacionados à zoologia, botânica e antropologia do Brasil. Foram então fundados os museus provinciais, formaram-se comissões científicas de exploração com apoio do governo, e novos periódicos científicos foram criados. Os trabalhos científicos desenvolvidos no Império e as novas teorias formuladas no estrangeiro eram divulgados para o público leigo nas Conferências Públicas do Museu Imperial e nas Conferências da Glória (Sá e Domingues, 1996; Fonseca, 1996). Lopes (1997), em trabalho sobre museus de ciências, ressalta as novas relações de intercâmbio que começavam a ser formadas com cientistas estrangeiros recém-chegados ao Brasil. Vários deles foram incorporados ao quadro do Museu Nacional como colaboradores (naturalistas viajantes) ou como pesquisadores atuantes inseridos nas diferentes instituições da Corte, como no caso do francês Louis Couty, que, associado ao médico João Batista de Lacerda, fundou o laboratório de Fisiologia no Museu Nacional. Cargos de chefia em museus provinciais e comissões encarregadas de levantamentos científicos, como a Comissão Geológica do Império, foram confiados a estrangeiros, mas em regime de compromisso com as demandas do país, onde coleções e dados realizados deveriam, ao menos em tese, ser incorporados às instituições
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brasileiras.
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francês."
Quem seria esse botânico tão ilustre que ninguém conhecia? Nascido no Rio de Janeiro em 22 de junho de 1842, João Barbosa Rodrigues era filho de comerciante português e mãe de ascendência indígena. Criado em Campanha, Minas Gerais, lá iniciou seus estudos em ciências e artes, tendo-se mudado na década de 1850 para a capital do Império a fim de completar seus estudos. No Rio, cursou o Instituto Comercial do Rio de Janeiro, tornando-se posteriormente secretário daquela instituição. À época, fez amizade com Guilherme Schüch de Capanema, que se tornou grande incentivador e mentor de Barbosa Rodrigues para assuntos botânicos e químicos. Por intermédio de Capanema, trabalhou como secretário e professor de desenho do Colégio Pedro II, tendo atuado como tenente da Guarda Nacional. Desde os 16 anos, Barbosa já se dedicava à literatura, publicando livros e folhetos
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literários.
No entanto, seus dons artísticos, conjugados a seu entusiasmo pela botânica e ao mecenato do barão de Capanema, acabaram por encaminhá-lo para uma nova atividade: a de botânico. Casou-se três vezes, tendo tido ao todo 14 filhos. A última esposa, d. Constança Paca, desempenhou importante papel em sua trajetória como naturalista, já que, além de tê-lo acompanhado em todas as suas campanhas botânicas, foi sua auxiliar nos desenhos científicos de orquídeas e palmeiras.
O apoio proporcionado pelo barão de Capanema a Barbosa Rodrigues até o fim de sua vida influiu decisivamente no destino do naturalista. Acreditando no talento de Barbosa Rodrigues e lutando ferrenhamente contra os que considerava seus inimigos e de seu protegido, Capanema não mediu esforços para incentivar a carreira de Rodrigues como botânico profissional. Para tal, proporcionou-lhe até mesmo suporte moral e financeiro em momentos difíceis, como no período em que a comunidade científica e o próprio governo insistiam em não lhe dar o devido crédito.
Barbosa Rodrigues era conhecido na ocasião apenas como professor de desenho, sem nunca ter participado do restrito círculo científico da
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época.
O repentino surgimento da obra científica de Rodrigues sobre orquídeas em 1870 fez com que os profissionais de ciência desconfiassem de sua competência na área e não lhe dessem o devido crédito. Entre os mais céticos em relação a Rodrigues, incluía-se o então diretor da seção de botânica do Museu Nacional, Ladislau Netto.
Em manuscrito de 26 folhas depositado no Museu Imperial em Petrópolis, intitulado 'Eu e o sr. barão de Capanema', Netto narrou sua versão sobre a desconfiança que nutria em relação a Rodrigues e à perseguição rancorosa que o barão de Capanema lhe fazia, conduta exacerbada depois que Netto opôs-se ao seu
protegé Barbosa Rodrigues. Apesar de vizinhos no bairro de São Cristóvão, Netto não nutria simpatia por Barbosa, julgando-o "ignorante, mas astuto, invejoso, hipócrita". Em seu relato, Netto descreveu:
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Serrão.
Tal incentivo não era do conhecimento de Ladislau Netto, amigo íntimo de Freire Alemão e a quem substituiu na direção do Museu Nacional. Alves Serrão e Freire Alemão, contudo, jamais vieram a público desmentir a afirmação. Nesse meio tempo, Barbosa submeteu ao Corpo Legislativo do Império a referida obra para publicação, tendo pedido para tal a verba de cinqüenta contos de réis. Avaliando o pedido, a Câmara deferiu a solicitação, que seguiu para o Senado, no qual foi apreciada pelas comissões de Instrução Pública e Fazenda. Estas, porém, não se reconhecendo competentes para julgar o assunto, decidiram nomear uma comissão especializada para fazê-lo. Como relatado por
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Netto,
esta comissão foi formada primeiramente por Francisco Freire Alemão, frei Custódio Alves Serrão e Ladislau Netto. Devido a problemas de saúde, Freire Alemão deu a Netto o poder de decidir por ele. Custódio Alves Serrão declinou o convite, e Netto, como já havia se desentendido com Barbosa Rodrigues, propôs que fosse formada uma nova comissão. Composta por Saldanha da Gama (lente de botânica da Escola Politécnica), Joaquim Caminhoá (lente de botânica na Faculdade de Medicina), Ramiz Galvão (lente da mesma faculdade e diretor da Biblioteca Pública) e o próprio Ladislau Netto, a comissão foi presidida pelo conselheiro Henrique de Beaurepaire Rohan. Depois de tantas contramarchas e apesar de ter tido parecer favorável, a obra de Rodrigues acabou por não obter liberação de fundos pelo Senado. Sentindo-se prejudicado no processo de formação da comissão e julgamento de seu pedido, principalmente por Ladislau Netto, que julgava seu inimigo, Barbosa Rodrigues tornou pública a análise do processo, fazendo com que figuras influentes e inimigos de membros da comissão lhe dessem apoio irrestrito. Entre estes, atuava com veemência o seu mecenas, o barão de Capanema.
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Riedel.
Cresceu posteriormente, quando, estudante da Escola Politécnica em Viena, teve a oportunidade de participar de reuniões na casa do lente de botânica
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Endlicher.
Foi ainda estimulado pelo contato que teve com o naturalista Carl von Martius, quando ainda estudante de mineralogia e química analítica em Munique. Apesar de seus conhecimentos botânicos, Capanema nunca foi reconhecido como 'botânico' pela comunidade científica da época. Seu desabafo público foi divulgado nos seus 'Estudos botânicos', publicados em 1876: "Eu tive um dia a infantil veleidade de dar impulso ao estudo da botânica na minha terra; esbarrei, porém, com um terrível veto, capaz de extinguir a mais robusta ciência e o mais fogoso entusiasmo;
magna auctoritate me foi declarado que eu era engenheiro e não botânico!" Ao apoiar Barbosa Rodrigues, Capanema combatia, na realidade, os seus desafetos, constituindo o Museu Nacional e seus membros o alvo principal de seus ataques.
A repercussão pela imprensa da polêmica em torno da publicação da obra sobre orquídeas do 'botânico' Barbosa Rodrigues fez com que seu nome gradualmente se tornasse conhecido. Ainda em 1870, enviou pedido para associar-se à Sociedade Vellosiana. A solicitação foi aprovada sem qualquer oposição, apesar das restrições de Netto a ele. Também nessa época, Barbosa Rodrigues tornou-se membro do IHGB, instituição que veio a se tornar um dos principais palcos de divulgação de seus feitos científicos.
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brasileiro.
Para Barbosa Rodrigues, a indicação para essa comissão representava uma oportunidade única de firmar sua reputação como naturalista. Pela primeira vez o governo financiava a viagem de um naturalista brasileiro com o único compromisso de fazer levantamento taxionômico de um determinado grupo botânico. Barbosa não tinha obrigação de enviar o material coligido para nenhuma instituição científica, sendo seu único compromisso a elaboração de relatórios anuais para o governo. Mesmo assim, depositou uns poucos exemplares zoológicos e mineralógicos no Museu
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Nacional.
Ao chegar à Amazônia em 1872, acompanhado da família, Barbosa levava com ele todos os apetrechos necessários para formar uma coleção botânica, seu material de desenho e alguma bibliografia especializada. Durante os dois anos e meio que passou naquela área, percorreu o baixo Amazonas e alguns de seus tributários, ora se estabelecendo na cidade de Belém, ora em Óbidos. Acompanhado de um ajudante, percorreu o interior da região coletando orquídeas e palmeiras. Aproveitava a sabedoria popular para fazer anotações importantes quanto à utilização da flora local na medicina, na culinária e na habitação, principalmente em relação às palmeiras. Coletou também material em sítios arqueológicos e geológicos e assimilou dos indígenas a arte do curare e outros saberes. A curiosidade nata, o espírito de aventura e as inúmeras experiências que vivenciou foram de grande valia durante toda a sua carreira.
Suas atividades de campo foram registradas por um integrante de uma comissão britânica durante excursão ao rio Trombetas. Em seu livro, Charles Brown, geólogo britânico, comentou: "(Barbosa) era possuído de energia e ardor quase portentoso quando começava a trabalhar. Ele era normalmente o primeiro a sair do barco, e se aproximava do primeiro nativo que aparecia. Sentado em um tronco ou outro lugar conveniente, procedia a anotar em sua caderneta todas as respostas que ele podia obter a suas numerosas questões..." (Brown e Lidstone, 1878, p. 238).
A intensa atividade de campo em busca de novas espécies fez com que Barbosa desenvolvesse consideravelmente seu conhecimento botânico e, ao mesmo tempo, se familiarizasse com os diferentes hábitats nos quais eram encontradas as espécies coletadas. Homem essencialmente de 'campo', teve oportunidade de observar os espécimens no ambiente natural, que procurou reproduzir em seus desenhos, a exemplo do que fizera Martius (1823-53) no trabalho sobre palmeiras (
Figura 2).
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(Hoehne, 1941).
Barbosa, durante os seis meses que passou na região, em 1869, herborizou e conviveu com esses botânicos, o que contribuiu para desenvolver seus conhecimentos. Junte-se a isso o interesse do próprio barão de Capanema pelas orquídeas, plantas das quais mantinha coleção em sua fazenda em Curitiba. Regnell acabou por se tornar um apreciador do trabalho de Barbosa Rodrigues, ajudando-o a promover sua obra no exterior. O conhecimento de idiomas, em especial o latim, que era condição básica para se trabalhar com taxionomia, e o seu excelente senso de observação, notadamente em relação às pequenas estruturas dos exemplares estudados (adquirido talvez quando ainda era professor de desenho), foram fundamentais para o desenvolvimento profissional de Barbosa Rodrigues na área da botânica (
Figuras 3 e
4).
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veneno.
Anos mais tarde, ficou comprovado que a composição química do composto vegetal incluía derivados de uma planta do grupo
Strychnos ou de espécies da família das menispermáceas, ou até mesmo de ambas, estando dessa forma os dois cientistas com razão em relação ao vegetal usado para preparar o veneno. Os jornais da época, como o
Jornal do Commercio (24.8, 30.8, 10.9, 3.12 de 1878),
O Cruzeiro (2.9.1878) e
Gazeta de Notícias (9.9.1878, 23.2.1879), além de periódicos médicos especializados, como os
Annaes Brazilienses de Medicina (1879), deram ampla cobertura à discussão.
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Pariquis
o uso de uma planta herbácea da família das nictagináceas empregada no tratamento hepático. Patenteou a fórmula com o nome "pariquina" em homenagem à tribo indígena, e o uso de tal medicamento teve ampla aceitação
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popular.
Segundo sua neta Dilke B. Rodrigues Salgado (1945), a pariquina mereceu também o apoio de médicos como Oswaldo Cruz, que em carta a Barbosa Rodrigues aprovou o novo medicamento:
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publicado.
Durante sete anos, o Museu Botânico do Amazonas funcionou precariamente, tendo Barbosa conseguido, mesmo assim, reunir uma coleção de mais de três mil exemplares catalogados (Campos Porto,
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1891).
Problemas orçamentários, todavia, fizeram com que o museu não se desenvolvesse como o planejado por Rodrigues, que não obteve meios para manter seu herbário e funcionários.
Com a proclamação da República, Barbosa Rodrigues foi nomeado, em 1892, diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, tendo conseguido implantar nessa instituição alguns dos projetos elaborados para o Museu Botânico do Amazonas, inclusive alguns que aproveitaram experiências bioquímicas lá realizadas. O ideal nacionalista da época, o mecenato de Capanema e uma grande ambição acabaram por tornar Barbosa Rodrigues o dirigente de maior prestígio da história da instituição até aquela época. Como diretor do Jardim Botânico e com o apoio do médico e político Miranda de Azevedo, ele finalmente conseguiu publicar em 1903 sua obra sobre palmeiras,
Sertum Palmarum brasiliensis. Seus opositores do passado se encontravam ocupados com outras questões, e a comunidade científica já o reconhecia como um grande naturalista. Ainda hoje, ele é considerado internacionalmente um dos botânicos de maior expressão que o Brasil já teve.




Ladislau Neto

 O cientista Brasileiro favorito do Imperador Dom Pedro II


O cientista Brasileiro favorito do Imperador Dom Pedro II foi o Botânico Alagoano Ladislau Netto. Foi nomeado por convite do Monarca para ser diretor do Museu Nacional, em 1870, sendo efetivado no cargo em 1876, que pretendia fazer daquele museu um grande centro de exposição e aprendizado científicos.

O apoio Imperial fez de Ladislau Netto o cientista mais influente do Brasil de sua época. Em 1882, o Museu Nacional, sob sua direção, promoveu uma grande Exposição Antropológica, que teve repercussão internacional. Com a queda da monarquia, em 1889, Ladislau Netto perdeu seu prestígio, aposentando-se em 1893.


Um ano antes de se afastar do Cargo de Diretor, Ladislau ordenou que o acervo do Museu Nacional fosse transferido do Campo de Santana (atual Museu Casa da Moeda) para a Antiga Residência de seu protetor, o Imperador, no Palácio Imperial de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista, com o objetivo de preservar a memória do maior mecenas da Ciência Brasileira de sua época e levar o acervo científico do Museu para um Lugar mais amplo e conhecido pela população. A Família Imperial contribuiu para a acervo do Museu Nacional em 1891, doando a Coleção Arqueológica da Imperatriz Dona Teresa Cristina.

Ladislau Netto aplicou, no Museu, o que foi objeto da sua formação e de sua experiência na Europa. Os planos de Ladislau Netto consistiam em tornar o Museu um centro de pesquisa e de estudos para acompanhar a evolução da ciência, promovendo a produção científica no País. No Regulamento de 1876, instituído pelo Decreto nº 6.116, de 9 de fevereiro, o Museu tinha, por finalidade, estudar a “História Natural, particularmente do Brasil [...] ensino das ciências físicas e naturais, sobretudo em suas aplicações à agricultura, indústria e artes”

Nesse sentido, podemos inferir que Ladislau Netto se apresenta como um precursor, no
Brasil, da introdução da Antropologia, da Etnografia e da Arqueologia em museus brasileiros.



Jules Gabriel Verne (Júlio Verrne)

 Júlio Verne foi um escritor francês que contribuiu para a ficção científica e para a literatura mundial. Suas obras foram traduzidas para mais de 148 idiomas e tiveram várias adaptações para o cinema e para a televisão.

Júlio Verne é considerado o criador da ficção científica por alguns estudiosos. As suas obras descrevem eventos e avanços científicos que só se tornaram realidade décadas depois.

Algumas das contribuições de Júlio Verne foram:
Previsão de avanços científicos, como a televisão, o helicóptero, o avião, o submarino, as viagens espaciais, entre outros
Criação de realidades futuristas, com a presença de máquinas voadoras
Unificação da literatura e da ciência
Posicionamento sobre o uso errôneo da tecnologia pela humanidade e os impactos ambientais

Algumas das obras mais famosas de Júlio Verne são: Viagem ao Centro da Terra (1864), Da Terra à Lua (1865), Vinte Mil Léguas Submarinas (1870), A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1873), A Ilha Misteriosa (1874).


Previsões futurísticas:


Da Terra à Lua

O escritor francês descreveu em em sua obra “Da Terra à Lua” módulos de viagem que seriam enviados para o espaço por canhões capazes de vencer a gravidade e, inclusive, o ponto exato de partida da missão Apollo 11, que foi da Flórida à Lua em 1969.
Nessa mesma obra, ele descreveu espaçonaves que seriam movidas pela luz e que seriam equivalentes a tecnologia de velas solares usadas por espaçonaves modernas.

Vinte Mil Léguas Submarinas


Já em “Vinte Mil Léguas Submarinas”, descreveu o submarino “Nautilus” que seria movido a eletricidade, tendo o Submarino surgido somente mais de uma década após o relato de Verne.
Além disso, nesse mesmo livro ele descreveu uma arma capaz de lançar projéteis de eletricidades estática, arma essa bem semelhante aos teasers atuais.

O Dia de Um Jornalista Americano no Ano 2889

Já em O Dia de Um Jornalista Americano no Ano 2889,
Verne descreveu o que depois de oitenta anos viriam a ser os jornais transmitidos na televisão, um veículo onde jornalistas e cientistas iram contar os acontecimentos do dia.

Da mesma forma, ele descreveu o 'fonotelefoto' que seriam aparelhos capazes de enviar informações, áudio e imagens dos acontecimentos em tempo real, em uma espécie de tela, que seria bem similar no contexto de hoje em dia aos computadores e smartphones que utilizamos.

Curiosidades


Teve mais de 100 livros publicados;

Entre os mais conhecidos estão Vinte mil léguas submarinas, A volta ao mundo em 80 dias e Viagem ao centro da terra;

Atualmente, ele é o escritor cuja obra foi a mais traduzida em toda a história, com traduções em aproximadamente 148 línguas;

Verne teve em vida apenas um único filho, Michel Jean Pierre Verne;

Após a morte do escritor francês seu filho foi o responsável por completar algumas obras suas inacabadas, como A Missão Barsac.

Sem sombra de dúvidas que Júlio Verne foi e sempre será um dos escritores mais memoráveis que existiram, com uma extensa obra atemporal e capaz de inspirar as atuais e futuras gerações.

Ler as suas obras é mais do que uma homenagem a ele enquanto artista, mas sim um tributo a literatura de maneira geral.

André Rebouças deixou um legado antirracista e de contribuições para o desenvolvimento do Brasil.

 Como engenheiro, Rebouças participou de obras como: 

- A construção da estrada de ferro que liga Curitiba a Paranaguá

- A construção do túnel que liga as zonas Norte e Sul do Rio de Janeiro

- A construção de pontes

- A construção de sistemas de abastecimento de água

- A reforma de portos e fortificações do litoral brasileiro

- Como educador, Rebouças lecionou na Escola Politécnica e defendeu a educação técnica e agrícola. 

Como ativista político, Rebouças foi um dos principais nomes do movimento abolicionista no Brasil. Ele participou da criação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e contribuiu para a elaboração da Lei Áurea.

Em outubro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.003, que oficializou André Rebouças como herói da pátria.

André Pinto Rebouças (1838-1898) nasceu na cidade de Cachoeira, região do recôncavo baiano, no dia 3 de janeiro de 1838. Filho do conselheiro Antônio Pereira Rebouças e da escrava alforriada Carolina Pinto Rebouças mudou-se para a Corte ainda criança, formou-se em engenharia e ensinou botânica, cálculo e geometria na Escola Politécnica do Rio de Janeiro.


Em 1854, André Rebouças ingressou na Escola Militar do Rio de Janeiro, concluindo o curso preparatório para oficialado em 1857 como 2° tenente. Bacharelou-se em 1859 em Ciências Físicas e Matemáticas pela Escola Militar da Praia Vermelha, obtendo o grau de engenheiro militar em 1860.

Além de sua notável carreira de engenheiro, junto de seu irmã Antônio Rebouças Filho, André Rebouças se destacou como um dos líderes do movimento abolicionista brasileiro.

A trajetória de Rebouças, como abolicionista, revela não apenas a sua contribuição intelectual no contexto do ideário da abolição, mas também a sua efetiva atuação no movimento desde os seus primórdios

Em novembro de 1880, ele já se envolvia na organização de um banquete oferecido ao Ministro dos Estados Unidos Henry Washington Hililard e, logo em seguida, tomava parte do grupo que fundou a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão.

Nessa década, ele foi particularmente ativo na imprensa, onde escreveu inúmeros artigos na Gazeta da Tarde e certamente atuou como elemento influente na formação de uma sociedade abolicionista na Escola Politécnica, onde era professor.

Com José do Patrocínio, ele redigiu o importane Manifesto da Confederação Abolicionista em 1883 e finalmente foi ele quem rascunhou, em 1888, as bases da Lei
Áurea de 13 de maio. Sua discreta figura foi, de fato, uma presença marcante do processo abolicionista no Brasil.

Sua visão modernizadora, progressista e liberal levou-o a contrapor-se a todas as formas de escravização e não apenas àquela gerada pela instituição da escravidão negra. Suas idéias sobre a imigração. por exemplo, refletem a sua oposição à escravidão, dentro de um contexto muito mais amplo, o qual pressupunha evitar a"reescravização do imigrante pelos donos da terra' de acordo com a sua própria ex-
pressão.

Suas ideais receberam apoio e simpatia do Imperador Dom Pedro II e da Princesa Regente Dona Isabel, a quem Rebouças muito influenciou durante a Campanha Abolicionista, chegando a ajudar a família Imperial a abrigar escravos fugidos em Petrópolis

É fácil perceber-se, portanto, que nesse sentido, as propostas de Rebouças nunca estiveram restritas apenas à abolição do negro escravo elas se estenderam também em defesa de uma política econômica e social voltada para evitar outras formas alternativas de escravidão como aquela - segundo a sua visão - dos próprios fazendeiros, ao utilizarem o imigrante - colono como substituta do trabalho escravo. Em sua visão, este deveria se tornar proprietário de sua própria terra e não um mero cultivador da terra alheia. Para que a utopia se tornasse realidade, mister se fazia, segundo a visão de Rebouças, promover um programa social e econômico direcionado para a redistribuição da terra através da eliminação da grande propriedade e a introdução da pequena pressupostos basilares pano estabelecimento. no pais de sua "democracia rural brasileira"

Além dos projeto base da Lei Áurea, Rebouças elaborou um extenso projeto educacional para capacitar os trabalhadores brasileiros, sobretudo quando o debate abolicionista ganhou força. Por ter sofrido diversos atos de preconceito racial em função de ser negro, Rebouças ressaltava sua preocupação com os negros libertos que com o advento da abolição precisariam receber “instrução e trabalho”.

Entendia que ensino em nível técnico e a especialização profissional eram a base para uma mudança de caráter social e econômico do Brasil. Segundo ele, democratizando a atividade rural e universalizando o ensino primário, secundário e técnico entre a população degradada, seria possível pensar um país mais moderno, industrial e forte economicamente, capaz de deixar para trás o atraso social: "Necessitamos de instrução e capital. E como não é possível construir escolas, comprar livros e pagar mestres sem capital, é preciso resolver simultaneamente o problema do capital e o problema da instrução: “não se pode ensinar a ler quem tem fome"

Após o golpe militar que derrubou a Monarquia em 1889 André Rebouças acompanhou a Família Imperial Brasileira ao Exílio pois não via a possibilidade de seus planos sócio econômicos se concretizarem em Republica implantada com o apoio da elite cafeeira.

Livro Os Sertões

 O livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, deixou um legado cultural significativo no Brasil, influenciando a literatura, o pensamento social e político.

Os Sertões é considerado um clássico da literatura brasileira e uma obra fundamental para entender a história e a cultura do país.

O legado do livro inclui:
Questionamento de preconceitos e estereótipos sobre o sertanejo
Contribuição para a compreensão da diversidade e complexidade do Brasil
Levantamento de questões sobre justiça social, desigualdade e marginalização
Análise da psicologia do sertanejo e de seus costumes
Descrição da relação do sertanejo com o meio, sua gênese etnológica, seu comportamento, crença e costume
Combinação de análise científica e sensibilidade artística

Os Sertões é uma obra regionalista que narra a Guerra de Canudos, que ocorreu na Bahia entre 1896 e 1897


Obra-prima não nasce do nada

Euclides da Cunha chega a Salvador em agosto de 1897, adido à comitiva do marechal Carlos Machado Bittencourt, ministro da Guerra. Vinha comissionado pelo jornal O Estado de S.Paulo, como correspondente especial para cobrir a Guerra de Canudos, iniciada em Uauá, em novembro de 1896. Os rebeldes seguidores de Antônio Conselheiro àquela altura haviam imposto derrota a três brigadas militares. A quarta expedição, chefiada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães, há mais de três meses esbarrava na tenaz capacidade de resistência dos sertanejos, assustando o país e fazendo-o acreditar que, num fim de mundo da Bahia, tramava-se contra a recém-criada República.

Euclides já tinha vasto conhecimento não só da natureza mas também dos habitantes do sertão. É que, ainda em São Paulo, Teodoro Sampaio (1855-1937) o suprira de pormenorizadas informações sobre o universo por onde, em 1897, viajara na companhia do engenheiro americano William Milnor Roberts. O autor de O Rio de S. Francisco e a Chapada Diamantina (1879-80) fornecera a Euclides notas sobre as terras do sertão pelo qual perambulara e cópia de mapa, na parte referente a Canudos e o vale superior do Vaza-Barris, ainda desconhecido.

Durante a redação de sua obra, Euclides inúmeras vezes recorreu ao amigo Teodoro Sampaio, a quem solicitava esclarecimento e informações sobre pontos nebulosos da história e da geografia. Visitava com assiduidade o geólogo, geógrafo, tupinólogo e historiador, seu principal confidente. Narrava-lhe episódios da luta desigual e que o deixara traumatizado. Depõe Teodoro: ”Foi neste estado de alma que escreveu Os sertões. O escritor másculo que se ia revelar, vinha cheio das mais desencontradas impressões. As cenas daquelas terras devastadas pelas secas periódicas e pela cólera insana dos homens, revelavam-se-lhe de um imprevisto inimaginável e ele como que se sentia com forças para fixá-las na tela de uma obra imperecível. Parecia-lhe isso uma reparação, uma dívida a pagar à memória daquela gente obscura que soube morrer por um ideal.”

Aos domingos, dezenas de laudas debaixo do braço, Euclides ia visitar Teodoro. Lia textos para o mestre que escutava com atenção os reparos.

Teodoro Sampaio foi um dos mais valiosos colaboradores de Euclides da Cunha na fase preparatória de sua obra. Repassou ao discípulo cópias de cartas-régias, roteiros, alvarás, crônicas dos jesuítas, biografias, manuscritos dos tempos coloniais, histórias, lendas, memórias e tradições, compilados de Aires do Casal, Acióli, Pedro Taques, Araújo Porto Alegre, Alexandre Rodrigues Ferreira. E raras referências bibliográficas com as quais Euclides poderia pesquisar e cotejar: institutos, academias, bibliotecas, arquivos do Rio e da Bahia, longa e metodicamente selecionadas.