CiĂȘncia e literatura como proposta transdisciplinar de conscientização ecolĂłgica
A proposta do presente artigo Ă© apresentar alguns pontos relevantes da histĂłria
natural das formigas e as possĂveis associaçÔes que podem ser feitas em um contexto
transdisciplinar de conscientização ecolĂłgica. A partir deste grupo de insetos, Ă© possĂvel
fazer generalizaçÔes e posteriormente estender conclusÔes ecológicas para outros grupos
taxonĂŽmicos, estabelecendo conceitos fundamentais sobre os serviços ecossistĂȘmicos
desempenhados pelas variadas formas de vida que nos cerca – e que na maioria das vezes
estĂĄ oculta aos olhos humanos. Mesmo com o excepcional volume de informação disponĂvel
nos dias de hoje, principalmente por causa da revolução de meios de comunicação, a falta
de integraçÔes que esclarecem conceitos e universalidades do conhecimento ainda é um
desafio contemporĂąneo. Ao me basear em conceitos ecolĂłgicos para apresentar a vida social
das formigas, invoco passagens da literatura brasileira como proposta de uma abordagem
integrativa que se manifeste em uma reflexĂŁo ecolĂłgica sobre nosso papel no gerenciamento
e conservação da biodiversidade brasileira.
Introdução
HĂĄ algum tempo circularam pelas redes sociais alguns vĂdeos que mostravam a
arquitetura de uma enorme colĂŽnia de formigas, revelando uma espantosa estrutura composta
de tĂșneis no subsolo de uma floresta2
que deixaria Oscar Niemeyer embasbacado. De
imediato, lembrei-me de um provérbio sobre esses insetos que muitas pessoas pensam ser
insignificantes. SalomĂŁo, o famoso rei de Israel, parece ter adquirido alguns ensinamentos
pertinentes para governar seu povo depois de observar esses minĂșsculos artrĂłpodes quando
aconselha: ―vai ter com a formiga, Ăł preguiçoso, e considera o seu proceder, e aprende dela a
sabedoria. NĂŁo tendo ela guia, nem mestre, nem prĂncipe, faz o seu provimento no estio, e
ajunta no tempo da ceifa com que se sustentar‖ (Livro dos ProvĂ©rbios, 6: 6-8).
Quando norteamos abordagens ou discussÔes de acordo com os preceitos da Ecologia
(ou de qualquer ramo cientĂfico derivado dela, como a Biologia da Conservação), temos de
levar em conta toda a gama de interaçÔes que ocorre entre os seres vivos. Embora isso não
seja uma tarefa nada fĂĄcil, as formigas sĂŁo um bom exemplo para descortinar a complexidade
de interaçÔes ecolĂłgicas que ocorrem na natureza; ainda, esse grupo taxonĂŽmico representa bem a importĂąncia e magnitude dos serviços ecolĂłgicos prestados que sĂŁo invisĂveis ou
negligenciados no cotidiano da maioria das pessoas. A estrutura de formigueiros mostrados
em vĂdeos populares na web, apesar de serem impressionantes, Ă© apenas uma pequena amostra
do poder secreto destes insetos. Hå muitos espaços interessantes que abordam sua vida social,
desde entrevistas com especialistas3
, até documentårios completos4
conduzidos por
entomĂłlogos (i.e., cientistas que estudam insetos) de referĂȘncia mundial no estudo desses
incrĂveis animais, mas por ora, limito-me a invocar uma passagem que nos dĂĄ informaçÔes
muito relevantes sobre o papel ecolĂłgico das formigas, ao mesmo tempo que enfatiza o nosso
viĂ©s antropocĂȘntrico de pensar o mundo. O trecho a seguir Ă© do livro autobiogrĂĄfico
Naturalista (1997, pg. 279) do renomado biĂłlogo Edward O. Wilson, professor e pesquisador
da Universidade de Harvard, EUA:
Manchinhas avermelhadas e escuras que ziguezagueiam pelo chĂŁo para se enfiarem buracos,
elas estĂŁo em toda parte; com o peso expresso em miligramas, sĂŁo habitantes de uma
estranha civilização que oculta de nossos olhos sua rotina diåria. Por mais de cinquenta
milhÔes de anos e onde quer que haja terra, com exceção das camadas de gelo das regiÔes
polares e alpinas, as formigas tĂȘm sido insetos esmagadoramente dominantes. Pelos meus
cålculos, hå de um a dez quatrilhÔes de formigas vivas, todas pesando juntas, pela ordem
mais prĂłxima de magnitude, tanto quanto a totalidade dos seres humanos.
Mas uma diferença, uma diferença vital se oculta nessa equivalĂȘncia. Enquanto as formigas
existem na quantidade mais correta possĂvel em relação ao restante do mundo vivo, os
humanos se tornaram numerosos demais. Se estivéssemos fadados a desaparecer hoje, o
ambiente terrestre retornaria ao fĂ©rtil equilĂbrio que prevalecia antes da explosĂŁo
populacional humana. Apenas cerca de uma dezena de espécies (entre as quais os piolhos,
cães e gatos domésticos e um åcaro que vive nas glùndulas sebåceas de nossa testa)
dependem de nĂłs. Mas, se as formigas desaparecessem, dezenas de milhares de outras
espécies de plantas e animais pereceriam também, simplificando e enfraquecendo por quase
toda parte os ecossistemas terrestres."
Este épico e retumbante sucesso na colonização e estabelecimento em solos ao redor
do mundo se deve a uma exĂmia organização social - que chega a espantar pela simplicidade -
que se resume a colaboração e divisĂŁo de funçÔes. E quando tomamos consciĂȘncia deste fato,
Ă© difĂcil evitar a sensação de que o planeta, em boa parte, pertence Ă s formigas, por mais
desagradĂĄvel que isso soe aos ouvidos humanos; Ă© chocante perceber que as formigas nĂŁo sĂŁo
pragas. A essĂȘncia da transcrição acima Ă© essa verdade ecolĂłgica: se as formigas desaparecessem, centenas de milhares de espĂ©cies seriam extintas e muitos ecossistemas
ficariam perigosamente desestabilizados. Essa importùncia na estruturação dos ecossistemas
terrestres do planeta se då por regras elementares envolvidas na manutenção da vida, que
essencialmente respeitam princĂpios bĂĄsicos da termodinĂąmica:
(1) o da conservação de
energia, que prova que um sistema nĂŁo pode criar ou consumir energia, mas apenas armazenĂĄla ou transferi-la, e
(2) o da entropia, que Ă© a tendĂȘncia da energia se dissipar.
As formigas tĂȘm um papel fundamental no dinamismo dos ciclos biogeoquĂmicos que
são responsåveis pelos fluxos de energia e matéria na natureza, uma vez que elas participam
de muitas etapas ecolĂłgicas desses processos. Ao lado dos cupins e minhocas, as formigas
arejam, revolvem e drenam diariamente toneladas de terra e assim garantem a boa saĂșde do
solo, mais tarde enriquecido pela matĂ©ria orgĂąnica que os insetos levam para os ninhos. ―Hoje
se sabe que as formigas sĂŁo mais importantes que as minhocas nesse trabalho‖, diz o
mirmecĂłlogo (i.e., especialista em formigas), Carlos Alberto BrandĂŁo, da Universidade de
SĂŁo Paulo. Edward Wilson, por sua vez, calcula que elas desfazem e enterram nove de cada
dez pequenos animais mortos em qualquer ponto do planeta (DIEGUEZ & PAPAROUNIS,
1993).
A Ecologia Ă© um ramo cientĂfico muito recente na histĂłria da ciĂȘncia, o que a faz
emprestar conceitos de vĂĄrias ĂĄreas do conhecimento, sendo portanto uma disciplina
transdisciplinar por excelĂȘncia. O mais interessante na filosofia cientĂfica Ă© justamente o fato
de assumir que cientista algum poderĂĄ jamais fazer uma descoberta sem se basear sobre os
elementos deixados por seus antecessores. E tĂŁo espantosa quando interessante, Ă© a
constatação que certas ideias sĂŁo compartilhadas em vĂĄrias linhas de pesquisa. Ă atribuĂdo a
Antoine Laurent de Lavoisier (1743 —1794), o quĂmico francĂȘs considerado o pai da quĂmica
moderna, um aforismo bem conhecido que encerra em si a ideia mais elementar da
termodinĂąmica e da prĂłpria ecologia: ―Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se
transforma.
Os ecossistemas terrestres nĂŁo fogem Ă essa regra, afinal eles funcionam como
qualquer sistema termodinĂąmico estudado por fĂsicos ou quĂmicos que investigam o
comportamento de partĂculas, ĂĄtomos ou molĂ©culas. Na ecologia, entretanto, a unidade mais
båsica e fundamental para o entendimento de um ecossistema é a espécie, daà a importùncia
de se conhecer bem a histĂłria natural de nossa flora e fauna para entendermos a dinĂąmica e
funcionamento de comunidades e ecossistemas. Somente assim poderemos nos beneficiar de seus serviços, inclusive para nosso bem-estar e qualidade de vida, sem a agressão desenfreada
e inconsequente da atualidade, e para isso Ă© essencial que continuemos a aprender e encontrar
soluçÔes observando o mundo vivo ao nosso redor – mas nos inserindo no ambiente como
mais um ramo na ĂĄrvore da vida, e nĂŁo com o pensamento antropocĂȘntrico de estamos no topo
de alguma escala evolutiva.
A natureza Ă© grande nas coisas grandes, e grandĂssimas nas pequeninas: o valor das
pequenas coisas na Ecologia e na Evolução
O sucesso evolutivo das formigas tem muito a ver com a vida em grupo, uma preciosa
combinação envolvendo organização, especialização e cooperação, tudo isso sustentado por
um sistema de comunicação, sobretudo quĂmica, desenvolvimento durante sua longa histĂłria
evolutiva (WILSON, 2013). A seleção de håbitat, por exemplo, é feita por uma espécie de
consenso. Cada formiga libera marcadores quĂmicos em partes da trilha, informando assim
que tem preferĂȘncia por aquele trecho. Comunicação, colaboração: quanto mais forte o sinal
quĂmico, mais a trilha Ă© usada. Portanto, elas nĂŁo tĂȘm lĂder, e sim um consenso da
comunidade, que Ă© estabelecido pela intensidade do ‗aroma quĂmico‘. Outro exemplo de
cooperação Ă© o que os cientistas chamam de ‗estĂŽmago social‘: em algumas espĂ©cies, castas
especializadas regurgitam o alimento coletado fora do formigueiro para os indivĂduos que
ficaram trabalhando na manutenção interna da colÎnia. Cada vez mais, as pesquisas com esses
insetos mostram a grandiosidade da ação em conjunto, que equivale a um superorganismo.
Para se ter uma ideia da magnitude do impacto ecolĂłgico desses insetos, basta dizer que o
consumo de biomassa pelas formigas dos pampas argentinos afeta o consumo de capins por
parte do gado criado na regiĂŁo.
Se a sociedade humana ainda tem muito o que aprender com as das formigas, somos
dignos de dĂł quando nos compararmos individualmente com esses guerreiros em miniatura.
Além de jå nascerem com uma estrutura corporal (exoesqueleto) que mais parece uma
armadura de samurai, experimentos mostram que a taxa metabĂłlica das formigas Ă© bem
superior Ă nossa – e.g., ao cortar uma folha com suas mandĂbulas, a taxa metabĂłlica de uma
formiga Ă© trĂȘs vezes maior do que a de um atleta no mĂĄximo de sua performance. Sem contar
a carga transportada em proporção ao peso corporal ou às distùncias percorridas. Nesse
sentido, uma saĂșva carregando apressadamente um pedaço de folha equivaleria a um ser humano carregando um fardo bem pesado, por dezenas de quilĂŽmetros, sem parar, a uma
velocidade que nunca atingirĂamos a pĂ©.
Oliveira (1990) faz um levantamento de curiosidades interessantes relacionadas a
refinada organização social das formigas, e como elas não cessam de maravilhas os
pesquisadores. Para o nosso contexto, vale ressaltar que se todos os animais terrestres fossem
colocados numa balança, 1/10 do peso (cerca de 900.000 toneladas) seria representado por
formigas, esse inseto com menos de um milionésimo da massa de um ser humano. Isso
significa que a população de formigas Ă© maior que a de todas as aves, rĂ©pteis e anfĂbios
juntos, sendo estimada em torno de 10 quintilhĂ”es de indivĂduos (o nĂșmero 1 seguido de
dezenove zeros). "Mas nĂŁo Ă© pelo peso ou pelo nĂșmero que as formigas devem ser
distinguidas", lembra o entomolĂłlogo americano E. O. Wilson, da Universidade Harvard. "O
desaparecimento desses insetos poderia levar à extinção milhares de espécies,
desestabilizando a maioria dos ecossistemas." Wilson e seu colega Bert Hölldobler
publicaram em 1994, nos Estados Unidos, o livro Ants (Formigas), logo aclamado como um
clĂĄssico, onde analisam o comportamento de seus animais preferidos e aponta vĂĄrias
peculiaridades de sua organização social.
Outro papel ecolĂłgico desempenhado pelas formigas que Ă© de suma importĂąncia Ă© a
disseminação de sementes de plantas e a função de ‗faxineiras‘, jĂĄ que comem atĂ© 90% dos
cadåveres de pequenos animais. Todos esses trabalhos são levados muito a sério. Para
começar, nada de sexo - atividade exclusiva das rainhas. As trabalhadoras devem se limitar a
fazer a parte que lhes toca para conservar o lar comunitårio e garantir a propagação dos genes
de sua parenta privilegiada. Assim, para realizar suas funçÔes com plena eficiĂȘncia, cada uma
se especializa ao mĂĄximo, mudando a prĂłpria anatomia. Os soldados sĂŁo fĂȘmeas que trocaram
os ĂłrgĂŁos reprodutores por um abdĂŽmen cheio de armas biolĂłgicas. O gĂȘnero asiĂĄtico
Camponotus, por exemplo, é uma verdadeira bomba, que rompe o próprio corpo para lançar
veneno sobre os adversårios. As lava-pés, como são conhecidas as Solenopsis invicta nativas
do sul do Brasil, tem um veneno forte que causa sensação de queimadura. Elas associam-se
em colÎnias protegidas por um contingente de até 100.000 soldados. Longe de casa, são
capazes de unir-se rapidamente para o combate por meio de ordens quĂmicas. As formigas,
por sinal, dominam uma linguagem quĂmica complexa. Uma colĂŽnia comum pode farejar no
ar 1 trilionĂ©simo de grama de uma dĂșzia de sinais de cheiros diferentes, de acordo com os
feromĂŽnios secretados no solo por vĂĄrias glĂąndulas. Ă desse modo que uma operĂĄria indica a
outra companheira o caminho atĂ© um inseto morto. Mas o talento das formigas como quĂmicas tem seu melhor exemplo na Oecophylla, a formiga-tecelĂŁ que vive em ĂĄrvores.
Presentes em abundĂąncia nas florestas da Ăfrica e no sudoeste da Ăsia, elas se utilizam da
seda produzida pelas larvas para ligar folhas e galhos, formando grandes e seguros pavilhÔes
aéreos, que funcionam como as teias das aranhas (OLIVEIRA, 1990).
Atualmente Ă© bem sabido pela ciĂȘncia que o CO2 Ă© o principal gĂĄs emitido por meio de
atividades humanas, de acordo com a RevisĂŁo de Gases Estufa da AgĂȘncia de Proteção
Ambiental dos Estados Unidos. E o volume liberado só aumentou desde a revolução
industrial, contribuindo para o aquecimento global. O que foi novidade para a comunidade
cientĂfica muito recentemente Ă© que as formigas tambĂ©m podem ajudar a capturar CO2 e
auxiliar na luta contra o aquecimento global. Schults (2014) explica os detalhes mais
relevantes de estudo publicado recentemente no periĂłdico Geology, onde os pesquisadores
associaram as formigas à aceleração do armazenamento de dióxido de carbono natural em
rochas. Respondendo ao estudo, David Schwartzman, professor emĂ©rito de biogeoquĂmica da
Howard University que revisou a pesquisa, declarou que as formigas podem ter um papel
importante parar o sequestro de carbono da atmosfera, embora as pesquisas nessa ĂĄrea ainda
estĂŁo apenas em seus primeiros passos.
Por outro lado, o papel das formigas na cadeia alimentar jĂĄ Ă© bem conhecido pelos
ecólogos. Muitas aves, lagartos, sapos, alguns besouros e também o homem incluem esses
insetos em suas dietas. "Os Ăndios tupis jĂĄ preparavam hĂĄ centenas de anos as ycobas (içås),
palavra que significa gordura, devido ao abdÎmen cheio de ovos", informa o zoólogo Nélson
Papavero, no livro Insetos no folclore. "Eram torradas como amendoim, moqueadas e servidas
com molho de tucupi bem apimentado ou então assadas em paçoca com farinha de
mandioca", descreve Papavero. Alguns grupos indĂgenas usam tambĂ©m as gigantes saĂșvassoldados como grampos para ligar as bordas de cortes na pele. A aplicação Ă© simples:
colocam as formigas para morder a ferida e arrancam seus corpos, ficando a cabeça presa ao
ferimento para auxiliar a cicatrização (OLIVEIRA, 1990).
A organização e eficiĂȘncia da vida em sociedade: as saĂșvas como personagens da
histĂłria do Brasil
Qualquer pessoa que tenha observado as paisagens em torno das estradas ou reparado
em algum pasto em sua cidade jĂĄ avistou grandes formigueiros ou cupinzeiros, uma vez que
ao edificar suas moradas estes insetos acumulam montes de terra na superfĂcie, chegando a alturas considerĂĄveis. Oliveira (1990) ressalta que essas construçÔes de terra sĂŁo endurecidas
como um verdadeiro telhado de barro, que acabam abrigando alguns atraindo outros, como
tatus e tamanduĂĄs, cujo prato predileto (e invariĂĄvel o ano inteiro) sĂŁo precisamente formigas
saĂșvas. Outros bichos preferem esperar a Ă©poca da primavera, quando as formigas aladas
encarregadas da reprodução (no caso das saĂșvas, elas conhecidas como içås ou tanajuras, no
caso das fĂȘmeas, e bitus, os machos) começam a revoada de acasalamento. O autor tambĂ©m
discute os benefĂcios e prejuĂzos que as formigas podem causam aos seres humanos, pois com
a mesma eficiĂȘncia que elas revolvem a terra e contribuem para a fertilidade do solo, elas
tambĂ©m pode destruir lavouras inteiras ou mesmo competir com o gado por gramĂneas.
Essa voracidade das saĂșvas fez com que elas adquirissem mĂĄ fama, pois sĂŁo uma das
forças mais dominantes do planeta, e em alguns casos, tão inteligentes quanto suas primas, as
abelhas. Dieguez. & Paparounis (1993) destacam que os entomĂłlogos defendem que as
formigas possuem uma espĂ©cie de inteligĂȘncia que nĂŁo funciona no cĂ©rebro, mas sim
embutida nas habilidades desenvolvidas em conjunto por esses pequenos seres. Acima de
tudo, sua sagacidade transparece por meio da vida em sociedade: entre milhÔes de espécies
classificadas na categoria dos insetos, apenas as formigas e os cupins desenvolveram ao
mĂĄximo esse mĂ©todo de dividir tarefas e multiplicar a eficiĂȘncia do trabalho. Em suas
comunidades, todas as fĂȘmeas operĂĄrias sĂŁo estĂ©reis e os machos servem apenas para
inseminar a rainha, Ășnica fĂȘmea fĂ©rtil. Chamam-se ―eussociais‖ os seres que praticam tal
forma de matriarcado, que foi decisiva: somente 5% de todas as espécies de abelhas, por
exemplo, tĂȘm comportamento social, mas estas Ășltimas superam largamente em nĂșmero os
95% restantes.
NĂŁo Ă© Ă toa, portanto, que costuma-se dizer que colmeias e formigueiros nĂŁo sĂŁo
simples ninhos, e sim uma espĂ©cie de ‗superorganismo‘. As bem conhecidas colmeias
abrigam em média 50.000 moradores, mas os sauveiros são ainda mais complicados, e podem
reunir mais de 5 milhĂ”es de habitantes. Em cada um deles, tĂșneis estreitos interligam dezenas
de cĂąmaras — os locais onde as saĂșvas efetivamente vivem. SĂŁo ocos subterrĂąneos,
geralmente com meio metro de altura, usados para diversas funçÔes: desde lixeiras
comunitårias (também usadas como cemitérios), até berçårios onde a rainha deposita ovos. No
final, a construção equivale a um prĂ©dio de trĂȘs andares enterrado a 10 metros de
profundidade. AĂ, o maior compartimento Ă© o de cultivo, onde folhas que chegam do exterior
sĂŁo dispostas com cuidado e adubadas com o hormĂŽnio fertilizante, excretado pela rainha, o
ĂĄcido indolil-acĂ©tico. Uma casta inteira de saĂșvas, as chamadas jardineiras, com cerca de 2 milĂmetros de comprimento, nunca sai do formigueiro. Elas existem para cuidar do fungo, o
que inclui cortar ‗ervas daninhas‘, ou seja, os fungos que nĂŁo servem para comer. As
cortadeiras, que trazem as folhas, tĂȘm 5 milĂmetros e labutam no mundo externo sob a
proteção dos taludos soldados, com 1,5 centĂmetro. Estima-se que um sauveiro maduro chega
a cortar cerca de 8 toneladas de folhas por ano — o suficiente para alimentar trĂȘs bois.
(DIEGUEZ. & PAPAROUNIS, 1993).
Sem dĂșvida, foi justamente essa eficiĂȘncia que sustentou o visceral preconceito contra
a saĂșva, sendo possĂvel identifica-las atĂ© em passagem literĂĄrias, o que reflete que as saĂșvas
estão relacionadas com a própria história do Brasil. Jå em 1560, o padre José de Anchieta
afirmava desdenhosamente que, entre as formigas do paĂs, sĂł mereciam menção ―as chamadas
içås, que estragam as ĂĄrvores‖. O personagem MacunaĂma, da obra homĂŽnima, de 1928, do
escritor modernista brasileiro Mårio de Andrade, também faz menção a essas formigas em
particular quando atesta que ―pouca saĂșde e muita saĂșva, os males do Brasil sĂŁo". Esse verso
parece inspirado num vaticĂnio famoso, escrito 100 anos antes pelo naturalista francĂȘs
Auguste Saint-Hilaire: ―Ou o Brasil acaba com a saĂșva ou a saĂșva acaba com o Brasil‖. No
entanto, o erro bĂĄsico desse modo de ver as formigas como inimigas Ă© tirar da trama o
principal vilĂŁo da histĂłria: o prĂłprio homem. Hoje sabemos, por exemplo, que uma das causas
da proliferação de saĂșvas que acabou por provocar prejuĂzos catastrĂłficos na economia
brasileira no século passado se deve as dråsticas reduçÔes populacionais de tamanduås e
outros vertebrados que incluem as saĂșvas em sua dieta, uma vez que sofreram com a
fragmentação de hĂĄbitat provocado pelo avanço agrĂcola da Ă©poca para cultivo das plantaçÔes
de cafĂ©, uma das principais engrenagens econĂŽmicas do paĂs naquela Ă©poca.
Ă fĂĄcil perceber, Ă luz da ecologia, que a saĂșva causa grandes estragos onde o homem
gerou fortes desequilĂbrios ecolĂłgicos. Os pastos sĂŁo um exemplo histĂłrico: em alguns deles
se podem contar até mais de 50 sauveiros em cada quadrado de apenas 100 metros de lado.
Um caso notĂłrio dessa prĂĄtica ocorreu em Mato Grosso do Sul, que se diz ostentar a maior
concentração de formigueiros do mundo: reunidos num só, eles cobririam 500 quilÎmetros
quadrados, ĂĄrea quase igual Ă da cidade de Porto Alegre. O desastre foi detectado no centro do
Estado, onde a mata de 2.500 quilĂŽmetros quadrados havia sido derrubada para dar lugar
monocultura de eucaliptos. A conclusĂŁo inevitĂĄvel dos biĂłlogos Ă© que a ‗praga‘ saĂșva segue
os desajeitados passos humanos na natureza. E nĂŁo sĂł a saĂșva: a domĂ©stica lava-pĂ©s, por
exemplo, tem sido acusada de devorar até crianças no Estado americano do Texas, para onde foi levada provavelmente em cargas de navios (OLIVEIRA, 1990; DIEGUEZ &
PAPAROUNIS, 1993).
No caso das saĂșvas brasileiras, apesar de preferirem fazer o corte de folhas Ă noite
para evitar os predadores, Ă© possĂvel vĂȘ-las trabalhando durante o dia caso pressintam, por
mecanismos ainda desconhecidos, a chegada de chuvas no entardecer. Oliveira (1990) destaca
que durante as tempestades, estas incansĂĄveis formigas finalmente param de trabalhar para se
proteger no interior dos ninhos que, embora feitos de terra, nĂŁo ficam completamente
inundados. As cùmaras internas, ou panelas, como se denominam os grandes salÔes no
interior do sauveiro, sĂŁo dispostas lateralmente aos tĂșneis de forma a evitar que sejam
destruĂdos pelas grandes chuvas. Como nos diversos ambientes de uma residĂȘncia humana,
em cada cĂąmara pratica-se um tipo de atividade diferente. No que se poderia chamar de
cozinha, ou horta comunitåria, cultiva-se um fungo para a alimentação de toda a colÎnia; nos
quartos funcionam um tipo de berçårio para os ovos das saĂșvas, tambĂ©m criados em meio ao
fungo, e em outras dependĂȘncias funcionam o ‗lixĂŁo‘ e o cemitĂ©rio, onde sĂŁo depositadas as
formigas mortas da colĂŽnia. O fungo que serve de alimento Ă s formigas, o Pholota
gongylophora, por sinal, sĂł pode ser encontrado em cĂąmaras especĂficas. Ali, operĂĄrias
jardineiras, medindo de 2 a 3 milĂmetros, picam em partes cada vez menores os pedaços de
folhas que chegam, as quais sĂŁo implantadas nas esponjas de fungos, que as utilizam como
alimento. Além disso, as jardineiras retiram constantemente pedaços mortos do fungo, assim
como folhas secas, e mantĂȘm as condiçÔes climĂĄticas ideais para o desenvolvimento do
fungo, jå que longe desses cuidados, o Pholiota raramente sobrevive. Mas todo esse esforço
despendido pelas formigas Ă© compensado, uma vez que tal fungo lhes fornece a capacidade de
digerir a celulose e outras substĂąncias tĂłxicas dos vegetais.
Numa coisa, portanto, o herói de Mårio de Andrade estava certo: as diversas espécies
do gĂȘnero Atta sĂŁo o maior grupo de formigas do Brasil. O padre Anchieta e Saint-Hilaire
também anunciam bem o poder de um dos exércitos mais poderosos do mundo que, embora
compostos por minĂșsculos invertebrados, sĂŁo capazes de arquitetar cĂąmaras, galerias e tĂșneis
faraĂŽnicos e muito bem organizados para o funcionamento pleno do formigueiro. Mais uma
vez, devido a constante combinação que esses insetos sociais desenvolvem com maestria:
organização, especialização e cooperação.
Fluxo de energia e o conceito de capacidade de suporte: o que Ă© ser ‘ecologicamente
correto’? Uma lição a ser aprendida pelos humanos
Em Ășltima instĂąncia, toda e qualquer espĂ©cie tem o crescimento de suas populaçÔes
limitado pela disponibilidade de recursos no seu ambiente. Foi dessa fonte que bebeu o
próprio Charles Darwin (1809-1882) durante a gestação de sua teoria evolutiva, pois foi após
ler o livro ―Ensaio sobre princĂpios populacionais‖, do economista Thomas Malthus (1766-
1834), Ă© que o jovem naturalista inglĂȘs foi capaz de conceber o raciocĂnio de seleção natural –
o mecanismo que favorece os organismos mais bem adaptados para competir por recursos do
ambiente. Se somos mais uma espécie animal, nós não temos como fugir dessa regra;
pesquisas comportamentais com colÎnias de formigas podem oferecer informaçÔes preciosas
sobre o fluxo de energia e capacidade de suporte, algumas das quais podem ser aplicadas ao
Homo sapiens.
Em um estudo hoje considerado clĂĄssico, Lugo e colaboradores (1973) investigaram as
saĂșvas (Atta colombica) que vivem nas florestas tropicais Ășmidas da Costa Rica, onde
coletam fragmentos de folhas novas na vegetação, levando-os aos formigueiros subterrùneos a
fim de servirem de substrato para culturas de fungos, dos quais elas se alimentam. Os
pesquisadores estimaram os gastos de energia das diferentes atividades dentro de uma colĂŽnia
e concluĂram que a capacidade de suporte (i.e., o tamanho mĂĄximo da colĂŽnia) Ă© atingida
quando a entrada de calorias, na forma de folhas coletadas, equilibra o custo energético do
trabalho envolvido no corte e transporte das folhas, na manutenção das trilhas e no cultivo dos
fungos. Os pesquisadores observaram ainda que, em um dado momento, nas colĂŽnias grandes,
25% das formigas estavam carregando folhas, enquanto 75% estavam cuidando das trilhas e
dos jardins de fungos. Quando a entrada de energia era equilibrada pelos custos de
manutenção, a colÎnia parava de crescer.
Graças a estudos como esses, sabemos hoje que as colÎnias de formigas dependem de
subsĂdios enormes importados de fora, tirados, muitas vezes, de fontes que se acumularam
muito antes do aparecimento do ser humano. Ă consenso entre os pesquisadores que as
populaçÔes humanas parecem se aproximar dos nĂveis mĂĄximos da capacidade de suporte dos
seus respectivos ambientes. Apesar de atualmente a taxa de crescimento da população humana
ser declinante, parar de crescer nĂŁo impedirĂĄ que o consumo global deixe de aumentar. A
chave do problema Ă© baixar a taxa de consumo per capita, jĂĄ que os recursos limitantes que mais causam preocupação atualmente sĂŁo alimento, hĂĄbitat e combustĂveis fĂłsseis (ODUM &
BARRET, 2007).
A explosĂŁo demogrĂĄfica humana das Ășltimas dĂ©cadas foi promovida pelo aumento da
quantidade de alimento disponĂvel e, mais recentemente, pelas melhorias no saneamento
bĂĄsico. O primeiro fator elevou a taxa de natalidade, enquanto o segundo reduziu a de
mortalidade. Um exemplo familiar Ă© o hino da copa do mundo de futebol de 1970, que dizia
―noventa milhĂ”es em ação, pra frente Brasil do meu coração…‖. E fomos! Segundo o
Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂstica, o Brasil comportava mais de 190 milhĂ”es de
habitantes em 2010. Em 40 anos, portanto, mais do que dobramos a nossa população. Uma
consequĂȘncia lĂłgica disso foi o aumento na demanda por bens e serviços, o que implicou em
derrubarmos (mais) florestas, construirmos (mais) barragens – o que resultou em alagarmos
(mais) terrenos – e, por fim, produzirmos (mais) lixo e contaminantes. No fim das contas, a
demanda por mais espaço tende a fazer com que outras espécies percam seus håbitats, seja
para a construção de casas, ruas, rodovias, pastos ou plantaçÔes.
Como levantado anteriormente, nĂŁo fomos os inventores da agricultura e da pecuĂĄria,
e sim as formigas. Apenas dois gĂȘneros de todo o reino animal foram espertos o bastante para
fugir Ă s incertezas da vida e garantir a sobrevivĂȘncia por meio daquilo que semeiam e colhem.
O homem é definitivamente um novato: existe hå pouco mais de 2 milhÔes de anos, aprendeu
a arte do cultivo hĂĄ coisa de 100 sĂ©culos e hoje Ă© representado por uma Ășnica espĂ©cie sobre a
face do planeta, o Homo sapiens. Embora o processo de domesticação foi, sem dĂșvida, um
dos eventos mais importantes da histĂłria humana, ela Ă© muito recente em nossa histĂłria
evolutiva. A nossa agricultura, segundo os arqueĂłlogos, parece ter surgido e se espalhado em
diferentes regiÔes do mundo, em algum momento entre 10.000 e 5.000 anos atrås. A transição
de uma vida como coletores-caçadores para uma vida como cultivadores de alimento fez com
que a nossa civilização se tornasse sedentåria e prosperasse, o que na literatura técnica passou
a ser chamado de ‗a revolução do NeolĂtico‘ (WEISDORF, 2005). Por outro lado, as formigas
veem fazendo esses cultivos de outros seres vivos hå milhÔes de anos.
Os pulgĂ”es, que sĂŁo parentes prĂłximos das cigarras e dos percevejos, tĂȘm uma relação
mutualĂstica histĂłrica com as formigas que antecede qualquer hominĂdeo que jĂĄ tenha passado
pela face da Terra. Os pulgÔes se alimentam de seiva das plantas, um material rico em
açĂșcares, e o que nĂŁo Ă© digerido Ă© avidamente consumido por certas formigas. Estas, por sua
vez, cuidam do ‗rebanho de pulgĂ”es‘ ao afugentar predadores (GULLAN & CRANSTON, 2013). AlĂ©m da domesticação de animais, algumas formigas sĂŁo Ăłtimas agricultoras, jĂĄ que
cultivam fungos no interior de seus formigueiros. Cada pedaço de folha que chega a uma
colĂŽnia Ă© tratado com um defensivo natural produzido pelas prĂłprias formigas, para evitar que
microrganismos proliferem e contaminem o jardim de fungos. A eficiĂȘncia desse processo Ă©
muito superior ao que acontece quando aplicamos pesticidas para combater as pragas de
nossas lavouras.
Nossas formidĂĄveis concorrentes, que existem hĂĄ um tempo que se mede na casa dos
100 milhĂ”es de anos, trazem do berço as tĂ©cnicas agrĂcolas e sĂŁo representadas por dezenas de
espĂ©cies sobre a Terra. SĂŁo as saĂșvas que aprenderam a cultivar um fungo sobre um canteiro
de folhas cortadas, para depois usĂĄ-lo como alimento. Por isso, muitos entomĂłlogos,
estudiosos de insetos, as consideram os mais avançados animais dessa categoria — talvez
mais que as abelhas, suas primas. NĂŁo Ă© Ă toa que saĂșvas e abelhas tĂȘm tanta importĂąncia no
mundo moderno. Ambas são descendentes de um inseto sagaz que hå mais de 200 milhÔes de
anos descobriu um meio de colonizar o subsolo, que era, entĂŁo, um vasto e inexplorado
ambiente, apenas Ă espera de um aventureiro que o ocupasse (DIEGUEZ & PAPAROUNIS,
1993). Manter uma dieta bem versåtil também ajuda: "elas podem explorar diferentes recursos
de um ambiente sem limitação por especialização alimentar", diz o biólogo Rodrigo Feitosa,
da USP. Isso significa que as formigas nĂŁo sĂŁo superespecialistas em sua dieta; se uma fonte
de alimento acaba, elas se organizam para procurar outra sem deixar o formigueiro
desprotegido (COHEN, 2013).
Em organismos eussociais, como formigas, sĂŁo as caracterĂsticas da colĂŽnia que sĂŁo
transmitidas às futuras geraçÔes. Ou seja, o conceito de evolução se aplica ao coletivo, não ao
indivĂduo. As formigas que nĂŁo se reproduzem, como as operĂĄrias, tĂȘm mais tempo para se
especializar em outras tarefas, como a busca de alimento e a defesa do ninho. Cohen (2013)
afirma que para os biĂłlogos essa capacidade de evoluir em grupo Ă© um dos fatores que
garantiram a sobrevivĂȘncia das formigas por mais de 100 milhĂ”es de anos, lembrando que as
formigas tĂȘm relaçÔes simbiĂłticas (com vantagens para todos) com mais de 400 espĂ©cies de
plantas, milhares de artrĂłpodes, fungos e micro-organismos.
Formigas e literatura: como pĂŽr em prĂĄtica abordagens conservacionistas e
transdisciplinares? Um exemplo com GuimarĂŁes Rosa e os sistemas ecolĂłgicos do
Cerrado
Mesmo com o excepcional volume de informaçÔes disponĂveis nos dias atuais,
principalmente por causa das facilidades trazidas pela revolução dos meios de comunicação, a
falta de integraçÔes que esclareçam conceitos e universalidades do conhecimento ainda é um
desafio. à urgente e crescente a necessidade de se promover uma alfabetização ambiental
cientĂfica e sĂ©ria da população, mas essa abordagem de nĂveis mĂșltiplos e escala ampla
envolve sistemas inteiros de educação e inovação. Essa proposta de abordagem integrativa,
que se preocupa em desvendar explicaçÔes de causa e efeito por meio de um entendimento
transdisciplinar, tem sido chamada na literatura cientĂfica de consiliĂȘncia (WILSON, 1999),
de ciĂȘncia da sustentabilidade (KATES et al., 2001) e de ciĂȘncia integrativa (BARRET,
2001).
De fato, o desenvolvimento continuado da Ecologia parece estar cada vez mais se
estabelecendo como ciĂȘncia integrativa, tĂŁo necessĂĄria aos dias de hoje. No entanto,
estratégias transdisciplinares ainda são muito pouco exploradas no dia-a-dia das escolas
brasileiras, mesmo jĂĄ sendo bem sabido que para se divulgar ciĂȘncia de maneira clara e
efetiva, o pĂșblico deve se sentir inserido no processo histĂłrico, reencontrando-se nos outros e
identificando-se com eles. Somente esta conscientização é capaz de fazer com que o
conhecimento seja uma construção social que possa fazer o estudante transitar da inércia para
a autonomia, com participação ativa no meio em que vive, e não um mero produto final
resultante do acĂșmulo de dados e informaçÔes (FREIRE, 1987; TORRES, 1997).
O escritor GuimarĂŁes Rosa, cuja biografia mostra que ele viajou com tropeiros antes
de compor suas obras, Ă© citado aqui como exemplo por estar inserir as realidades locais do
Brasil, fornecendo uma caracterização detalhada do sertanejo (seus costumes, vocabulårio,
crenças), e também eternizando ambientes naturais pela descrição dos cenårios de suas
histĂłrias de modo bastante convincente. Em grande parte de seus livros ou contos, o escritor
mineiro compÔe paisagens e dinùmicas do Cerrado de uma maneira tão acurada que talvez
apenas biĂłlogos muito experientes soubessem descrever. Um professor nĂŁo teria grandes
dificuldades em explorar os conceitos ecolĂłgicos e os aspectos comportamentais da flora e da
fauna desse bioma, implĂcitos nos trechos a seguir:
Do povinho mais miĂșdo, por enquanto, apenas o eterno cortejo das saĂșvas, que vĂŁo sob as
folhas secas, levando bandeiras de pedacinhos de folhas verdes, e jĂĄ resolveram todos os
problemas do trùnsito. Ligeira, escoteira, zanza também, de vez em quando, uma dessas
formigas pretas caçadoras amarimbondadas, que dĂŁo ferroadas de doer trĂȘs gritos. Mas aqui
estå outra, pior do que a preta corredora: esta formiga-onça rajada, que vem subindo pela
minha polaina. Estå com fome. Quer das provisÔes. Desço-a e ponho-lhe diante de um
grumo de geleia e alguns grĂŁos de farinha. NĂŁo quis. Fugiu. Quem vai comer do meu farnel Ă©
todo o clĂŁ das quem-quem, esses trenzinhos serelepes, que tĂȘm ali perto a boca do seu
formigueiro. Uma por uma, se entrevem; largam os glĂłbulos de terra, trocam sinais de
antenas, circulam adoidadas e voltam para a cratera vermelha. Vou espalhar no chĂŁo mais
comida, pois elas sĂŁo sempre simpĂĄticas: ora um menino que brinca, ora uma velhinha a
rezar.
Como serĂĄ o deus das formigas? Suponho-o terrĂvel. TerrĂvel como os que o louvam... E isto
é também como o louva-a-deus, que, acolå, ereto, faz vergar a folha do junquilho. Ele estå
sempre rezando, rezando de mĂŁos postas, com punhais cruzados. Mas, no domingo passado,
este mesmo, ou um qualquer louva-a-deus outro, comeu o companheiro em oito minutos,
medidos no relĂłgio – deixou de lado apenas as rijas pernas-de-pau serrilhadas da vĂtima, e o
seu respectivo colete....Foi-se. (...). EntĂŁo fiquei meio deitado, de lado. Passou ainda uma
borboleta de pĂĄginas ilustradas, oscilando no voo pulandinho e entrecortado das borboletas;
mas se sumiu, logo, na orla das tarumĂŁs. EntĂŁo, eu sĂł podia ver o chĂŁo, os tufos de grama e o
sem-sol dos galhos. Mas a brisa arageava, movendo mesmo aqui em baixo as carapinhas dos
capins e as mĂŁos de sombra. E o mulungu rei derribava flores suas na relva, como se atiram
fichas ao feltro numa mesa de jogo. Paz.
- trecho do conto SĂŁo Marcos, na obra Sagarana (ROSA, 2001, pg. 282)
E ele achava muitas coisas bonitas, e tudo era mesmo bonito, como sĂŁo todas as coisas nos
caminhos do sertĂŁo. (...) Pela primeira vez na sua vida, se extasiou com as pinturas do
poente, com os trĂȘs coqueiros subindo da linha da montanha para se recortarem num fundo
alaranjado, onde, na descida do sol, muitas nuvens pegam fogo. E viu voar, do mulungu,
vermelho, um tiĂ©-piranga, ainda mais vermelho – e o tiĂ©-piranga pousou num ramo de
barbatimĂŁo sem flores, e NhĂŽ Augusto sentiu que o barbatimĂŁo todo se alegrava, porque
tinha agora um ramo que era de mulungu.
- trecho do conto A hora e a vez de Augusto Matraga, na obra Sagarana (ROSA, 2001, pg.
401-402)
O chapadĂŁo Ă© sozinho – a largueza. O sol. O cĂ©u de nĂŁo se querer ver. O verde carteado do
grameal. As duas areias. As arvorezinhas ruim-inhas. A diversos que passavam abandoados
de arraras – araral – conversantes. Aviavam vir os periquitos, com o canto-clim. Ali chovia?
Chove – e nĂŁo encharca poça, nĂŁo rola enxurrada, nĂŁo produz lama: a chuva inteira se sorve
em minuto terra a fundo, feito um azeitezinho entrador. O chĂŁo endurecia, cedo, esse
rareamento de ĂĄguas. O fevereiro feito. ChapadĂŁo, chapadĂŁo, chapadĂŁo. De dia, Ă© um horror de quente, mas pra noitinha refresca, e de madrugada se escorropicha de frio, o senhor isto
sabe.
- trecho do romance Grande SertĂŁo: Veredas (ROSA, 2001, p. 339-40).
Destrinchar os processos ecolĂłgicos, evolutivos e biogeogrĂĄficos subjacentes nestas
curtas passagens pode, concomitantemente, despertar o interesse de alunos que tenham
inclinação para as Letras. O modo peculiar de escrever de Guimarães Rosa pode estimulå-los
a se iniciar e/ou se aventurar, tambĂ©m, no mundo da literatura. Ă, pois, sob essa abordagem
que o conhecimento cientĂfico tambĂ©m pode ser trabalhado: integrando-o a outros campos do
saber. A ideia Ă© justamente descortinar para os educandos a conectividade que existe entre as
universalidades do conhecimento, sejam elas artĂsticas, culturais, histĂłricas, sociais, religiosas
ou cientĂficas.
O homem como gerenciador de biodiversidade: reflexÔes para o Brasil
O Brasil é conhecido por sua extraordinåria diversidade de espécies de formigas e hå
muitas décadas nossos cientistas estão dedicados a estudar vårios aspectos do grupo, desde
sistemåtica, história natural, comportamento, ecologia, interaçÔes com plantas, até fatores que
influenciam o nĂșmero e a composição de espĂ©cies de comunidades de formigas nos diferentes
ecossistemas brasileiros. Este grupo taxonĂŽmico, portanto, Ă© um exemplo para se demonstrar
toda a complexidade das interaçÔes ecológicas que ocorrem na natureza.
Em geral, as pessoas costumavam manter uma relação de grande intimidade com os
locais em que viviam. Nossos antepassados eram caçadores-coletores, pequenos lavradores ou
pastores, pessoas que tinham de saber com exatidĂŁo todos os detalhes fĂsicos da regiĂŁo de
onde tiravam o sustento, caso quisessem manter intacto seu modo de vida. A maioria de nĂłs,
que vive no mundo moderno, nada tem de comparĂĄvel a isso, exceto conhecimento prĂĄtico e
infraestrutura de nossa própria civilização extremamente técnica. No entanto, ver e apreciar,
participar o tempo todo e desde sempre de padrÔes que não foram estabelecidos por nós.
Lopes (2007), destaca que algum dia alguĂ©m ainda irĂĄ explicar as raĂzes da solidĂŁo humana
moderna por essa perda de intimidade com o meio ambiente, pelas nossas incontĂĄveis
transgressĂ”es em relação ao planeta fĂsico. O autor enfatiza que jĂĄ nĂŁo temos mais nenhum
relacionamento com a Terra, e mesmo quando ele existe, quase sempre Ă© rĂĄpido demais,
insuficiente para que as coisas sejam absorvidas. Nessa linha de raciocĂnio, as formigas
demostram ser um bom grupo taxonĂŽmico para se ter uma ideia da complexidade e
importùncia das relaçÔes ecológicas que ocorrem no meio ambiente que o homem compartilha
com outros milhares de seres vivos.
Wilson (2008) afirma que nossa relação com a natureza é primal e discute que as
emoçÔes que ela desperta devem ter surgido durante a esquecida pré-história da humanidade
e, portanto, são profundas e obscuras. A atração gravitacional da natureza sobre a psique
humana pode ser expressa em um Ășnico termo, mais contemporĂąneo: biofilia, definido como a
tendĂȘncia inata para se afiliar Ă vida e aos processos vitais. O pesquisador ressalta que, desde
a infùncia até a velhice, as pessoas de todas as partes do mundo sentem atração pelas outras
espĂ©cies, mostrando que a apreciação da diversidade da vida Ă© universal e intrĂnseca ao ser
humano. Explorar a vida e filiar-se a ela, transformar criaturas vivas em metĂĄforas carregadas
de emoção, inseri-las na mitologia e na religiĂŁo – eis os processos fundamentais, facilmente
reconhecĂveis, da evolução cultural biofĂlica. Essa filiação tem uma consequĂȘncia moral:
quanto mais compreendemos outras formas de vida, mais o nosso aprendizado se expande,
abrangendo a sua vasta diversidade, e maior Ă© o valor que atribuĂmos a elas – e,
evidentemente, a nós mesmos. Wilson (2008, p. 78-79) discute como essa filiação influencia
as nossas preferĂȘncias por certos habitats:
―...os pesquisadores jĂĄ descobriram que quando pessoas de diversas culturas, incluindo as da
AmĂ©rica do Norte, da Europa, da Ăsia e da Ăfrica, tĂȘm liberdade de escolher seu local de
residĂȘncia e trabalho, elas preferem um ambiente que combine trĂȘs caracterĂsticas. Desejam
morar em um lugar alto, com vista para fora e para baixo; de onde se possa ver uma ĂĄrea
verde, com ĂĄrvores esparsas e pequenos bosques, mais semelhante a uma savana do que a um
campo relvado ou a uma floresta densa; e que esteja perto de uma fonte de ĂĄgua, tal como
um lago, um rio ou o mar. Mesmo que todos esses elementos sejam puramente estéticos e
nĂŁo funcionais, como acontece nas residĂȘncias de veraneio, aqueles que dispĂ”em de meios
para tanto estĂŁo dispostos a pagar preços elevados para obtĂȘ-los. Em testes com vĂĄrias
opçÔes, verificou-se que as pessoas preferem que sua moradia seja um retiro, com uma
parede, rochedo ou alguma outra coisa sĂłlida na parte de trĂĄs. Elas desejam ver um terreno
frutĂfero em frente ao seu retiro. Apreciam que animais grandes, silvestres ou domĂ©sticos,
estejam espalhados pelo local.
(...) Embasada em considerĂĄveis evidĂȘncias do registro fĂłssil, essa interpretação sustenta que
os seres humanos de hoje continuam escolhendo habitats semelhantes Ă queles em que a
nossa espĂ©cie evoluiu, na Ăfrica, durante milhĂ”es de anos de prĂ©-histĂłria. Nossos distantes
antepassados desejavam ficar ocultos em pequenos bosques com vista para uma savana ou
em ĂĄreas de presas para perseguir, animais abatidos para recolher e deles alimentar-se,
plantas comestĂveis para coletar, inimigos para evitar. Um curso d‘ĂĄgua nas proximidades
fazia as vezes de limite territorial e fonte de alimentos.
SerĂĄ tĂŁo estranho que pelo menos um resĂduo dessa escolha de hĂĄbitat persista entre os
instintos humanos? A busca programada pelo ambiente correto Ă© um comportamento
universal das espĂ©cies animais, pela melhor das razĂ”es – trata-se de um imperativo para a
sobrevivĂȘncia e a reprodução.
Embora essas vĂĄrias linhas de evidĂȘncias sejam apenas fragmentĂĄrias, elas nos dizem que
grande parte da natureza humana foi programada geneticamente durante os longos perĂodos
em que nossa espĂ©cie viveu em contato Ăntimo com o resto do mundo natural vivo. Hoje as pessoas da maioria dos paĂses nĂŁo dĂŁo mais importĂąncia a essa conexĂŁo. Elas expulsaram a
natureza viva para as margens da existĂȘncia, e o declĂnio desta tem uma prioridade
baixĂssima na ordem das suas preocupaçÔes. Com o aumento dos conhecimentos cientĂficos
sobre a natureza humana e a natureza viva, essas duas forças criativas da auto-imagem
humana irĂŁo unir-se. A Ă©tica central vai mudar, e fecharemos o cĂrculo, passando a apreciar e
valorizar todas as formas de vida – e nĂŁo apenas a nossa.
Os biomas brasileiros, assim como os do resto do planeta, mudaram muito ao longo
dos Ășltimos milhĂ”es, milhares e centenas de anos. A extinção ou florescimento de linhagens,
fatos naturais da dinùmica ecológica da vida, tem dependido sempre do fato das espécies
estarem ou nĂŁo adaptadas a viver em novos cenĂĄrios – a ideia essencial da boa e velha
evolução por seleção natural, proposta por Charles Darwin em meados do século XIX e que
continua atual. Hoje em dia, depois do crescimento e expansão da população humana, resta
pouco de todo o patrimĂŽnio biolĂłgico que tĂnhamos hĂĄ alguns sĂ©culos, jĂĄ que os fragmentos
de vegetação natural perdem cada vez mais espaço para atividades antrópicas. A
racionalização e aumento no volume de informaçÔes fizeram com que nos tornåssemos o
Ășltimo tipo dominante de vida do planeta, fechando a porta Ă possibilidade de qualquer outro
animal fizesse o mesmo avanço e viesse, quem sabe, a desafiar nossa posição privilegiada na
Terra.
Ă medida que estendemos as explicaçÔes cientificas dentro dos domĂnios da biologia,
nĂłs ganhamos confiança – ou ficamos aterrorizados – pela conscientização de que nosso
destino como espécie depende do nosso próprio discernimento e também do bom
funcionamento de inĂșmeros ecossistemas, e nĂŁo dos caprichos de alguma entidade
sobrenatural (WILSON, 1997). Ă medida que pensamos com humildade sobre o nosso lugar
na história da vida e à medida que refletimos sobre a nossa origem biológica, começamos a
perceber que os nossos antepassados ultrapassam os limites familiares ou humanos.
Compartilhamos ancestrais em comum com toda e qualquer outra forma de vida, extinta ou
vivente. Afinal, biologicamente falando, somos apenas mais uma entre milhÔes de
ramificaçÔes na årvore da vida.
Nós, brasileiros, somos detentores da fauna e da flora mais ricas de toda a América do
Sul e uma das mais majestosas biodiversidades de todo o mundo. Mas como estamos agindo
em relação a isso? A divulgação de informaçÔes equivocadas ou incompletas ainda encontra
solo fértil em nossa sociedade, que continua a ser iludida por ideias e estereótipos que visam,
na maioria das vezes, unicamente estimular o consumo. Nunca fomos tão livres social e politicamente; ao mesmo tempo, porém, nunca fomos tão submissos ao consumismo e tão
passivos em relação à qualidade das informaçÔes que nos são apresentadas. Vivemos em uma
sociedade que, por um lado, usufrui de avanços tecnológicos surpreendentes, mas, por outro,
estĂĄ mergulhada em uma futilidade angustiante (LIPOVETSKY, 2006).
Apenas uma sociedade esclarecida e consciente da riqueza biolĂłgica de seu paĂs Ă©
capaz de identificar um discurso progressista meramente mercantilista imbuĂda em uma
prĂĄtica que polui nossos mares e rios, que devasta nossos biomas e que extirpa do territĂłrio
nacional variedades genĂ©ticas Ășnicas. Estamos aprendendo que nĂŁo hĂĄ como pensar em
desenvolver um paĂs sem investimentos em Educação (bĂĄsica e universitĂĄria) e em estratĂ©gias
para conservar suas riquezas, elaborando planos racionais para sustentĂĄ-la. Devemos,
portanto, tomar consciĂȘncia de nosso papel no gerenciamento da biodiversidade e de reflexĂ”es
e açÔes que garantam que o futuro ainda espelhe essa grandeza de formas de vida. Que entre
outras mil, que ainda seja o Brasil a nosso pĂĄtria amada e idolatrada. Mas que seja, sobretudo,
diversificada e conservada.