*BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL DESDE 2013*

Pesquisa, conceito e autoria: Renata Bravo / Contato: renatarjbravo@gmail.com

Inspirada em Heidegger, a Brincadeira Sustentável não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser vivida, elaborada e incorporada.
A tese que fundamenta este blog parte de uma ideia simples e duradoura: a infância, o brincar, a cultura, a natureza e as relações humanas constituem dimensões essenciais da formação do indivíduo e da construção da vida em sociedade. Embora os contextos históricos, as tecnologias e os modos de viver se transformem, essa base permanece atual. Por isso, não se trata de uma tese vinculada a uma época específica, mas de uma perspectiva que atravessa gerações e continua encontrando sentido sempre que uma criança brinca, aprende, cria, convive e estabelece sua relação com o mundo.

A INFÂNCIA EM TRÂNSITO: MEMÓRIA, CULTURA E FUTURO

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

BRINCADEIRA SUSTENTÁVEL: UMA TESE SOBRE O BRINCAR, A EXPERIÊNCIA E A APRENDIZAGEM AO LONGO DA VIDA

DIÁLOGOS ENTRE MARTIN HEIDEGGER E FRANK LAUBACH

A Brincadeira Sustentável propõe compreender o brincar, a arte e a transformação de materiais como possibilidades de construção do conhecimento, desenvolvimento humano e participação social. Sua fundamentação pode ser organizada a partir de um diálogo entre a filosofia de Martin Heidegger e a experiência educativa de Frank Laubach, considerados referências inspiradoras de uma concepção que articula existência, aprendizagem, autonomia, criação e compartilhamento de saberes. Essa aproximação não pressupõe uma teoria formulada conjuntamente pelos dois autores, mas estabelece uma interpretação autoral para investigar como suas contribuições podem orientar práticas educativas destinadas à infância, à juventude e à vida adulta.

Em Martin Heidegger, especialmente em Ser e Tempo, a noção de ser-no-mundo permite compreender a existência humana como uma relação constitutiva com pessoas, objetos, situações e possibilidades. O mundo não se apresenta apenas como um conjunto de elementos a serem observados, mas como uma realidade na qual as pessoas participam, agem e constroem relações de significado. Aplicada ao campo educativo, essa perspectiva convida a reconhecer que a aprendizagem não se limita à transmissão de informações: envolve experiência, participação, interpretação e relação com aquilo que se faz. A criança que investiga um objeto, o jovem que desenvolve uma solução e o adulto que transforma um conhecimento em prática participam de processos diferentes, mas todos podem aprender em relação com o mundo vivido. Essa aplicação é uma interpretação filosófica da obra de Heidegger, e não uma metodologia pedagógica diretamente formulada pelo autor.

Frank Laubach oferece outra referência, de natureza predominantemente educativa e social. Seu trabalho de alfabetização de jovens e adultos e o princípio Each One Teach One, cada pessoa ensina outra, destacam a importância de ampliar o acesso ao conhecimento e favorecer sua circulação entre os participantes de uma comunidade. A aprendizagem não precisa permanecer concentrada na figura de quem ensina: pessoas que aprendem também podem contribuir para a aprendizagem de outras. Para a Brincadeira Sustentável, esse princípio inspira uma metodologia de cooperação na qual os conhecimentos adquiridos por meio da experiência, da investigação e do fazer artístico podem ser compartilhados, documentados e ampliados. A adaptação para atividades de arte, brincadeira e formação profissional constitui uma proposta contemporânea inspirada em Laubach, não uma reprodução integral de seu método histórico.

A tese que orienta essa concepção pode ser formulada da seguinte maneira: o brincar, a experiência artística e a transformação consciente de materiais podem constituir meios de aprendizagem ao longo da vida quando organizados como experiências intencionais, contextualizadas, acessíveis e socialmente compartilhadas. Nessa perspectiva, a sustentabilidade não se restringe ao reaproveitamento de recursos físicos. Abrange também a continuidade dos conhecimentos, a valorização das capacidades humanas, a transmissão de práticas culturais, o desenvolvimento da autonomia e a criação de condições para a participação social. O material reutilizável funciona como suporte para investigar, imaginar, planejar e produzir, enquanto o processo de criação favorece a articulação entre pensamento, ação e reflexão.

Na infância, essa tese se concretiza pela exploração sensorial, pela brincadeira simbólica, pela musicalidade, pelo movimento, pela narrativa, pelo desenho, pela modelagem e pela construção de objetos. A criança conhece propriedades dos materiais, experimenta relações espaciais, compara formas, formula hipóteses e compartilha descobertas. A função educativa não consiste em antecipar a formação profissional, mas em ampliar experiências, repertórios culturais, linguagem, autonomia e possibilidades de expressão. A cantiga de roda, por exemplo, pode relacionar ritmo, coordenação motora, convivência e investigação da natureza; a construção de um brinquedo pode integrar geometria, planejamento, criatividade e educação ambiental. A documentação pedagógica permite observar essas aprendizagens e planejar novas experiências sem reduzir o brincar a exercícios mecânicos.

Na juventude, a proposta pode avançar para projetos colaborativos, investigação de problemas, experimentação artística, produção cultural e desenvolvimento de competências. O jovem pode participar da concepção de objetos, da elaboração de protótipos, da organização de exposições, da produção de narrativas, da análise de materiais e da discussão sobre consumo e sustentabilidade. A aprendizagem compartilhada, inspirada no princípio de Laubach, permite distribuir responsabilidades: cada participante pode pesquisar, experimentar, registrar ou ensinar uma técnica aos colegas. A avaliação considera não apenas o produto final, mas também a capacidade de planejar, argumentar, colaborar, resolver problemas e revisar decisões. A arte torna-se um campo para pensar criticamente e desenvolver habilidades que podem contribuir para escolhas futuras de formação e trabalho.

Na vida adulta, a Brincadeira Sustentável pode articular educação continuada, alfabetização funcional, valorização de saberes, formação artesanal, inclusão cultural e desenvolvimento profissional. Oficinas de bordado, tecelagem, cartonagem, modelagem, conservação de objetos e produção de brinquedos podem integrar conhecimentos técnicos, leitura de instruções, matemática aplicada, planejamento, segurança, acabamento e controle de qualidade. A experiência profissional dos participantes constitui um recurso formativo, desde que seja reconhecida sem presumir que todos possuam as mesmas oportunidades ou conhecimentos prévios. A dinâmica de ensinar e aprender em duplas ou pequenos grupos favorece a circulação de técnicas, o reconhecimento de competências e a construção coletiva de soluções. Nesse contexto, a arte pode representar tanto uma forma de expressão quanto uma possibilidade de qualificação e autonomia econômica, sem que seu valor seja reduzido à produtividade ou à comercialização.

As três fases não devem ser entendidas como compartimentos rígidos. A infância, a juventude e a vida adulta possuem necessidades, responsabilidades e condições de aprendizagem distintas, mas compartilham a possibilidade de investigar, criar, interpretar experiências e participar da construção de conhecimentos. A metodologia deve, portanto, adequar os objetivos, os materiais, a linguagem, o nível de autonomia e os procedimentos de avaliação a cada público. A continuidade da aprendizagem não significa aplicar a mesma atividade a todas as idades, mas preservar princípios educativos comuns em propostas apropriadas às diferentes etapas da vida.

A metodologia da Brincadeira Sustentável pode ser organizada em um ciclo de seis movimentos: diagnosticar, planejar, experimentar, compartilhar, documentar e replanejar. O diagnóstico identifica os conhecimentos prévios, os interesses, as necessidades de acessibilidade e as condições materiais do grupo. O planejamento define objetivos, seleciona recursos e estabelece procedimentos de segurança. A experimentação permite investigar, criar e testar possibilidades. O compartilhamento amplia a circulação de saberes e favorece a aprendizagem entre participantes. A documentação registra processos, decisões, dificuldades e resultados. O replanejamento utiliza essas evidências para ajustar as práticas e desenvolver novas experiências. Esse ciclo constitui uma proposição metodológica autoral para a Brincadeira Sustentável, fundamentada no diálogo entre referências filosóficas, educativas e ambientais.

A sustentabilidade atravessa todas essas etapas. A seleção e a higienização dos materiais, a identificação de riscos, a utilização responsável dos recursos e a destinação correta dos resíduos integram o planejamento pedagógico. Entretanto, o aspecto central não está apenas em transformar uma embalagem ou um pedaço de papel em outro objeto. Está em compreender as propriedades dos materiais, reconhecer possibilidades de uso, desenvolver soluções e refletir sobre as relações entre produção, consumo, descarte e ambiente. A transformação material pode, assim, tornar-se uma oportunidade para desenvolver pensamento investigativo, responsabilidade e autoria.

Para que essa tese ultrapasse o campo conceitual, sua aplicação deve ser acompanhada por documentação e avaliação. Entre os indicadores possíveis estão a ampliação do repertório de conhecimentos, a capacidade de explicar procedimentos, a participação nas decisões, a colaboração, a resolução de problemas, o desenvolvimento de habilidades técnicas e a utilização consciente dos materiais. Os indicadores devem ser definidos de acordo com cada faixa etária e objetivo educativo, evitando comparações inadequadas entre participantes ou a atribuição de resultados que não tenham sido efetivamente observados. Estudos de aplicação, registros de campo, análise das produções e acompanhamento das atividades podem contribuir para avaliar a consistência e os limites da proposta.

A Brincadeira Sustentável, iniciada em 2013, pode ser compreendida, portanto, como um projeto autoral de investigação e prática educativa que aproxima brincar, arte, cultura, sustentabilidade e aprendizagem ao longo da vida. Heidegger contribui para a reflexão sobre a existência em relação com o mundo; Laubach inspira a valorização da aprendizagem compartilhada e da ampliação do acesso ao conhecimento. A articulação entre essas referências não elimina suas diferenças, mas permite construir um campo de investigação próprio, no qual a experiência artística, o fazer e a cooperação são examinados como possibilidades de desenvolvimento humano.

A tese permanece aberta à investigação, à documentação e ao aperfeiçoamento metodológico. Sua consistência dependerá da clareza dos conceitos, da adequação das práticas a cada público e da análise dos resultados observados. Mais do que apresentar o reaproveitamento de materiais como finalidade, a Brincadeira Sustentável propõe investigar como a criação pode favorecer a aprendizagem, como o conhecimento pode circular entre gerações e como a arte pode contribuir para a autonomia, a participação cultural e a formação de pessoas capazes de compreender e transformar sua realidade.

Referências fundamentais: HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. LAUBACH, Frank C. Teaching the World to Read: A Handbook for Literacy Campaigns. New York: Friendship Press, 1947.

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