A alfabetização representa uma etapa fundamental da participação social, pois amplia as possibilidades de comunicação, interpretação da realidade e acesso ao conhecimento. O trabalho de Frank C. Laubach, educador e missionário norte-americano, destacou-se pela atuação em campanhas de alfabetização de jovens e adultos e pela valorização da participação comunitária. Seu princípio Each One Teach One, cada pessoa ensina outra, tornou-se uma referência histórica para propostas que estimulam a multiplicação da aprendizagem e a cooperação entre participantes. Essa perspectiva permite refletir sobre práticas educativas nas quais o conhecimento não permanece concentrado em uma única pessoa, mas circula, é experimentado e se amplia por meio das relações sociais.
A contribuição de Laubach pode ser explorada para além do ensino da leitura e da escrita. Em contextos educativos, a aprendizagem compartilhada oferece possibilidades para desenvolver comunicação, responsabilidade, autonomia e reconhecimento de competências. Isso não significa que qualquer atividade coletiva corresponda diretamente ao método original de Laubach, mas que seus princípios podem inspirar adaptações adequadas a diferentes públicos e objetivos. A distinção é importante para preservar a precisão histórica e, ao mesmo tempo, reconhecer a atualidade de propostas que valorizam a participação ativa dos aprendizes.
A arte constitui um campo especialmente fértil para essa aplicação. Desenhar, construir, bordar, modelar e trabalhar com papel, tecido ou outros materiais exige observação, compreensão de procedimentos, organização de etapas e tomada de decisões. Essas atividades também permitem desenvolver vocabulário, leitura de instruções, registros escritos e conhecimentos matemáticos. Uma oficina de cartonagem, por exemplo, pode envolver a leitura de medidas, a identificação de formas geométricas, a elaboração de um molde, o cálculo da quantidade de material e a descrição das etapas de produção. A prática artística, assim, pode integrar diferentes áreas do conhecimento sem perder sua dimensão estética e cultural.
A aproximação com Martin Heidegger acrescenta uma reflexão filosófica sobre a experiência. Em Ser e Tempo, a noção de ser-no-mundo destaca que a existência humana acontece em relações concretas com pessoas, objetos e situações. Em uma atividade artística, o participante não se limita a receber informações: ele manipula materiais, percebe dificuldades, testa soluções e atribui significado ao que realiza. Essa leitura permite compreender a aprendizagem como uma experiência situada, embora Heidegger não tenha formulado um método de alfabetização ou uma pedagogia específica para oficinas artísticas.
Dinâmica de grupo: aprender pela prática e ensinar pelo compartilhamento. A proposta destina-se a jovens e adultos e pode ser realizada em aproximadamente 60 minutos. O grupo escolhe uma técnica simples, como dobradura, tecelagem com tiras de papel ou construção de um objeto de papelão. Inicialmente, o educador apresenta os materiais e demonstra os procedimentos essenciais. Em seguida, os participantes trabalham em duplas: uma pessoa explica ou demonstra uma etapa, enquanto a outra a executa e formula perguntas. Depois, os papéis são invertidos. Ao final, cada dupla registra por escrito ou oralmente a sequência de produção, identifica as dificuldades encontradas e compartilha com o grupo uma solução que tenha desenvolvido.
A atividade pode incorporar objetivos de alfabetização funcional. Os participantes leem instruções curtas, identificam palavras relacionadas aos materiais, interpretam medidas, escrevem listas e organizam sequências de procedimentos. Para pessoas em processo de alfabetização, os registros podem ser realizados com desenhos, símbolos, palavras-chave ou apoio oral, conforme as necessidades de cada participante. O objetivo é estabelecer relações entre leitura, escrita e situações concretas, sem transformar a produção artística em mero exercício mecânico.
A avaliação deve considerar indicadores observáveis, como a capacidade de compreender instruções, comunicar procedimentos, reconhecer informações relevantes, organizar etapas, solicitar ajuda e compartilhar o que aprendeu. Também é possível verificar se o participante consegue explicar a técnica a outra pessoa e adaptar o procedimento diante de uma dificuldade. Esses registros orientam o planejamento de novas atividades e permitem acompanhar o desenvolvimento individual e coletivo.
Na formação profissional, essa metodologia pode ser ampliada para oficinas de artesanato, conservação de objetos, produção de brinquedos, cartonagem, bordado e outras práticas. Os participantes podem estudar seleção de materiais, ferramentas, segurança, acabamento, qualidade, cálculo de custos e apresentação de produtos. A transmissão de técnicas entre pessoas com diferentes experiências também contribui para reconhecer saberes prévios e ampliar oportunidades de aprendizagem. Entretanto, a qualificação profissional exige objetivos próprios, acompanhamento técnico e avaliação compatível com as competências que se pretende desenvolver.
No âmbito da Brincadeira Sustentável, a articulação entre alfabetização, arte e sustentabilidade permite compreender os materiais como recursos de investigação, criação e aprendizagem. Papéis, embalagens e tecidos limpos, selecionados e adequados à atividade podem ser transformados em objetos que mobilizem leitura, matemática, planejamento e expressão artística. A sustentabilidade não se limita ao reaproveitamento físico dos materiais: envolve também a construção de conhecimentos, a responsabilidade no consumo e a valorização das capacidades humanas.
A contribuição de Laubach permanece relevante como referência para pensar a aprendizagem compartilhada e a ampliação do acesso ao conhecimento. Em diálogo interpretativo com Heidegger, essa abordagem permite considerar tanto a dimensão coletiva do aprender quanto sua relação com a experiência concreta. Quando a arte integra esses processos, ensinar e aprender deixam de ser ações isoladas e passam a constituir práticas de participação, autoria e desenvolvimento. O conhecimento adquire maior alcance quando pode ser compreendido, aplicado, transformado e compartilhado com outras pessoas.
Referências para aprofundamento: LAUBACH, Frank C. Teaching the World to Read: A Handbook for Literacy Campaigns. New York: Friendship Press, 1947. HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo.
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