A história econômica brasileira chegou a um novo momento.
Durante séculos, a riqueza esteve associada principalmente à terra, às mercadorias, às máquinas e à infraestrutura.
Mas, no final do século XX e no início do século XXI, outro ativo passou a ganhar importância extraordinária:
o conhecimento aplicado.
A tecnologia começou a transformar não apenas a produção.
Transformou também o comércio, o trabalho, os serviços, a comunicação e a própria maneira de criar riqueza.
A máquina muda novamente
A primeira industrialização utilizou máquinas para aumentar a força humana.
A segunda ampliou o uso da eletricidade e da produção em massa.
A terceira incorporou computadores, automação e telecomunicações.
Agora, a economia entra em uma etapa em que máquinas podem processar enormes quantidades de informação.
A produção deixa de depender apenas da força física.
Passa a depender cada vez mais da capacidade de processar conhecimento.
Do trabalho manual ao trabalho tecnológico
Durante a industrialização, milhões de trabalhadores foram incorporados às fábricas.
No mundo contemporâneo, muitas tarefas repetitivas podem ser realizadas por máquinas.
Isso não significa que o trabalho humano desapareça.
Significa que suas funções mudam.
O trabalhador passa a precisar cada vez mais de:
qualificação, capacidade de adaptação, criatividade, interpretação, comunicação e conhecimento técnico.
O computador
O computador foi uma das grandes transformações do século XX.
Inicialmente utilizado por governos, universidades e grandes empresas, tornou-se progressivamente acessível à população.
Ele passou a fazer parte das empresas, escolas, bancos, hospitais, comércio e residências.
A informação começou a ser armazenada e processada em uma escala inédita.
A internet
A internet mudou novamente a economia.
Uma pequena empresa passou a poder alcançar consumidores em diferentes cidades e países.
Uma pessoa poderia trabalhar remotamente.
Uma informação poderia circular em segundos.
Um produto poderia ser vendido sem uma loja física.
Um serviço poderia ser oferecido a distância.
A localização continuava importante, mas deixou de ser a única condição para participar do mercado.
O celular
O telefone celular levou essa transformação ainda mais longe.
O computador passou a caber no bolso.
Comunicação.
Banco.
Fotografia.
Comércio.
Educação.
Entretenimento.
Mapas.
Serviços públicos.
Tudo passou a convergir para um único dispositivo.
O telefone deixou de ser apenas um aparelho de comunicação.
Transformou-se em uma plataforma econômica.
A economia digital
Empresas digitais passaram a criar modelos de negócios completamente diferentes daqueles das indústrias tradicionais.
Plataformas conectam compradores e vendedores.
Aplicativos conectam consumidores e prestadores de serviços.
Redes sociais conectam pessoas e anunciantes.
Serviços de streaming distribuem conteúdo pela internet.
O valor econômico passa a estar também na capacidade de organizar redes.
Os dados
Nesse novo cenário, os dados ganharam importância.
Uma empresa pode conhecer os hábitos de consumo de milhões de pessoas.
Pode analisar preferências.
Pode identificar tendências.
Pode prever comportamentos.
Pode personalizar produtos e publicidade.
Os dados passaram a ser considerados um recurso estratégico da economia digital.
Mas dados não são conhecimento automaticamente
Possuir dados não significa compreender a realidade.
É necessário interpretar.
Comparar.
Analisar.
Identificar padrões.
Tomar decisões.
Por isso, a tecnologia aumenta a importância das pessoas capazes de transformar dados em conhecimento.
Inteligência artificial
A inteligência artificial representa uma nova etapa dessa transformação.
Sistemas computacionais podem analisar grandes volumes de informação.
Reconhecer padrões.
Produzir textos.
Gerar imagens.
Auxiliar em diagnósticos técnicos.
Otimizar processos.
Apoiar decisões.
Automatizar determinadas tarefas.
A inteligência artificial não é apenas uma nova ferramenta.
Ela pode modificar a própria organização da produção.
O novo capital
Durante a industrialização, possuir uma fábrica significava possuir capacidade produtiva.
Hoje, uma empresa pode possuir pouca infraestrutura física e, ainda assim, ter enorme valor econômico.
Pode possuir:
software, algoritmos, dados, marcas, patentes, plataformas e conhecimento.
Isso modifica a definição tradicional de patrimônio.
Propriedade intelectual
Uma invenção pode ser protegida por patente.
Um software pode possuir direitos autorais.
Uma marca pode ter enorme valor comercial.
Uma fórmula pode representar anos de pesquisa.
Uma base de dados pode ser estratégica.
O conhecimento pode ser transformado em patrimônio econômico.
A universidade
Nesse contexto, universidades e centros de pesquisa tornam-se ainda mais importantes.
Uma universidade não produz apenas diplomas.
Pode produzir:
pesquisa, inovação, tecnologia, profissionais especializados e conhecimento científico.
Países que investem em ciência conseguem desenvolver capacidades próprias.
Países que investem pouco podem depender de tecnologias desenvolvidas em outros lugares.
A ciência como infraestrutura
Durante muito tempo, infraestrutura significava principalmente:
estradas, portos, ferrovias, energia e saneamento.
Hoje, infraestrutura também significa:
laboratórios, universidades, centros de pesquisa, redes digitais e capacidade computacional.
Sem essa infraestrutura, a economia tecnológica não consegue avançar.
O Brasil possui capacidade científica
O Brasil desenvolveu instituições de pesquisa importantes.
Possui universidades, centros tecnológicos, pesquisadores e empresas capazes de produzir conhecimento sofisticado.
Há exemplos relevantes em áreas como:
agricultura, saúde, energia, aeronáutica, petróleo, biotecnologia e tecnologia da informação.
O desafio é transformar esse conhecimento em maior capacidade produtiva e inovação.
Embrapa e a transformação do campo
Um dos melhores exemplos brasileiros está na agricultura.
A pesquisa científica ajudou a adaptar culturas às condições tropicais.
Novas técnicas aumentaram a produtividade.
Solos considerados pouco produtivos passaram a ser utilizados em sistemas agrícolas modernos.
A ciência transformou a capacidade produtiva do território.
Isso demonstra algo fundamental:
conhecimento também pode transformar patrimônio natural em riqueza.
Petróleo e tecnologia
A exploração de petróleo em águas profundas também demonstra a importância do conhecimento.
O Brasil possui grandes reservas.
Mas possuir petróleo no subsolo não significa automaticamente conseguir explorá-lo.
É preciso desenvolver:
engenharia, geologia, equipamentos, sistemas de perfuração, logística e pesquisa.
A capacidade tecnológica transforma o recurso natural em produção econômica.
A indústria aeronáutica
Outro exemplo é a capacidade brasileira de desenvolver aeronaves.
A indústria aeronáutica demonstra como universidade, pesquisa, engenharia, Estado e empresa podem se combinar para criar uma atividade de alta tecnologia.
Nesse caso, o principal patrimônio não é apenas a fábrica.
É também o conhecimento acumulado.
Tecnologia e soberania
A dependência tecnológica pode criar uma nova forma de vulnerabilidade.
Um país pode possuir petróleo, minério, terras e água.
Mas, se depender completamente de tecnologias externas para explorá-los, terá menos autonomia.
A soberania contemporânea envolve também capacidade tecnológica.
A nova desigualdade
A tecnologia pode ampliar oportunidades.
Mas também pode aumentar desigualdades.
Quem possui acesso à educação e à internet pode aproveitar melhor as novas oportunidades.
Quem não possui conectividade ou formação adequada pode ficar para trás.
A exclusão digital pode se transformar em exclusão econômica.
Educação novamente no centro
A educação assume uma posição ainda mais importante.
Não basta ensinar a utilizar ferramentas.
É necessário ensinar a compreender.
Pensar criticamente.
Resolver problemas.
Criar.
Pesquisar.
Trabalhar em equipe.
Utilizar tecnologia de maneira responsável.
A educação passa a ser parte essencial da infraestrutura econômica.
O trabalho do futuro
Algumas profissões serão transformadas pela automação.
Outras desaparecerão ou diminuirão.
Novas profissões surgirão.
O mercado de trabalho será mais dinâmico.
Isso exige uma educação capaz de acompanhar mudanças.
A formação profissional não poderá terminar no momento da conclusão de um curso.
Aprender continuamente será uma necessidade.
A criatividade ganha valor
Quando máquinas conseguem executar tarefas repetitivas, capacidades humanas como criatividade, interpretação e imaginação ganham ainda mais importância.
A inovação nasce da capacidade de perceber problemas e imaginar soluções.
Por isso, conhecimento não é apenas acumular informações.
É também saber criar.
Cultura e economia
A economia do conhecimento também valoriza a cultura.
Música.
Cinema.
Literatura.
Design.
Artes visuais.
Artesanato.
Patrimônio cultural.
Jogos.
Produção audiovisual.
Essas atividades podem gerar renda e empregos.
O patrimônio cultural deixa de ser visto apenas como memória.
Pode também ser fonte de criatividade e desenvolvimento.
O patrimônio natural
O mesmo acontece com a natureza.
Biodiversidade pode gerar conhecimento científico.
Florestas podem fornecer recursos para pesquisas.
Ecossistemas podem sustentar turismo.
Produtos naturais podem originar novos medicamentos.
A agricultura pode desenvolver sistemas mais sustentáveis.
Mas isso exige preservação.
Destruir o patrimônio natural significa destruir possibilidades futuras.
A nova riqueza
Chegamos novamente ao tema central.
A riqueza do século XXI não está apenas naquilo que podemos possuir fisicamente.
Ela também está naquilo que sabemos.
Naquilo que conseguimos criar.
Naquilo que conseguimos proteger.
Naquilo que conseguimos transformar em conhecimento, tecnologia e inovação.
Do território ao conhecimento
Podemos observar uma longa transformação.
Terra.
Depois, capital.
Depois, indústria.
Depois, infraestrutura.
Agora, cada vez mais, conhecimento e tecnologia.
Mas uma etapa não elimina a anterior.
A terra continua importante.
O capital continua necessário.
A indústria continua fundamental.
A energia continua estratégica.
A infraestrutura continua indispensável.
O conhecimento passa a conectar todos esses elementos.
Quem controla o conhecimento?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes do século XXI.
Quem controla as tecnologias?
Quem possui as patentes?
Quem controla os dados?
Quem desenvolve os algoritmos?
Quem possui os grandes sistemas de computação?
Quem define os padrões tecnológicos?
Quem forma os profissionais?
Essas perguntas têm consequências econômicas e políticas.
O futuro da economia brasileira
O Brasil possui condições para participar dessa nova economia.
Tem população numerosa.
Mercado consumidor.
Recursos naturais.
Energia.
Agricultura avançada.
Universidades.
Empresas.
Pesquisadores.
Biodiversidade.
Mas precisa transformar essas vantagens em capacidade tecnológica.
O desafio não é apenas vender produtos.
É aumentar a capacidade de criar tecnologia, agregar valor e controlar conhecimento estratégico.
A questão permanece a mesma
Desde a Colônia, existe uma pergunta recorrente:
quem controla os meios de produção?
No passado, isso significava principalmente controlar a terra.
Depois, controlar o capital.
Na industrialização, controlar fábricas, máquinas e infraestrutura.
Hoje, significa também controlar tecnologia, dados, propriedade intelectual e conhecimento.
A forma mudou.
A questão de poder econômico permanece.
O futuro não está pronto
A tecnologia não determina sozinha o futuro.
As sociedades escolhem como utilizá-la.
A inteligência artificial pode aumentar produtividade.
Pode auxiliar a educação.
Pode melhorar serviços.
Pode apoiar a ciência.
Mas também pode concentrar poder.
A tecnologia pode democratizar oportunidades.
Ou pode ampliar desigualdades.
Tudo depende das instituições, das políticas públicas, da educação e das escolhas sociais.
O Brasil diante da próxima transformação
O país chegou ao século XXI com uma história econômica marcada por continuidades.
A concentração da terra não desapareceu.
O capital continuou concentrado.
A industrialização criou novas elites.
A globalização ampliou a circulação de investimentos.
A tecnologia criou novas formas de riqueza.
Agora, o Brasil precisa decidir como utilizar seus recursos para construir um futuro no qual conhecimento e patrimônio possam gerar desenvolvimento mais amplo.
A questão deixou de ser apenas quanto o país produz.
É preciso perguntar:
o que produzimos, com que tecnologia, quem controla essa produção e quanto conhecimento permanece no país?
Essa pergunta nos leva à última parte da série.
Porque, depois de atravessar séculos de transformação, chegamos ao ponto em que o patrimônio brasileiro não pode mais ser compreendido apenas como terra, indústria ou capital.
Ele inclui também pessoas, cultura, natureza, ciência, tecnologia e conhecimento.
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