Se, durante grande parte da história brasileira, a terra esteve no centro da riqueza e, posteriormente, o capital e a indústria ganharam importância, o século XXI acrescentou um elemento decisivo:
o conhecimento.
Não significa que terra, capital e trabalho tenham deixado de ser importantes.
Significa que a capacidade de utilizar esses recursos tornou-se cada vez mais dependente de educação, ciência e tecnologia.
A pergunta histórica começa, então, a mudar.
Não basta perguntar:
quem possui os meios de produção?
É preciso perguntar também:
quem possui conhecimento para utilizá-los, transformá-los e criar novos meios de produção?
A educação como infraestrutura econômica
Durante muito tempo, educação foi tratada principalmente como uma questão social.
Mas ela também é uma infraestrutura econômica.
Uma população mais preparada pode:
produzir mais + inovar mais + empreender + utilizar tecnologias + criar empresas + desenvolver pesquisas.
Da mesma maneira, uma educação deficiente limita a capacidade produtiva de uma sociedade.
Por isso, investir em educação não é apenas aumentar o bem-estar.
É aumentar a capacidade econômica do país.
Da alfabetização à economia digital
O Brasil percorreu uma longa trajetória.
Durante o período colonial, o acesso à educação era extremamente restrito.
A maior parte da população não tinha acesso sistemático à escolarização.
Com o passar dos séculos, a educação pública se expandiu.
A Constituição de 1988 consolidou a educação como direito de todos e dever do Estado e da família.
No século XXI, porém, surgiu um novo desafio.
Não basta saber ler e escrever.
É preciso compreender um mundo cada vez mais tecnológico.
A alfabetização mudou de significado
Hoje, uma pessoa precisa lidar com:
informação + tecnologia + dinheiro + comunicação + dados + ferramentas digitais.
A alfabetização do século XXI é mais ampla.
Inclui a capacidade de compreender informações, identificar fontes confiáveis, utilizar tecnologias e tomar decisões.
Conhecimento também é patrimônio
Uma casa pode ser patrimônio.
Uma propriedade rural pode ser patrimônio.
Uma empresa pode ser patrimônio.
Mas uma formação profissional também pode representar patrimônio.
Ela acompanha a pessoa durante toda a vida.
Pode aumentar sua capacidade de gerar renda.
Pode permitir mudança de profissão.
Pode criar oportunidades que não existiriam anteriormente.
O conhecimento tornou-se uma forma de patrimônio pessoal e coletivo.
A diferença entre renda e patrimônio
Essa distinção permanece fundamental.
Uma pessoa pode ter renda elevada durante determinado período e não construir patrimônio.
Outra pode possuir patrimônio capaz de gerar renda no futuro.
Por isso, mobilidade social não significa apenas aumentar o salário.
Significa também adquirir capacidade de construir segurança econômica.
A educação pode quebrar ciclos
Uma criança que nasce sem patrimônio pode não conseguir receber uma herança financeira.
Mas pode receber outro tipo de herança:
educação + cultura + conhecimento + valores + capacidade de aprender.
Essa herança não substitui completamente o patrimônio material.
Mas pode ampliar significativamente as oportunidades.
O problema da desigualdade educacional
A existência de escola pública não significa que todas as crianças recebam exatamente as mesmas condições.
Existem diferenças de:
infraestrutura;
formação docente;
acesso à tecnologia;
tempo disponível para estudar;
ambiente familiar;
transporte;
alimentação;
segurança;
acesso à cultura.
Por isso, igualdade formal de acesso não garante igualdade de aprendizagem.
A primeira infância
A educação começa antes da alfabetização.
Os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo, emocional, social e motor.
Brincadeira, linguagem, música, movimento, contato com a natureza e convivência social fazem parte desse processo.
A infância não deve ser tratada apenas como preparação para a vida adulta.
Ela possui valor em si mesma.
O brincar como aprendizagem
A brincadeira também pode desenvolver capacidades importantes para a economia e para a vida social:
criatividade + resolução de problemas + cooperação + comunicação + autonomia.
Uma criança que constrói, experimenta, erra e tenta novamente está desenvolvendo habilidades.
O brincar pode ser uma forma de aprendizagem ativa.
Cultura e conhecimento
Educação não acontece apenas dentro da sala de aula.
A cultura transmite memória.
A arte desenvolve expressão.
A literatura amplia repertório.
A música desenvolve percepção.
A natureza oferece experiências.
O patrimônio cultural conecta gerações.
Uma sociedade que preserva sua cultura também preserva formas de conhecimento.
Ciência
A educação abre caminho para a ciência.
E a ciência amplia a capacidade produtiva.
Foi a pesquisa que ajudou a transformar o Cerrado.
Foi a engenharia que permitiu explorar o pré-sal.
Foi a pesquisa que desenvolveu novas tecnologias agrícolas.
Foi a ciência que possibilitou avanços médicos.
Conhecimento pode transformar recursos em valor.
Universidades e desenvolvimento
Universidades não são apenas lugares de formação profissional.
Também são centros de:
pesquisa + inovação + produção científica + formação de pesquisadores.
Quando empresas e universidades conseguem trabalhar conjuntamente, novas tecnologias podem chegar ao mercado.
A inovação
Inovação não significa apenas criar algo completamente novo.
Também pode significar:
produzir melhor;
reduzir desperdícios;
economizar energia;
melhorar processos;
criar novos materiais;
utilizar recursos de maneira mais eficiente.
Uma pequena melhoria aplicada milhões de vezes pode produzir enorme impacto econômico.
A inteligência artificial
Agora surge uma transformação ainda maior.
A inteligência artificial começa a modificar atividades que antes dependiam exclusivamente do trabalho humano.
Ela pode auxiliar em:
análise de dados + programação + pesquisa + produção de textos + diagnóstico de padrões + automação.
Isso cria oportunidades.
Mas também cria preocupações.
O trabalho está mudando
Algumas tarefas podem ser automatizadas.
Outras serão transformadas.
Novas profissões surgirão.
Profissões existentes precisarão incorporar novas ferramentas.
Isso significa que a formação profissional não pode terminar com o diploma.
A capacidade de aprender continuamente será cada vez mais importante.
A nova desigualdade
Pode surgir uma nova forma de desigualdade.
Não apenas entre quem possui e quem não possui patrimônio.
Mas entre quem consegue utilizar as novas tecnologias e quem fica excluído delas.
O acesso à tecnologia pode tornar-se tão importante quanto o acesso ao capital.
A tecnologia pode democratizar
Mas também pode concentrar.
Uma pequena empresa pode utilizar ferramentas digitais para competir com organizações maiores.
Ao mesmo tempo, grandes empresas podem controlar plataformas, dados, infraestrutura tecnológica e grandes mercados.
A tecnologia possui, portanto, duas possibilidades:
descentralizar oportunidades ou concentrar poder.
Os dados como novo recurso
No século XXI, dados adquiriram enorme valor econômico.
Empresas utilizam informações para compreender consumidores, melhorar produtos e organizar operações.
Os dados não substituem os recursos tradicionais.
Mas acrescentam uma nova dimensão à economia.
A concentração tecnológica
Grandes plataformas digitais podem alcançar bilhões de pessoas.
Isso cria enorme poder econômico.
Quanto maior a rede, maior pode ser sua capacidade de atrair usuários.
Quanto maior o número de usuários, maior o volume de dados.
Quanto maior a quantidade de dados, maior pode ser a capacidade de aperfeiçoar determinados serviços.
Surge um novo tipo de concentração.
A concorrência no século XXI
A questão histórica permanece.
Como garantir concorrência quando determinadas empresas possuem enorme escala, capital, dados e tecnologia?
A resposta envolve:
regulação + inovação + concorrência + proteção de direitos + liberdade econômica.
O objetivo não precisa ser impedir empresas de crescer.
Mas evitar que o crescimento se transforme em barreiras permanentes à entrada de novos concorrentes.
O empreendedorismo
O empreendedorismo pode ampliar a participação econômica.
Uma pessoa pode criar um pequeno negócio.
Uma família pode transformar uma habilidade em fonte de renda.
Um produtor rural pode processar seu próprio produto.
Um artesão pode vender diretamente ao consumidor.
A internet ampliou essas possibilidades.
Mas empreender não é apenas ter uma ideia
Também é necessário:
capital + conhecimento + mercado + planejamento + infraestrutura + crédito.
Por isso, políticas de incentivo ao empreendedorismo precisam considerar o ambiente econômico.
Não basta dizer às pessoas para empreender.
É preciso criar condições para que negócios possam sobreviver.
O crédito como ponte
O crédito pode transformar uma capacidade em investimento.
Uma pequena empresa pode comprar máquinas.
Um agricultor pode modernizar sua propriedade.
Uma família pode adquirir uma residência.
Um estudante pode financiar sua formação.
Mas o crédito precisa ser sustentável.
Quando o custo financeiro é excessivo, ele pode transformar oportunidade em endividamento.
A importância da segurança jurídica
Investimentos também dependem de confiança.
Uma empresa precisa saber quais regras serão aplicadas.
Um agricultor precisa ter segurança sobre sua propriedade.
Um empreendedor precisa conhecer suas obrigações.
Um investidor precisa confiar nas instituições.
Segurança jurídica reduz incertezas.
O Estado e o conhecimento
O mercado pode investir em inovação.
Mas determinados projetos possuem retorno muito longo ou risco elevado.
Pesquisa básica, ciência espacial, infraestrutura científica e determinadas tecnologias estratégicas frequentemente dependem de investimento público.
O Estado pode atuar onde o retorno privado é insuficiente ou demasiado incerto.
O setor privado
Ao mesmo tempo, empresas possuem capacidade de transformar conhecimento em produtos e serviços.
Elas assumem riscos.
Investem.
Contratam trabalhadores.
Desenvolvem tecnologias.
Competem.
Por isso, desenvolvimento depende de uma relação funcional entre:
Estado + empresas + universidades + sociedade.
A educação como política de desenvolvimento
Voltamos, então, a uma ideia que já aparecia na trajetória de Brizola.
Educação não é apenas uma política social.
É uma política de desenvolvimento.
A diferença é que agora a educação precisa preparar para uma economia muito mais complexa.
O Brasil precisa formar criadores
Durante a industrialização, era fundamental formar trabalhadores capazes de operar máquinas.
Hoje é necessário também formar pessoas capazes de:
criar tecnologias + desenvolver soluções + interpretar dados + empreender + pesquisar + colaborar.
O trabalhador do futuro não será apenas aquele que executa.
Será cada vez mais aquele que consegue aprender, adaptar-se e resolver problemas.
A inclusão digital
Se a economia está se digitalizando, o acesso à internet passa a ter dimensão econômica.
Sem conectividade, uma pessoa pode perder:
oportunidades de estudo;
mercados;
serviços financeiros;
informação;
trabalho;
serviços públicos.
A inclusão digital tornou-se parte da inclusão econômica.
O território brasileiro
Esse desafio é particularmente importante no Brasil.
O território é enorme.
Existem regiões densamente conectadas e outras com infraestrutura muito mais limitada.
As desigualdades regionais continuam presentes.
A tecnologia pode ajudar a reduzir distâncias.
Mas precisa chegar ao território.
A nova infraestrutura
No passado, infraestrutura significava principalmente:
estradas + ferrovias + portos + energia.
Hoje é necessário acrescentar:
internet + redes de comunicação + centros de dados + infraestrutura digital.
O desenvolvimento econômico passou a depender também da infraestrutura invisível.
O Brasil diante da nova revolução tecnológica
O país possui universidades, empresas de tecnologia, centros de pesquisa, grandes bancos, agronegócio avançado e mercado consumidor.
Possui condições para participar da transformação.
Mas enfrenta desafios:
educação desigual + baixa produtividade em vários setores + infraestrutura incompleta + dificuldade de investimento + desigualdade regional.
A velha pergunta em uma nova linguagem
No início desta série perguntamos:
quem controla a terra, o capital e os meios de produção?
Hoje precisamos acrescentar:
quem controla o conhecimento, a tecnologia, os dados e a capacidade de inovação?
A resposta poderá determinar a próxima configuração do poder econômico.
A continuidade histórica
A história não desapareceu.
Ela mudou de forma.
A terra continua importante.
O capital continua importante.
O trabalho continua importante.
A indústria continua importante.
Mas agora existe uma nova camada:
o conhecimento.
E talvez seja justamente essa a maior transformação econômica do nosso tempo.
O desafio brasileiro
Se o Brasil quiser transformar seus recursos naturais, sua indústria, sua agricultura e seu mercado em desenvolvimento de longo prazo, precisará ampliar sua capacidade de produzir conhecimento.
Isso significa investir em:
educação básica + formação profissional + universidades + ciência + tecnologia + pesquisa + inovação.
Não apenas para formar trabalhadores.
Mas para formar produtores de conhecimento.
A próxima etapa
A história econômica brasileira começou com a terra.
Passou pela exploração do trabalho.
Avançou para o comércio.
Chegou à industrialização.
Criou um grande mercado interno.
Integrau-se à economia mundial.
Entrou na era digital.
Agora começa uma nova disputa:
quem terá condições de participar da economia do conhecimento?
Essa disputa não será decidida apenas dentro das empresas.
Ela começará muito antes.
Na infância.
Na escola.
Na família.
Na cultura.
Na qualidade da educação.
No acesso à tecnologia.
Na capacidade de imaginar e criar.
E é justamente nesse ponto que a história econômica encontra a história social brasileira.
Porque o futuro da economia começa muito antes de alguém entrar no mercado de trabalho.
Continua.
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