O Brasil entrou no século XXI carregando uma estrutura econômica muito diferente daquela existente no período colonial.
A economia já não dependia de um único produto.
O país possuía indústria diversificada, agricultura mecanizada, grandes empresas, sistema financeiro desenvolvido, universidades e um mercado consumidor expressivo.
Mas uma característica histórica permaneceu:
a importância da produção de recursos naturais para a inserção brasileira no comércio internacional.
No século XXI, essa característica ganhou uma nova dimensão.
A China tornou-se um dos principais destinos das exportações brasileiras.
A ascensão da China
A partir das últimas décadas do século XX, a economia chinesa cresceu rapidamente.
A industrialização do país aumentou enormemente a demanda por:
energia + alimentos + minérios + matérias-primas.
O Brasil possuía exatamente alguns desses recursos em grande escala.
Criou-se uma relação econômica de enorme importância.
Soja
A soja tornou-se um dos principais produtos da pauta de exportação brasileira.
Sua produção cresceu especialmente em áreas do Centro-Oeste e de outras regiões agrícolas.
Mas a soja brasileira contemporânea não pode ser comparada simplesmente à agricultura colonial.
Existe uma enorme diferença tecnológica.
Hoje a produção envolve:
máquinas + sementes selecionadas + fertilizantes + pesquisa + logística + financiamento + tecnologia de informação.
O campo tornou-se tecnológico
A agricultura brasileira passou por uma transformação profunda.
Satélites podem auxiliar no monitoramento de lavouras.
Máquinas podem utilizar sistemas de orientação.
Sensores podem acompanhar condições do solo.
Dados meteorológicos ajudam no planejamento.
Drones podem auxiliar determinadas atividades.
A agricultura passou a incorporar ferramentas típicas da economia digital.
A Embrapa
A pesquisa agropecuária teve papel fundamental nesse processo.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, criada em 1973, desenvolveu conhecimentos e tecnologias adaptados às condições brasileiras.
O Cerrado é um dos exemplos mais importantes.
A transformação de áreas antes consideradas pouco adequadas para determinadas culturas em regiões agrícolas altamente produtivas foi resultado de pesquisa, tecnologia, correção de solos e desenvolvimento de sistemas de produção.
O Cerrado
A expansão agrícola para o Cerrado modificou profundamente a geografia econômica brasileira.
Novas cidades cresceram.
Estradas foram construídas.
Silos foram instalados.
Empresas chegaram.
Cooperativas se expandiram.
A produção agrícola passou a ocupar posição estratégica no Centro-Oeste.
A nova fronteira agrícola
A expansão da agricultura também trouxe conflitos.
Questões ambientais.
Uso da água.
Desmatamento.
Conflitos fundiários.
Direitos de comunidades tradicionais.
Infraestrutura.
Regularização fundiária.
O desenvolvimento agrícola passou a exigir planejamento territorial cada vez maior.
Agronegócio não é sinônimo de uma única propriedade
É importante novamente evitar simplificações.
O agronegócio envolve uma cadeia muito ampla.
Inclui:
produtores + cooperativas + fornecedores + indústria de máquinas + fertilizantes + bancos + transportadoras + armazenagem + comércio + exportadores + pesquisa.
Existem grandes produtores, médios produtores e diferentes formas de organização.
A agricultura familiar continua
Ao lado dessa agricultura empresarial e exportadora, a agricultura familiar continua importante.
Ela participa do abastecimento de alimentos e da economia de muitas comunidades.
Portanto, o campo brasileiro do século XXI continua plural.
Existem diferentes modelos produtivos.
A questão não é escolher um único modelo.
É criar condições para que diferentes formas de produção possam ser eficientes, sustentáveis e economicamente viáveis.
O minério de ferro
Outro grande produto da relação comercial com a China é o minério de ferro.
O Brasil possui grandes reservas minerais.
A mineração tornou-se uma atividade essencial para as exportações.
Mas novamente surge a questão histórica:
quanto valor é criado antes da exportação?
Exportar minério ou produtos industrializados?
Exportar recursos naturais não é necessariamente um problema.
Países ricos também exportam commodities.
O problema surge quando a economia depende excessivamente de produtos cujo preço é determinado no mercado internacional e cuja transformação industrial ocorre principalmente fora do país.
Por isso, agregar valor continua sendo um desafio.
Petróleo
O petróleo ganhou nova importância com o desenvolvimento das reservas do pré-sal.
A exploração em águas profundas exigiu enorme capacidade tecnológica.
Empresas brasileiras e estrangeiras participaram desse processo.
O desenvolvimento da tecnologia de exploração em águas profundas demonstrou que recursos naturais podem estimular inovação.
O pré-sal e a tecnologia
O petróleo brasileiro deixou de ser apenas um recurso natural.
A exploração do pré-sal exigiu:
engenharia + geologia + tecnologia submarina + logística + pesquisa + capital.
Esse é um exemplo importante da relação entre recurso natural e conhecimento.
A questão energética
O Brasil também possui uma característica particular:
uma matriz elétrica com participação relevante de fontes renováveis.
Hidrelétricas.
Biomassa.
Energia eólica.
Energia solar.
Essa estrutura cria oportunidades diante da transição energética mundial.
Energia eólica
O Nordeste brasileiro possui condições naturais especialmente favoráveis à geração eólica.
Grandes parques foram instalados.
Novos investimentos surgiram.
Cadeias industriais associadas à produção e manutenção dos equipamentos também se desenvolveram.
Energia solar
A energia solar avançou rapidamente.
Painéis passaram a aparecer em:
residências;
empresas;
propriedades rurais;
empreendimentos comerciais.
A geração distribuída criou uma nova possibilidade:
o consumidor também pode produzir parte da energia que utiliza.
A descentralização da produção
Esse fenômeno é interessante para a tese desta série.
Durante grande parte da história, a produção de energia dependia de grandes estruturas.
Agora, determinadas tecnologias permitem que famílias, empresas e propriedades rurais participem diretamente da geração.
A tecnologia pode descentralizar parte da produção.
A economia digital
Ao mesmo tempo, a internet transformou o comércio.
Uma pequena empresa pode vender para consumidores de outras cidades.
Um artesão pode alcançar mercados distantes.
Um produtor rural pode acompanhar preços.
Um profissional pode trabalhar remotamente.
O espaço econômico tornou-se mais conectado.
O pequeno empreendedor
Essa transformação criou oportunidades que não existiam anteriormente.
Uma pessoa pode iniciar um negócio com estrutura relativamente pequena.
Pode utilizar plataformas digitais.
Pode divulgar produtos pelas redes sociais.
Pode receber pagamentos eletrônicos.
Pode alcançar clientes fora de sua região.
A tecnologia reduziu algumas barreiras de entrada.
Mas não eliminou todas
Ainda existem dificuldades.
Capital.
Conhecimento.
Crédito.
Logística.
Tributação.
Burocracia.
Concorrência.
Qualificação.
A tecnologia abre portas.
Mas não elimina as estruturas econômicas.
O sistema financeiro digital
O sistema financeiro também mudou profundamente.
Pagamentos eletrônicos tornaram-se comuns.
Bancos digitais cresceram.
Fintechs passaram a disputar espaço com instituições tradicionais.
O acesso a serviços financeiros tornou-se mais simples para muitas pessoas.
O crédito
O crédito possui enorme importância para a mobilidade econômica.
Uma empresa pode utilizar crédito para comprar equipamentos.
Um agricultor pode financiar uma safra.
Uma família pode adquirir uma casa.
Um estudante pode financiar sua formação.
Mas crédito também envolve risco.
Juros elevados podem comprometer a capacidade de pagamento.
Por isso, acesso ao crédito precisa vir acompanhado de educação financeira e condições adequadas.
A pandemia
A pandemia de Covid-19 modificou novamente a economia mundial.
Empresas precisaram adaptar processos.
O trabalho remoto cresceu.
O comércio eletrônico avançou.
Serviços digitais ganharam importância.
A fragilidade das cadeias internacionais de produção tornou-se evidente.
O retorno da importância da indústria
A pandemia também mostrou que depender excessivamente de fornecedores externos pode criar riscos.
Medicamentos.
Equipamentos médicos.
Componentes eletrônicos.
Produtos químicos.
Máquinas.
A discussão sobre segurança das cadeias produtivas ganhou força.
A indústria brasileira
A indústria continua sendo fundamental.
Mesmo com a expansão do agronegócio e dos serviços, uma economia grande precisa de capacidade industrial.
A indústria produz máquinas.
Transforma matérias-primas.
Gera tecnologia.
Cria empregos especializados.
Forma cadeias produtivas.
O problema da produtividade
Mais uma vez, aparece uma questão central:
produtividade.
O Brasil possui grande capacidade de produção.
Mas precisa aumentar a produtividade em muitos setores.
Isso depende de:
educação + infraestrutura + tecnologia + gestão + investimento.
A infraestrutura
Estradas.
Ferrovias.
Portos.
Aeroportos.
Energia.
Saneamento.
Internet.
Tudo isso determina a capacidade de uma economia funcionar.
Um produto agrícola pode ser excelente.
Mas, se o transporte for caro, parte de sua competitividade será perdida.
A logística brasileira
A distância entre áreas produtoras e portos é enorme.
Durante décadas, o Brasil dependeu fortemente do transporte rodoviário.
A expansão das ferrovias e a melhoria dos portos podem reduzir custos.
Mais uma vez, infraestrutura transforma produtividade em competitividade.
O Brasil e o mundo
A globalização criou oportunidades.
Mas também criou dependências.
O Brasil depende de mercados externos para vender seus produtos.
Também depende de determinados fornecedores estrangeiros de máquinas, componentes, tecnologias e insumos.
A questão não é eliminar o comércio internacional.
É construir uma economia capaz de participar dele em melhores condições.
A China como oportunidade e desafio
A China compra enormes quantidades de produtos brasileiros.
Isso gera:
exportações + empregos + arrecadação + investimentos.
Mas também cria dependência de um grande mercado consumidor.
Se a demanda chinesa diminuir significativamente, determinados setores brasileiros poderão sentir os efeitos.
Diversificar mercados é, portanto, uma estratégia importante.
Commodity e valor agregado
O debate sobre commodities precisa ser tratado com equilíbrio.
Commodities podem gerar riqueza.
Podem financiar investimentos.
Podem gerar divisas.
Podem fortalecer regiões inteiras.
A questão é utilizar essa riqueza para aumentar a capacidade produtiva do país.
O desafio da industrialização
Um país pode exportar soja e, simultaneamente, desenvolver:
máquinas agrícolas;
biotecnologia;
fertilizantes;
processamento de alimentos;
logística;
sistemas digitais;
pesquisa genética;
tecnologias ambientais.
A cadeia produtiva é muito maior do que o produto final exportado.
A biodiversidade e a bioeconomia
A biodiversidade brasileira também pode criar novas oportunidades.
Florestas podem ser vistas não apenas como recursos a serem explorados, mas como patrimônio que pode gerar conhecimento e produtos sustentáveis.
A bioeconomia pode envolver:
alimentos + medicamentos + cosméticos + materiais + pesquisa científica.
Mas exige conservação.
A floresta como patrimônio econômico
Essa é uma mudança importante de perspectiva.
Conservar uma floresta não precisa significar simplesmente impedir qualquer atividade econômica.
Pode significar desenvolver atividades econômicas capazes de manter a floresta em pé.
Conhecimento científico pode transformar biodiversidade em valor sem destruir o patrimônio natural.
O novo conceito de riqueza
Durante séculos, riqueza esteve muito ligada à quantidade de terra.
Depois, à quantidade de máquinas e capital.
Hoje, a riqueza também envolve:
conhecimento + tecnologia + dados + inovação + marcas + capacidade de organização.
Os recursos naturais continuam importantes.
Mas o conhecimento determina cada vez mais quanto valor pode ser extraído de cada recurso.
O Brasil diante dessa transformação
O país possui uma combinação rara:
recursos naturais + território + agricultura + energia + indústria + mercado interno + biodiversidade + ciência.
O desafio é conectar essas vantagens.
Não basta possuir recursos.
É preciso possuir capacidade para transformá-los em desenvolvimento.
A nova pergunta histórica
No início desta série, perguntamos:
quem controla a terra, o capital e os meios de produção?
Agora precisamos acrescentar:
quem controla a tecnologia necessária para transformar esses recursos em valor?
Essa pergunta modifica novamente a compreensão do poder econômico.
Da terra à tecnologia
A história não abandonou a terra.
Não abandonou o capital.
Não abandonou o trabalho.
Não abandonou a indústria.
Ela acrescentou novas camadas.
Hoje temos:
terra + capital + trabalho + indústria + energia + tecnologia + conhecimento + dados.
Quanto mais complexa a economia, mais complexas ficam as relações de poder.
E chegamos a uma nova fronteira
O Brasil possui condições para participar de uma nova economia baseada em:
transição energética + bioeconomia + tecnologia + agricultura de precisão + inteligência artificial + indústria avançada.
Mas isso exigirá uma população preparada.
E nos leva novamente à questão que atravessa toda esta série:
quem terá acesso às ferramentas capazes de produzir riqueza?
A resposta dependerá cada vez menos apenas da posse da terra.
E cada vez mais da capacidade de acessar educação, tecnologia, capital e conhecimento.
É nesse ponto que a discussão econômica encontra novamente a educação e, dessa vez, a questão não será apenas formar trabalhadores.
Será formar pessoas capazes de criar, inovar e participar da economia que está nascendo.
Continua.
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