A escolha de Lampião e Leonel Brizola como fios condutores desta série nasceu de uma história familiar.
Meu avô materno, um nordestino arretado chamado Bravo, era eleitor e cabo eleitoral de Brizola. E defendia Brizola ferozmente.
O sobrenome Bravo, que hoje também carrego, faz parte dessa história.
Meu avô viveu diferentes períodos da política brasileira e acompanhou de perto as transformações do país. Já aposentado, viajava com minha avó, mas, quando chegavam as eleições, muitas vezes interrompia as viagens para permanecer em casa e participar ativamente das campanhas de Brizola e de seus aliados.
Para ele, votar não era suficiente.
Era preciso participar.
Seu apartamento, que ficava de frente para a rua principal do condomínio, transformava-se espontaneamente em uma espécie de comitê eleitoral.
Na janela, colocava cartazes de Brizola.
Dentro de casa, havia panfletos, camisas, adesivos, cartazes e todo tipo de material de campanha.
As pessoas passavam em frente e perguntavam:
— É um comitê?
Ele respondia:
— É. Mas o trabalho é gratuito. Se quiser participar, também será gratuitamente.
Era assim.
Ele não fazia aquilo por dinheiro.
Fazia porque acreditava.
E defendia suas convicções com a mesma intensidade com que defendia o candidato em quem acreditava.
Meu avô era, antes de tudo, um homem de convicções.
Nas próprias eleições, sua participação continuava.
Em alguns pleitos, meu avô era presidente de mesa eleitoral. E até ali aparecia seu jeito espontâneo de viver a política.
Quando entrava alguém conhecido, ele perguntava, com a naturalidade de quem já havia transformado a política em assunto cotidiano:
— Vai votar no Brizola?
Era quase impossível separar meu avô da política.
A campanha estava na janela de seu apartamento, nos panfletos espalhados pela casa, nas conversas com quem passava, nas viagens interrompidas em época de eleição e até nos dias de votação.
Ele não era apenas eleitor de Brizola. Era um militante apaixonado por suas convicções.
Mas havia uma parte de sua vida que eu, naquela época, não compreendia.
Entre uma eleição e outra, quando não estava viajando com minha avó, ele se sentava diante de sua máquina de escrever.
E ficava ali durante horas.
A mesa ficava de frente para a janela.
Quem passava na rua e o via datilografando imaginava que estivesse preparando algum material político de Brizola.
Eu também imaginava.
Até que um dia perguntei:
— O que o senhor tanto escreve?
Ele respondeu, entusiasmado:
— É um livro.
Mas não me dizia sobre o que era.
Eu achava que fosse sobre Brizola.
Talvez sobre política.
Talvez sobre tudo aquilo que ele havia vivido.
Só descobri a verdade depois de sua morte.
Quando meu avô faleceu, pedi à minha avó se poderia ver os manuscritos.
Ela juntou tudo, colocou em uma pasta e me entregou.
Quando comecei a ler, descobri algo que jamais esperaria:
o livro era sobre Lampião.
E então veio a pergunta:
Por que Lampião?
Meu avô havia dedicado parte de sua vida à política.
Defendia Brizola ferozmente.
Participava de suas campanhas.
Distribuía material.
Conversava com as pessoas.
Acompanhava as eleições.
E ficou profundamente abalado quando Brizola não conseguiu chegar à Presidência.
Mas, diante da máquina de escrever, longe dos cartazes e dos panfletos, ele escrevia sobre Lampião.
Procurei uma explicação.
Pesquisei.
Pesquisei novamente.
Procurei alguma relação histórica entre Lampião e Brizola.
Não encontrei.
Eles não tinham uma ligação direta que justificasse aquela aproximação.
Foi então que percebi que talvez a relação não estivesse nos dois personagens.
Talvez estivesse no Brasil.
Lampião pertence ao Brasil sertanejo, marcado pela pobreza, pela concentração da terra, pelas desigualdades regionais, pelos conflitos sociais e pelas dificuldades de acesso às estruturas do Estado.
Brizola pertence a outro momento histórico e a outro campo de atuação.
Sua trajetória esteve ligada à política institucional, à educação pública, ao desenvolvimento nacional e à defesa da soberania.
São histórias diferentes.
Não devem ser confundidas.
Mas podem ser colocadas em diálogo.
Lampião permite olhar para algumas das fraturas históricas do Brasil.
Brizola permite olhar para uma das tentativas de transformar o país por meio da educação, da política e do desenvolvimento.
Um revela contradições.
O outro representa um projeto de transformação.
E entre os dois existe um país inteiro.
Foi assim que comecei a construir esta coletânea.
Terra.
Capital.
Trabalho.
Agricultura.
Indústria.
Energia.
Educação.
Desenvolvimento.
Patrimônio.
Tecnologia.
Conhecimento.
Sustentabilidade.
Futuro.
Talvez meu avô também estivesse procurando respostas quando escrevia.
Talvez aquela máquina de escrever fosse uma forma de espairecer depois das decepções políticas.
Talvez fosse uma maneira de se afastar, por algumas horas, das disputas eleitorais e voltar ao sertão através da memória.
Não posso saber exatamente o que ele pensava.
Ele não me contou.
Mas posso fazer uma leitura a partir do que deixou.
De um lado, estava o homem da janela, cercado por cartazes de Brizola, pronto para defender suas convicções.
Do outro, estava o homem sentado diante da máquina de escrever, mergulhado na história de Lampião.
Eram dois lados do mesmo Bravo.
O militante.
E o escritor.
O homem que queria participar da transformação política do país.
E o homem que precisava escrever.
Talvez esses dois lados não fossem tão diferentes.
A política o fazia acreditar que o Brasil poderia mudar.
A escrita talvez o ajudasse a compreender por que era tão difícil mudá-lo.
Talvez exista ainda uma imagem que hoje me faça pensar nele de outra maneira.
Meu avô não chegou a conhecer a era das telas da internet, das redes sociais e de toda essa comunicação instantânea que transformou a maneira como as pessoas se expressam e participam da política.
Às vezes penso que, se tivesse vivido essa época, talvez aquela janela do apartamento tivesse ganhado uma nova forma.
Talvez a internet tivesse se tornado a sua janela para o mundo.
Em vez de cartazes pendurados na janela, talvez houvesse publicações.
Em vez de panfletos, compartilhamentos.
Em vez de conversar com quem passava pela rua, talvez conversasse com milhares de pessoas pelas redes sociais.
E, em vez de passar horas diante da máquina de escrever, talvez passasse horas diante de uma tela, digitando seus pensamentos sobre política, Brizola e o Brasil.
Porque a máquina de escrever não era apenas uma máquina para ele.
Era também uma maneira de colocar para fora aquilo que pensava.
Se tivesse conhecido a internet, talvez tivesse feito dela a sua nova janela para desabafar sobre política.
E talvez, em vez de datilografar, estivesse hoje digitando.
Foi dessa descoberta que Lampião e Brizola passaram a caminhar juntos nesta coletânea.
Não porque suas histórias fossem iguais.
Não porque defendessem as mesmas ideias.
E muito menos porque existisse entre eles uma relação histórica direta.
Eles caminham juntos aqui porque meu avô os colocou, sem que eu soubesse, dentro da mesma história da família.
Um estava nos manuscritos.
O outro estava na vida que ele viveu.
E eu, muitos anos depois, encontrei os dois.
Foi então que pensei:
E se eu continuasse essa conversa?
E se eu tentasse construir a ligação que meu avô talvez tivesse procurado?
Não uma ligação histórica entre Lampião e Brizola.
Mas uma ligação entre os problemas do Brasil que suas trajetórias permitem observar.
Foi assim que nasceu esta série.
Uma tentativa de compreender como o Brasil passou da terra ao capital, do capital à indústria, da indústria à energia, da energia à globalização, da globalização à tecnologia e da tecnologia ao conhecimento.
E, finalmente, como tudo isso se relaciona com o patrimônio que deixaremos para o futuro.
Talvez eu tenha feito aquilo que imaginei que meu avô faria.
Coloquei Lampião e Brizola lado a lado para perguntar o que suas histórias podem nos ajudar a compreender sobre o Brasil.
E existe algo profundamente simbólico nisso.
Meu avô se chamava Bravo.
Esse é também o sobrenome que herdei.
Ele deixou para mim uma pasta de manuscritos.
Deixou a memória de sua militância.
Deixou a imagem daquela janela cheia de cartazes.
Deixou a máquina de escrever.
E deixou, sem saber, uma pergunta.
O que havia entre Lampião e Brizola?
Eu procurei a resposta nos livros de história.
Mas encontrei outra coisa.
Encontrei uma história sobre meu avô.
Sobre sua geração.
Sobre suas esperanças políticas.
Sobre suas decepções.
Sobre sua necessidade de escrever.
E sobre a maneira como uma pessoa pode carregar dentro de si diferentes formas de pensar o mesmo país.
Por isso, esta série não é apenas uma análise histórica.
Ela também é uma forma de memória.
Uma forma de homenagem.
E talvez, de certa maneira, uma continuação daquele livro que meu avô datilografava diante da janela.
Ele escreveu sobre Lampião.
Ele viveu e defendeu Brizola.
Eu herdei seu sobrenome.
E, de alguma maneira, herdei também a vontade de tentar compreender o Brasil.
Foi assim que esta história chegou até aqui.
E talvez seja essa a verdadeira razão pela qual Lampião e Brizola permaneceram juntos nesta coletânea.
Um veio dos manuscritos do meu avô.
O outro veio da vida que ele viveu.
E os dois chegaram até mim pelas mãos da memória.
Bravo.
Esse nome, para mim, não é apenas um sobrenome.
É parte da história que me trouxe até aqui.
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