A história brasileira chegou a um ponto em que a riqueza de um país já não pode ser medida apenas pela quantidade de terra, pela extensão de suas reservas minerais ou pelo tamanho de sua produção agrícola.
Esses recursos continuam importantes.
Mas existe algo que passou a determinar cada vez mais a capacidade de uma sociedade produzir riqueza:
a capacidade de transformar conhecimento em tecnologia, tecnologia em produtividade e produtividade em oportunidades.
Essa transformação não aconteceu de repente.
Ela é resultado de um processo histórico que começou muito antes da internet.
Da terra ao conhecimento
Durante grande parte da história brasileira, a terra foi um dos principais instrumentos de produção.
Depois, a indústria ganhou importância.
O capital financeiro passou a exercer papel cada vez maior.
Agora, conhecimento, tecnologia, dados e capacidade de inovação ocupam uma posição estratégica.
Isso não significa que a terra deixou de ser importante.
Significa que os instrumentos de produção se multiplicaram.
Hoje, uma economia pode possuir enormes extensões de terras produtivas e, ainda assim, depender de tecnologia desenvolvida em outros países.
Pode possuir petróleo e importar equipamentos sofisticados.
Pode possuir biodiversidade e depender de tecnologia estrangeira para transformá-la em produtos de alto valor.
A riqueza natural continua sendo uma vantagem.
Mas vantagem natural não é o mesmo que capacidade tecnológica.
Produtividade é a ponte
A produtividade é justamente a ponte entre recursos e riqueza.
Se dois países possuem recursos semelhantes, mas um consegue produzir mais utilizando menos tempo, energia e matéria-prima, esse país terá maior capacidade de competir.
Por isso, produtividade não é apenas uma questão empresarial.
É uma questão nacional.
Ela influencia salários, preços, investimentos, exportações e capacidade de financiamento do Estado.
Por que produtividade importa para o trabalhador?
Existe uma interpretação equivocada segundo a qual produtividade beneficiaria apenas as empresas.
Não precisa ser assim.
Quando a produtividade aumenta de maneira sustentável, pode existir espaço para:
salários maiores + preços mais competitivos + maiores investimentos + expansão das empresas.
O problema surge quando os ganhos de produtividade não são acompanhados por qualificação, concorrência e mecanismos que permitam que seus benefícios sejam distribuídos de maneira mais ampla.
Educação volta ao centro
Por isso, a educação reaparece nesta história.
Não apenas como política social.
Mas como infraestrutura econômica.
Uma sociedade que educa melhor sua população aumenta sua capacidade produtiva.
Uma criança alfabetizada hoje poderá ser uma profissional qualificada amanhã.
Um jovem com formação técnica poderá operar máquinas sofisticadas.
Um pesquisador poderá desenvolver uma nova tecnologia.
Um empreendedor poderá transformar conhecimento em empresa.
Educação produz efeitos econômicos que atravessam gerações.
A escola como parte da economia
Isso não significa transformar a escola em uma empresa.
Significa reconhecer que educação e economia estão conectadas.
Uma escola forma cidadãos.
Mas também forma trabalhadores, pesquisadores, empreendedores, técnicos, professores, cientistas e profissionais.
A qualidade dessa formação influencia diretamente o futuro produtivo do país.
Conhecimento não é apenas diploma
Conhecimento econômico também não significa apenas formação universitária.
Inclui:
educação básica + formação técnica + experiência profissional + pesquisa + inovação + conhecimento tradicional.
Um agricultor possui conhecimento sobre o solo.
Um artesão possui conhecimento sobre materiais.
Um engenheiro possui conhecimento técnico.
Um pesquisador possui conhecimento científico.
Uma comunidade tradicional possui conhecimento acumulado por gerações.
O desenvolvimento pode surgir justamente quando diferentes formas de conhecimento se encontram.
Ciência e desenvolvimento
A ciência permite transformar perguntas em conhecimento.
A tecnologia transforma conhecimento em aplicações.
A empresa transforma aplicações em produtos e serviços.
O mercado ajuda a encontrar consumidores.
O Estado pode criar condições para que esse processo aconteça.
É uma cadeia.
ciência → tecnologia → inovação → produção → mercado.
O problema da distância entre pesquisa e mercado
O Brasil possui universidades e centros de pesquisa importantes.
Mas ainda existe dificuldade para transformar parte desse conhecimento em produtos, empresas e tecnologias comercialmente competitivas.
Isso cria uma lacuna.
Produzir conhecimento é fundamental.
Mas também é necessário criar mecanismos para que ele chegue à sociedade.
A inovação
Inovação não significa apenas inventar algo completamente novo.
Também pode significar:
produzir melhor;
reduzir desperdícios;
automatizar processos;
melhorar serviços;
criar novos modelos de negócios;
encontrar maneiras mais eficientes de utilizar recursos.
Uma pequena melhoria aplicada milhões de vezes pode produzir enorme impacto econômico.
A inteligência artificial
A inteligência artificial representa uma nova etapa.
Ela pode analisar grandes quantidades de informação, automatizar determinadas tarefas, auxiliar profissionais e acelerar processos de pesquisa.
Isso pode aumentar a produtividade.
Mas também modifica o mercado de trabalho.
Algumas atividades serão transformadas.
Outras surgirão.
A transformação do trabalho
A história econômica já passou por transformações semelhantes.
A mecanização agrícola reduziu a necessidade de determinados trabalhos manuais.
A industrialização substituiu algumas atividades artesanais e criou novas ocupações.
A automação industrial modificou as fábricas.
A informática transformou escritórios.
A inteligência artificial continuará esse processo.
A questão não é impedir a tecnologia.
É preparar as pessoas para participar da nova economia.
O risco da exclusão tecnológica
Se apenas uma parcela da população tiver acesso a ferramentas tecnológicas avançadas, a desigualdade pode assumir uma nova forma.
A antiga desigualdade de acesso à terra pode ser acompanhada por uma desigualdade de acesso ao conhecimento.
A desigualdade do futuro pode ser menos visível.
Pode estar no acesso:
à tecnologia + aos dados + à formação + ao capital + às redes.
A democratização da tecnologia
Por isso, ampliar o acesso à tecnologia é estratégico.
Internet de qualidade.
Computadores.
Ferramentas digitais.
Formação profissional.
Laboratórios.
Bibliotecas.
Ambientes de inovação.
Tudo isso pode ampliar oportunidades.
Pequenos negócios
A tecnologia pode ser especialmente importante para pequenos empreendedores.
Um pequeno produtor pode divulgar seus produtos diretamente.
Uma artesã pode alcançar consumidores de outras cidades.
Um profissional pode prestar serviços remotamente.
Uma pequena empresa pode utilizar sistemas de gestão sofisticados.
A tecnologia pode reduzir algumas barreiras de entrada.
Mas não todas.
Ainda são necessários capital, conhecimento, infraestrutura e acesso a mercados.
Crédito como instrumento de desenvolvimento
Aqui voltamos a um elemento presente desde o início desta série:
o acesso ao capital.
Uma pessoa pode possuir uma boa ideia e capacidade de trabalho.
Mas, sem crédito ou recursos próprios, pode não conseguir transformá-la em empreendimento.
O crédito permite antecipar capacidade produtiva futura.
Mas precisa ser responsável.
Juros elevados ou endividamento excessivo podem transformar oportunidade em problema.
Capital e patrimônio
Existe uma diferença importante entre renda e patrimônio.
Renda é fluxo.
Patrimônio é estoque.
Uma pessoa pode possuir renda mensal e ainda não possuir patrimônio.
Construir patrimônio exige tempo.
Poupança.
Investimento.
Propriedade.
Educação.
Empresa.
Acesso a oportunidades.
Por isso, a mobilidade econômica de longo prazo depende também da capacidade de acumular patrimônio.
A propriedade no século XXI
A propriedade também mudou.
Hoje pode representar:
terra + casa + empresa + ações + propriedade intelectual + software + marcas + ativos financeiros.
A propriedade intelectual ganhou importância.
Uma patente pode valer bilhões.
Uma marca pode valer bilhões.
Um software pode ser utilizado no mundo inteiro.
O patrimônio tornou-se cada vez mais intangível.
A nova concentração
Isso cria uma nova forma de concentração.
No passado, grandes extensões de terra poderiam concentrar poder.
Hoje, uma tecnologia utilizada por milhões de pessoas pode concentrar enorme valor econômico.
Uma plataforma digital pode conectar milhões de consumidores e empresas.
Uma empresa pode possuir poucos ativos físicos e, ainda assim, possuir enorme valor de mercado.
A economia tornou-se menos material em alguns setores.
Mas a economia física continua
É importante não cair no erro de imaginar que tudo se tornou digital.
A internet depende de cabos.
Os computadores dependem de minerais.
Os centros de dados dependem de energia.
Os celulares dependem de fábricas.
As cidades dependem de água.
As pessoas continuam precisando de alimentos.
A economia digital continua apoiada em uma enorme infraestrutura física.
A nova importância da energia
Quanto mais digital a economia se torna, maior também pode ser a demanda por eletricidade.
Centros de dados consomem energia.
Indústrias automatizadas precisam de eletricidade confiável.
Veículos elétricos exigem infraestrutura de carregamento.
A produção de novas tecnologias depende de energia.
Por isso, a transição energética e a transformação digital estão cada vez mais conectadas.
A vantagem brasileira
O Brasil possui uma oportunidade particular.
O país possui grande potencial de geração de energia renovável.
Possui mercado consumidor.
Possui recursos naturais.
Possui agricultura avançada.
Possui universidades.
Possui empresas competitivas.
A combinação desses elementos pode criar novas oportunidades.
Mas oportunidade não é resultado garantido.
A necessidade de investimento
Para transformar vantagens em desenvolvimento, é necessário investir.
Em:
educação + ciência + infraestrutura + energia + tecnologia + logística + empresas.
Investimento público e privado podem desempenhar papéis diferentes e complementares.
O papel do Estado no novo ciclo
O Estado pode atuar naquilo que exige horizonte de longo prazo.
Pesquisa básica.
Infraestrutura.
Educação.
Regulação.
Segurança jurídica.
Formação profissional.
Políticas de inovação.
Mas não precisa necessariamente substituir empresas em todas as atividades.
O papel das empresas
As empresas precisam assumir riscos.
Investir.
Inovar.
Testar.
Competir.
Contratar.
Formar profissionais.
Desenvolver produtos.
Uma economia dinâmica precisa de empresas capazes de crescer.
O papel da sociedade
A sociedade também possui responsabilidade.
Consumidores influenciam mercados.
Trabalhadores precisam buscar qualificação.
Universidades precisam dialogar com problemas reais.
Empresas precisam responder às demandas sociais.
Governos precisam prestar contas.
O desenvolvimento é coletivo.
O território brasileiro
A dimensão territorial brasileira continua sendo uma vantagem e um desafio.
O país possui regiões muito diferentes.
A infraestrutura não é distribuída de maneira uniforme.
A produtividade também varia.
O acesso à tecnologia é desigual.
O desenvolvimento regional continua sendo uma questão fundamental.
Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul
Cada região possui vantagens específicas.
A Amazônia possui biodiversidade.
O Nordeste possui potencial solar e eólico.
O Centro-Oeste possui forte produção agrícola.
O Sudeste concentra grande parte da indústria, dos serviços e das instituições financeiras.
O Sul possui importante base industrial e agropecuária.
A questão não é fazer todas as regiões produzirem exatamente as mesmas coisas.
É permitir que cada uma desenvolva suas vantagens e se conecte às demais.
Infraestrutura como integração nacional
Estradas.
Ferrovias.
Portos.
Aeroportos.
Energia.
Internet.
Saneamento.
Essas estruturas integram o território.
No século XIX, as ferrovias ajudaram a conectar áreas produtoras aos portos.
No século XX, rodovias e hidrelétricas ampliaram essa integração.
No século XXI, a infraestrutura digital acrescenta uma nova camada.
O Brasil conectado
Uma pequena empresa no interior pode hoje vender para outro estado.
Um estudante pode acessar cursos de universidades estrangeiras.
Um agricultor pode utilizar informações climáticas em tempo real.
Um médico pode acompanhar um paciente à distância.
A distância geográfica perdeu parte de seu poder.
Mas a infraestrutura ainda determina quem consegue aproveitar essas possibilidades.
O futuro do campo
A agricultura brasileira provavelmente será cada vez mais tecnológica.
Sensores.
Drones.
Satélites.
Automação.
Inteligência artificial.
Biotecnologia.
Mas isso não significa necessariamente o desaparecimento do pequeno produtor.
A tecnologia pode ser utilizada em propriedades de diferentes tamanhos.
Cooperativas podem ajudar pequenos produtores a acessar máquinas, crédito e mercados.
O futuro da indústria
A indústria também passará por transformação.
Robótica.
Automação.
Impressão 3D.
Inteligência artificial.
Novos materiais.
Energia limpa.
A indústria do futuro poderá produzir mais utilizando menos recursos.
Mas exigirá profissionais mais qualificados.
O futuro dos serviços
Os serviços já representam grande parte da economia.
Finanças.
Educação.
Saúde.
Turismo.
Cultura.
Tecnologia.
Logística.
Comunicação.
Muitos desses setores podem crescer com a digitalização.
A economia criativa
Existe ainda outro patrimônio brasileiro:
a cultura.
Música.
Artesanato.
Literatura.
Cinema.
Design.
Gastronomia.
Festas populares.
Patrimônio histórico.
Conhecimentos tradicionais.
Tudo isso pode gerar atividade econômica.
A cultura não precisa ser vista apenas como despesa.
Pode também ser fonte de trabalho, identidade e inovação.
Uma nova definição de riqueza
Talvez seja necessário ampliar nossa própria ideia de riqueza.
Riqueza não é apenas dinheiro.
Também pode ser:
conhecimento + infraestrutura + patrimônio cultural + recursos naturais preservados + capacidade produtiva + capital humano.
Um país que destrói seus recursos naturais pode empobrecer mesmo quando seu PIB cresce.
Um país que não educa sua população pode possuir recursos e continuar dependente.
Um país que não investe em ciência pode consumir tecnologia sem produzi-la.
O desenvolvimento sustentável
O desenvolvimento do século XXI precisa considerar uma questão que não possuía a mesma dimensão no passado:
os limites ambientais.
A produção precisa continuar.
Mas os recursos naturais precisam ser preservados.
A tecnologia pode ajudar.
Produzir mais utilizando menos água.
Mais alimentos utilizando menos área.
Mais energia com menor emissão.
Mais produtos com menos desperdício.
Essa é uma das grandes oportunidades da inovação.
A nova equação brasileira
A antiga equação era:
terra + trabalho + capital.
Depois acrescentamos:
indústria + energia + infraestrutura.
Agora precisamos acrescentar:
conhecimento + tecnologia + inovação + sustentabilidade.
Essa é a nova estrutura econômica.
Mas a pergunta histórica continua
Quem terá acesso a esses novos instrumentos?
Essa pergunta nos leva novamente ao começo.
Se a terra foi concentrada, quem terá acesso à tecnologia?
Se o capital foi concentrado, quem terá acesso ao financiamento?
Se o conhecimento se tornou um meio de produção, quem terá acesso à educação de qualidade?
Se os dados se tornaram ativos econômicos, quem terá capacidade de utilizá-los?
A questão da oportunidade reaparece.
O futuro não será definido apenas pela tecnologia
A tecnologia pode aumentar a produtividade.
Mas não decide sozinha como seus benefícios serão distribuídos.
Essa é uma decisão econômica, política e social.
A inteligência artificial pode ampliar a produtividade de uma empresa.
Mas a sociedade precisa decidir como preparar os trabalhadores.
A automação pode reduzir custos.
Mas será necessário criar novas oportunidades.
A tecnologia pode democratizar o acesso ao conhecimento.
Mas também pode ampliar desigualdades se ficar restrita a poucos.
A grande escolha
O Brasil não precisa escolher entre tecnologia e trabalho.
Pode utilizar tecnologia para aumentar a produtividade do trabalho.
Não precisa escolher entre agricultura e indústria.
Pode utilizar a indústria para aumentar a produtividade da agricultura.
Não precisa escolher entre Estado e mercado.
Pode utilizar ambos em funções diferentes.
Não precisa escolher entre crescimento e sustentabilidade.
Pode buscar crescimento baseado em eficiência tecnológica.
A síntese
Depois de séculos de transformações, a questão central permanece surpreendentemente atual:
como ampliar o número de pessoas capazes de participar da produção de riqueza?
No passado, isso significava discutir acesso à terra.
Depois, acesso ao emprego industrial.
Mais tarde, acesso à educação e ao crédito.
Hoje, significa também acesso à tecnologia e ao conhecimento.
A forma mudou.
A questão permanece.
O próximo capítulo
A história nos trouxe da terra ao capital.
Do capital à indústria.
Da indústria à tecnologia.
Da tecnologia ao conhecimento.
Agora surge uma nova pergunta:
quem será capaz de transformar o conhecimento em patrimônio, autonomia e desenvolvimento?
Porque o verdadeiro desafio do século XXI não será apenas possuir tecnologia.
Será fazer com que ela produza mais liberdade, mais produtividade e mais oportunidades.
E é nesse ponto que a história econômica encontra novamente a história política.
Porque, quando a estrutura econômica muda, o poder também muda.
E a próxima parte será justamente sobre essa transformação do poder no Brasil.
Continua.
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