A história brasileira chegou a uma nova fronteira.
Durante séculos, o poder econômico esteve relacionado principalmente à posse da terra, ao controle do comércio, à indústria, à energia e ao capital.
No século XXI, porém, outro elemento passou a ocupar posição estratégica:
a capacidade de produzir conhecimento e controlar tecnologias essenciais.
Isso não significa que a terra, o capital ou os recursos naturais tenham perdido importância.
Significa que eles passaram a depender cada vez mais da tecnologia.
A tecnologia transforma os recursos
Uma mesma quantidade de terra pode produzir resultados completamente diferentes dependendo da tecnologia utilizada.
Uma jazida mineral pode gerar maior ou menor valor dependendo da capacidade de processamento.
Uma fonte de energia pode ser mais ou menos eficiente dependendo da tecnologia disponível.
Uma empresa pode competir melhor ou pior dependendo de sua capacidade de inovação.
Portanto:
o recurso natural é importante, mas a capacidade de transformá-lo tornou-se decisiva.
Da matéria-prima ao produto de alto valor
Durante muito tempo, países periféricos foram associados à exportação de matérias-primas e à importação de produtos industrializados.
A industrialização modificou parcialmente essa relação.
Mas o desafio contemporâneo é ainda maior.
Não basta produzir bens industriais.
É preciso dominar as tecnologias que estão por trás deles.
Quem domina a tecnologia possui poder
Um país que domina determinada tecnologia pode:
produzir mais barato + produzir melhor + exportar + criar empregos qualificados + proteger setores estratégicos.
Também pode reduzir sua dependência externa.
Por isso, tecnologia tornou-se uma questão econômica e geopolítica.
Semicondutores
Poucos exemplos demonstram isso tão claramente quanto os semicondutores.
Eles estão presentes em:
computadores + celulares + automóveis + equipamentos médicos + máquinas industriais + sistemas de defesa + inteligência artificial.
Uma pequena peça pode estar presente em praticamente toda a economia moderna.
A nova importância dos minerais
Para produzir tecnologias avançadas são necessários diversos minerais.
Isso recoloca os recursos naturais no centro da geopolítica.
Mas agora existe uma diferença.
Não basta possuir o minério.
É necessário possuir capacidade para:
extrair + processar + transformar + fabricar.
O Brasil possui recursos estratégicos
O território brasileiro possui reservas importantes de diversos minerais utilizados pela indústria moderna.
Isso representa uma oportunidade.
Mas também exige planejamento.
Se o país simplesmente exportar o minério bruto, poderá capturar apenas uma parte do valor gerado pela cadeia produtiva.
O desafio do valor agregado
Quanto maior o número de etapas realizadas dentro do país, maior pode ser a capacidade de gerar:
empregos qualificados + tecnologia + impostos + empresas + conhecimento.
A discussão sobre industrialização retorna, portanto, sob uma nova forma.
Industrialização 2.0
No século XX, industrializar significava construir fábricas.
No século XXI, industrializar significa também dominar:
automação + software + robótica + inteligência artificial + materiais avançados + biotecnologia.
A fábrica continua existindo.
Mas tornou-se muito mais inteligente.
O retorno da política industrial
Durante décadas, a política industrial foi objeto de intenso debate.
Uma visão defendia que o mercado deveria definir os investimentos.
Outra entendia que o Estado deveria selecionar setores estratégicos e apoiá-los.
A experiência internacional demonstra que diferentes países utilizaram diferentes combinações entre mercado e políticas públicas.
O papel do Estado estratégico
O Estado não precisa produzir tudo.
Mas pode criar condições para que determinadas tecnologias sejam desenvolvidas.
Pode financiar pesquisa.
Pode apoiar infraestrutura.
Pode estimular formação profissional.
Pode estabelecer regras.
Pode realizar compras públicas.
Pode criar mecanismos de incentivo à inovação.
Mas existe um limite
Política industrial também pode produzir erros.
Quando governos escolhem empresas ou setores sem critérios claros, podem ocorrer desperdícios, privilégios e dependência de subsídios.
Por isso, políticas públicas precisam ser avaliadas por resultados.
O setor privado
Empresas possuem uma função fundamental.
São elas que precisam transformar conhecimento em produtos e serviços competitivos.
Uma pesquisa excelente não se transforma automaticamente em uma empresa eficiente.
É necessário:
gestão + investimento + mercado + inovação + capacidade empresarial.
Universidade e empresa
Um dos grandes desafios brasileiros é aproximar universidades, centros de pesquisa e empresas.
O conhecimento produzido academicamente precisa encontrar caminhos para chegar à sociedade.
Isso pode acontecer por meio de:
patentes + startups + licenciamento + incubadoras + parcerias + desenvolvimento conjunto.
A universidade como parte do desenvolvimento
Universidade não deve ser vista apenas como lugar de formação profissional.
Também é espaço de:
pesquisa + inovação + cultura + ciência + pensamento crítico.
Em uma economia baseada no conhecimento, essa função torna-se ainda mais importante.
A inteligência artificial
A inteligência artificial acrescenta uma nova dimensão.
Ela pode aumentar a produtividade de empresas, auxiliar pesquisadores, melhorar diagnósticos, otimizar sistemas logísticos e transformar processos industriais.
Mas também cria desafios.
O risco da dependência tecnológica
Se tecnologias essenciais forem desenvolvidas exclusivamente fora do país, empresas e governos podem tornar-se dependentes de fornecedores externos.
Isso não significa que um país precise produzir absolutamente tudo.
Nenhuma economia moderna é completamente autossuficiente.
O objetivo é possuir capacidade própria em setores considerados estratégicos.
Soberania não significa isolamento
Esse ponto é fundamental.
Soberania tecnológica não significa fechar fronteiras.
Significa possuir capacidade de escolha.
Um país soberano pode importar tecnologia.
Mas não deve depender de um único fornecedor para tudo aquilo que considera essencial.
A pandemia ensinou essa lição
A crise sanitária mostrou como interrupções internacionais podem afetar o fornecimento de medicamentos, equipamentos, componentes eletrônicos e diversos produtos.
A globalização aumentou a eficiência.
Mas também revelou vulnerabilidades.
Globalização e dependência
A integração internacional trouxe benefícios enormes.
Empresas passaram a acessar mercados maiores.
Consumidores passaram a ter mais produtos.
Países puderam especializar sua produção.
Mas a especialização excessiva em determinados setores pode criar dependências.
A nova segurança nacional
Segurança nacional deixou de significar apenas defesa militar.
Também envolve:
energia + alimentos + medicamentos + tecnologia + comunicação + infraestrutura digital.
Um país vulnerável nesses setores pode enfrentar dificuldades mesmo sem uma guerra convencional.
Energia e soberania
O Brasil possui uma vantagem importante.
Sua matriz energética possui participação significativa de fontes renováveis.
Isso pode representar uma vantagem competitiva em uma economia mundial que busca reduzir emissões.
Energia limpa como oportunidade industrial
O Brasil pode utilizar sua disponibilidade de:
sol + vento + água + biomassa
para produzir energia e também desenvolver novas cadeias industriais.
A questão deixa de ser apenas vender energia.
Pode ser utilizar energia competitiva para produzir bens de maior valor agregado.
Hidrogênio e novas tecnologias
Novas tecnologias energéticas podem criar oportunidades para regiões brasileiras com grande potencial renovável.
Mas, novamente, a vantagem natural precisa ser acompanhada por:
infraestrutura + investimento + conhecimento + mercado.
A Amazônia e a economia do conhecimento
A Amazônia também pode ser analisada sob essa perspectiva.
Durante séculos, a floresta foi observada principalmente como território e fonte de recursos.
No século XXI, ela também pode ser compreendida como um enorme patrimônio científico.
Biodiversidade e inovação
Plantas, microrganismos e ecossistemas podem contribuir para pesquisas em:
medicina + agricultura + biotecnologia + alimentos + novos materiais.
Mas transformar biodiversidade em riqueza exige pesquisa.
Conhecer antes de explorar
Esse princípio pode orientar uma nova relação com os recursos naturais.
Conhecer.
Pesquisar.
Preservar.
Desenvolver.
Produzir.
O conhecimento pode permitir que a natureza deixe de ser vista apenas como estoque de matérias-primas.
O Brasil e o espaço
Existe ainda uma dimensão tecnológica frequentemente esquecida:
o espaço.
Satélites são fundamentais para:
agricultura + meteorologia + comunicações + navegação + monitoramento ambiental + defesa.
Um país de dimensões continentais precisa de capacidade espacial compatível com seu território.
Satélites e agricultura
A agricultura moderna utiliza imagens de satélite para acompanhar:
clima + solo + vegetação + produtividade + áreas cultivadas.
Mais uma vez, tecnologia e território se encontram.
O clima também entra na economia
As mudanças climáticas aumentam a importância de sistemas capazes de prever eventos extremos.
Secas.
Enchentes.
Ondas de calor.
Tempestades.
A capacidade de prever e adaptar-se pode reduzir prejuízos econômicos.
Agricultura do futuro
O agricultor do futuro poderá depender cada vez mais de:
dados climáticos + sensores + inteligência artificial + genética + irrigação eficiente + máquinas autônomas.
A terra continua sendo indispensável.
Mas a produtividade dependerá cada vez mais da informação.
O conhecimento como novo patrimônio
Voltamos novamente à questão da propriedade.
No passado, patrimônio significava principalmente terra, imóveis, animais, máquinas e capital financeiro.
Hoje, uma empresa pode valer bilhões porque possui:
tecnologia + marca + software + dados + patentes + conhecimento.
O patrimônio tornou-se parcialmente invisível.
Uma nova desigualdade
Isso cria também uma nova questão social.
Se o conhecimento é um instrumento de produção, aqueles que possuem maior acesso a educação de qualidade e tecnologia podem acumular vantagens.
A desigualdade pode reproduzir-se por novos caminhos.
A oportunidade
Mas existe uma diferença importante em relação à terra.
Conhecimento pode ser compartilhado.
Uma escola pode ensinar milhares de pessoas.
Uma biblioteca pode atender uma comunidade inteira.
Uma universidade pode formar milhares de profissionais.
A tecnologia digital pode ampliar enormemente o alcance da educação.
Democratizar o conhecimento
Por isso, uma das grandes políticas econômicas do século XXI pode ser justamente:
democratizar o acesso ao conhecimento.
Não apenas distribuir informação.
Mas garantir capacidade de compreender, utilizar e produzir conhecimento.
A nova mobilidade social
Durante muito tempo, a mobilidade social dependia principalmente de conseguir um emprego melhor.
Hoje, pode depender também da capacidade de adquirir novas competências.
Uma pessoa pode mudar de setor profissional.
Aprender uma nova tecnologia.
Criar um negócio.
Trabalhar para outro país sem sair de sua cidade.
A economia digital criou possibilidades que antes eram muito mais restritas.
Mas a tecnologia também pode ampliar desigualdades
Quem possui computador, conexão rápida, educação e conhecimento técnico pode aproveitar melhor essas oportunidades.
Quem não possui esses recursos pode ficar ainda mais distante.
Por isso:
acesso digital sem educação não é suficiente.
O grande desafio brasileiro
O Brasil possui uma combinação rara:
recursos naturais + território + população + mercado + energia + agricultura + indústria + ciência.
Mas essas vantagens precisam ser conectadas.
O desafio é transformar:
vantagem natural em vantagem tecnológica.
A equação do futuro
Podemos resumir essa transformação em uma nova sequência:
recurso → conhecimento → tecnologia → indústria → produtividade → patrimônio → oportunidade.
Quando essa cadeia funciona, o desenvolvimento deixa de depender apenas da exportação de matérias-primas.
A história continua
Na primeira parte desta série, começamos com a terra.
Depois observamos a formação da propriedade, a escravidão, a Abolição, a industrialização, o capital, o trabalho, o Estado, a energia e a modernização.
Chegamos agora à tecnologia.
Mas existe algo que não mudou:
quem possui os instrumentos de produção possui maior capacidade de participar das decisões econômicas.
O que mudou foi a natureza desses instrumentos.
A terra continua.
O capital continua.
A indústria continua.
A energia continua.
Mas agora existe um novo elemento decisivo:
a capacidade de produzir conhecimento.
E surge uma nova pergunta
Se no passado a disputa estava relacionada à terra;
se depois passou pelo capital e pela indústria;
se posteriormente envolveu energia e infraestrutura;
e se hoje envolve tecnologia e conhecimento;
qual será o próximo grande instrumento de poder econômico?
Talvez a resposta esteja na capacidade de controlar não apenas a tecnologia, mas também aquilo que a alimenta:
energia, dados, inteligência artificial, ciência e capacidade humana.
A próxima etapa da história brasileira será justamente compreender como esses elementos poderão redefinir trabalho, propriedade, riqueza e poder nas próximas décadas.
Continua.
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