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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Parte LXI - Energia e desenvolvimento: quando os rios passaram a mover a indústria

 A industrialização brasileira havia criado uma necessidade que não poderia mais ser ignorada.

Energia.

As fábricas precisavam de eletricidade.

As cidades cresciam.

Os transportes se expandiam.

As residências começavam a utilizar cada vez mais aparelhos elétricos.

O país precisava produzir mais.

E, para produzir mais, precisava ampliar sua capacidade energética.

No Brasil, essa questão encontrou uma resposta especialmente poderosa na geografia.

Os rios.

A força das águas

O território brasileiro possui uma das maiores redes hidrográficas do mundo.

Grandes rios atravessam diferentes regiões.

Desníveis naturais permitem a construção de usinas.

A água, que durante séculos havia sido principalmente um elemento da paisagem e do transporte, passou a ser utilizada em uma nova escala:

como fonte de eletricidade.

A hidreletricidade se tornaria uma das bases da industrialização brasileira.

Energia e território

Uma usina hidrelétrica não é apenas uma obra de engenharia.

Ela envolve:

rios, barragens, cidades, estradas, linhas de transmissão, trabalhadores, empresas e investimentos.

Quando uma usina é construída, transforma o território.

Pode criar novas cidades.

Pode alterar atividades econômicas.

Pode modificar paisagens.

Pode deslocar populações.

Pode criar oportunidades.

E pode produzir impactos ambientais importantes.

O Estado entra novamente em cena

A construção de grandes usinas exigia investimentos elevados.

Nem sempre empresas privadas tinham capacidade ou interesse para realizar projetos de grande escala.

O Estado passou então a assumir papel cada vez mais importante no setor elétrico.

A lógica era semelhante à utilizada anteriormente na siderurgia e no petróleo.

Setores estratégicos poderiam exigir planejamento de longo prazo.

A criação da Eletrobras

Em 1962, foi criada a Centrais Elétricas Brasileiras, a Eletrobras.

Sua criação representou um passo importante na organização do setor elétrico brasileiro.

O objetivo era coordenar investimentos e ampliar a capacidade de geração e transmissão.

O Brasil começava a tratar a eletricidade como uma questão de infraestrutura nacional.

Grandes hidrelétricas

Nas décadas seguintes, grandes projetos hidrelétricos passaram a fazer parte do desenvolvimento brasileiro.

Usinas como Furnas, Ilha Solteira, Itaipu e Tucuruí representariam diferentes momentos dessa expansão.

Cada projeto tinha características próprias.

Mas todos expressavam a mesma ideia:

produzir energia em grande escala para sustentar o crescimento econômico.

Furnas

A construção de Furnas foi importante para o abastecimento energético do Sudeste.

A região concentrava indústria, população e consumo.

Era necessário garantir eletricidade suficiente para evitar que a expansão industrial fosse limitada pela falta de energia.

A usina tornou-se parte fundamental do sistema elétrico brasileiro.

Itaipu

Poucos projetos demonstrariam de forma tão evidente a dimensão da política energética brasileira quanto Itaipu.

Construída no rio Paraná, na fronteira entre Brasil e Paraguai, a usina tornou-se uma das maiores hidrelétricas do mundo.

Seu desenvolvimento envolveu engenharia de grande escala, cooperação internacional e enormes investimentos.

Itaipu passou a simbolizar a capacidade brasileira de realizar grandes obras de infraestrutura.

A integração energética

Produzir energia é apenas uma parte do problema.

É preciso transportá-la.

A eletricidade precisa chegar às fábricas, cidades e residências.

Por isso, a construção das linhas de transmissão tornou-se tão importante quanto a construção das usinas.

O Brasil começou a formar um sistema elétrico cada vez mais integrado.

Um país continental

Essa integração apresentava um enorme desafio.

O Brasil possui dimensões continentais.

As fontes de geração nem sempre estão próximas dos maiores centros consumidores.

A energia produzida em uma região pode precisar percorrer centenas ou milhares de quilômetros.

A construção de redes de transmissão tornou-se, portanto, um instrumento de integração territorial.

Energia e industrialização

A expansão energética permitiu o crescimento de setores que exigiam grande quantidade de eletricidade.

Siderurgia.

Metalurgia.

Química.

Mineração.

Cimento.

Papel e celulose.

Indústria de transformação.

A energia barata e abundante poderia aumentar a competitividade dessas atividades.

Assim, a política energética estava diretamente ligada à política industrial.

O petróleo continua essencial

Mas a eletricidade não resolvia todos os problemas.

Os veículos precisavam de combustíveis.

Caminhões transportavam mercadorias.

Aviões utilizavam derivados de petróleo.

Máquinas agrícolas dependiam de combustíveis.

A indústria petroquímica precisava de matérias-primas derivadas do petróleo.

O país precisava ampliar sua produção nacional.

Petrobras e exploração

A Petrobras passou a investir cada vez mais na exploração e produção de petróleo.

Ao longo das décadas, a empresa desenvolveu tecnologias próprias para explorar campos em águas profundas.

Esse processo exigiu conhecimento científico, engenharia especializada e investimentos de longo prazo.

A empresa tornou-se também um importante centro de desenvolvimento tecnológico.

Energia e conhecimento

Aqui aparece uma mudança importante no eixo da nossa história.

No período colonial, a riqueza estava profundamente associada à terra.

Depois, o capital ganhou importância.

Com a industrialização, máquinas e infraestrutura passaram a ser fundamentais.

Agora, uma nova dimensão se tornava decisiva:

o conhecimento tecnológico.

Não bastava possuir petróleo.

Era preciso saber explorá-lo.

Não bastava possuir rios.

Era preciso construir usinas.

Não bastava produzir eletricidade.

Era necessário desenvolver redes capazes de distribuí-la.

A tecnologia brasileira

A construção de grandes obras criou demanda por profissionais especializados.

Engenheiros.

Geólogos.

Geógrafos.

Técnicos.

Pesquisadores.

Operadores.

Especialistas em energia.

Universidades e centros de pesquisa passaram a ganhar importância.

O desenvolvimento econômico começava a depender cada vez mais da capacidade de produzir conhecimento.

O outro lado das grandes obras

As grandes obras também produziram impactos sociais.

A construção de barragens podia exigir o deslocamento de comunidades.

Áreas agrícolas podiam ser inundadas.

Ecossistemas eram alterados.

Cidades podiam desaparecer sob as águas.

Comunidades tradicionais podiam perder territórios.

O desenvolvimento energético apresentava, portanto, benefícios e custos.

O debate ambiental

Durante muito tempo, a questão ambiental recebeu pouca atenção nas decisões de infraestrutura.

A prioridade era produzir energia.

Depois, a sociedade começou a questionar os impactos.

A preservação dos rios.

A biodiversidade.

As florestas.

As populações afetadas.

A qualidade da água.

A emissão de gases de efeito estufa.

A discussão energética passou a incluir também a sustentabilidade.

O petróleo e a crise internacional

Na década de 1970, o mundo enfrentou grandes crises do petróleo.

Os preços internacionais subiram fortemente.

Países dependentes de petróleo importado sofreram impactos econômicos.

O Brasil também foi afetado.

A crise mostrou que energia não era apenas uma questão técnica.

Era também uma questão geopolítica.

A busca por alternativas

Diante da dependência do petróleo, o Brasil começou a buscar alternativas.

Uma das mais importantes foi o álcool combustível.

O país possuía uma longa tradição na produção de cana-de-açúcar.

A ideia era utilizar o etanol como combustível para reduzir a dependência do petróleo importado.

O Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, foi criado em 1975.

Cana-de-açúcar e energia

A cana passou a desempenhar uma função nova.

Antes, era principalmente matéria-prima para açúcar.

Agora, também poderia produzir combustível.

Posteriormente, o aproveitamento do bagaço para geração de eletricidade aumentaria ainda mais sua importância energética.

A agricultura começava a participar diretamente da matriz energética.

Uma matriz diferente

O Brasil desenvolveu uma matriz energética diferente de muitos outros países.

A hidreletricidade tornou-se fundamental para a eletricidade.

O etanol ganhou espaço nos transportes.

O petróleo continuou importante.

Posteriormente, gás natural, biomassa, energia eólica e solar ampliariam essa diversidade.

A matriz brasileira começava a se tornar um patrimônio estratégico.

Energia como poder

Quem controla energia possui capacidade de influenciar a economia.

Uma interrupção no fornecimento pode parar fábricas.

A falta de combustíveis pode interromper transportes.

A expansão da oferta pode permitir novos investimentos.

Por isso, energia está diretamente ligada à segurança econômica.

O desenvolvimento brasileiro dependia da infraestrutura

Ao longo de mais de um século, uma sequência começa a ficar evidente:

ferrovias → indústria → eletricidade → petróleo → rodovias → grandes usinas → tecnologia.

Cada etapa criou novas necessidades.

A infraestrutura de uma época tornou possível a infraestrutura seguinte.

O Brasil não estava apenas acumulando riqueza.

Estava construindo capacidades.

Da infraestrutura ao conhecimento

Esse processo nos leva novamente ao tema apresentado na Parte XLIX:

a nova riqueza.

No passado, possuir terra significava possuir poder.

Depois, possuir capital permitia investir.

Na economia industrial, possuir máquinas e infraestrutura tornou-se fundamental.

Na economia contemporânea, entretanto, outro ativo ganhou importância crescente:

conhecimento.

Uma sociedade capaz de produzir tecnologia pode transformar seus próprios recursos naturais.

Uma sociedade dependente de tecnologia estrangeira pode possuir recursos, mas depender de outros para utilizá-los.

A questão da soberania

A soberania econômica não significa produzir tudo sozinho.

Nenhum país moderno é completamente autossuficiente.

Mas significa possuir capacidades estratégicas.

Capacidade científica.

Capacidade industrial.

Capacidade energética.

Capacidade tecnológica.

Capacidade de formar profissionais.

Capacidade de tomar decisões.

É essa combinação que permite transformar recursos naturais em desenvolvimento.

O Brasil entra em uma nova fase

Ao longo do século XX, o país construiu uma infraestrutura que seria fundamental para sua transformação.

Estradas.

Portos.

Ferrovias.

Usinas.

Refinarias.

Indústrias.

Universidades.

Empresas estatais.

Empresas privadas.

Centros de pesquisa.

A economia brasileira tornou-se muito mais complexa.

Mas a desigualdade continuava.

O desenvolvimento havia criado riqueza.

Ainda faltava distribuí-la de maneira mais equilibrada.

O desafio seguinte

A industrialização e a expansão energética transformaram o Brasil em uma economia muito diferente daquela herdada do período colonial.

Mas o mundo também estava mudando.

A tecnologia avançava rapidamente.

A comunicação se tornava instantânea.

Os mercados financeiros começavam a se integrar.

As empresas ultrapassavam fronteiras.

A informação passava a circular em velocidade inédita.

O Brasil entraria em uma nova etapa:

a globalização.

E, com ela, o capital começaria a circular em uma escala que modificaria novamente a relação entre território, produção, trabalho e poder.

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