A industrialização brasileira havia criado uma necessidade que não poderia mais ser ignorada.
Energia.
As fábricas precisavam de eletricidade.
As cidades cresciam.
Os transportes se expandiam.
As residências começavam a utilizar cada vez mais aparelhos elétricos.
O país precisava produzir mais.
E, para produzir mais, precisava ampliar sua capacidade energética.
No Brasil, essa questão encontrou uma resposta especialmente poderosa na geografia.
Os rios.
A força das águas
O território brasileiro possui uma das maiores redes hidrográficas do mundo.
Grandes rios atravessam diferentes regiões.
Desníveis naturais permitem a construção de usinas.
A água, que durante séculos havia sido principalmente um elemento da paisagem e do transporte, passou a ser utilizada em uma nova escala:
como fonte de eletricidade.
A hidreletricidade se tornaria uma das bases da industrialização brasileira.
Energia e território
Uma usina hidrelétrica não é apenas uma obra de engenharia.
Ela envolve:
rios, barragens, cidades, estradas, linhas de transmissão, trabalhadores, empresas e investimentos.
Quando uma usina é construída, transforma o território.
Pode criar novas cidades.
Pode alterar atividades econômicas.
Pode modificar paisagens.
Pode deslocar populações.
Pode criar oportunidades.
E pode produzir impactos ambientais importantes.
O Estado entra novamente em cena
A construção de grandes usinas exigia investimentos elevados.
Nem sempre empresas privadas tinham capacidade ou interesse para realizar projetos de grande escala.
O Estado passou então a assumir papel cada vez mais importante no setor elétrico.
A lógica era semelhante à utilizada anteriormente na siderurgia e no petróleo.
Setores estratégicos poderiam exigir planejamento de longo prazo.
A criação da Eletrobras
Em 1962, foi criada a Centrais Elétricas Brasileiras, a Eletrobras.
Sua criação representou um passo importante na organização do setor elétrico brasileiro.
O objetivo era coordenar investimentos e ampliar a capacidade de geração e transmissão.
O Brasil começava a tratar a eletricidade como uma questão de infraestrutura nacional.
Grandes hidrelétricas
Nas décadas seguintes, grandes projetos hidrelétricos passaram a fazer parte do desenvolvimento brasileiro.
Usinas como Furnas, Ilha Solteira, Itaipu e Tucuruí representariam diferentes momentos dessa expansão.
Cada projeto tinha características próprias.
Mas todos expressavam a mesma ideia:
produzir energia em grande escala para sustentar o crescimento econômico.
Furnas
A construção de Furnas foi importante para o abastecimento energético do Sudeste.
A região concentrava indústria, população e consumo.
Era necessário garantir eletricidade suficiente para evitar que a expansão industrial fosse limitada pela falta de energia.
A usina tornou-se parte fundamental do sistema elétrico brasileiro.
Itaipu
Poucos projetos demonstrariam de forma tão evidente a dimensão da política energética brasileira quanto Itaipu.
Construída no rio Paraná, na fronteira entre Brasil e Paraguai, a usina tornou-se uma das maiores hidrelétricas do mundo.
Seu desenvolvimento envolveu engenharia de grande escala, cooperação internacional e enormes investimentos.
Itaipu passou a simbolizar a capacidade brasileira de realizar grandes obras de infraestrutura.
A integração energética
Produzir energia é apenas uma parte do problema.
É preciso transportá-la.
A eletricidade precisa chegar às fábricas, cidades e residências.
Por isso, a construção das linhas de transmissão tornou-se tão importante quanto a construção das usinas.
O Brasil começou a formar um sistema elétrico cada vez mais integrado.
Um país continental
Essa integração apresentava um enorme desafio.
O Brasil possui dimensões continentais.
As fontes de geração nem sempre estão próximas dos maiores centros consumidores.
A energia produzida em uma região pode precisar percorrer centenas ou milhares de quilômetros.
A construção de redes de transmissão tornou-se, portanto, um instrumento de integração territorial.
Energia e industrialização
A expansão energética permitiu o crescimento de setores que exigiam grande quantidade de eletricidade.
Siderurgia.
Metalurgia.
Química.
Mineração.
Cimento.
Papel e celulose.
Indústria de transformação.
A energia barata e abundante poderia aumentar a competitividade dessas atividades.
Assim, a política energética estava diretamente ligada à política industrial.
O petróleo continua essencial
Mas a eletricidade não resolvia todos os problemas.
Os veículos precisavam de combustíveis.
Caminhões transportavam mercadorias.
Aviões utilizavam derivados de petróleo.
Máquinas agrícolas dependiam de combustíveis.
A indústria petroquímica precisava de matérias-primas derivadas do petróleo.
O país precisava ampliar sua produção nacional.
Petrobras e exploração
A Petrobras passou a investir cada vez mais na exploração e produção de petróleo.
Ao longo das décadas, a empresa desenvolveu tecnologias próprias para explorar campos em águas profundas.
Esse processo exigiu conhecimento científico, engenharia especializada e investimentos de longo prazo.
A empresa tornou-se também um importante centro de desenvolvimento tecnológico.
Energia e conhecimento
Aqui aparece uma mudança importante no eixo da nossa história.
No período colonial, a riqueza estava profundamente associada à terra.
Depois, o capital ganhou importância.
Com a industrialização, máquinas e infraestrutura passaram a ser fundamentais.
Agora, uma nova dimensão se tornava decisiva:
o conhecimento tecnológico.
Não bastava possuir petróleo.
Era preciso saber explorá-lo.
Não bastava possuir rios.
Era preciso construir usinas.
Não bastava produzir eletricidade.
Era necessário desenvolver redes capazes de distribuí-la.
A tecnologia brasileira
A construção de grandes obras criou demanda por profissionais especializados.
Engenheiros.
Geólogos.
Geógrafos.
Técnicos.
Pesquisadores.
Operadores.
Especialistas em energia.
Universidades e centros de pesquisa passaram a ganhar importância.
O desenvolvimento econômico começava a depender cada vez mais da capacidade de produzir conhecimento.
O outro lado das grandes obras
As grandes obras também produziram impactos sociais.
A construção de barragens podia exigir o deslocamento de comunidades.
Áreas agrícolas podiam ser inundadas.
Ecossistemas eram alterados.
Cidades podiam desaparecer sob as águas.
Comunidades tradicionais podiam perder territórios.
O desenvolvimento energético apresentava, portanto, benefícios e custos.
O debate ambiental
Durante muito tempo, a questão ambiental recebeu pouca atenção nas decisões de infraestrutura.
A prioridade era produzir energia.
Depois, a sociedade começou a questionar os impactos.
A preservação dos rios.
A biodiversidade.
As florestas.
As populações afetadas.
A qualidade da água.
A emissão de gases de efeito estufa.
A discussão energética passou a incluir também a sustentabilidade.
O petróleo e a crise internacional
Na década de 1970, o mundo enfrentou grandes crises do petróleo.
Os preços internacionais subiram fortemente.
Países dependentes de petróleo importado sofreram impactos econômicos.
O Brasil também foi afetado.
A crise mostrou que energia não era apenas uma questão técnica.
Era também uma questão geopolítica.
A busca por alternativas
Diante da dependência do petróleo, o Brasil começou a buscar alternativas.
Uma das mais importantes foi o álcool combustível.
O país possuía uma longa tradição na produção de cana-de-açúcar.
A ideia era utilizar o etanol como combustível para reduzir a dependência do petróleo importado.
O Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, foi criado em 1975.
Cana-de-açúcar e energia
A cana passou a desempenhar uma função nova.
Antes, era principalmente matéria-prima para açúcar.
Agora, também poderia produzir combustível.
Posteriormente, o aproveitamento do bagaço para geração de eletricidade aumentaria ainda mais sua importância energética.
A agricultura começava a participar diretamente da matriz energética.
Uma matriz diferente
O Brasil desenvolveu uma matriz energética diferente de muitos outros países.
A hidreletricidade tornou-se fundamental para a eletricidade.
O etanol ganhou espaço nos transportes.
O petróleo continuou importante.
Posteriormente, gás natural, biomassa, energia eólica e solar ampliariam essa diversidade.
A matriz brasileira começava a se tornar um patrimônio estratégico.
Energia como poder
Quem controla energia possui capacidade de influenciar a economia.
Uma interrupção no fornecimento pode parar fábricas.
A falta de combustíveis pode interromper transportes.
A expansão da oferta pode permitir novos investimentos.
Por isso, energia está diretamente ligada à segurança econômica.
O desenvolvimento brasileiro dependia da infraestrutura
Ao longo de mais de um século, uma sequência começa a ficar evidente:
ferrovias → indústria → eletricidade → petróleo → rodovias → grandes usinas → tecnologia.
Cada etapa criou novas necessidades.
A infraestrutura de uma época tornou possível a infraestrutura seguinte.
O Brasil não estava apenas acumulando riqueza.
Estava construindo capacidades.
Da infraestrutura ao conhecimento
Esse processo nos leva novamente ao tema apresentado na Parte XLIX:
a nova riqueza.
No passado, possuir terra significava possuir poder.
Depois, possuir capital permitia investir.
Na economia industrial, possuir máquinas e infraestrutura tornou-se fundamental.
Na economia contemporânea, entretanto, outro ativo ganhou importância crescente:
conhecimento.
Uma sociedade capaz de produzir tecnologia pode transformar seus próprios recursos naturais.
Uma sociedade dependente de tecnologia estrangeira pode possuir recursos, mas depender de outros para utilizá-los.
A questão da soberania
A soberania econômica não significa produzir tudo sozinho.
Nenhum país moderno é completamente autossuficiente.
Mas significa possuir capacidades estratégicas.
Capacidade científica.
Capacidade industrial.
Capacidade energética.
Capacidade tecnológica.
Capacidade de formar profissionais.
Capacidade de tomar decisões.
É essa combinação que permite transformar recursos naturais em desenvolvimento.
O Brasil entra em uma nova fase
Ao longo do século XX, o país construiu uma infraestrutura que seria fundamental para sua transformação.
Estradas.
Portos.
Ferrovias.
Usinas.
Refinarias.
Indústrias.
Universidades.
Empresas estatais.
Empresas privadas.
Centros de pesquisa.
A economia brasileira tornou-se muito mais complexa.
Mas a desigualdade continuava.
O desenvolvimento havia criado riqueza.
Ainda faltava distribuí-la de maneira mais equilibrada.
O desafio seguinte
A industrialização e a expansão energética transformaram o Brasil em uma economia muito diferente daquela herdada do período colonial.
Mas o mundo também estava mudando.
A tecnologia avançava rapidamente.
A comunicação se tornava instantânea.
Os mercados financeiros começavam a se integrar.
As empresas ultrapassavam fronteiras.
A informação passava a circular em velocidade inédita.
O Brasil entraria em uma nova etapa:
a globalização.
E, com ela, o capital começaria a circular em uma escala que modificaria novamente a relação entre território, produção, trabalho e poder.
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