A história brasileira havia chegado a um ponto de grande transformação.
O país já não era predominantemente agrário.
A industrialização havia avançado.
As cidades cresciam.
O mercado interno se expandia.
A agricultura começava a incorporar novas tecnologias.
A energia e a infraestrutura passaram a ser consideradas estratégicas.
Mas as desigualdades continuavam profundas.
A questão da terra permanecia sem solução.
A educação ainda não alcançava toda a população de maneira igual.
E o debate político estava cada vez mais polarizado.
Em 1964, essa tensão chegou ao limite.
A ruptura institucional de 1964
Em março e abril de 1964, uma ruptura institucional levou João Goulart a deixar a Presidência da República.
Os militares assumiram o controle do governo.
O novo regime justificou a intervenção como necessária para preservar a ordem política e combater aquilo que considerava uma ameaça à estabilidade nacional.
Mas o resultado foi a instalação de uma ditadura.
Direitos políticos foram restringidos.
O Congresso sofreu intervenções.
Houve cassações de mandatos.
A censura foi ampliada.
Oposição política foi perseguida.
A liberdade de expressão sofreu fortes limitações.
A economia, entretanto, continuou sendo transformada.
E essa combinação é essencial para compreender o período.
Autoritarismo e desenvolvimento
O regime militar não abandonou o projeto de industrialização.
Ao contrário.
O Estado continuou investindo fortemente em:
energia + transporte + telecomunicações + indústria + infraestrutura + pesquisa tecnológica.
Grandes projetos foram planejados.
Empresas estatais ganharam importância.
O planejamento econômico passou a ocupar posição central.
O objetivo era transformar o Brasil em uma potência industrial.
O país deveria crescer, modernizar sua infraestrutura e ampliar sua capacidade produtiva.
O Estado como grande investidor
Durante esse período, o Estado assumiu papel ainda maior na economia.
Empresas estatais atuaram em setores considerados estratégicos.
Petróleo.
Energia elétrica.
Mineração.
Telecomunicações.
Transportes.
Siderurgia.
Infraestrutura.
A lógica era que determinados setores exigiam investimentos tão grandes e de retorno tão longo que o Estado deveria participar diretamente.
Essa estratégia produziria resultados importantes.
Mas também aumentaria significativamente o tamanho e o poder econômico do Estado.
A expansão da infraestrutura
Grandes rodovias foram construídas.
A infraestrutura energética foi ampliada.
Novas hidrelétricas surgiram.
As redes de telecomunicações cresceram.
A indústria pesada avançou.
O país começou a construir uma infraestrutura compatível com uma economia industrial de grande escala.
O território brasileiro começava a ser conectado por uma rede cada vez mais ampla de estradas, energia e comunicação.
Mais uma vez, a infraestrutura transformava o território.
A expansão da eletrificação
A energia elétrica tornou-se uma das grandes bases do desenvolvimento.
A industrialização exigia grandes quantidades de eletricidade.
As cidades também precisavam de energia para iluminação, transporte e serviços.
A construção de grandes hidrelétricas tornou-se uma política estratégica.
A água dos grandes rios brasileiros passou a ser vista não apenas como recurso natural, mas como instrumento de desenvolvimento econômico.
O Brasil possuía uma vantagem geográfica:
grande disponibilidade de recursos hídricos.
Isso permitiu construir uma matriz elétrica fortemente baseada na geração hidrelétrica.
Itaipu
Um dos maiores símbolos desse período foi a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, realizada em parceria entre Brasil e Paraguai.
O projeto demonstrava a dimensão que os grandes empreendimentos haviam alcançado.
Não se tratava mais de construir apenas uma fábrica ou uma ferrovia.
Era possível transformar grandes territórios por meio de obras de infraestrutura de escala continental.
Itaipu tornou-se uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo.
A energia produzida ajudaria a sustentar a expansão econômica das décadas seguintes.
A indústria pesada
A industrialização avançou para setores mais complexos.
Siderurgia.
Petroquímica.
Bens de capital.
Máquinas.
Equipamentos.
Química.
Automóveis.
Construção pesada.
O Brasil buscava deixar de ser apenas consumidor de produtos industriais estrangeiros.
A meta era construir uma cadeia produtiva nacional mais completa.
A pergunta econômica havia mudado novamente.
Não bastava mais:
quem possui a terra?
Agora era necessário perguntar:
quem possui a indústria e a tecnologia necessárias para produzir?
O chamado “Milagre Econômico”
Entre aproximadamente 1968 e 1973, o Brasil experimentou taxas elevadas de crescimento econômico.
Esse período ficou conhecido como Milagre Econômico.
A indústria cresceu.
As obras de infraestrutura se multiplicaram.
O emprego urbano aumentou.
O consumo de determinados setores da população se expandiu.
O país cresceu rapidamente.
Mas o crescimento veio acompanhado de concentração de renda.
O desenvolvimento não beneficiou todos os grupos sociais da mesma maneira.
A economia crescia.
Mas a desigualdade permanecia elevada.
Crescimento não é distribuição
Essa experiência ajuda a reforçar uma das teses centrais desta série.
Crescimento econômico e distribuição de renda não são a mesma coisa.
Um país pode produzir mais.
Pode construir mais.
Pode exportar mais.
Pode aumentar o Produto Interno Bruto.
E, ainda assim, manter grandes parcelas da população em condições econômicas precárias.
Por isso, avaliar o desenvolvimento exige observar também:
quem participa do crescimento?
quem possui patrimônio?
quem tem acesso à educação?
quem consegue crédito?
quem consegue transformar crescimento econômico em mobilidade social?
A modernização do campo
Durante o regime militar, o campo também passou por profundas transformações.
Máquinas agrícolas começaram a se expandir.
O uso de fertilizantes e defensivos aumentou.
Novas técnicas de produção foram incorporadas.
A pesquisa agrícola ganhou importância.
A produtividade cresceu em diversas culturas.
O Brasil começou a construir as bases do agronegócio moderno.
Mas essa modernização não ocorreu de maneira uniforme.
Algumas regiões e produtores tiveram maior acesso a tecnologia, crédito e infraestrutura.
Outros permaneceram em sistemas de produção mais tradicionais.
A modernização agrícola aumentou a produtividade, mas não eliminou a concentração fundiária.
A transformação do cerrado
Uma das grandes mudanças posteriores foi a expansão da agricultura para áreas do Centro-Oeste.
O desenvolvimento de tecnologias capazes de adaptar a produção agrícola às características do cerrado permitiu ampliar significativamente a fronteira agrícola.
Essa transformação teria consequências enormes.
O Brasil passaria a produzir em escala muito maior soja, milho, carnes e outros produtos.
O campo brasileiro se tornaria cada vez mais integrado à indústria.
Sementes.
Máquinas.
Fertilizantes.
Armazenamento.
Logística.
Processamento.
Exportação.
O agronegócio moderno começava a se consolidar como uma grande cadeia econômica.
A criação da Embrapa
Em 1973, foi criada a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária — Embrapa.
A pesquisa científica passou a ocupar posição estratégica na transformação da agricultura brasileira.
O desenvolvimento de tecnologias adaptadas às condições tropicais foi fundamental para ampliar a produtividade.
Essa experiência demonstra novamente a importância do conhecimento como meio de produção.
A terra continuava necessária.
Mas a capacidade de produzir mais em determinada área dependia cada vez mais de:
ciência + tecnologia + pesquisa + infraestrutura + capital humano.
A equação econômica estava mudando.
O petróleo e a energia
A expansão econômica também aumentou a necessidade de petróleo.
O Brasil ainda dependia fortemente das importações.
Essa dependência tornou-se um problema grave na década de 1970.
Em 1973, ocorreu a primeira grande crise internacional do petróleo.
Os preços dispararam.
Países importadores foram fortemente afetados.
O Brasil estava entre eles.
A crise revelou uma vulnerabilidade:
um país industrial precisa controlar ou garantir fontes seguras de energia.
O choque do petróleo
O aumento do preço do petróleo elevou os custos de transporte, produção e importação.
A economia brasileira sofreu pressão.
A inflação voltou a se tornar um problema.
A dívida externa começou a crescer.
O governo buscou novas alternativas.
Uma delas seria fundamental para a história energética brasileira:
o álcool combustível.
O Proálcool
Em 1975, foi criado o Programa Nacional do Álcool — Proálcool.
A ideia era utilizar a produção de cana-de-açúcar para substituir parte da gasolina.
O programa estimulou:
- produção de etanol;
- desenvolvimento tecnológico;
- adaptação de motores;
- expansão da indústria sucroalcooleira;
- pesquisa energética.
O Brasil começava a desenvolver uma alternativa própria para reduzir a dependência do petróleo importado.
Mais uma vez, a agricultura e a indústria se encontravam.
Cana → usina → combustível → transporte → economia.
Geisel e a segunda fase do desenvolvimento
O governo de Ernesto Geisel, iniciado em 1974, herdou uma economia pressionada pelo choque do petróleo.
Sua resposta foi ampliar os investimentos estruturais.
O chamado II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) buscou fortalecer setores como:
energia + petroquímica + siderurgia + mineração + bens de capital + infraestrutura.
A lógica era enfrentar a crise externa construindo maior capacidade produtiva interna.
Era uma aposta de longo prazo.
O preço da estratégia
Mas havia um problema.
Grandes projetos exigiam enormes volumes de capital.
Como os recursos internos eram insuficientes, o Brasil recorreu intensamente ao financiamento externo.
Durante determinado período, isso pareceu sustentável.
Mas o cenário internacional mudou.
As taxas de juros internacionais aumentaram.
A dívida externa brasileira tornou-se cada vez mais pesada.
O modelo de crescimento baseado em grande endividamento começou a apresentar seus limites.
A crise dos anos 1980
No início da década de 1980, o Brasil entrou em uma profunda crise econômica.
Inflação elevada.
Dívida externa.
Baixo crescimento.
Desemprego.
Perda de poder de compra.
A sociedade começou a sentir os efeitos acumulados de anos de desequilíbrio.
O projeto desenvolvimentista precisava ser repensado.
O Estado continuava grande.
Mas sua capacidade de investir diminuía.
A abertura política
Ao mesmo tempo, o regime militar começava a perder força.
A sociedade pressionava pela redemocratização.
Movimentos sociais, sindicatos, organizações civis e setores políticos passaram a exigir maior liberdade.
A abertura foi gradual.
Em 1985, o regime militar chegou ao fim.
O Brasil entrava novamente em uma fase democrática.
Mas carregava uma economia profundamente transformada.
Era um país industrial.
Urbanizado.
Energético.
Mais integrado territorialmente.
Com grandes empresas estatais.
Com uma agricultura moderna em expansão.
Com uma dívida externa elevada.
E com uma inflação que se tornaria um dos maiores problemas da Nova República.
E onde entra Brizola?
É nesse ponto da história que Leonel Brizola ganha importância.
Brizola havia sido governador do Rio Grande do Sul e, posteriormente, do Rio de Janeiro.
Sua trajetória estava ligada a uma visão de desenvolvimento que colocava educação, infraestrutura, soberania nacional e participação do Estado no centro do projeto político.
Sua história também se conecta diretamente ao período anterior a 1964.
Mas há uma razão ainda mais importante para colocá-lo neste ponto da narrativa:
Brizola representa uma das diferentes correntes que disputaram o significado do desenvolvimento brasileiro durante o século XX.
Para compreender sua trajetória, será necessário voltar um pouco no tempo.
Porque Brizola não surgiu apenas como personagem da redemocratização.
Sua formação política está ligada ao trabalhismo de Getúlio Vargas, à experiência de João Goulart e à crise política que antecedeu 1964.
E há ainda outra questão que merece ser compreendida:
por que a educação se tornou, para Brizola, uma questão estratégica de desenvolvimento?
Essa será a próxima etapa da nossa história.
Continua.
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