CONTATO: RENATARJBRAVO@GMAIL.COM - PESQUISAS, TECNOLOGIA ASSISTIVA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESDE 2013.

"Inspirado em Heidegger, Brincadeira Sustentável (por Renata Bravo) não se apresenta como um conteúdo a ser decorado, mas como uma experiência a ser digerida, vivida e incorporada."

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Parte X - O Brasil no século XXI: crescimento, inclusão e os novos desafios do desenvolvimento

 

Entramos agora no século XXI.

O Brasil já havia atravessado transformações que, poucas décadas antes, pareciam impossíveis.

A sociedade era majoritariamente urbana.

A indústria estava consolidada.

A agricultura havia alcançado elevada produtividade em diversos setores.

O sistema elétrico possuía grande capacidade de geração.

As telecomunicações haviam se expandido.

A inflação havia sido controlada.

A democracia estava consolidada institucionalmente.

Mas uma questão permanecia:

como transformar crescimento econômico em desenvolvimento capaz de alcançar uma parcela maior da população?

Um novo Brasil

No início dos anos 2000, o Brasil possuía uma economia muito mais integrada ao mercado internacional.

As exportações haviam adquirido grande importância.

A China começava a se tornar um dos principais parceiros comerciais do país.

A demanda internacional por commodities brasileiras crescia.

Soja, minério de ferro, petróleo, carnes, açúcar, café e outros produtos passaram a gerar receitas importantes para a economia nacional.

O Brasil encontrava novamente uma vantagem histórica:

seus recursos naturais.

Mas agora havia uma diferença.

A produção brasileira estava muito mais sofisticada.

A agricultura utilizava ciência e tecnologia.

A mineração empregava equipamentos avançados.

A indústria estava integrada a cadeias internacionais.

O petróleo exigia tecnologia de exploração em águas profundas.

O país já não era simplesmente um exportador de produtos primários.

Era uma economia complexa, ainda que permanecessem características de forte dependência das commodities.

O crescimento das commodities

A expansão da economia chinesa aumentou a demanda internacional por matérias-primas.

Isso beneficiou países produtores de commodities, entre eles o Brasil.

As exportações cresceram.

As receitas aumentaram.

O agronegócio ganhou ainda mais importância.

A mineração se expandiu.

O setor energético recebeu novos investimentos.

Esse movimento ajudou a criar condições para um período de crescimento econômico.

Mas também trouxe uma questão:

até que ponto um país pode depender da demanda internacional por produtos primários?

Quando os preços internacionais estão elevados, as receitas aumentam.

Quando caem, o cenário muda.

Por isso, a diversificação produtiva continua sendo uma questão estratégica.

A expansão do consumo

Durante os anos 2000, milhões de brasileiros passaram a ter maior acesso ao consumo.

O aumento da renda, a expansão do crédito, a formalização do emprego e políticas de transferência de renda contribuíram para ampliar o mercado interno.

Mais famílias passaram a comprar:

eletrodomésticos + automóveis + computadores + celulares + móveis + serviços.

Esse processo teve um efeito importante.

O trabalhador não era apenas força de trabalho.

Também era consumidor.

E o consumidor movimentava a indústria, o comércio e os serviços.

Assim, o mercado interno ganhou ainda mais importância.

Transferência de renda

Programas sociais também passaram a ocupar posição relevante na política econômica e social.

O Bolsa Família, criado em 2003 a partir da unificação de programas anteriores, tornou-se um dos principais instrumentos de transferência de renda do país.

Seu objetivo central era reduzir a pobreza e ampliar o acesso das famílias a serviços básicos, especialmente educação e saúde.

A transferência de renda não substitui emprego, educação ou patrimônio.

Mas pode funcionar como proteção contra a pobreza extrema e como instrumento de inclusão.

Aqui surge novamente uma diferença fundamental:

renda não é patrimônio.

Receber uma renda maior pode melhorar imediatamente a vida de uma família.

Construir patrimônio pode modificar sua segurança econômica por gerações.

A questão do patrimônio

Uma família que consegue comprar uma casa passa a possuir um ativo.

Uma família que consegue abrir uma pequena empresa passa a possuir uma estrutura produtiva.

Uma família que consegue poupar pode formar uma reserva.

Uma pessoa que recebe educação de qualidade acumula capital humano.

Por isso, o desenvolvimento de longo prazo depende da capacidade de transformar renda em:

educação + poupança + patrimônio + qualificação + capacidade produtiva.

Essa é uma das grandes diferenças entre simplesmente aumentar o consumo e construir mobilidade social sustentável.

O crédito se expande

Outro elemento importante foi a expansão do crédito.

Durante muito tempo, o acesso ao crédito no Brasil esteve fortemente concentrado.

Com a expansão do sistema financeiro e das políticas de inclusão bancária, mais pessoas passaram a ter acesso a empréstimos, financiamento e outros instrumentos financeiros.

O crédito pode ser poderoso instrumento de desenvolvimento.

Permite comprar uma casa.

Abrir um negócio.

Comprar máquinas.

Investir em produção.

Financiar estudos.

Mas também exige responsabilidade.

Crédito sem capacidade de pagamento pode transformar oportunidade em endividamento.

Portanto:

crédito é instrumento de desenvolvimento quando está associado à capacidade produtiva e ao planejamento.

O Brasil e o pré-sal

Outra transformação importante ocorreu no setor energético.

A descoberta de grandes reservas de petróleo na camada do pré-sal abriu novas perspectivas para o país.

A exploração dessas reservas exigia tecnologia sofisticada.

Era necessário operar em grandes profundidades, enfrentar condições geológicas complexas e desenvolver equipamentos específicos.

Mais uma vez, o petróleo demonstrava algo que já havia aparecido em outros momentos da história:

recurso natural só se transforma em riqueza quando existe capacidade técnica, capital, conhecimento e infraestrutura para explorá-lo.

Petróleo e conhecimento

A exploração do pré-sal mostrou a importância da capacidade tecnológica brasileira.

Não bastava possuir petróleo.

Era necessário saber:

encontrar + perfurar + extrair + transportar + processar.

A riqueza natural precisava ser acompanhada de conhecimento.

Essa é uma mudança fundamental na nossa narrativa.

No Brasil colonial, a terra era o grande ativo.

No Brasil industrial, máquinas e energia ganharam importância.

No século XXI, tecnologia e conhecimento passaram a determinar cada vez mais o valor econômico dos recursos naturais.

O Programa de Aceleração do Crescimento

Em 2007, foi lançado o Programa de Aceleração do Crescimento - PAC.

A proposta era ampliar investimentos em infraestrutura.

Energia.

Transportes.

Habitação.

Saneamento.

Logística.

Infraestrutura urbana.

O princípio continuava semelhante ao que havia orientado Juscelino e, posteriormente, os grandes projetos do regime militar:

sem infraestrutura, o crescimento encontra limites.

Infraestrutura e produtividade

Uma estrada ruim aumenta o custo do transporte.

Um porto congestionado encarece a exportação.

Uma rede elétrica insuficiente limita a indústria.

Uma conexão de internet precária reduz oportunidades econômicas.

Um sistema de saneamento deficiente afeta a saúde e a produtividade.

Portanto, infraestrutura não é apenas obra pública.

É parte da capacidade produtiva de uma sociedade.

A crise financeira de 2008

Em 2008, uma grande crise financeira internacional atingiu a economia mundial.

O sistema financeiro dos Estados Unidos entrou em grave crise, provocando efeitos em diversos países.

O Brasil também foi afetado.

Mas possuía algumas condições que ajudaram a enfrentar o choque.

Reservas internacionais mais elevadas.

Sistema financeiro relativamente regulado.

Mercado interno em expansão.

E uma economia que vinha se beneficiando do ciclo das commodities.

O governo adotou medidas para estimular o crédito, o consumo e o investimento.

O país conseguiu evitar uma recessão prolongada naquele primeiro momento.

A importância do mercado interno

A crise internacional mostrou uma vantagem importante.

Um país com grande mercado consumidor possui alguma capacidade de compensar, em parte, uma queda das exportações.

O Brasil possuía centenas de milhões de consumidores.

Isso dava ao mercado interno enorme importância.

Mas também revelava um problema:

mercado consumidor não é a mesma coisa que capacidade produtiva.

Para sustentar o consumo no longo prazo, é necessário produzir.

É preciso investir.

Aumentar produtividade.

Gerar empregos.

Criar empresas competitivas.

Desenvolver tecnologia.

Dilma Rousseff e a continuidade do projeto desenvolvimentista

Em 2011, Dilma Rousseff assumiu a Presidência da República.

Seu governo manteve forte presença do Estado na economia e ampliou políticas de investimento em infraestrutura e energia.

O país continuava apostando no desenvolvimento por meio de grandes projetos, crédito e participação estatal.

Mas o cenário internacional começava a mudar.

O ciclo de alta das commodities perderia força.

E alguns problemas internos começaram a se tornar mais evidentes.

Quando o crescimento desacelera

Uma economia pode crescer durante determinado período apoiada por:

commodities + consumo + crédito + investimento público + expansão do emprego.

Mas, quando esses motores perdem força, a produtividade torna-se ainda mais importante.

Se a produtividade não cresce suficientemente, torna-se difícil sustentar salários, lucros e investimentos ao mesmo tempo.

A economia começa a enfrentar limitações.

A produtividade como grande desafio

Essa questão nos leva novamente ao centro da nossa tese.

Não existe desenvolvimento sustentável apenas com distribuição.

Também não existe desenvolvimento sustentável apenas com crescimento.

É necessário produzir mais e melhor.

Isso exige:

educação + tecnologia + infraestrutura + segurança jurídica + investimento + inovação + gestão.

A produtividade permite que uma economia aumente sua produção sem depender exclusivamente do aumento da quantidade de trabalhadores ou do consumo de recursos.

A crise política e econômica

A partir de 2014, o Brasil entrou em uma grave crise econômica.

A desaceleração econômica se aprofundou.

O desemprego aumentou.

As contas públicas ficaram pressionadas.

A crise política também se intensificou.

O país passou a discutir novamente questões que pareciam antigas:

qual deve ser o tamanho do Estado?

qual deve ser o papel das empresas estatais?

como equilibrar responsabilidade fiscal e políticas sociais?

como estimular investimentos?

como recuperar a produtividade?

A Operação Lava Jato e a crise institucional

A Operação Lava Jato, iniciada em 2014, revelou um grande esquema de corrupção envolvendo contratos, empresas e agentes políticos.

As investigações tiveram enorme impacto político e institucional.

A Petrobras esteve no centro de parte importante do caso.

O episódio também afetou empresas de construção pesada e diversos setores da economia.

Independentemente das disputas políticas posteriores, o período demonstrou uma questão fundamental:

instituições, governança e transparência também fazem parte do desenvolvimento econômico.

Corrupção e má governança podem aumentar custos, reduzir investimentos e comprometer a confiança.

O impeachment de 2016

Em 2016, Dilma Rousseff sofreu processo de impeachment e deixou a Presidência.

Michel Temer assumiu o governo.

O país entrou em uma nova fase de reformas e tentativas de reorganização fiscal.

A discussão econômica passou a enfatizar mais fortemente:

controle dos gastos públicos + reformas estruturais + investimento privado + produtividade.

A reforma trabalhista

Em 2017, foi aprovada uma reforma da legislação trabalhista.

Seus defensores argumentavam que ela poderia modernizar relações de trabalho, reduzir insegurança jurídica e estimular contratações.

Seus críticos apontavam riscos de precarização e redução de direitos.

O debate revelou novamente uma questão presente desde a industrialização:

como equilibrar proteção do trabalhador e capacidade das empresas de contratar, investir e competir?

Essa não é uma questão exclusivamente brasileira.

É um dos grandes dilemas das economias modernas.

A reforma da Previdência

Em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro, foi aprovada uma ampla reforma da Previdência.

O debate estava relacionado ao envelhecimento da população e à sustentabilidade das contas previdenciárias.

Mais uma vez, a questão econômica estava ligada a uma transformação demográfica.

Uma sociedade que envelhece precisa repensar:

trabalho + aposentadoria + produtividade + poupança + saúde + previdência.

A pandemia

Em 2020, a pandemia de Covid-19 provocou uma ruptura mundial.

A economia foi profundamente afetada.

Empresas fecharam temporariamente.

Trabalhadores perderam renda.

Cadeias produtivas foram interrompidas.

Hospitais ficaram sob forte pressão.

Governos de todo o mundo adotaram medidas extraordinárias.

No Brasil, programas emergenciais ajudaram a preservar renda de milhões de pessoas durante o período mais crítico.

A pandemia mostrou novamente a importância do Estado como instrumento de proteção em momentos de crise.

Mas também revelou a importância de empresas, trabalhadores, ciência, tecnologia e capacidade logística.

Nenhum desses elementos funcionou isoladamente.

A ciência como infraestrutura

Durante a pandemia, uma realidade tornou-se evidente:

ciência também é infraestrutura nacional.

Vacinas exigem pesquisa.

Medicamentos exigem conhecimento.

Sistemas de informação exigem tecnologia.

Hospitais exigem profissionais especializados.

Produção de equipamentos exige indústria.

Distribuição exige logística.

A crise demonstrou que soberania não depende apenas de possuir território ou recursos naturais.

Depende também da capacidade de produzir conhecimento e responder a situações inesperadas.

A transformação digital

Enquanto a pandemia restringia a circulação física, acelerava-se outra transformação:

a digitalização da economia.

Trabalho remoto.

Comércio eletrônico.

Serviços digitais.

Bancos digitais.

Educação a distância.

Plataformas de comunicação.

Automação.

Inteligência artificial.

A economia entrou em uma nova etapa.

O espaço físico continuava importante.

Mas a informação passou a circular em velocidade inédita.

Uma nova forma de capital

No início desta série, falávamos principalmente de:

terra + capital + meios de produção.

Agora precisamos acrescentar:

dados + tecnologia + conhecimento + propriedade intelectual.

Uma empresa pode possuir poucos terrenos e poucas máquinas, mas controlar uma tecnologia extremamente valiosa.

Uma plataforma digital pode conectar milhões de consumidores.

Uma empresa de biotecnologia pode possuir conhecimento que vale bilhões.

Uma pequena empresa pode competir internacionalmente graças à internet.

O conceito de capital tornou-se muito mais amplo.

Mas a desigualdade também mudou

A tecnologia cria oportunidades.

Mas também pode criar novas desigualdades.

Quem possui acesso à internet de qualidade possui vantagem.

Quem possui boa formação possui vantagem.

Quem sabe utilizar ferramentas digitais possui vantagem.

Quem possui capital para investir em tecnologia possui vantagem.

A desigualdade do século XXI não é apenas:

quem possui terra?

Também é:

quem possui conhecimento e capacidade tecnológica?

A grande transformação

Chegamos, então, a uma conclusão importante.

A história brasileira não é uma sucessão de sistemas completamente separados.

É uma sucessão de transformações.

A terra permaneceu importante.

O capital mudou de forma.

O trabalho mudou.

A indústria surgiu.

A agricultura se modernizou.

O Estado mudou de função.

A tecnologia ganhou importância.

O conhecimento tornou-se estratégico.

E a democracia passou a organizar institucionalmente os conflitos entre diferentes projetos de sociedade.

A pergunta permanece

No início desta série, perguntamos:

quem controla a terra, o capital e os meios de produção?

Agora podemos formular uma pergunta ainda mais ampla:

quem controla os instrumentos capazes de gerar riqueza no século XXI?

Terra.

Capital.

Energia.

Infraestrutura.

Tecnologia.

Dados.

Conhecimento.

Propriedade intelectual.

A resposta a essa pergunta ajudará a compreender os próximos capítulos da história brasileira.

Porque o Brasil chegou ao presente com enormes vantagens:

território + recursos naturais + agricultura + energia + população + mercado interno + ciência + indústria.

Mas também carrega desafios:

desigualdade + baixa produtividade em vários setores + infraestrutura insuficiente + diferenças educacionais + concentração patrimonial + dependência tecnológica em áreas estratégicas.

O futuro brasileiro dependerá da maneira como essas forças serão combinadas.

Do passado ao futuro

A longa trajetória que começou com a propriedade da terra chegou agora à economia do conhecimento.

A questão deixou de ser apenas quem possui a terra.

Passou a ser também:

quem consegue transformar conhecimento em produção?

Quem consegue transformar tecnologia em empresa?

Quem consegue transformar educação em renda?

Quem consegue transformar renda em patrimônio?

Quem consegue transformar patrimônio em novas oportunidades para a geração seguinte?

Essas perguntas nos levam ao último grande movimento da nossa análise:

o Brasil contemporâneo diante da economia global, da revolução tecnológica, das novas formas de trabalho e da disputa pelo controle do conhecimento.

Porque talvez a próxima grande fronteira econômica brasileira não esteja apenas em suas terras, seus rios, suas reservas minerais ou seu petróleo.

Ela poderá estar na capacidade de transformar conhecimento em valor, inovação em produtividade e oportunidade em patrimônio.

Continua.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Jogo da memória tátil (adaptado para deficientes visuais)

O impacto do surto de esclerose múltipla e o fortalecimento de habilidades preexistentes

Introdução Desde muito cedo, percebi que minha forma de experimentar o mundo era diferente da maioria das pessoas. Durante anos, acreditei q...