A história econômica brasileira chegou a um ponto em que uma questão se tornou inevitável:
como preparar uma sociedade para uma economia baseada cada vez mais em conhecimento, tecnologia e inovação?
A resposta começa antes do emprego.
Começa na infância.
A infância como ponto de partida
Toda sociedade possui diferentes pontos de partida.
Algumas crianças nascem em famílias com patrimônio, livros, acesso à tecnologia, boa alimentação, espaços culturais e tempo disponível para acompanhar seus estudos.
Outras começam a vida enfrentando limitações econômicas, territoriais e sociais.
A diferença de oportunidades pode surgir muito antes da entrada no mercado de trabalho.
Por isso, discutir desenvolvimento também significa discutir infância.
O capital humano
A economia moderna passou a utilizar uma expressão importante:
capital humano.
Ela representa conhecimentos, habilidades e capacidades que aumentam a produtividade de uma pessoa.
Mas uma criança não deve ser vista apenas como futura força de trabalho.
A infância possui dignidade e valor próprios.
A questão econômica aparece como consequência:
uma sociedade que cuida melhor de suas crianças também aumenta suas possibilidades futuras de desenvolvimento.
A primeira escola
Antes da escola formal existe outro espaço de aprendizagem:
a família e a comunidade.
É ali que a criança começa a desenvolver linguagem, confiança, curiosidade, autonomia e capacidade de convivência.
O ambiente em que cresce pode ampliar ou limitar suas possibilidades.
Por isso, políticas públicas de infância possuem também uma dimensão econômica de longo prazo.
O brincar
Brincar é uma das primeiras formas de experimentar o mundo.
Quando uma criança constrói uma casa com caixas, cria uma regra para uma brincadeira, inventa uma história ou transforma objetos em brinquedos, está exercitando:
imaginação + planejamento + linguagem + coordenação + negociação + resolução de problemas.
Essas capacidades serão úteis durante toda a vida.
Brincar não é o oposto de aprender
Durante muito tempo, algumas concepções educacionais separaram brincadeira e aprendizagem.
Mas a experiência infantil demonstra o contrário.
A criança aprende enquanto experimenta.
Aprende quando erra.
Aprende quando cria.
Aprende quando observa.
Aprende quando pergunta.
Aprende quando tenta novamente.
O brincar pode ser uma poderosa forma de aprendizagem.
A criatividade
A economia contemporânea valoriza cada vez mais a capacidade de criar.
Máquinas podem repetir tarefas.
Sistemas podem processar grandes volumes de dados.
Algoritmos podem identificar padrões.
Mas a criatividade humana continua sendo fundamental para imaginar novas possibilidades.
Por isso, uma educação que elimina a curiosidade pode limitar justamente uma das capacidades mais importantes da economia do futuro.
A cultura como formação
A criança também aprende por meio da cultura.
Música.
Literatura.
Artes visuais.
Teatro.
Dança.
Brincadeiras tradicionais.
Artesanato.
Histórias familiares.
Conhecimentos da comunidade.
Tudo isso amplia repertório.
O patrimônio imaterial
Muitas dessas experiências não existem apenas em objetos físicos.
Uma cantiga.
Uma brincadeira.
Uma receita.
Uma história.
Uma técnica artesanal.
Um modo de construir um brinquedo.
Tudo isso pode ser transmitido entre gerações.
O patrimônio cultural também é uma forma de conhecimento.
Natureza como espaço de aprendizagem
A relação com a natureza possui outra dimensão.
Uma criança que observa uma árvore aprende sobre ciclos.
Que planta uma semente aprende sobre tempo.
Que cuida de uma horta aprende sobre responsabilidade.
Que acompanha uma mudança climática percebe relações entre ambiente e produção.
A natureza pode funcionar como uma grande sala de aula.
Educação e sustentabilidade
Essa experiência também prepara para um dos maiores desafios econômicos do século XXI:
produzir sem destruir os recursos necessários à produção futura.
Água.
Solo.
Florestas.
Biodiversidade.
Energia.
Tudo isso possui valor econômico e ambiental.
A economia circular
Outra transformação importante é a busca por reduzir desperdícios.
Materiais podem ser reutilizados.
Produtos podem ser reparados.
Resíduos podem voltar à cadeia produtiva.
Objetos podem ganhar novas funções.
Essa lógica aproxima sustentabilidade de inovação.
A criança como criadora
Quando uma criança transforma uma embalagem em brinquedo, por exemplo, não está apenas reutilizando material.
Está exercitando uma ideia fundamental da economia:
um recurso pode possuir mais de uma função.
Ela observa.
Imagina.
Transforma.
Cria.
Esse processo é uma pequena experiência de inovação.
Educação financeira
Outro conhecimento importante é compreender o dinheiro.
Uma criança pode aprender, de maneira adequada à sua idade:
guardar + escolher + planejar + comparar + esperar.
Educação financeira não precisa ensinar apenas a ganhar dinheiro.
Precisa ensinar a tomar decisões.
Patrimônio começa com escolhas
A construção de patrimônio também envolve hábitos.
Poupar.
Planejar.
Evitar desperdícios.
Investir em educação.
Conhecer riscos.
Compreender crédito.
Essas capacidades podem ser desenvolvidas gradualmente.
A escola e a desigualdade
A escola pública possui uma função ainda maior em sociedades desiguais.
Ela pode oferecer a uma criança oportunidades que talvez não estejam disponíveis em sua família.
Biblioteca.
Laboratório.
Internet.
Arte.
Esporte.
Ciência.
Contato com diferentes conhecimentos.
Mas a escola sozinha não resolve tudo
É importante não atribuir à escola responsabilidades que pertencem à sociedade inteira.
Uma educação de qualidade depende também de:
família + comunidade + políticas públicas + cultura + saúde + alimentação + segurança + infraestrutura.
A criança aprende em uma rede de relações.
Inclusão
A igualdade de oportunidades também exige reconhecer que as crianças são diferentes.
Algumas aprendem melhor por meio de imagens.
Outras por meio de movimento.
Algumas precisam de mais tempo.
Outras necessitam de ambientes com menos estímulos.
A educação precisa ser capaz de acolher diferentes formas de aprender.
A diversidade como potencial
Diferenças não significam necessariamente deficiência.
Uma sociedade pode se beneficiar de diferentes formas de percepção, criatividade e resolução de problemas.
A inclusão amplia a participação.
E ampliar a participação significa também ampliar o potencial produtivo e cultural da sociedade.
A tecnologia na infância
A tecnologia pode ser instrumento de aprendizagem.
Mas não deve substituir experiências fundamentais da infância.
Uma criança precisa também:
correr + tocar + construir + conversar + imaginar + observar + brincar.
O desafio não é escolher entre tecnologia e brincadeira.
É encontrar equilíbrio.
O excesso de telas
A tecnologia oferece possibilidades, mas o uso excessivo e sem mediação pode reduzir experiências importantes.
A questão não é demonizar a tecnologia.
É ensinar a utilizá-la com propósito.
A escola do futuro
A escola do futuro provavelmente não será apenas um lugar de transmissão de informações.
Informações já estão disponíveis em enormes quantidades.
A escola precisará ensinar:
como pesquisar + como verificar + como pensar + como criar + como colaborar + como resolver problemas.
O professor
Nesse cenário, o professor não perde importância.
Ao contrário.
Sua função torna-se ainda mais complexa.
Ele ajuda a criança a interpretar informações, desenvolver pensamento crítico, construir conhecimento e relacionar diferentes áreas.
Educação e desenvolvimento regional
Uma boa escola também pode transformar comunidades.
Pode formar profissionais.
Criar oportunidades.
Atrair empresas.
Estimular empreendedorismo.
Reduzir migração forçada.
Fortalecer a economia local.
Educação possui efeitos que ultrapassam os muros da escola.
O interior do Brasil
Essa questão é especialmente importante para municípios pequenos.
Quando um jovem precisa deixar sua cidade para encontrar oportunidades de estudo ou trabalho, o município pode perder parte de sua população mais jovem e qualificada.
Criar oportunidades locais pode fortalecer o desenvolvimento regional.
Tecnologia contra a distância
A internet pode ajudar.
Cursos remotos.
Telemedicina.
Comércio eletrônico.
Trabalho a distância.
Serviços digitais.
Mas novamente aparece a condição básica:
conectividade de qualidade.
Sem infraestrutura digital, a tecnologia não democratiza oportunidades.
O conhecimento como novo meio de produção
Voltamos, então, ao ponto central.
No passado:
terra.
Depois:
capital e máquinas.
Agora:
conhecimento e tecnologia.
Mas existe uma diferença.
Uma máquina pode pertencer a uma empresa.
Uma propriedade pode pertencer a uma família.
O conhecimento pode ser compartilhado.
Uma ideia pode gerar outras ideias.
Uma descoberta pode criar novas descobertas.
O conhecimento pode se multiplicar
Essa é uma característica extraordinária da economia do conhecimento.
Quando uma pessoa ensina outra, o conhecimento não desaparece.
Ele se multiplica.
Quando uma universidade publica uma pesquisa, outras pessoas podem desenvolver novas soluções.
Quando uma criança aprende a criar, pode ensinar outra.
O conhecimento possui uma capacidade de reprodução diferente dos recursos físicos.
Mas o acesso ainda pode ser desigual
Embora o conhecimento possa se multiplicar, o acesso às melhores tecnologias, instituições e oportunidades ainda pode ser concentrado.
Por isso, a democratização do conhecimento continua sendo uma questão econômica.
A grande mudança
A história brasileira começou discutindo a concentração da terra.
Depois passou a discutir a concentração industrial e financeira.
Hoje precisa discutir também a concentração tecnológica.
A questão permanece semelhante:
quem possui os instrumentos necessários para produzir riqueza?
Só que os instrumentos mudaram.
Da terra ao cérebro
Essa talvez seja uma das maiores transformações da história econômica.
A riqueza contemporânea pode depender menos da quantidade de território controlado e mais da capacidade de transformar informação em conhecimento e conhecimento em inovação.
Isso não significa que a terra deixou de ter importância.
Significa que a economia passou a depender de uma combinação muito mais sofisticada de recursos.
O futuro brasileiro
O Brasil possui uma oportunidade histórica.
Pode utilizar:
agricultura + indústria + energia + biodiversidade + ciência + tecnologia + educação
para construir uma economia mais sofisticada.
Mas isso exige pessoas preparadas.
E pessoas preparadas não surgem apenas no momento em que entram no mercado de trabalho.
São formadas ao longo da vida.
A pergunta que permanece
A história brasileira começou com uma questão:
quem controla a terra, o capital e os meios de produção?
Hoje acrescentamos:
quem controla o conhecimento e a tecnologia?
Mas talvez exista uma pergunta ainda mais profunda:
quem teve oportunidade de aprender?
Porque antes de controlar uma tecnologia, alguém precisou aprender a criá-la.
Antes de administrar uma empresa, alguém precisou aprender.
Antes de desenvolver uma pesquisa, alguém precisou ter acesso à educação.
Antes de transformar uma ideia em inovação, alguém precisou ter espaço para imaginar.
O verdadeiro começo
Por isso, talvez o desenvolvimento econômico comece muito antes da fábrica, da fazenda, do banco ou da empresa.
Comece na infância.
Na capacidade de brincar.
Na curiosidade.
Na educação.
Na cultura.
Na oportunidade de experimentar.
Na possibilidade de perguntar:
“E se fosse diferente?”
Essa pergunta simples está na origem de muitas inovações.
E pode estar também na origem de um novo projeto de desenvolvimento brasileiro.
Continua.
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