Depois de percorrermos algumas das principais questões econômicas e sociais do Brasil contemporâneo, é necessário voltar no tempo.
A história não se explica apenas pelo presente.
Para compreender a formação do capital, da propriedade, da indústria e do poder econômico brasileiro, precisamos retornar ao século XIX, quando o Brasil deixou de ser uma colônia portuguesa e começou a construir as instituições de um Estado independente.
A Independência não significou uma ruptura completa com tudo aquilo que existia anteriormente.
O novo país herdou território, estruturas administrativas, relações econômicas, concentração fundiária e uma sociedade profundamente marcada pela escravidão.
Ao mesmo tempo, abriu-se um novo capítulo.
O Brasil passou a ter que responder a uma questão fundamental:
como construir um Estado próprio e, ao mesmo tempo, organizar uma economia capaz de sustentar esse novo país?
A Independência política
Em 1822, o Brasil tornou-se independente de Portugal.
A separação política foi um acontecimento decisivo, mas a economia brasileira não começou do zero.
A produção agrícola continuava sendo fundamental.
O comércio exterior continuava tendo enorme importância.
A escravidão permanecia como base de grande parte da produção.
A concentração da propriedade da terra continuava existindo.
E a elite econômica que havia se formado durante o período colonial continuava exercendo influência.
O Brasil havia mudado de condição política, mas precisava construir uma nova estrutura institucional.
Um país independente precisa de um Estado
A formação de um Estado nacional envolve muito mais do que declarar independência.
É necessário organizar leis, administração, arrecadação, forças de segurança, relações comerciais, infraestrutura e instituições capazes de funcionar em um território de dimensões continentais.
O Brasil precisava transformar uma antiga estrutura colonial em uma organização nacional.
Essa tarefa não era simples.
O território era enorme.
As regiões possuíam características econômicas diferentes.
As comunicações eram precárias.
A economia dependia fortemente da agricultura e da exportação.
E grande parte da população permanecia excluída da participação política e econômica.
O Primeiro Reinado
D. Pedro I tornou-se o primeiro imperador do Brasil.
Seu governo esteve marcado pela necessidade de consolidar a independência e organizar politicamente o novo país.
Em 1824, foi outorgada a primeira Constituição brasileira.
A Constituição criou instituições para o funcionamento do Império e estabeleceu uma estrutura política centralizada.
Mas a construção do Estado brasileiro ocorreu em meio a conflitos.
Havia disputas entre grupos políticos.
Havia diferentes interesses regionais.
E havia uma questão permanente:
como manter a unidade de um território tão grande e economicamente diversificado?
A economia continuava voltada para a exportação
A Independência não alterou imediatamente a lógica econômica construída durante o período colonial.
O Brasil continuava dependendo de produtos agrícolas destinados ao mercado externo.
O açúcar permanecia importante.
O algodão possuía relevância em determinadas regiões.
E o café começava a ganhar espaço.
O comércio internacional continuava sendo fundamental para a geração de receitas e para a entrada de capitais.
Isso revela uma característica que atravessaria boa parte da história brasileira:
a economia nacional se desenvolveria simultaneamente voltada para dentro e para fora.
O mercado externo fornecia recursos.
O mercado interno começava lentamente a se ampliar.
O café começa a transformar o Brasil
Foi durante o século XIX que o café se tornou progressivamente um dos principais produtos da economia brasileira.
A produção começou a se expandir pelo Vale do Paraíba e posteriormente avançou para o oeste paulista.
O café criou riqueza.
Mas também fortaleceu a concentração fundiária e manteve durante décadas a utilização do trabalho escravizado.
A expansão da cafeicultura modificaria profundamente a economia brasileira.
Novas estradas seriam necessárias.
Depois, ferrovias.
Novos portos seriam ampliados.
Casas comerciais, bancos e serviços financeiros cresceriam.
Cidades se desenvolveriam.
Uma nova elite econômica surgiria com enorme capacidade de influência.
O café não era apenas uma lavoura
Essa é uma questão importante.
A produção de café criou uma cadeia econômica muito maior do que a plantação.
Era necessário transportar o produto.
Armazená-lo.
Financiá-lo.
Exportá-lo.
Construir infraestrutura.
Organizar mão de obra.
Estabelecer relações comerciais.
Assim, a riqueza gerada pelo café começou a estimular outros setores.
A agricultura exportadora passou a contribuir para a formação de uma economia mais complexa.
O capital começa a circular de outra maneira
À medida que a economia cafeeira crescia, aumentava também a necessidade de crédito e financiamento.
Produtores precisavam de recursos para plantar.
Comerciantes precisavam financiar operações.
Empresas de transporte precisavam investir.
Ferrovias exigiam grandes volumes de capital.
O desenvolvimento econômico começava a criar uma necessidade que se tornaria cada vez mais importante:
transformar riqueza acumulada em investimento produtivo.
Essa relação entre patrimônio, crédito e investimento seria fundamental para o nascimento de uma economia moderna.
A infraestrutura se torna estratégica
Uma grande produção agrícola não consegue alcançar mercados distantes sem infraestrutura.
No Brasil do século XIX, isso era um problema enorme.
As distâncias eram gigantescas.
As estradas eram precárias.
O transporte terrestre era lento e caro.
Os rios tinham importância, mas não resolviam todas as necessidades.
A expansão ferroviária começou a modificar essa realidade.
As ferrovias aproximaram áreas produtoras dos portos.
Reduziram custos de transporte.
Aceleraram o escoamento das mercadorias.
E contribuíram para integrar economicamente diferentes regiões.
O nascimento de uma economia nacional
Esse processo não aconteceu de uma só vez.
O Brasil continuava profundamente rural e dependente das exportações.
Mas começavam a surgir elementos de uma economia nacional mais diversificada.
Comércio.
Bancos.
Ferrovias.
Empresas.
Serviços.
Oficinas.
Manufaturas.
Navegação.
Infraestrutura urbana.
O país começava lentamente a ultrapassar a estrutura econômica exclusivamente agrícola.
Mas havia uma contradição fundamental
Enquanto a economia se modernizava, a escravidão permanecia.
O Brasil construía ferrovias, ampliava o comércio, desenvolvia cidades e acumulava capital enquanto milhões de pessoas continuavam submetidas ao trabalho escravizado.
Essa contradição marcaria profundamente o século XIX.
A modernização econômica não significava automaticamente modernização social.
O país podia incorporar novas tecnologias sem eliminar antigas formas de desigualdade.
A propriedade continuava sendo central
A terra permanecia como um dos principais instrumentos de riqueza.
Grandes propriedades concentravam produção.
A riqueza agrícola produzia influência econômica.
E a influência econômica podia se transformar em influência política.
Mais uma vez aparece o eixo que acompanha esta série:
terra → produção → riqueza → poder.
Mas agora surge um novo elemento:
capital.
Terra e capital
A economia brasileira começava a passar por uma transformação.
A terra continuava fundamental.
Mas possuir terra já não era suficiente para explicar toda a dinâmica econômica.
Era necessário capital para financiar produção, transporte, comércio e infraestrutura.
O dinheiro começava a circular por novos canais.
Empresas começavam a surgir.
Bancos ganhavam importância.
Investimentos de maior escala tornavam-se possíveis.
A economia brasileira começava a entrar em uma nova etapa.
E quem poderia investir?
Essa pergunta é essencial.
O desenvolvimento econômico não depende apenas da existência de oportunidades.
Depende também da capacidade de aproveitá-las.
Quem possuía patrimônio tinha maior facilidade para obter crédito.
Quem possuía relações comerciais podia encontrar investidores.
Quem controlava grandes propriedades tinha maior capacidade de financiar novos empreendimentos.
Assim, a acumulação de riqueza podia produzir uma nova acumulação.
Patrimônio gera capacidade de investimento.
E investimento pode gerar novo patrimônio.
Essa dinâmica ajuda a explicar tanto o crescimento econômico quanto a persistência da concentração de riqueza.
O Brasil entre dois mundos
O século XIX brasileiro foi marcado por uma convivência de realidades diferentes.
De um lado:
escravidão, latifúndio, economia agrícola e poder das elites rurais.
De outro:
ferrovias, bancos, comércio internacional, empresas, urbanização e novas tecnologias.
O Brasil não escolheu simplesmente um caminho e abandonou o outro.
Os dois mundos coexistiram.
E essa coexistência produziu algumas das maiores contradições da história brasileira.
A modernização começa a criar novos atores
A transformação econômica também modificou a sociedade.
Comerciantes ganharam importância.
Empresários começaram a surgir.
Profissionais liberais se expandiram nas cidades.
Imigrantes passaram a participar cada vez mais da economia.
Trabalhadores livres começaram a ocupar novos espaços.
Uma classe média urbana começou lentamente a se formar.
O Brasil ainda era uma sociedade extremamente desigual, mas já não era exclusivamente aquela sociedade rural herdada da Colônia.
A questão da mão de obra
A expansão econômica colocava outra questão:
quem trabalharia no Brasil que estava se modernizando?
Enquanto a escravidão permanecia, grande parte da produção dependia do trabalho escravizado.
Mas as transformações econômicas começaram a tornar cada vez mais evidente a contradição entre uma economia que precisava se modernizar e um sistema de trabalho baseado na escravidão.
O debate sobre o futuro do trabalho ganharia força.
A pressão pelo fim do tráfico aumentaria.
A imigração começaria a crescer.
E a própria economia cafeeira passaria por transformações.
O século XIX prepara o Brasil do século XX
É nesse momento que várias características que marcariam o Brasil posterior começam a tomar forma.
A economia exportadora se fortalece.
O café cria grandes fortunas.
As ferrovias avançam.
O capital começa a financiar novos empreendimentos.
As cidades crescem.
A indústria começa a aparecer.
O trabalho livre ganha espaço.
A escravidão entra em crise.
E o Estado nacional se consolida.
O Brasil ainda não era uma economia industrial.
Mas já estava criando algumas das condições que permitiriam sua industrialização posterior.
Uma nova pergunta
Se a Colônia havia sido organizada em grande parte para produzir riquezas destinadas ao mercado externo, o Brasil independente precisava construir algo além disso.
Precisava criar uma economia capaz de:
produzir + transportar + financiar + comercializar + investir.
Essa transformação seria lenta.
E encontraria obstáculos.
Mas, no século XIX, o Brasil começou a construir as bases de uma economia mais complexa.
E então aparece um personagem decisivo
Entre os homens que compreenderam que o Brasil precisava ir além da economia essencialmente agrícola estava Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá.
Sua trajetória representa uma das experiências mais extraordinárias do século XIX brasileiro.
Mauá acreditava na força da iniciativa empresarial, do investimento, da infraestrutura e da industrialização.
Ferrovias.
Estaleiros.
Navegação.
Bancos.
Indústrias.
Ele enxergava possibilidades econômicas em um país que ainda estava começando a construir sua infraestrutura.
Sua história merece, portanto, uma publicação própria.
O século XIX não foi apenas o século do café
Foi também o século em que o Brasil começou a descobrir que riqueza não precisava estar somente na terra.
Poderia estar:
no comércio,
no capital,
nas ferrovias,
nas empresas,
na indústria,
na infraestrutura
e na capacidade de transformar recursos em produção.
Essa transformação não eliminou a antiga estrutura.
Ela acrescentou novas formas de riqueza.
E, justamente por isso, criou uma nova disputa:
quem teria acesso ao capital necessário para participar da modernização do país?
Essa pergunta nos leva diretamente ao próximo capítulo.
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